segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Chifrada


Dona Luzia, isso mesmo, dona – era como a tratávamos – foi empregada da minha família por um bom tempo, por cinco anos talvez. Era alcoólatra, fumante inveterada, negra, de tez bem escura, cerca de 1,80 de altura, muito magra, sem nenhum atributo de beleza, digamos que era feia, bem feia. Mesmo assim, não lhe faltavam homens. Tinha borogodó. Com cerca de 40 anos, aparentava 60.
Na minha casa ninguém bebia. Meu pai tinha uma ou outra garrafa de whisky para os amigos, devidamente escondidos, porque dona Luzia era daquelas que bebia até perfume e loção de pós-barba. Meu pai a aturava, quase não a via. Minha mãe sempre foi compreensiva e bondosa. Inclusive, exigia que tratássemos qualquer um de nossos semelhantes com respeito, pobres ou ricos. Acho que, por isso, o ‘dona’
Luzia”.
Sendo alcoólatra, de vez em quando, nem conseguia levantar e dar conta das tarefas domésticas. Minha mãe nasceu pobre e nunca foi de fugir do batente. Cozinhava e até auxiliava dona Luzia, quando ela não se encontrava em suas melhores condições de trabalho.
Anualmente, dona Luzia viajava para a Bahia no período de suas férias. Em uma delas, passado um mês, não voltou. Desapareceu. Não tivemos mais notícia. Cerca de cinco meses depois, ressurgiu do nada. Minha mãe nunca deixaria alguém desamparado. Dona Luzia voltou a trabalhar conosco, sem que a outra fosse despedida.
Contou-nos que ficara hospitalizada. Tinha uma cicatriz bem visível na testa. Disse que estava em um descampado e nisso, perseguida por um touro, bateu de cara em uma cerca de arame farpado.
A única parente que dona Luzia tinha em São Paulo era uma sobrinha, que, de vez em quando, aparecia e a levava para passear em fins de semana. Enquanto se arrumava para sair, a sobrinha acabou contando o que realmente acontecera. Estava em um bar, bebendo, é claro, e engraçou-se com um rapaz. Só não contava que a sua mulher estava junto. As duas brigaram e dona Luzia acabou levando uma facada na testa. Aquela marca não foi em decorrência de ter tentado se livrar de uma chifrada.
 
(publicada em 3 de maio de 2020 no Facebook)

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