Não é todo dia que surge um grande instrumentista que seja grande compositor também, ainda mais que tão bem consegue incorporar valores da música oriental à ocidental, mais especificamente no jazz. Por isso e por outras razões, qualquer novo disco de Rudresh Mahanthappa deve ser celebrado. Já está disponível para venda no site da ACT Music (www.actmusic.com) Bird Calls.
Com “Bird” no título e sendo de um saxofonista alto, a associação automática seria com o maior nome desse instrumento de todos os tempos: Charlie Parker, também conhecido como “Bird”, que já é uma derivação sintetizada do primeiro apelido “Yardbird”.
Rudresh fala sobre Bird Calls.
As “bird calls” são quatro. A primeira, com ares imponentes, abre com um arco de contrabaixo, o piano, e depois o sax alto de Mahanthappa. Há um eco coltraneano de Meditations. Bird Calls II é “cantada” por um solo do sax conversando com o trompete para a posterior entrada dos outros instrumentos. Bird Calls III é uma continuação da anterior, desta vez, com um solo do alto. E a quarta começa com um belíssimo solo de contrabaixo, até a entrada do resto da banda.
Sem alguma composição de Charlie Parker, o álbum foi concebido tendo-o como motivo: “Cada composição é baseada em um solo ou canção de Charlie Parker, em particular. Na verdade, a melhor forma de pagar-lhe um tributo é mostrando como aprendemos com ele – não apenas tocando sua música.”
Mahanthappa é o melhor saxofonista alto do momento. Pau a pau estão Miguel Zenón, que vem efetuando um belo trabalho pesquisando a música de Porto Rico; talvez Tim Berne e Kenny Garrett e menos, Ornette Coleman e Phil Woods, dois veteranos que, naturalmente, já foram melhores. Como em Zenón, a música de Rudresh é fortemente influenciada em suas origens. Nascido em Trieste, mas vivendo nos EUA desde criança, suas composições são baseadas na linguagem do jazz e na forma microtonal da música indiana. Tanto ele como Zenón receberam bolsas para pesquisarem a música de seus pais. Pelo Guggenheim Fellowship, Rudresh viajou para a Índia para estudar a música carnática.
Em pouco mais de dez anos, Mahantappa tem mais de uma dezena de álbuns como líder. Foi considerado por três anos como o melhor saxofonista alto pela crítica na revista Downbeat. Tem muito a contribuir para a música instrumental, principalmente, pelos projetos em que está envolvido.
Veja Mahanthappa em Bird Calls.
Nota: tinha disponibilizado alguns áudios, mas foram removidos.
Discografia selecionada
Raw Materials, com Vijay Iyer (Savoy Jazz 2006) | sobre Vijay Iyer, leia em http://bit.ly/1Bw5PcY
Samdhi (ACT Music 2012)
Gamak (ACT Music 2013)
Bird Calls (ACT Music 2015) – o álbum está com lançamento marcado para o dia 27 de fevereiro.
Para se ter uma ideia do quanto 1959 foi bom, listo algumas músicas compostas neste ano: Chiclete com Banana (Gordurinha, Almira Castilho), Desafinado (A.C. Jobim, Newton Mendonça), Dindi (A.C. Jobim, Aloísio de Oliveira), Eu Sei Que Vou Te Amar (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), A Felicidade (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Brigas Nunca Mais (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Este Seu Olhar (A.C. Jobim), Ho-Ba-La-Lá (João Gilberto), Minha Saudade (João Donato, João Gilberto), Ela Disse-Me Assim (Lupicínio Rodrigues), Maria Ninguém (Carlos Lyra), Lobo Bobo (Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli), A Noite do Meu Bem (Dolores Duran), Recado (Luis Antônio, Djalma Ferreira), O Samba é Bom Assim (Norival Reis, Hélio Nascimento), Baiano Burro Nasce Morto (Gordurinha), Samba de Orfeu (Luiz Bonfá, Antônio Maria), e Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá, Antônio Maria). Para quem tem a memória lesada a ponto de mal conseguir guardar o próprio número do telefone, seria impossível ter uma lista dessas. Recorro ao mestre Jairo Severiano, autor, com Zuza Homem de Melo do livro A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras (Editora 34).
Pelo que se percebe, o “campeão” do ano foi Tom Jobim. Antes, já havia composto Teresa da Praia, em 1954, com Billy Blanco, famosa nas vozes de Lúcio Alves e Dick Farney, Foi a Noite, com Newton Mendonça, lançada por Sílvia Telles, Se Todos Fossem Iguais a Você, primeira parceria com Vinícius, para a peça Orfeu da Conceição, em 1957, e Chega de Saudade (1958), de novo com o poetinha. Entre uma músiquinha e outra , como diria o poeta embaixador, em 1959, Jobim era autor de seis temas que tornaram-se clássicos.
Jobim compõe e arranja, Bonfá toca
A peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius, foi musicada pelo então novato Jobim, estreou em 1956, e gerou um disco de 10 polegadas lançado pela Odeon. O francês Marcel Camus, em 1959, resolveu adaptá-la para o cinema. Fez tremendo sucesso, com o título modificado para Orfeu Negro, de maior apelo internacional. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e foi premiado com a Palma de Ouro, em Cannes. O produtor Sacha Gordine, querendo ganhar alguns trocados a mais, resolveu fazer uma nova trilha sonora. Fazem parte dela A Felicidade, Samba de Orfeu e Manhã de Carnaval. Luiz Bonfá, autor dos dois últimos temas, com letras de Antônio Maria, tinha participado do disco da peça como violonista. Manhã de Carnaval abriu as portas internacionais para ele.
Ao contrário do que alguns imaginam, Bonfá foi para os EUA antes de Jobim. Viajou para Nova York como acompanhante da cantora Mary Martin, em 1957. Esse movimento se inicia com Carmen Miranda e o Bando da Lua e teve continuidade com a ida de Laurindo de Almeida, que se fixou em Los Angeles no início da década de 1950 e também dos menos conhecidos Los Índios Tabajaras, que conseguiram sucesso relativo na América do Norte. Eram dois exímios violonistas que construíram uma carreira internacional, mas não se vinculam à onda da bossa nova. (sobre eles, leia http://bit.ly/1Fj1iwl)
O sucesso de Manhã de Carnaval levou Bonfá a resolver tentar a sorte nos EUA. Grande violonista e compositor, gravou álbuns pelo selo Verve, um dos principais do jazz, Capitol, Atlantic e Epic. Um dado interessante é de que teve uma de suas composições – Almost in Love – gravada por Elvis Presley. A outra curiosidade é a de que Manhã de Carnaval foi “traduzida” para o inglês com o ridículo título de A Day in the Life of a Fool. Ainda bem que o título original foi preservado posteriormente. A única excentricidade, mas aí devemos responsabilizar as características da língua inglesa, é a de que normalmente “manhã” é grafada como “manha”, o que em português significa outra coisa. Outra aberração nesses casos de equívocos de grafia é Você Abusou, escrita “Voceabuso” e, em vez de ter sido creditada a Antonio Carlos e Jocafi, ter ficado como uma composição de Tom Jobim, em um disco do pianista Tommy Flanagan. É uma coisa que nem a dupla deve ter tomado conhecimento.
Algumas Manhãs de Carnaval
Sem dúvida, a mais bela interpretação desta canção é a de Agostinho dos Santos. Ouça.
Uma curiosidade: Agostinho canta com Johnny Mathis, em programa da antiga TV Excelsior (1964).
Bela é também na voz de João Gilberto.
Ouça com Nara Leão.
Ouça a curiosa versão do grupo cubano Los Zafiros. Essa banda é muito interessante. Segue a onda dos conjuntos vocais que, aqui no Brasil teve como um dos principais o Golden Boys. Leia mais sobre eles em http://bit.ly/1DgSHcH)
O depoimento de Luiz Bonfá contando de como nasceu Manhã de Carnaval (está cortado, mas vale como documento). De quebra, Elizete Cardoso canta a música com acompanhamento de Bonfá.
Até Frank Sinatra cantou Manhã de Carnaval, aliás, com aquele título imbecil: A Day in the Life of a Fool.
Ouça Mañana de … em espanhol, com Natalie Cole.
Susannah McCorkle canta em português.
Manhãs instrumentais
Bela interpretação do brasileiro Antonio Carlos Barbosa Lima, um de nossos maiores violonistas, que há muito mora fora. Sobre ele, leia http://bit.ly/1EENs3q
Veja Baden Powell interpretando Manhã de Carnaval.
Composta por um violonista, Manhã de Carnaval é perfeita na guitarra. Uma boa interpretação é a de John McLaughlin, com Al DiMeola. Ele começa com um trecho de Insensatez antes de entrar no tema.
Outra muito boa é a do guitarrista Jack Wilkins. É uma das minhas preferidas.
Ouça ao saxofone tenor, com Jim Tomlinson, marido de Stacey Kent.