quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A Billie Holiday que eu tinha esquecido

Billie Holiday: para muitos, a melhor


Devido a uma falha técnica cerebral, ouvi muito pouco os registros de Billie Holiday na Decca Records. Minha preferência, quando quero ouví-la, é recorrer ao “complete” da CBS, que abarca o período de 1933 até 1942. Com um lineup no qual se incluem o pianista Teddy Wilson, Ben Webster, Buck Clayton, Benny Goodman, Lester Young, Johnny Hodges, Freddie Green, e Billie com a voz cristalina, são registros impecáveis. Quando passou a gravar pela Verve, já sofria as consequências do álcool e de drogas pesadas como a heroína. Fora flagrada e presa mais de uma vez pela polícia dos narcóticos e passado por clínicas de recuperação. Essa é a Billie mais conhecida pelo público em geral e mais venerada. A humanidade adora cultuar a decadência, mas pensando bem, não tem graça.

A Columbia, sua gravadora, não se mostrou interessada em lançar “Strange Fruit”, provavelmente, em razão da letra ter relação com linchamentos perpetrados pelos brancos (leia-se Ku Klux Klan) contra os negros no sul norte americano. Esse sentimento racista, presente no país, era mais exacerbado no sul, pela presença do negro, “importado” para servir como mão de obra escrava. É bom lembrar que a palavra “apartheid”, aplicada na África do Sul, é de origem holandesa. Um bom contingente deles foi responsável pela colonização dos EUA.

Milt Gabler era dono da Comodore Record Shop, muito frequentada por músicos. Holiday era uma delas, levada por Teddy Wilson, seu pianista. Comentou sobre a resistência da Columbia, sua gravadora, em gravar “Strange Fruit”. Essa composição já estava sendo apresentada nas noites em que cantava no New York’s Cafe Society. Gabler tinha criado um selo próprio, a Commodore, e pediu autorização da Columbia em liberá-la. Como no meio cinematográfico, às vezes, artistas eram “emprestados” às outras companhias. Milt lançou um 78 rpm com “Strange Fruit” e “Fine and Mellow” no outro lado. Isso foi em 1939.

Em 1944, Billie tinha 29 anos e estava no auge da forma vocal e era uma bela moça, se não bela, extremamente atraente e charmosa. A revista Esquire, uma espécie de Senhor (aliás, o contrário?) em seu poll dos melhores outorgou-lhe o Golden Award como a “best vocalist of 1944”.

Em 1941, Milt foi contratado para ser o A&R da Decca. Ficou acordado que poderia continuar com a Commodore, sob a condição de que não lançaria músicas que pudessem ser o que chamavam naquele tempo de “smash hits”. Tudo bem, pois a sua gravadora tinha como foco música de instrumentistas de jazz, principalmente, e era para um público bem específico.

Havia passado um bom tempo que Milt havia lançado “Strange Fruit” pela Commodore. Estávamos em 1944. Milt andava pela rua 52, em Nova York, e viu que acontecia uma apresentação de Holiday. Ao ouvir “Lover Man”, percebeu o potencial de ser um “smash hit”. O contrato da Columbia estava expirando e não se percebia interesse deles em renová-lo. Milt fechou um contrato em que Billie, no período de um ano, teria de gravar um mínimo de doze canções. Quando falou de gravar “Lover Man”, Billie disse que ouvia uma orquestra de cordas atrás. Holiday teria a orquestra e iria receber royalties pela venda dos discos. Pela primeira vez na vida.

Ouça “Lover Man (Oh, Where Can You Be)?”




Por que Billie Holiday era especial
Gene Lees ressaltou uma diferença fundamental entre Holiday e suas predecessoras: “Ela entendeu o conteúdo emocional de suas canções e soube comunicá-lo de forma convincente e limpa.” Billie dizia: Não acho que estou cantando, sinto-me como que estivesse tocando um instrumento. Tento improvisar como Les [Lester] Young, como Louis Armstrong ou outro que admiro.

Uma das minhas canções preferidas de Billie é “Don’t Explain”. Ela a escreveu inspirada em um acontecimento real. Conta que, uma vez, tarde da noite, o marido Jimmy Monroe chegou com a camisa manchada de batom. Eu vi o batom. Ele olhou e começou a explicar e explicar. Podia compreender qualquer coisa menos uma. Mentir, para mim, era a pior coisa que poderia fazer. Dei-lhe uma cortada e disse: Vá tomar um banho, e “don’t explain”.

Em vez da primeira, gravada em 8 de novembro de 1944, disponibilizo a segunda, a de 14 de agosto de 1945.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Egberto Gismonti e Charlie Haden sem Jan Garbarek

Gismonti e Haden
Sem a “interferência” de Jan Garbarek, aconteceu uma apresentação de Egberto Gismonti e Charlie Haden, lançada pela ECM com o título In Montreal. Faz parte de uma série de apresentações acontecidas em 1989, em que o homenageado foi o baixista. Em dias diferentes, Haden dividiu o palco com Joe Henderson e Al Foster (30/6), Geri Allen e Paul Motian (1/7), Don Cherry e Ed Blackwell (2/7); Gonzalo Rubalcaba e Paul Motian (3/7), Pat Metheny e Jack DeJohnette (5/7), Gismonti (6/7), Paul Bley e Paul Motian (7/1), e o Liberation Music Orchestra (8/7). Todas, com exceção da apresentação com Metheny e Jack DeJohnette, foram lançadas em CD ou DVD (o do Liberation Music Orchestra). 

A de Montreal, certamente, não foi a única vez em que tocaram apenas os dois. Presenciei, uma vez, apresentação de Haden com seu Quartet West, no Teatro Alfa, em São Paulo, em que Gismonti tocou alguns números como convidado especial. Foi em 1999.

Haden era a estrela, mas a maioria das composições é de Gismonti. Haden tem poucas e ótimas composições. As duas do CD – First Song e Silence –, para quem conhece a discografia de Haden, são conhecidíssimas. As sete restantes são do brasileiro: Salvador, Maracatú, Palhaço, Em Família, Lôro, Frevo e Don Quixote.

A música de improviso tem uma qualidade: mesmo que os temas não sejam inéditos, é sempre possível uma leitura diferente, porque depende do momento e da interação dos músicos. O entendimento entre os dois parece, a meu ver, mais natural sem Jan Garbarek, um pouco em razão de o piano e o violão de Gismonti brigarem menos com uma certa estridência do saxofone do norueguês. É uma combinação mais harmônica. Questão de gosto, como disse dezenas de vezes, e está sujeita a discordâncias.

Os temas de Gismonti são bem conhecidas pelos brasileiros. Então, vamos ouvir um de Haden: Silence. Essa música foi gravada pela primeira vez em The Ballad of the Fallen (ECM, 1982). Não tenho absoluta certeza sobre essa informação, mas meu palpite é de que foi em 1982 mesmo.

Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Veja Gismonti em duo com Haden em São Paulo, no Heineken Concerts, tocando Palhaço.


Outros sobre Haden no blogue:
“Jasmine”, o duo de Keith Jarrett e CH: http://bit.ly/Qs0QEe
“Sophisticated Ladies”: http://bit.ly/T9fqNd 
CH e Rachmaninoff: http://bit.ly/10lYR5a
Hank Jones e CH, O último disco de Hank: http://bit.ly/OlS6MD
Os duos de CH: http://bit.ly/UcDyS0
O post anterior, sobre “Carta de Amor”: http://bit.ly/Wt424a

Bom, deu para perceber que sou fã de carteirinha do baixista, não?