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| Kurt Elling. Outro fã do “soul patch” |
Quase desconhecido no Brasil até hoje, acredito, depois de ser considerado o melhor pelos críticos da Downbeat por uns quinze anos seguidos, em 2013, foi “destronado” por Gregory Porter. Não sei se é justo. É provável que os britânicos estejam um pouco fartos da rainha Elisabeth, assim como, os cubanos, de Fidel, que acaba de falecer. Cansa, né. Chega uma hora em que desejamos uma mudança, por melhor que sejam os que estão no trono.
Um dos fatores responsáveis pela “queda” de Elling pode ser a de que seus dois últimos álbuns não acrescentem muita coisa em relação aos anteriores. Reverenciado pela crítica, não imagino que seja amado pela patuleia. Apesar de ser desse grupo, desde o começo, achei-o um cantor diferenciado, o melhor na minha opinião. Não tem o apelo popular de um Michael Bublé ou Jamie Cullum, o que, serve como elogio.
Terminada a apresentação no Bourbon, para a minha e a surpresa de outros, postava-se na saída para cumprimentar um a um os que saíam. Adorei o seu gesto. Simples e de extrema cortesia. Poderia ter trocado algumas palavras ou pedido um autógrafo, porém, devido a surpresa, apenas trocamos um cumprimento. Naquela época, Kurt tinha os cabelos compridos, em corte reto, que passavam um pouco da nuca e um montículo de barba logo abaixo do lábio que descubro agora chamar-se “soul patch”, como o de Dizzy Gillespie.
O tempo passou e Elling, de vez em quando cansa do “soul patch”, mas volta a usá-lo. Deixou a magreza para trás e a cabeleira, mais curta, continua impecavelmente cofiada.
Aproveitando a proximidade do Natal, acaba de lançar o seu “sings Christmas”. Diferente de qualquer disco de Natal, sempre com aqueles temas batidos tocados de maneira burocrática, é bem Kurt: há sempre um traço de originalidade e de ousadia. Quem sabe, essa pode ser a razão de não ser tão popular. Recusa-se a caminhar nas vias do meramente conhecido, mesmo quando interpreta standards. Em seus álbuns além de clássicos do cancioneiro americano, sempre há algum número fiferente. Canta músicas do repertório brasileiro, em português, geralmente – e não fica apenas na bossa nova –, espanhol, francês e até arrisca um lied, de Johannes Brahms, como no último “Passion World” (Concord Jazz, 2015), Além de algumas composições de próprio punho, gosta de ciscar em outros ninhos. Com aquela surpresa positiva, encontramos, por exemplo, uma música do King Crimson, ou alguma do Weather Report, com letras dele.
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| Branford e Kurt. O “soul patch” ficou branco |
Branford Marsalis e Kurt
Se “Passion World” e o anterior “1619 Broadway” (Concord 2013) – referência ao endereço da Brill Building, local que abrigou estúdios e escritórios de gente ligada à música –, não são superiores aos seus CDs anteriores, o recente “Upward Spiral” (OKeh, 2016), de Branford Marsalis, “featuring Kurt Elling”, atende bem ao gosto daquele que queria vê-lo mais “jazz”, o que não significa dizer que deixe de explorar outros gêneros. Kurt e Branford subverteram ordens estabelecidas desde o início de suas carreiras.
O primeiro da família Marsalis a tornar-se conhecido foi Wynton. Pouco depois, foi a vez de Branford, que teve seu primeiro álbum lançado pela mesma gravadora, a Columbia. Aí descobriram que os dois tinham um tremendo pianista na família, o pai Ellis Marsalis Jr., cuja fama se circunscrevia aos limites de New Orleans. Ellis Jr., por sua vez, era filho de músico. Ellis Sr. tocava bateria. Não parou por aí. Mais dois filhos de Ellis são músicos: Delfayo (trombone) e Jason (bateria).
O nome de Wynton está ligado à turma que ficou conhecida como “young lions”. Surgiram vários músicos, jovens arrumadinhos que abraçaram a causa dos que pretendiam resgatar os “nobres valores” do jazz. Com boas razões, muitos devem ter achado um retrocesso. O mundo tinha mudado bem desde Fats Waller e Louis Armstrong, e o que era considerado jazz foi “contaminado” por essas transformações.
Branford Marsalis, um ano mais velho que Wynton, surgiu para o mercado logo depois. Ao contrário do irmão, parecia mais aberto musicalmente, mais permeável aos outros gêneros como o rock, o rap e o hip-hop. Estreou como líder pela mesma Columbia. Aparecia engravatado, mas mostrava que seu projeto não era resgatar a “pureza perdida”. Em suas incursões iniciais, ele e Kenny Kirkland, pouco mais velho que os “brothers”, mas pianista dos dois em alguns álbuns, foram tocar com o pop Sting, ex-Police. Por essas e outras coisas, Branford era o antagonista de Wynton. Por essas diferenças dizia-se que um era Caim, e o outro, Abel. Nada confirma. Aparentemente, sempre se deram bem.
Uma confirmação de suas diferenças foi a banda Buckshot LeFonque, bem fora do que se convencionou ser classificado como jazz. Enveredou-se por trilhas sonoras para o cineasta Spike Lee. Em seus movimentos, aos poucos, caminhou em direção a um jazz mais clássico, com o pianista Joey Calderazzo, parceiro constante nos últimos anos.
Movimentos ascendentes
O primogênito dos Marsalis, em seus últimos trabalhos, sem precisar mostrar ao que veio, em plena maturidade, tende aos climas melancólicos. No solo “In My Solitude” (OKeh, 2014), explora a acústica da Grace Cathedral, onde foi gravada, e as canções e improvisos são sempre em tom menor, até como forma de amoldar-se ao ambiente. No disco em duo com o pianista Joey Calderazzo, o título, por si, é uma boa pista: “Songs of Mirth and Melancholy” (2011).
O primeiro da família Marsalis a tornar-se conhecido foi Wynton. Pouco depois, foi a vez de Branford, que teve seu primeiro álbum lançado pela mesma gravadora, a Columbia. Aí descobriram que os dois tinham um tremendo pianista na família, o pai Ellis Marsalis Jr., cuja fama se circunscrevia aos limites de New Orleans. Ellis Jr., por sua vez, era filho de músico. Ellis Sr. tocava bateria. Não parou por aí. Mais dois filhos de Ellis são músicos: Delfayo (trombone) e Jason (bateria).
O nome de Wynton está ligado à turma que ficou conhecida como “young lions”. Surgiram vários músicos, jovens arrumadinhos que abraçaram a causa dos que pretendiam resgatar os “nobres valores” do jazz. Com boas razões, muitos devem ter achado um retrocesso. O mundo tinha mudado bem desde Fats Waller e Louis Armstrong, e o que era considerado jazz foi “contaminado” por essas transformações.
Branford Marsalis, um ano mais velho que Wynton, surgiu para o mercado logo depois. Ao contrário do irmão, parecia mais aberto musicalmente, mais permeável aos outros gêneros como o rock, o rap e o hip-hop. Estreou como líder pela mesma Columbia. Aparecia engravatado, mas mostrava que seu projeto não era resgatar a “pureza perdida”. Em suas incursões iniciais, ele e Kenny Kirkland, pouco mais velho que os “brothers”, mas pianista dos dois em alguns álbuns, foram tocar com o pop Sting, ex-Police. Por essas e outras coisas, Branford era o antagonista de Wynton. Por essas diferenças dizia-se que um era Caim, e o outro, Abel. Nada confirma. Aparentemente, sempre se deram bem.
Uma confirmação de suas diferenças foi a banda Buckshot LeFonque, bem fora do que se convencionou ser classificado como jazz. Enveredou-se por trilhas sonoras para o cineasta Spike Lee. Em seus movimentos, aos poucos, caminhou em direção a um jazz mais clássico, com o pianista Joey Calderazzo, parceiro constante nos últimos anos.
Movimentos ascendentes
O primogênito dos Marsalis, em seus últimos trabalhos, sem precisar mostrar ao que veio, em plena maturidade, tende aos climas melancólicos. No solo “In My Solitude” (OKeh, 2014), explora a acústica da Grace Cathedral, onde foi gravada, e as canções e improvisos são sempre em tom menor, até como forma de amoldar-se ao ambiente. No disco em duo com o pianista Joey Calderazzo, o título, por si, é uma boa pista: “Songs of Mirth and Melancholy” (2011).
Em “Upward Spiral” (OKeh, 2016), apesar de a primeira (There’s a Boat Dat’s Leaving’ Soon for New York”) e última (“The Return – Upward Spiral”) serem mais upbeat, Paul de Barros, em sua crítica na Downbeat, em que confere 4 estrelas e meia para um máximo de cinco, descreve o álbum como “um trabalho outonal que reflete sobre perda, dor e expectativas frustradas.”
Em um repertório “outonal”, não poderiam faltar “Blue Gardenia”, “I’m a Fool to Want You”, “Só Tinha de Ser com Você” e a soturna “Blue Velvet”, de Bernie Wayne e Lee Morris. Dois bons destaques são do repertório pop-rock: “From One Island to Another”, de Chris Whitley, e “Practical Arrangement”, de Sting, que, aliás, estão entre as melhores, a primeira, pela brilhante e enérgica interpretação da banda, com destaque para Joey Calderazzo, e a segunda, pelo canto emocionante de Kurt. Dentre as composições próprias, o ponto alto é “Cassandra’s Song”, de Marsalis e Elling.
Ouça “Cassandra’s Song”.
Dentre os standards, bela é “Blue Gardenia”. Traz na lembrança o brilhante álbum de John Coltrane com Johnny Hartman, ao se ouvir o sax de Marsalis.
Brilhante mesmo é “Practical Arrangement”. Elling arregaça.
Veja também os dois em “I’m a Fool to Want You”.
Um preview do álbum.
Vai logo lá! Link para baixar o álbum:
https://mega.nz/#!8otxwSyR!_24YmgkGFU2WR-hFZ54_RCjAK_yqGKWEPpu_K_2aCos

