Um dos mais geniais violonistas da atualidade faleceu em 18 de janeiro de 2026, em Roma. Em 1º de março faria 86 anos. Associado ao gênero jazz, suas composições podem ser classificadas num contexto mais amplo. Músico com formação clássica, era bom pianista (a mãe tocava piano), trompetista razoável (o instrumento que seu pai tocava) e genial violonista. Estudou piano na Universidade de Chicago, e depois violão na Academia de Música de Viena.
Em uma entrevista feita pelo pianista alemão Pablo Held, ou melhor, uma conversa, em 2022, no YouTube, parecia que sua memória falhava. Em um certo momento queria citar o nome de um pianista italiano e a memória falhava. Era o de Arturo Benedetti Michelangeli. Foi apenas um lapso, como qualquer um de nós pode ter. No resto da conversa mostrou-se bem lúcido, conversando basicamente sobre música, em vários momentos usando o violão para exemplificar sobre o que falava. Pouco tempo antes fizera uma apresentação em Lugano, no Auditório Stelio Molo RSI, cujo registro foi gravado e tornou-se seu último disco: At First Light (ECM, 2023).
A paixão por Bill Evans foi determinante para seu interesse pelo jazz. No início dos anos 1970 tornou-se membro da Paul Winter Consort, banda com um viés “crossover“, mesclando a linguagem de improviso do jazz com música indiana e a folclórica. Glen Moore, Colin Walcott e Paul McCandless, que eram do Consort, resolveram montarem um grupo, o Oregon.
O primeiro álbum, em 1970, foi lançado por um selo pequeno, com pouca repercussão. Foi relançado dez anos depois, quando já eram bem conhecidos, com o título Our First Record. O segundo, Music of Another Presente Era (1972) pode ser considerado o de estreia, pois tem uma distribuição decente, contratados pelo selo Vanguard. Ao longo da longeva carreira, que prosseguiu mesmo depois da morte do percussionista e citarista Colin Walcott, aos 38 anos em um acidente do ônibus que os transportava em uma turnê na Europa, lançaram cerca de 40 discos. Algumas participações dessa época, fora do Oregon devem ser citadas: I Sing the Body Electric (Columbia, 1972), segundo disco do Weather Report, The Restful Mind (Vanguard, 1975), de Larry Coryell, e In the Light (ECM 1973), de Keith Jarrett.
A longa e profícua parceria. Convidado por Manfred Eicher, grava seu primeiro LP pela ECM Records em 1973: Trio / Solos. É um álbum de Ralph Towner – todas as composições são suas com exceção de Re: Person I Knew, de Bill Evans) – com a participação de seus companheiros do Oregon.
Não foi Manfred Eicher, dono e produtor do selo ECM, o pioneiro em montar formações diferentes com seu casting. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Norman Granz, fundador dos mais prestigiados selos voltados ao jazz, como a Norgran, Clef, Verve e, bem mais tarde, a Pablo, teve a ideia de reunir músicos em apresentações ao vivo com o espírito de serem uma espécie de jam sessions. Esses encontros eram gravados e depois lançados e intitulados Jazz at The Philharmonica (JATP).
Dentro desse espírito de reunir músicos convidados em combos inéditos, Eicher montou, por exemplo, um quarteto com o americano Keith Jarrett e músicos europeus (Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen). Eicher deu a oportunidade de Jarrett aventurar-se por outros formatos, como os piano solos (The Koln Concert foi o primeiro e tornou-se o disco de jazz mais vendido no mundo), concertos em formato de orquestra e câmara, duetos incomuns como o dele ao piano e Jack DeJohnette na percussão (Ruta and Daytia), álbuns dele tocando órgão e até cravo, executando a obras de Bach, Handel, Shostakovich e Arvo Pärt. Fora tudo isso, foram dezenas de álbuns no formato mais clássico do jazz, o trio, com Gary Peacock e Jack DeJohnette.
Depois do álbum Trio / Solos, citado acima, há dezenas de belos registros com John Abercrombie, Gary Burton, Eberhard Weber, Jon Christensen, Gary Peacock e Egberto Gismonti, dentre outros.
Ouça Oceanus e Nimbus, do disco Solstice, e Palácio de Pinturas, de Sol do Meio Dia, de Egberto Gismonti.
Existem vários registros solo, como Diary (ECM, 1973), Solo Concert (ECM, 1980), Blue Sun (ECM, 1983), Anthem (ECM, 1981), Ana (ECM, 1997), Time Line (ECM, 2006), My Foolish Heart (ECM, 2017) e At First Light (ECM, 2023). O meu preferido é Solo Concert, registros de apresentações em Munique (Amerika Haus) e em Zurique (Limathaus). São quatro composições dele, duas de John Abercrombie (Timeless, a última faixa, é sublime) e Nardis, de Miles Davis.
Ouça.
Ouça também At First Light.
