Mostrando postagens com marcador Mick Hucknall. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mick Hucknall. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A voz de Mick Hucknall, ardida como pimenta

A capa de American Soul, de Mick Hucknall
O primeiro álbum lançado pelo Simply Red, Picture Book, em 1985, vendeu cerca de um milhão e meio de cópias na Grã Bretanha e um milhão nos EUA. O “simplesmente vermelho” era por causa do cabelo de seu cantor Mick Hucknall.

Por gravadoras independentes como a Factory, Rough Trade, Beggars Banquet e a 4AD, foram revelados grupos que mudaram a cara da música popular: Durutti Column, Dead Can Dance, The Smiths, A Certain Ratio, Joy Division e The Fall eram alguns deles. O Simply Red era mais mainstream que as bandas citadas. O disco de estreia saiu pela major Elektra, do grupo Warner. As influências das canções e da interpretação de Hucknall vinham da soul music e dos discos da Stax e Motown. Era um branco com alma negra, se me permitem uma expressão preconceituosa e incorreta. A seção de metais era fenomenal, bem no estilo Stax.

Emplacaram sucessos como a lenta Holding Back the Years e a Come to My Aid, primeira faixa do álbum. Gravaram o melhor Heaven, depois, é claro, do original dos Talking Heads (ouça em http://bit.ly/173tuzX a dos TH, de Mick Hucknall e Jimmy Scott), e um bom Money’s Too Tight (To Mention), dos Valentine Brothers. Depois de um primeiro disco espetacular, os próximos foram ficando chatos, na minha opinião. Fez bastante sucesso a versão de Everytime We Say Goodbye, de Cole Porter.

Bom, acabou o Simply Red ou, como diria Nelson Sargento, agoniza mas não morre. É uma característica dos tempos contemporâneos. As bandas não acabam. Hibernam. Reúnem-se, fazem alguns shows, levantam um dinheirinho e correm de volta para as suas casas para cuidarem da família.

No ano passado, Mick Hucknal lançou um disco solo chamado American Soul. É um título perfeito para o tipo de música que mais influenciou o pouco menos ruivo – não sei tinge os cabelos – e que se coaduna bem com sua voz e estilo. Estão incluídos clássicos do rhythm’n’blues, soul music, canções em sua maioria dos anos 1950 a 60. A mais antiga é um standard de Harry Warren e Al Dubin: I Only Have Eyes for You, de 1934.

A primeira faixa é That’s How Strong My Love Is, de Roosevelt Jamison, de 1964. Apesar de o tom ser mais para os “torch songs” no original, Hucknall imprime um ritmo menos pesado, assim como o faz na segunda, Turn Back the Hands of Time, de Tyrone Davis, de 1968. Começa a melhorar na terceira faixa. I Would Rather Go Blind é uma grande música. Esta música que foi gravada pela primeira vez, se não me engano, por Etta James, em 1967, foi cantada por Rod Stewart no álbum Never a Dull Moment (Mercury, 1972). Agora, as comparações: Rod dá um banho. Vale a comparação pois os dois ingleses se destacam por possuírem vozes muito diferenciadas… e boas. Da mesma forma, Otis Redding dá de goleada interpretando That’s How Strong My Love Is.

Veja Mick cantando That’s How Strong My Love Is.




Mick canta I’d Rather Go Blind.




Lonely Avenue, de 1956, conhecida na voz de Ray Charles, é um das boas do American Soul. A seguinte, boa interpretação, é o clássico de Harry Warren. A seguinte – Tell It Likes This – é morna, e Baby What You Want Me to Do é cantada em ritmo rockabilly light. The Girl That Radiates That Charm, de Arthur Alexander, de 1960, é uma delícia, com bela seção de metais, guitarras vintages e órgão de fundo. Let Me Down Easy também é bacana. No fim, é um disco agradabilíssimo se, simplesmente, queremos ouvir algo agradável, sem muitas caraminholas críticas.

Quando chega a vez de Don’t Let Me Be Misunderstood, uma nova comparação é inevitável, e com pesos pesados, de novo. A de Nina Simone é considerada a melhor. Não serei eu a ousar dizer que a de Eric Burdon, com The Animals, é a melhor. Mas é páreo para a de Nina. Hucknall também não faz feio não.

Veja-o cantando Don’t Let Me Be Misunderstood.




Aí chega a vez do Hucknall pular para o bolero. It’s Impossible, por muitos, na verdade, é um clássico conhecido na voz de Perry Como. A original é do grande Armando Manzanero. Até Elvis Presley gravou. Na última, Mick estraçalha. É o tema mais recente. Hope There’s Someone é de Antony Hegarty, do Anthony and The Jonhsons (sobre ele, leia http://bit.ly/OCkQyK e http://bit.ly/10Utk8t). A original é maravilhosa e a de Hucknall também.

Veja Antony cantando Hope There’s Someone.




Ouça a de Mick Hucknall.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Jimmy Scott ou Um lugar chamado “Heaven”

O grande “Little” Jimmy Scott
Tanto tempo depois, ouvir Talking Heads continua sendo um prazer. Uma música, em especial, mereceu algumas interpretações memoráveis: Heaven. Mereceu uma gravação matadora no primeiro álbum do Simply Red, quando Mick Hucknall ainda não havia sucumbido à fama e às farras. Picture Book (1985) revelou um cantor de voz de registro agudo, muito especial. Coincidentemente, outro intérprete de voz de contralto gravou Heaven. Menos conhecido, chama-se Jimmy Scott. Este merece alguns parágrafos.

Scott nasceu com Síndrome de Kallmann, que é um mal que compromete o crescimento. Essas pessoas não completam o ciclo da puberdade. Cresceu pouco e manteve a voz de menino, algo parecido com que que ocorria com os castratti. Na Renascença, retirar o saco escrotal de meninos para que não atingissem a puberdade e mantivessem a voz aguda, era um procedimento usual no meio musical. Existem hoje, alguns cantores com esse registro especial, os chamados contraltos masculinos ou contratenores, mas não necessariamente, têm essa síndrome ou tiveram de passar por esse cruel procedimento. O cantor mais conhecido da atualidade é Philippe Jaroussky. Antes dele, o grande nome foi o inglês Alfred Deller. Para que se entenda melhor, os brasileiros Ney Matogrosso e Edson Cordeiro podem se encaixar nessa classificação.

Jimmy Scott foi descoberto e tornou-se cantor da banda de Lionel Hampton em 1948. Logo mais, partiria para a carreira solo gravando no selo Roost. Como muitos gênios musicais, foi frequentemente enganado quando o assunto era dinheiro. Foi passando de gravadora em gravadora, primeiro indo para a Savoy, e depois para a King Records e depois voltando para a anterior. Gravou discos que não estavam à altura de seu talento. A carreira entrou em declínio e passou a se apresentar em qualquer espelunca que o convidasse. Um dos maiores responsáveis por isso foi Herman Lubinsky, dono da gravadora Savoy, que o deixou “preso” sob contrato.

Um cantor que um dia foi elogiado por ninguém menos que Ray Charles (Jimmy já era “soul” quando as pessoas não costumavam usar essa palavra), ficou à deriva, esquecido. Quem, de certo modo, o resgatou foi Doc Pomus. Lou Reed fez um disco e um show em homenagem a Pomus após a morte deste e convidou Jimmy para fazer os backing vocals em Magic and Loss, em 1992. Há um registro desse show em vídeo.

Ouça Lou Reed e Jimmy Scott em Satellite of Love. A segunda voz é de Jimmy.




No mesmo ano Scott voltou a gravar um disco à altura de seu talento: All the Way. Foi uma volta gloriosa. Tendo Kenny Barron, Ron Carter, Grady Tate, John Pisano e David “Fathead” Newman, com arranjos orquestrais de Johnny Mandel, Dale Oehler e John Clayton, Scott canta standards consagrados como All the Way, Embraceable You, Everytime We Say Goodbye e I’ll Be Around, dentre outros, é obra-prima. Se você não tem esse disco, corra e compre no site da Amazon.

Como no caso de Alberta Hunter, Jimmy foi redescoberto. Gravou vários outros discos pela Sire Records, e depois, pela Milestone. Faz um tempo que não se tem notícia de algum novo disco. Mas Jimmy está vivo; nasceu em 1925, ano em que nasceu o meu pai.


A letra de Heaven
O bar, que se chama Heaven, ou o céu é um lugar onde nada acontece? Tire suas conclusões.

Everyone is trying to get to the bar/ The name of the bar, the bar is called Heaven/ The band in Heaven plays my favorite song/ They play it once again, they play it all night long// Heaven, Heaven is a place/ A place where nothing/ Nothing ever happens/ Heaven, Heaven is a place/ A place where nothing/ Nothing ever happens// There is a party, everyone is there/ Everyone will leave at exactly the same time/ Its hard to imagine that nothing at all/ Could be so exciting, could be so much fun.


Veja Heaven na interpretação de Byrne no show Stop Making Sense, dirigido por Jonathan Demme. Tina Weymouth é a baixista.




Veja Mick Hucknall cantando Heaven. Maravilhoso. O cara já foi bom!




Ouça com Jimmy Scott. Esta gravação está no disco do mesmo nome. É acompanhado por Jacky Terrasson. A gravação é de 1996.