quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O menos conhecido e genial de Chick Corea

A morte de Chick Corea pegou muita gente de surpresa. A mim, pegou. Tinha 79 anos, o que hoje não é idade para morrer, considerando a média, pelo menos, entre os músicos, como Sonny Rollins, que já passou dos 90 e até há pouco estava tocando.

O conceito de velhice, desculpe o termo, mudou bastante. Seria perfeitamente possível imaginar Corea vivo, com mais de 90, tocando piano em um palco, mesmo que tivesse que usar uma bengala para se locomover. Todavia, aconteceu. Morreu. Descobriram, recentemente, um câncer raro não especificado. Com tantos músicos mais mais velhos, como Lee Konitz e Elis Marsalis, que faleceram com 93 e 85, respectivamente, vítimas dessa maldita pandemia chamada Covid-19, esquecemos que podem, ou podemos, morrer vítimas de outras ocorrências, até banais, como um tombo na rua.

Na minha visão, certas pessoas não morrem, porque permanecerão vivas em nossos pensamentos, por meio de sua música ou por outras coisas. Para mim ele não morreu. Minhas lembranças de quando vi um show dele pela primeira vez continuam vívidas. Foi em um festival de jazz, em São Paulo, em 1977. O programa era calcado no LP “The Leprechaum”, que tinha lançado um ano antes. Foi o primeiro com participação da vocalista Gayle Moran, que já era sua mulher.

Não era o primeiro disco de Corea com vocais. Em “Return to Forever” (1972), Flora Purim participa de algumas faixas. Apesar dos vocais chatinhos dela, o show foi inesquecível. O ápice foi “Crystal Silence”, como no original, piano elétrico e o sax soprano de Joe Farrell. Aquele festival foi inesquecível por outros motivos. Na apresentação de Hermeto Pascoal, John McLaughlin entrou e começaram a improvisar. De repente, o inglês solava em ritmo de frevo. Foi impressionante. Já de madrugada, seis horas depois de iniciado, a festa era total, com Hermeto, McLaughlin, Chick Corea e Stan Getz juntos.

Pura coincidência, Corea e Getz estarem no mesmo palco na farra de Hermeto. No começo da carreira, o pianista foi sideman do saxofonista em “Sweet Rain” (Verve 1967), contribuindo com duas composições. Antes do primeiro LP como líder, acompanhou também Mongo Santamaria, Blue Mitchell, William Bobo e Herbie Mann. 

A estreia como líder
Mann foi seu produtor em “Tones for Joan’s Bones”, para o pequeno selo Vortex. Gravado em 1966. foi lançado em 1968. O quinteto era formado por ele, Steve Swallow no contrabaixo, Joe Chambers na bateria, Joe Farrell no sax tenor e flauta e Woody Shaw no trompete. Dos quatro números, três são composições de sua autoria e a outra “This Is New”, é de Kurt Weill. A que abre, “Litha”, é uma composição excepcional, principalmente, se considerarmos que era a sua estreia. Os solos de Farrell e Shaw são destaques. A outra que deve ser citada é “Straight Up and Down”, uptempo, com a bateria vigorosa de Joe Chambers e Swallow no contrabaixo acústico. O solo de piano é excepcional, assim como é o de Woody Shaw. É um belo trompetista. Morreu relativamente novo: 44 anos. Teve vários problemas de saúde. Era quase cego por causa de uma doença degenerativa. Teve que amputar o braço em razão de uma batida em um vagão de metrô. Morreu por falência dos rins. Era viciado em heroína. Foi uma vida de desgraceira. Vi um show dele. Tinha a cara fechada. Também… Era um grande músico.

Em 1968, lançou “Now He Sings, Now He Sobs”, por outro selo pequeno, a Solid State. É em formato trio: ele, Miroslav Vitous e Roy Haynes. Para quem o conheceu na banda Return to Forever, uma das pioneiras do fusion-jazz, com o Headhunters, de Herbie Hancock, e o Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, é um álbum que soa estranho. É preciso fazer uma espécie de viagem ao passado e analisá-lo como uma espécie de preparação para o que faria depois. 

O título foi tirado da seção “Now he sings, now he sobs – now he beats the drum, now he stops”, do “I Ching – o livro das mutações”. As mutações a que se refere estão ligadas à amplas transformações que ocorriam na década de 1960. Na música tinha-se a explosão do rock, e o jazz vivia um período de exploração de novas linguagens e formas, por meio da música de Ornette Coleman, Charles Mingus, John Coltrane e Miles Davis. Nesse período de novas experiências, pela formação de pianista, o jovem Chick Corea tinha em seu radar também a música de compositores eruditos do século 20, como Bela Bártok, Stravinsky e Alban Berg.

Dentro dos “limites” do mais estabelecido no jazz, o do trio piano, baixo e bateria, com o também jovem Miroslav Vitous e o mais experiente Roy Haynes (42 anos, na época), buscaram criar uma música que ia acontecendo espontaneamente. Sem ensaios. Essa foi a ideia. 

“Now He Sings…” é uma referência ao caminho que Corea pretendia trilhar. É uma representação de seus anos formativos, a influência de pianistas como Thelonious Monk e Bud Powell, deste principalmente, a linguagem do hard bop, na qual mescla com sua formação erudita e interesse pelos compositores da escola vienense do século 20 e de Bela Bártok. 

No álbum seguinte, na mesma Solid State, “Is” (1969), Corea dá mais sinais desse caminho. Incorpora o piano elétrico, timidamente. A formação não é radicalmente diferente do álbum de estreia. Na seção de sopros estão incluídos os instrumentos usuais, com Bennie Maupin no sax tenor, em vez de Joe Farrell, que voltaria a tocar com ele inúmeras vezes, o trompete com o mesmo Woody Shaw, no contrabaixo o inglês Dave Holland, que tocou no início da fase elétrica de Miles Davis, e na bateria, Jack Dejohnette, que também foi da banda, e, de diferente, Hubert Laws, um dos sopros mais perfeitos na flauta.

Ao contrário de Wayne Shorter, Joe Zawinul e Herbie Hancock, seus companheiros da banda de Miles Davis, Corea preferiu seguir pela trilha que estava desenhada desde “Now He Sings…”, o da música avant garde. Formou uma banda com Holland, Barry Altschul e Anthony Braxton. 

Ao mesmo tempo, passou a gravar discos para a recém criada ECM, optando pelo piano acústico: “Piano Improvisations vol. 1 e vol. 2”. Por essa gravadora lançou “Return to Forever” (1972), que seria viraria nome da banda elétrica dele, e “Crystal Silence” (1972), com Gary Burton.

Como Return to Forever, o primeiro foi “Light as a Feather” (1973), com Flora Purim e Airto Moreira, Stanley Clarke e Joe Farrell. O Return to Forever realmente elétrico, fusion-jazz, começa com “Where Have I Known You Before” (Polydor, 1974), nesse, com Bill Connors na guitarra, e “No Mystery” (Polydor, 1975), com Al DiMeola no lugar de Connors.  Pela mesma Polydor, lançou discos com seu nome como líder, com outro conceito.

O propósito dessa postagem era escrever sobre o início da carreira do americano de sangue italiano, apesar de sua paixão pela música espanhola. Para concluir, o que define bem sua música é a diversidade. Gravou muitos discos e em cada um deles, explorava desde o jazz acústico, o fusion-jazz, com sua Chick Corea Electrik Band e até a música erudita.

Ouça “Now He Sings, Now He Sobs”. Nas edições posteriores foram acrescentadas várias músicas. Até a quinta é o LP original. Várias que foram acrescentadas são geniais: “Samba Yantra”, “Bossa”, “Gemini” e os standards “My One and Only Love” e “Pannonica”.

Ouça.




O primeiro dele (“Tones for Joan’s Bones”) é relativamente curto. Vale a pena ouvir. Nesses dois primeiros LPs são síntese de tudo o que ele fez posteriormente.

Ouça,

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Joni Mitchell e o jazz

Joni Mitchell e Charles Mingua (foto: Sue Mingus)





Músicos associados ao jazz sempre participaram de seus discos desde For the Roses (Elektra, 1972). Neste, conta com Tom Scott e Wilton Felder. Estes, mais Joe Sample (companheiro de Felder no Jazz Crusaders) e o guitarrista Larry Carlton estão no próximo Court and Spark (1974)

O plantel amplia-se bem em The Hissing of Summer Lawns. Aos citados do anterior, temos o baterista John Guerin, também coautor da música título, Bud Shank, Victor Feldman, Max Bennett e Chuck Findley. 

Nos dois seguintes, Hejira (1976) e Don Juan’s Reckless Daughter (1977), a contribuição vem de músicos do Weather Report, como Alex Acuña, Manolo Badrena, Airto Moreira (é da primeira formação do Weather), Jaco Pastorius e Wayne Shorter, e do arranjador Mike Gibbs. Esses dois álbuns representam um dos ápices da carreira de Mitchell. Os arranjos instrumentais são extremamente sofisticados, em uma fusão do folk com a música caribenha, africana e o jazz.

Amelia, que está em Hejira, é uma das grandes canções de Joni. É sobre a aviadora Amelia Earhart, desaparecida em 1937, quando tentava fazer uma viagem ao redor do globo.




O ápice da sua ligação com o jazz é o álbum Mingus (Elektra 1979). Neste, além da presença do genial baixista por meio de gravações feitas em seu retiro no México, inseridas no disco entre as faixas, conta com a nata do jazz: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Jaco Pastorius, Peter Erskine e Don Alias. Algumas composições de Mingus, como Goodbye Porkpie HatThe Dry Cleaner from Des Moines, fazem parte deste álbum, com letras de Mitchell. É um dos grandes discos de Mitchell, junto com BlueHejira e Don Juan’s Reckless Daughter.


Veja Joni em God Must Be a Boogie Man, em apresentação em Londres. A música faz parte de Mingus.



Ouça Goodbye Porkpie Hat, que Mingus fez em homenagem a Lester Young. O baixo é de Jaco e o sax soprano, de Wayne Shorter.



Pouco tempo depois, em 1980, foi lançado em vídeo um encontro espetacular de Mitchell com alguns jazzistas que já haviam participado de outras gravações – Pastorius e Alias –, e os convidados Pat Metheny, Lyle Mays e Michael Brecker. Há momentos preciosos em Shadows and Lights, como a participação dos vocais de The Persuasions e solos maravilhosos de Pat e de Jaco.

Joni canta The Dry Cleaner from Des Moines, composição de Mingus. O saxofone é de Michael Brecker e o baixo, de Jaco Pastorius.




A influência do jazz persistiu, porém, com menos intensidade em álbuns posteriores, mas nunca prescindiu de bons músicos do gênero, como o maravilhoso baterista Brian Blade e participações eventuais de Wayne Shorter. A partir do momento em que Larry Klein entrou em sua vida, inicialmente como músico e depois como produtor, Joni Mitchell resolveu ficar pop. Assim mesmo, continuou ainda a compor pérolas como Sex Kills.

Ouça Sex Kills.



O álbum Both Sides Now, de 2000, é a volta de Joni ao jazz, mas dessa vez, como intérprete, em arranjos orquestrais de pompa, cantando standards como You’ve ChangedYou’re My ThrillComes Love e Sometimes I’m Happy. Na capa, a exemplo da maioria das anteriores, é uma pintura de sua autoria, e como das outras vezes, autorretratos, aqui, com o cigarro aceso entre os dedos, seu companheiro mais fiel. Uma observação sobre a canção Both Sides Now. Composta em 1967, está relacionada ao fim do primeiro casamento e à sua decisão em entregar a filha recém nascida para adoção para que pudesse seguir com a carreira musical.

Ouça You’re My Thrill.




Joni Mitchell canta Both Sides Now, em apresentação de 2000. 



Veja Joni cantando a mesma canção em 1970.