Se você não sabe quem é Rosemary Standley e sente-se um burro ou desinformado, sossegue-se. Sou como você: um burro desinformado. Bom, se você conhece o som de Moriarty, sinta-se sabido, porque você sabe que Rosemary Standley era um dos membros dessa banda. Não custa porém um pouco de humildade para garimpar no desconhecido. Pois Rosemary é a mulher que mais me impressionou nesta semana.
Meio que desavisado, não sei por que me interessaria por um álbum com uma capa de fundo branco com a silhueta de uma mulher de roupa que não sei se é de uma corista, uma bailarina, sei lá. Abaixo da imagem está grafado “A Queen of Hearts”. Sob o nome dela leio Sylvain Griotto. Ao ouvir o disco, intuo que Griotto é o acompanhante e Standley a cantora. Em uma rápida busca descubro que ela é francesa, nasceu em Paris em 1979, e é uma “chanteuse franco-américaine”. Pelas fotos, vejo que tem olhos claros e tem uma opulência felliniana, ou me faz pensar em uma mistura de Gavrina e aquela outra personagem de seios fartos que fazem a delícia de um garoto no filme “Roma”. Será isso? Será em “Roma” ou em algum outro filme de Federico Fellini.
Vamos, porém, sair dos devaneios meio erótico-misóginos e prestar atenção ao que importa: a voz. De início, em um esforço comparativo, algo me faz lembrar de Cyrille Aimée, cantora francesa radicada nos Estados Unidos que vem ganhando reconhecimento da crítica. Lembro também de Madeleine Peyroux e, por tabela, Billie Holiday.
Ao ouví-la cantando “Pirate Jenny”, de Kurt Weill e Bertold Brecht – que bela interpretação! – me traz à lembrança Lotte Lenya, Gisela May e algumas cantoras de cabaré. Standley opta por um repertório eclético que inclui “I’d Rather Go Blind”, cuja versão mais conhecida é a de Etta James e que foi cantada também por Rod Stewart, canções em língua espanhola como “El Negro Zumbon” e “Porque Te Vas”, francesas, como “La nuit, je mens”, “Je ne t’aime pas”, “La reine de coeur”, e até alemã, como “Sag Mir Wo Die Blumen Sind”, repertório de uma chanteuse de fato. Mas Rosemary arrasa mesmo cantando músicas em inglês, como “Because”, de Lennon e McCartney, “Ain’t Got No, I Got Life”, “Wild Is the Wind”, “The Man I Love”, “Put the Blame on Mame”, de Allan Roberts e Doris Fischer, do clássico “Gilda”, e uma versão matadora de “Johnny Guitar”.
“A Queen of Hearts” é um projeto criado por Juliette Deschamps, lançado em CD e DVD, que, segundo o release, “paga tributo ao glamour e à melancólica elegância de artistas como Marlene Dietrich, Marilyn Monroe, Billie Holiday e Nancy Sinatra.” A voz de Standley e o piano sublime de Sylvain Griotto são uma prova de que a música tem a capacidade de nos alienar do mundo real, cruel e depressivo. Pena que essas sensações se esvaem tão rapidamente nos ruídos do cotidiano e na realidade crua.
Vamos começar pela bela e a poesia melancólica de “La nuit, je mens”. É do DVD oficial.
Agora, a genial “The Man I Love”, de Geroge Gershwin e Ira Gershwin.
Um pouco de contemporaneidade, se bem que é um tema do século passado: “Because”.
E, finalmente, a minha preferida de “A Queen of Hearts”: “Johnny Guitar”.
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quinta-feira, 20 de julho de 2017
terça-feira, 27 de maio de 2014
A música brasileira por quatro belas mulheres
Foi lançado há pouco tempo um disco bem interessante com temas brasileiros interpretados por francesas, ou estabelecidas na França, já que uma delas nasceu em Tel Aviv (Liat Cohen) e outra em Bruxelas (Helena Noguerra). A parte surpreendente é que dois dos componentes são mais conhecidos no mundo do cinema e as outras duas, profissionais da música erudita. Mais crossover, impossível.
Agnes Jaoui é conhecida como atriz, diretora do ótimo O Gosto dos Outros (Le goût des autres, 2000) e roteirista com o ex-marido Jean-Pierre Bacris de Smoking/No-Smoking, de Alain Resnais. Com esse currículo, além de muito bonita, como diria uma amigo, só faltava cantar. E é o que ela faz, e bem. Agora, admiro-a mais ainda. Outro amigo, um tanto misógino, dizia que as mulheres bonitas nem precisam falar. Discordo, mas está registrado sua opinião.
Tão bela quanto Aoui é Natalie Dessay. Brasileiros que gostam de música erudita a conhecem muito bem: foi artista residente da Osesp, a melhor orquestra do Brasil. A imagem que temos de cantoras de lieder e óperas são aquelas figuras enormes, não muito privilegiadas pelas mãos de Deus esteticamente, como Birgit Nilsson, grande wagneriana, ou Montserrat Caballé, conhecida pela patuleia por ter cantado com Fred Mercury, aquele cantor de bigodinho de uma banda chamada Queen.
Outra da área erudita é Liat Cohen. Natural de Tel Aviv, cresceu na França e estudou em conservatórios e, segundo a Wikipedia foi a primeira violonista clássica a ganhar o prestigiado Prêmio Nadia e Lili Boulanger. Liat tem um dedilhado limpo. É um talento a ser observado.
Como Jaoui, Helène Noguerra é atriz; e é apresentadora na televisão belga. É a única que fala português, efetivamente; por uma razão bem simples: é filha de português. Deveria ser Nogueira, presumo, mas nascida em Bruxelas, virou Noguerra, tônica no “a” final.
Cantoras ou não – pelo menos, morando no Brasil, nunca imaginaria que Jaoui cantasse também –, o fato é que tanto Agnes e Helena não fazem feio. Bom, de Natalie nem é preciso falar; é um soprano das melhores da atualidade. Quer conferir? Que tal ouví-la cantando a Bachiana no. 5?
O que surpreende, descontando que Helène sabe o português, impressionante como as três moças viram-se bem em nossa língua encantada. Ouça Samba em Prelúdio, um dos clássicos de Vinicius de Moraes, com Agnes Jaoui e Helène Noguerra.
Nem citei o nome do álbum até agora. Sugestivamente, chama-se Rio Paris, lançado pelo selo Erato. O disco está à venda na Apple Store brasileira por USD 6.99. Cometi a besteira de comprear pela loja americana. O preço é maior: USD 9.99. Percebi depois. Vale a pena a compra.
Mais um pouco: ouça Liat Cohen solando Baden Powell em Choro lento.
Para finalizar, a faixa final com as quatro: Bidonville-Consolação.
Veja as quatro em Les eaux des mars. A loura é Dessay, a de vermelho, Jaoui, e a de preto, Noguerra.
Veja o filme promocional.
Agnes Jaoui é conhecida como atriz, diretora do ótimo O Gosto dos Outros (Le goût des autres, 2000) e roteirista com o ex-marido Jean-Pierre Bacris de Smoking/No-Smoking, de Alain Resnais. Com esse currículo, além de muito bonita, como diria uma amigo, só faltava cantar. E é o que ela faz, e bem. Agora, admiro-a mais ainda. Outro amigo, um tanto misógino, dizia que as mulheres bonitas nem precisam falar. Discordo, mas está registrado sua opinião.
Tão bela quanto Aoui é Natalie Dessay. Brasileiros que gostam de música erudita a conhecem muito bem: foi artista residente da Osesp, a melhor orquestra do Brasil. A imagem que temos de cantoras de lieder e óperas são aquelas figuras enormes, não muito privilegiadas pelas mãos de Deus esteticamente, como Birgit Nilsson, grande wagneriana, ou Montserrat Caballé, conhecida pela patuleia por ter cantado com Fred Mercury, aquele cantor de bigodinho de uma banda chamada Queen.
Outra da área erudita é Liat Cohen. Natural de Tel Aviv, cresceu na França e estudou em conservatórios e, segundo a Wikipedia foi a primeira violonista clássica a ganhar o prestigiado Prêmio Nadia e Lili Boulanger. Liat tem um dedilhado limpo. É um talento a ser observado.
Como Jaoui, Helène Noguerra é atriz; e é apresentadora na televisão belga. É a única que fala português, efetivamente; por uma razão bem simples: é filha de português. Deveria ser Nogueira, presumo, mas nascida em Bruxelas, virou Noguerra, tônica no “a” final.
Cantoras ou não – pelo menos, morando no Brasil, nunca imaginaria que Jaoui cantasse também –, o fato é que tanto Agnes e Helena não fazem feio. Bom, de Natalie nem é preciso falar; é um soprano das melhores da atualidade. Quer conferir? Que tal ouví-la cantando a Bachiana no. 5?
O que surpreende, descontando que Helène sabe o português, impressionante como as três moças viram-se bem em nossa língua encantada. Ouça Samba em Prelúdio, um dos clássicos de Vinicius de Moraes, com Agnes Jaoui e Helène Noguerra.
Nem citei o nome do álbum até agora. Sugestivamente, chama-se Rio Paris, lançado pelo selo Erato. O disco está à venda na Apple Store brasileira por USD 6.99. Cometi a besteira de comprear pela loja americana. O preço é maior: USD 9.99. Percebi depois. Vale a pena a compra.
Mais um pouco: ouça Liat Cohen solando Baden Powell em Choro lento.
Para finalizar, a faixa final com as quatro: Bidonville-Consolação.
Veja as quatro em Les eaux des mars. A loura é Dessay, a de vermelho, Jaoui, e a de preto, Noguerra.
Veja o filme promocional.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
As histórias que Stacey Kent conta
Existem algumas evidências de que Stacey Kent gosta do Brasil ou, no mínimo, da língua portuguesa. E a recíproca parece real. Um número crescente de pessoas vai conhecendo – parece que toca bastante na Rádio Eldorado, em São Paulo – e curtindo Stacey. Apresentou-se em outubro de 2008 no Auditório Ibirapuera e tem dois discos no mercado brasileiro, o que não é pouco neste país que anda bem pobre em lançamentos de música clássica e jazz. Se, realmente, está lendo Machado de Assis em português, isso é sinal de verdadeiro interesse pela língua. É surpreendente e tem sua lógica. A aproximação com a língua se dá pela literatura e é consequência por ter cursado Literatura Comparada. Essa sofisticação é evidente em Raconte-moi…, lançado em março, em que canta apenas em francês. Duas canções não são francesas, mas foram adaptadas para essa língua: Águas de Março, de Antônio Carlos Jobim, e It Might As Well Be Spring (C’est le printemps), de Oscar Hammerstein II e Richard Rodgers.Kent demonstra inteligência ao conseguir escapar da armadilha de tornar-se uma mera intérprete de standards. Há centenas de cantoras que tomaram esse partido e o repertório de standards, apesar de infinito, é uma boa arapuca para se cair na mesmice. São poucas as que conseguem se renovar nesse território minado. Intérpretes afinadas como Jane Monheit ou Tierney Sutton, mesmo incluindo composições de autores de outros espectros como os brasileiros Djavan e Ivan Lins, continuam particularmente identificadas a essa velha fórmula, provavelmente em razão da falta de ousadia nos arranjos ou formatos instrumentais. Não é o caso de outros intérpretes como Cassandra Wilson e Patricia Barber.
Stacey já havia dado uma boa guinada conceitual em seu penúltimo álbum, Breakfast on the Morning Tram. Mesmo intercalando peças do pop como You’ve Got a Friend, de James Taylor, ou Bookends, de Paul Simon, no antepenúltimo, The Boy Next Door, não fugia muito ainda da fórmula dos standards. No álbum lançado em 2008, a boa novidade eram algumas parcerias de seu marido Jim Tomlinson com o escritor Kazuo Ishiguro (The Ice Hotel, I Wish I Could Go Travelling Again, Breakfast on the Morning Tram e So Romantic), que tinham conhecido anos antes e que, além de romancista e contista, publica alguns textos na imprensa britânica sobre o jazz, que conhece muito bem. O CD continha também três canções cantadas em francês: Ces petits riens e La saison des pluies, ambas de Serge Gainsbourg; a terceira era Samba Saravah (Samba da Benção), de Baden Powell e Vinícius de Moraes, que ficou internacionalmente conhecida na interpretação de Pierre Barouh em Um Homem e Uma Mulher, filme dirigido por Claude Lelouch.
Se o fato de Kent ter cantado três músicas em francês possa ter significado um “sinal antecipatório” para o CD recém-lançado todo cantado nessa língua, o fato de Samba Saravah ser uma composição originalmente brasileira e So Many Stars ser do brasileiro Sergio Mendes, ambas registradas em Breakfast…, e Les eaux de mars ser a versão que Georges Moustaki fez para Águas de Março, pode-se especular que se pode esperar um disco de Kent cantado em português no futuro.
Raconte-mois… é um disco de músicas não identificadas com o jazz. Ele se compõe de canções mais antigas como L’etang, de Paul Misraki e outras não tão tanto como Jardim d’hiver, que Henri Salvador gravou, que é de autoria de Benjamin Biolay – segundo minha amiga francesa, o ex de Chiara Mastroianni é uma espécie de Gainsbourg contemporâneo – e Keren Ann Zeidel, presente também com Au coin du monde. Outras são mais recentes: a música-título e La Venus de Melo, de Bernie Beaupère, Emilie Satt, Jean-Karl Lucas, e Mi amor, de Claire Denamur. No conjunto, é um belíssimo disco e tem a qualidade de, “quanto mais se ouve, mais se gosta”. Lembra climas de discos de Henri Salvador, embebido da “mansidão bossa nova”. A instrumentação é econômica, são discretos os saxes e clarinetas de Jim Tomlinson, o violão de John Paricelli pouco sola mas dá ritmo com o baixo e a bateria e as intervenções do tecladista Graham Harvey são elegantes e, às vezes, de pura beleza. Não é obra do acaso Stacey Kent estar cativando um público brasileiro de gosto mais sofisticado, que não sai rebolando às primeiras batidas de axé.
Veja e ouça:
La Venus de Melo
Jardim d’hiver
Mi Amor, canção composta por Claire Denamur.
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