Existem algumas evidências de que Stacey Kent gosta do Brasil ou, no mínimo, da língua portuguesa. E a recíproca parece real. Um número crescente de pessoas vai conhecendo – parece que toca bastante na Rádio Eldorado, em São Paulo – e curtindo Stacey. Apresentou-se em outubro de 2008 no Auditório Ibirapuera e tem dois discos no mercado brasileiro, o que não é pouco neste país que anda bem pobre em lançamentos de música clássica e jazz. Se, realmente, está lendo Machado de Assis em português, isso é sinal de verdadeiro interesse pela língua. É surpreendente e tem sua lógica. A aproximação com a língua se dá pela literatura e é consequência por ter cursado Literatura Comparada. Essa sofisticação é evidente em Raconte-moi…, lançado em março, em que canta apenas em francês. Duas canções não são francesas, mas foram adaptadas para essa língua: Águas de Março, de Antônio Carlos Jobim, e It Might As Well Be Spring (C’est le printemps), de Oscar Hammerstein II e Richard Rodgers.Kent demonstra inteligência ao conseguir escapar da armadilha de tornar-se uma mera intérprete de standards. Há centenas de cantoras que tomaram esse partido e o repertório de standards, apesar de infinito, é uma boa arapuca para se cair na mesmice. São poucas as que conseguem se renovar nesse território minado. Intérpretes afinadas como Jane Monheit ou Tierney Sutton, mesmo incluindo composições de autores de outros espectros como os brasileiros Djavan e Ivan Lins, continuam particularmente identificadas a essa velha fórmula, provavelmente em razão da falta de ousadia nos arranjos ou formatos instrumentais. Não é o caso de outros intérpretes como Cassandra Wilson e Patricia Barber.
Stacey já havia dado uma boa guinada conceitual em seu penúltimo álbum, Breakfast on the Morning Tram. Mesmo intercalando peças do pop como You’ve Got a Friend, de James Taylor, ou Bookends, de Paul Simon, no antepenúltimo, The Boy Next Door, não fugia muito ainda da fórmula dos standards. No álbum lançado em 2008, a boa novidade eram algumas parcerias de seu marido Jim Tomlinson com o escritor Kazuo Ishiguro (The Ice Hotel, I Wish I Could Go Travelling Again, Breakfast on the Morning Tram e So Romantic), que tinham conhecido anos antes e que, além de romancista e contista, publica alguns textos na imprensa britânica sobre o jazz, que conhece muito bem. O CD continha também três canções cantadas em francês: Ces petits riens e La saison des pluies, ambas de Serge Gainsbourg; a terceira era Samba Saravah (Samba da Benção), de Baden Powell e Vinícius de Moraes, que ficou internacionalmente conhecida na interpretação de Pierre Barouh em Um Homem e Uma Mulher, filme dirigido por Claude Lelouch.
Se o fato de Kent ter cantado três músicas em francês possa ter significado um “sinal antecipatório” para o CD recém-lançado todo cantado nessa língua, o fato de Samba Saravah ser uma composição originalmente brasileira e So Many Stars ser do brasileiro Sergio Mendes, ambas registradas em Breakfast…, e Les eaux de mars ser a versão que Georges Moustaki fez para Águas de Março, pode-se especular que se pode esperar um disco de Kent cantado em português no futuro.
Raconte-mois… é um disco de músicas não identificadas com o jazz. Ele se compõe de canções mais antigas como L’etang, de Paul Misraki e outras não tão tanto como Jardim d’hiver, que Henri Salvador gravou, que é de autoria de Benjamin Biolay – segundo minha amiga francesa, o ex de Chiara Mastroianni é uma espécie de Gainsbourg contemporâneo – e Keren Ann Zeidel, presente também com Au coin du monde. Outras são mais recentes: a música-título e La Venus de Melo, de Bernie Beaupère, Emilie Satt, Jean-Karl Lucas, e Mi amor, de Claire Denamur. No conjunto, é um belíssimo disco e tem a qualidade de, “quanto mais se ouve, mais se gosta”. Lembra climas de discos de Henri Salvador, embebido da “mansidão bossa nova”. A instrumentação é econômica, são discretos os saxes e clarinetas de Jim Tomlinson, o violão de John Paricelli pouco sola mas dá ritmo com o baixo e a bateria e as intervenções do tecladista Graham Harvey são elegantes e, às vezes, de pura beleza. Não é obra do acaso Stacey Kent estar cativando um público brasileiro de gosto mais sofisticado, que não sai rebolando às primeiras batidas de axé.
Veja e ouça:
La Venus de Melo
Jardim d’hiver
Mi Amor, canção composta por Claire Denamur.
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