Mostrando postagens com marcador Ray Charles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ray Charles. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Os adeuses de Ray Charles e Betty Carter

Ray e Betty Carter
Everytime We Say Goodbye um daqueles clássicos inesquecíveis, mais uma obra-prima de Cole Porter.

Por gostar de canções dramáticas, amo Everytime We Say Goodbye. Cada despedida é um pedaço seu que morre. Amar é um estado de exceção e a dor de quem vê seu amado se despedir é o “eu morro um pouco” da letra.

Mesmo quando ouço essa canção apenas tocada, não deixo de pensar na letra: “Toda vez que nos despedimos, eu morro um pouco/ Toda vez que nos despedimos, fico um pouco a pensar/ Por que os deuses lá em cima/ Pensam tão pouco em mim e deixam que você vá./ Quando você está perto, sinto o ar da primavera em volta/ Posso ouvir uma cotovia ao longe que começa a cantar/ Não há canção de amor mais linda, mas que estranha a mudança de um acorde de maior para menor,/ Toda vez que nos despedimos.” O amor é egoísta, por natureza: “Por que os deuses lá em cima/ Pensam tão pouco em mim e deixam que você vá.”

Pois, pensei nisso outro dia enquanto ouvia Everytime We Say Goodbye tocado por Arturo Sandoval em A Time for Love, belíssimo CD lançado em 2010. Comentei sobre esse CD lançado em 2010 em http://bit.ly/VvMdf5. Dizem que a beleza – ou Deus – está nos detalhes. O detalhe na canção que finaliza o disco é a elegância do piano de Kenny Barron em uma das poucas peças de câmara (é um quarteto de jazz) em arranjos orquestrais de Jorge Calandrelli.

Entre vocais e instrumentais que estão catalogados na minha CDteca, os destaques naturais são as de John Coltrane em My Favorite Things, de Bill Evans e de Sonny Rollins.

A maioria esmagadora, no entanto, é de vocalistas e é difícil destacar qual é a melhor. É difícil escolher entre Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Irene Krall, Diana Krall, Julie London, June Christy e Karrin Allyson. Nos últimos tempos, a minha preferida tem sido a de uma intérprete menos conhecida: Norma Winstone, em Distances (ECM 2008). Quem gosta do trompetista Kenny Wheeler a conhece bem.

Dentre as masculinas, uma das boas é a de Chet Baker em Diane, disco em duo com o pianista Paul Bley, e outra, é a de Jimmy Scott em All The Way. Mesmo assim, não posso deixar de citar Kurt Elling e Bobby Short.

Mas bom mesmo é de de Ray Charles e Betty Carter em registro de 1961. É uma pérola. Nessa época, Betty ainda não tinha se tornado “Betty Bebop”, a cantora que mais tarde adorava se alongar em scats, às vezes, maçantes. É a que está disponibilizada. Depois, tem Arturo Sandoval.

Everytime We Say Goodbye com Ray Charles e Betty Carter.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


A de Arturo Sandoval.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

“Ensaio” sobre a cegueira no piano

É bem conhecida a história de que Django Reinhardt não tinha movimento em dois dedos da mão esquerda devido a um acidente doméstico. Mesmo assim é considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos. É onde entram o “apesar de”, ou “mesmo assim”.

Algumas limitações físicas podem ser impedimentos para algumas atividades. Existe um número significativo de músicos cegos. Enxergar não parece ser um empecilho efetivo. De todos, o que ficou mais conhecido foi Ray Charles. Além da voz abençoada, tocava piano e saxofone e prendado de enorme carisma naquele seu jeito “balouçante” de caminhar e tocar. Como uma brincadeira de que, na verdade, “vê” muito bem, lembram-se de uma cena em The Blues Brothers? Ray encarna um vendedor de uma loja de instrumentos musicais. Um menino tenta surrupiar uma guitarra (era isso? Não lembro direito; vi há algumas décadas). Ray pega um revólver e enxota o pretendente a larápio. A música é uma arte bem mais abstrata que a pintura. Sua beleza ecoa pelo ar. Não é vista.

A música popular é o “lugar” natural desses intérpretes cegos. em sua maioria, nascidos em regiões muito pobres. No Brasil, na região nordestina, encontram-se muitos repentistas, rabequistas e sanfoneiros cegos apresentando-se nas ruas e feiras. Alguns dos mais conhecidos intérpretes do blues são cegos… e negros: Blind Lemon Jefferson, Blind Willie McTell, Blind Willie Jonhson. Poucos tiveram aprendizado formal. “Apesar de” ou “mesmo assim”, ficaram conhecidos devido aos seus talentos, principalmente. É natural haver certa mistificação sobre essas figuras: “apesar de cegos são bons”.

No jazz, não é diferente. O multi-instrumentista Rahsaan Roland Kirk é um deles. Era um pouco estranho aquela figura de óculos escuros com três ou quatro instrumentos pendurados no pescoço apresentando-se. Mais estranho era o fato de que tocava mais de um ao mesmo tempo. Kirk tocava sax-tenor, manzello, flauta e outros instrumentos de sopro. Conseguia tocar flauta com o nariz. Se não fosse bom caberia bem como atração circense. Mas o maluco não só tocava tantos instrumentos como produziu uma música que explorava gêneros como o swing, o bebop, o free jazz e até o pop.

A seara que abrigou uma enormidade desses grandes talentos, no entanto, foi a dos teclados. O maior deles foi Art Tatum. Cego de um olho e quase sem enxergar do outro, gravou centenas de músicas em brilhantes interpretações. Suas mãos dançavam sobre as teclas, literalmente. Era um poço criativo. Basta comparar interpretações de uma mesma música. Cada interpretação de uma mesma música, era única..

Outro quase tão genial foi Lennie Tristano. Sua música era harmônica e melodicamente intrincada, sofisticada e angulosa. Antecipou, de certo modo, Bill Evans. Depois de tanto tempo de quando foram gravadas, suas composições e mesmo interpretando standards, não perdeu a contemporaneidade. Seus solos em acordes vigorosos, meio “quebrados”, são brilhantes na sua maneira percussiva de marcar os ritmos no registro mais grave do piano.

Shearing “esbarra” em Stevie Wonder
Logo após o primeiro número, em show de 1981, em Pasadena, California, George Shearing puxa o microfone, dá umas batidinhas com a mão para ver se tem som e diz que a composição é de Cole Porter e se chama Love for Scale. Ups, corrige logo: Love for Sale. Antes de anunciar a segunda, ouve alguns sons estranhos — é claro que é uma brincadeira de seu acompanhante, o baixista Brian Torff — e diz: “Pequena sabotagem. É Ray Charles que está por aí?” A plateia cai na gargalhada. “Num dia claro e mesmo assim não consigo ver”. Nova graça para dizer que vai tocar On a Clear Day. Esse inglês, autor do clássico Lullaby of Birdland, nascido em 1919, vivo ainda, portanto com 91 anos, é um pianista versátil, que incorporou as várias evoluções da linguagem jazzística que presenciou. Além dos álbuns que tocou em vários formações, possui gravações excepcionais com cantores como Carmen McRae e, principalmente, Mel Tormé.

Veja Tormé e George Shearing em “Lullaby of Birdland”. É um clássico na voz do americano.




Outro pianista muito bom, pouco conhecido — ou pouco reconhecido? — foi Chris Anderson. Sabe-se que foi professor de Herbie Hancock. Gravou pouco. Além de cego, tinha problemas sérios ósseos. Faleceu em 2008. Existe uma gravação excepcional em catálogo, que fez com o baixista Charlie Haden. Respeitosamente, Haden é quase que um acompanhante. É ele que ouvimos em Body and Soul.