quinta-feira, 6 de julho de 2017

A lista dos melhores álbuns do ano na Downbeat, segundo a crítica

Até hoje não entendo direito sobre a correspondência das datas que estão impressas nas revistas e a de quando é disponibilizada. Quando assinava a Downbeat, várias décadas atrás, elas vinham pelo correio e, como demoravam, essas datas coincidiam mais ou menos. Hoje, com a assinatura digital, recebo o link delas com mais de um mês de antecedência. Exemplo: no dia 25, recebi a notificação de que tinha disponível a edição de agosto. Estranho, não.

Pois, agosto, além de ser o mês do cachorro louco, é o de quando a Downbeat publica o seu “Annual Critics Poll”, sendo a de 2017, a sua 65ª. Como de costume, listo os dez mais bem votados, pela ordem, e algumas observações sobre outros que ficaram um pouco atrás.

1. Wadada Leo Smith, “America’s National Parks” (Cunneiform)
2. Henry Threadgill, “Old Locks and Irregular Verbs” (PI)
3. Fred Hersch, “Sunday Night at the Vanguard” (Palmetto)
4. Jack DeJohnette, Ravi Coltrane, Matthew Garrison, “In Movement” (ECM)
5. Nels Cline, “Lovers” (Blue Note)
6. Sonny Rollins, “Holding the Stage: Road Shows vol. 4” (Doxy/Okeh)
7. Gregory Porter, “Take Me to the Alley” (Blue Note)
8. Matt Wilson’s Big Happy Family, “Beginning of a Memory” (Palmetto)
9. Andrew Cyrille Quartet, “Declaration of Musical Independence” (ECM)
10. Branford Marsalis Quartet feat. Kurt Elling, “Upward Spiral” (Marsalis Music/Okeh)

Mesmo sendo resultado de seres que, teoricamente, são os bambans, quase nunca bate com o gosto da patuleia. Mais que natural. Neste ano, porém, a concordância com a quase totalidade, bate com a de um membro desse grupo: eu.

O rastafarian Wadada
Mais vanguarda, melhores
Natural que aqueles álbuns mais “cabeça”, ou seja, menos povão, tendam a liderar as listas. Afinal, é o crème de la crème que está escolhendo os melhores, e os melhores dos melhores estão elencando os melhores. Tanto que os dois primeiros são os mais “vanguarda” dentre os dez. Um terceiro, de outro nome ligado à vanguarda, ficou em nono: “Declaration of Musical Independence”, do baterista Andrew Cyrille. Aliás, poderia estar entre os cinco, facilmente. O ex-membro do fabuloso Air, do também Henry Threadgill, é um dos veteranos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians).

Leo Smith começou e passou a ser conhecido fazendo parte da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), grupo de vanguarda de Chicago. O nome é bem pretensioso. Tenho um pouco de reservas por isso até hoje. Apesar de tudo, impressionante o número de bons músicos que revelou: Anthony Braxton, Muhal Richard Abrams, Leroy Jenkins, Roscoe Mitchell, Steve McCall, George Lewis, Jack DeJohnette, Amina Claudine Meyers, Lester Bowie, Chico Freeman, Famoudou Don Moye e outros. É uma verdadeira seleção alemã, com direito a bons reservas.

Leo Smith nem era o mais prestigiado no tempo em que Braxton era uma das estrelas da cena avant garde. Agora veterano e depois de convertido à seita rastafari, incorporando o “Wadada” ao antigo nome, atualmente, é um dos mais incensados pela crítica. Gravou uma avalanche de discos, todos, sem exceção, elogiados: “Ten Freedom Summers” (2012), segundo melhor do 61st Annual Critics Poll, da Downbeat, “The Great Lake Suites” (2014), quarto melhor de 2015, no mesmo poll, “Celestial Weather” (2015), 17º no de 2016, e agora, primeiro, com “America’s National Park”. Merece? Se não em primeiro, entre os dez. Gosto é gosto, como diria um amigo. Nunca seria o meu primeiro.

Ouça trecho de “America’s National Park”



Outro que a cada lançamento está presente entre os melhores é Henry Threadgill. Era genial com o trio Air, e continuou com suas várias formações posteriores. É um dos músicos mais originais do jazz. É aquele que melhor tira partido de contrastes sonoros. O registro agudo ou médio do saxofone alto e da flauta é combinado com os mais graves, como do trombone e a tuba; em vez do contrabaixo, gosta de usar o violoncelo e a presença de guitarristas “diferentes”, como Brandon Ross e Liberty Ellman, resultam em algo bem original.

Depois do Air, montou as bandas Make a Move, Very Very Circus e a Zoid. A de “Old Locks and Irregular Verbs” é a Ensemble Double Up. Não toca no álbum; é apenas autor e arranjador. Em seu lugar, são dois saxofones alto (Roman Filiu e Curtis MacDonald), dois pianistas (Jason Moran e David Virelles), Christopher Hoffman no cello, José Davila na tuba e Craig Weinrib na bateria. Alto nível. A minha fase preferida é a da época do Make a Move.

Ouça a “Part IV”, faixa final.



Mainstream ou, quase
O álbum mais “fácil” da lista é o de Fred Hersch; foi gravado ao vivo no clube Village Vanguard, Nova York. Fred é acompanhado por John Hébert e Eric McPherson. Particularmente, acho que tem vários pianistas mais interessantes que ele, e “Sunday Night at the Village” é apenas outro bom disco no formato trio.

“In Movement”, de Jack DeJohnette, com Ravi Coltrane, Matthew Garrison, seria o meu preferido do ano. É brilhante. Funciona como uma espécie de tributo a John Coltrane. DeJohnette chegou a tocar com o saxofonista, Matthew é filho de Jimmy Garrison, e Ravi é filho do grande mestre.

Ouça “Serpentine Fire”.




Nels Cline é o exemplo do músico eclético. Irmão gêmeo do baterista Alex Cline, muitos o conhecem como membro da banda Wilco, mas Nels começou no jazz. Nos últimos anos, tem aparecido bastante nas publicações especializadas no gênero graças aos bons álbuns que tem lançado. Antes do duplo “Lovers”, saiu um duo com Julian Lage (“Room”, 2014), e “Initiate” e “Macroscope”, como The Nels Cline Singers.

Ouça o standard “Glad to Be Unhappy”, em versão bem interessante, diferente daquela que você deve ter ouvido com Billie Holiday e Frank Sinatra.




Sonny Rollins, com “Holding the Stage”, quarto da série “Road Shows”, e Gregory Porter, com “Take Me to the Alley” vêm em seguida. O primeiro é uma seleção de registros das turnês daquele que é considerado um dos melhores de todos os tempos no sax tenor. É raspa de tacho do veterano músico. Está entre os dez pela reverência dos críticos aos velhinhos. 

A tendência dos cantores que têm surgido nos últimos anos é a de distanciarem-se bastante do mainstream. José James, Theo Bleckman e Gregory Porter são os melhores exemplos. É uma tendência. James e Porter vão pelo caminho da tradição negra da música americana, abarcando o gospel, o rhythm’n’blues, soul, hip hop, tudo com o sabor ou sabedoria de mesclá-los. Bleckman segue por outra seara: é branco e alemão.

Veja Porter em “Take Me to the Alley”.



Na onda dos bateristas que gravam como líderes, Matt Wilson é um dos destaques da atualidade. Tem mais de uma dezena de títulos gravados, quase todos pelo selo Palmetto. Não é apenas baterista. É compositor de talento como demonstra em seus discos. “An Attitude for Gratitude”, de 2012, foi o último antes de “Beginning of a Memory”. Formou a Matt Wilson’s Big Happy Family para a gravação deste. Acaba de sair “Music Inspired by the Poetry of Carl Sandburg” com a nova formação, agora, Matt Wilson’s Honey and Salt.

Em décimo – para mim estaria entre os cinco melhores – os críticos elegeram “Upward Spiral”, de Branford Marsalis, “featuring” Kurt Elling. Como emergiu para a fama depois do irmão Wynton, sofreu um pouco pela comparação, mas, depois de todo esse tempo, nem é mais preciso se afirmar; é de fato um dos melhores saxofonistas da atualidade, tanto no soprano como no tenor. Elling, para mim, continua a ser o melhor cantor de jazz, apesar de ter perdido o posto, depois de quinze anos, justamente, para Gregory Porter. Ninguém consegue ser unanimidade nesse mundo tão pulverizado.

Elling estraçalha em “A Practical Arrangements”, de Sting. Nem é preciso dizer sobre o sax de Marsalis. Confira.