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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Ralph Towner (1/3/1940 – 18/1/2026)

Um dos mais geniais violonistas da atualidade faleceu em 18 de janeiro de 2026, em Roma. Em 1º de março faria 86 anos. Associado ao gênero jazz, suas composições podem ser classificadas num contexto mais amplo. Músico com formação clássica, era bom pianista (a mãe tocava piano), trompetista razoável (o instrumento que seu pai tocava) e genial violonista. Estudou piano na Universidade de Chicago, e depois violão na Academia de Música de Viena.

Em uma entrevista feita pelo pianista alemão Pablo Held, ou melhor, uma conversa, em 2022, no YouTube, parecia que sua memória falhava. Em um certo momento queria citar o nome de um pianista italiano e a memória falhava. Era o de Arturo Benedetti Michelangeli. Foi apenas um lapso, como qualquer um de nós pode ter. No resto da conversa mostrou-se bem lúcido, conversando basicamente sobre música, em vários momentos usando o violão para exemplificar sobre o que falava. Pouco tempo antes fizera uma apresentação em Lugano, no Auditório Stelio Molo RSI, cujo registro foi gravado e tornou-se seu último disco: At First Light (ECM, 2023).

A paixão por Bill Evans foi determinante para seu interesse pelo jazz. No início dos anos 1970 tornou-se membro da Paul Winter Consort, banda com um viés “crossover“, mesclando a linguagem de improviso do jazz com música indiana e a folclórica. Glen Moore, Colin Walcott e Paul McCandless, que eram do Consort, resolveram montarem um grupo, o Oregon.

O primeiro álbum, em 1970, foi lançado por um selo pequeno, com pouca repercussão. Foi relançado dez anos depois, quando já eram bem conhecidos, com o título Our First Record. O segundo,  Music of Another Presente Era (1972) pode ser considerado o de estreia, pois tem uma distribuição decente, contratados pelo selo Vanguard. Ao longo da longeva carreira, que prosseguiu mesmo depois da morte do percussionista e citarista Colin Walcott, aos 38 anos em um acidente do ônibus que os transportava em uma turnê na Europa, lançaram cerca de 40 discos. Algumas participações dessa época, fora do Oregon devem ser citadas: I Sing the Body Electric (Columbia, 1972), segundo disco do Weather Report, The Restful Mind (Vanguard, 1975), de Larry Coryell, e In the Light (ECM 1973), de Keith Jarrett. 

A longa e profícua parceria. Convidado por Manfred Eicher, grava seu primeiro LP pela ECM Records em 1973: Trio / Solos. É um álbum de Ralph Towner – todas as composições são suas com exceção de Re: Person I Knew, de Bill Evans) – com a participação de seus companheiros do Oregon.

Não foi Manfred Eicher, dono e produtor do selo ECM, o pioneiro em montar formações diferentes com seu casting. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Norman Granz, fundador dos mais prestigiados selos voltados ao jazz, como a Norgran, Clef, Verve e, bem mais tarde, a Pablo, teve a ideia de reunir músicos em apresentações ao vivo com o espírito de serem uma espécie de jam sessions. Esses encontros eram gravados e depois lançados e intitulados Jazz at The Philharmonica (JATP).

Dentro desse espírito de reunir músicos convidados em combos inéditos, Eicher montou, por exemplo, um quarteto com o americano Keith Jarrett e músicos europeus (Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen). Eicher deu a oportunidade de Jarrett aventurar-se por outros formatos, como os piano solos (The Koln Concert foi o primeiro e tornou-se o disco de jazz mais vendido no mundo), concertos em formato de orquestra e câmara, duetos incomuns como o dele ao piano e Jack DeJohnette na percussão (Ruta and Daytia), álbuns dele tocando órgão e até cravo, executando a obras de Bach, Handel, Shostakovich e Arvo Pärt. Fora tudo isso, foram dezenas de álbuns no formato mais clássico do jazz, o trio, com Gary Peacock e Jack DeJohnette. 

Depois do álbum Trio / Solos, citado acima, há dezenas de belos registros com John Abercrombie, Gary Burton, Eberhard Weber, Jon Christensen, Gary Peacock e Egberto Gismonti, dentre outros.  


Ouça Oceanus e Nimbus, do disco Solstice, e Palácio de Pinturas, de Sol do Meio Dia, de Egberto Gismonti.



Existem vários registros solo, como Diary (ECM, 1973), Solo Concert (ECM, 1980), Blue Sun (ECM, 1983), Anthem (ECM, 1981), Ana (ECM, 1997), Time Line (ECM, 2006), My Foolish Heart (ECM, 2017) e At First Light (ECM, 2023). O meu preferido é Solo Concert, registros de apresentações em Munique (Amerika Haus) e em Zurique (Limathaus). São quatro composições dele, duas de John Abercrombie (Timeless, a última faixa, é sublime) e Nardis, de Miles Davis.

Ouça.


Ouça também At First Light.



quinta-feira, 25 de março de 2021

Grazing Dreams, de Collin Walcott, um dos dez melhores da ECM


Minha amiga rica voltou de San Francisco com vários LPs: “Mysterious Traveller” (Weather Report), “Bundless” (Soft Machine), “Closeness” (Charlie Haden), “Shakti” (John McLaughlin),“In Concert” (Oregon), “Low Class Conspiracy” (David Murray) e o primeiro do World Saxophone Quartet. Não consigo lembrar nomes de pessoas, não guardo um número de telefone, mas para algumas coisa a minha memória é ótima, principalmente se são inúteis.

Esses discos representaram um guinada no meu gosto musical, ou melhor, ampliaram meu horizonte sonoro. Na década de 1970, os Rolling Stones estavam lançando “Exile on Main Street” e logo mais estavam flertando com o glam-rock, os Beatles estavam em fase terminal, resultado do cisma Lennon x McCartney, e vinham novas ondas como a do rock mais pesado, com Led Zeppelin, Black Sabbath, Grand Funk Railroad, Humble Pie e alguns outras bandas, e a do que passaram a chamar de rock progressivo. As formações mais conhecidas foram King Crimson, Yes, Genesis, Gente Giant, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer, que surgiram entre o fim e o início da década. Muitos embarcaram nessa onda que, grosseiramente, poderia ser considerada rock com alguns traços de inteligência, ou uma abordagem menos visceral e mais cerebral, mais “inteligente” e culta, flertando até com a música erudita. Keith Emerson incorporava Aaron Copland e Mussorgsky, Jethro Tull, Bach, Beethoven e Schubert. 

Lembro de que os primeiros LPs que comprei foram “Led Zeppelin III”, “Pictures at an Exhibition” (Emerson, Lake & Palmer), “In the Court of the Crimson King” (King Crimson) e “The Yes Album” (Yes). A balança pendeu para o chamado rock progressivo. Mais ambiciosos – ou pretensiosos, dependendo da ótica –, as composições eram mais elaboradas, menos 4 x 4. 

Dos LPs citados no primeiro parágrafo, os que me impressionaram foram “Mysterious Traveller”, o do World Saxophone Quartet, surpreendente, apenas com sopros (saxofones, clarinetas e flauta), sem bateria e contrabaixo, e “Closeness”, o primeiro de Charlie Haden como líder, em duos, com Keith Jarrett, Alice Coltrane, Ornette Coleman e Paul Motian. Outro foi “In Concert”, da banda Oregon: transformou-se em paixão. Posteriormente, comprei todos os que foram lançados, até a morte de um de seus membros: Collin Walcott.

“Low Class Conspiracy” foi o primeiro como líder de David Murray, saxofonista que formou o World Saxophone Quartet, com Oliver Lake, Hamiet Bluiett e Julius Hemphill. Sou fã de Murray até hoje. Estava naquela fase em que estava comprando livros sobre arte e estética da turma da Escola de Frankfurt – Walter Benjamin principalmente –, Georg Lukács e “Literatura e Revolução”, de Leon Trotsky. O título do LP de Murray era, por isso, um chamariz.

Achei “Bundless” meio chato. Mas despertou-me a curiosidade de conhecer melhor o Soft Machine. Ouvindo os anteriores, quando Robert Wyatt era ainda um dos membros da banda, virei fã de carteirinha, como se dizia antigamente. Ouço até hoje os “III”, “IV” e, até mesmo, o “V”.

Nem rock, nem jazz
Paul Winter é considerado um dos pais da world music. Influenciado por Villa-Lobos – morou um ano no Brasil na década de 1960 – e amante da música inglesa do século 17, criou a Paul Winter Consort. Ralph Towner, Paul McCandless, Glen Moore e Collin Walcott, que participaram da banda, formaram o Oregon em 1970. Pela Vanguard lançaram em 1972, “Music of Anther Present Era”. Rapidamente ficaram conhecidos e o álbum que tinham saído por uma pequena gravadora, a Increase Records, em 1970, foi relançado.

Dos quatro, o que mais se destacou foi Ralph Towner, violonista de formação erudita, talentosíssimo e autor um dos melhores discos da ECM, o ao vivo “Solo Concert”, registrado na Alemanha e Suiça, em 1979. 

Tempos depois, já conhecendo outros álbuns do Oregon, acho que, em razão de uma crítica positiva na revista Downbeat de “Grazing Dreams” (ECM), acabei comprando o LP, importado, no Rio de Janeiro. Já estava gastando todo o meu dinheiro em discos. Aconteceu um festival de jazz na ex-capital do Brasil com várias atrações imperdíveis: Weather Report, Pat Metheny, Mccoy Tyner e o Art Ensemble of Chicago. Fomos eu e mais dois amigos. Ficamos no apartamento da tia de um deles. O imóvel ficava a dois quarteirões das duas melhores lojas de LPs importados: a Modern Sound e a Billboard.

“Grazing Dreams” e “Sophisticated Giant” (CBS, 1977), de Dexter Gordon, outro que comprei na mesma ocasião, estão entre os meus discos preferidos por duas razões. Uma é a de que são ótimos e a outra é porque foram os dois primeiros importados de jazz que comprei. É pouco? A vida da gente é marcada por simbolismos.

Como era – e é ainda – costume de Manfred Eicher, dono e produtor da maioria dos discos da ECM, unir os músicos do seu plantel –, nesse que é o segundo solo de Walcott pela gravadora, tocam Don Cherry, John Abercrombie, Palle Danielsson e o brasileiro Dom Um Romão, que participara de “I Sing the Body Electric”, “Sweetnighter” e “Mysterious Traveller”, do Weather Report.

Acho que “Grazing Dreams” é para quem tem uma abertura para o que é chamado de world music, a começar do fato de que os instrumentos principais de Walcott são a cítara e a tabla. Soma-se a isso a ligação de Don Cherry com instrumentos africanos como o doussn' gouni. A cuíca e o berimbau, tocados por Dom Um Romão, são “exóticos” para os não-brasileiros e, portanto, “world”. 

O disco é único por vários fatores. O que se ouve é diferente de qualquer coisa. Um bom exemplo é "The Swarm". Seu início é de sons desconexos de trompete, flauta, cítara e guitarra. Repentinamente todos os sons se conectam e, guiados pelo trompete e a cítara, vai ficando dramática e, pronto. Termina. Começa então “Mountain Morning”. Curtíssima. É um prelúdio para a ondulante e hipnótica “Jewel Ornament”. Com a tabla servindo de base rítmica, Cherry sola na flauta, mas o que se sobressai é a guitarra discreta de Abercrombie. Depois da música título, tem “Samba Tala”, um duo ótimo com Dom Um Romão e Walcott. E termina com a belíssima “Moon Lake”. O início dela, com ele na cítara, é sublime. 

Confira.




A parceria de Walcott com Cherry frutificou. Com Naná Vasconcelos, formaram a Codona – cada sílaba são as duas primeiras letras de seus nomes. Sobre eles, leia “O mundo ‘world’ de Naná Vasconcelos”. 

Muitos nem devem conhecer Collin Walcott por uma razão simples. O ônibus que transportava o Oregon em uma excursão na antiga Alemanha Oriental colidiu. Estava no primeiro banco e cochilava. Bateu a cabeça e morreu. Tinha 38 anos. Foi em 1984. Fazem mais de 36 anos que aconteceu.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Discografia selecionada de John Abercrombie

O cabelo rareou e o bigodão continuou
Quando estava na faculdade, muitos gostavam de música e, sendo USP, muitos podiam comprar discos importados ou viajar e adquiri-los fora. Não era o meu caso. Um deles, por outras razões – sua mãe era funcionária da Varig –, viajava uma vez por ano para visitá-la. O Robert era a pessoa que apresentou-me muitos discos da ECM. Acho que ele tinha todos, ou quase.

Quando estava na faculdade, estava no terceiro ano, acho, saiu uma primeira leva de alguns títulos da ECM, pela PolyGram. Comprei todos. Não lembro se foi na primeira ou na segunda leva, um deles era “Timeless”, de John Abercrombie, Jan Hammer e Jack DeJohnette. Conhecia Hammer pela participação na Mahavishnu Orchestra, de John McLaughlin, e DeJohnette, por “Bitches Brew”, de Miles Davis.

Minha geração formou o gosto por meio de muita música associada ao rótulo “rock progressivo”. Os mais velhos e mais puristas achavam aquele som cheio de moogs (o primeiro sintetizador a existir), mellotrons, uma aberração. À medida que expandíamos o nosso repertório musical, outros gêneros entravam em nossos horizontes. Para mim, foi o jazz, por meio, justamente, de bandas ou músicos que eram classificados na época como “jazz-rock”, gente, na maioria, oriunda das formações de “Bitches Brew”, de Miles Davis.

Anos ECM
“Timeless” nem era o melhor dos álbuns da ECM lançados no Brasil. Do pacote, os de Pat Metheny, Gary Burton, Miroslav Vitous e John Surman eram bens mais interessantes, porém, a canção título do disco de John Abercrombie era uma obra prima. E foi o que ficou registrado. Acho que pesou desfavoravelmente a bronca que, aos poucos, passei a ter de Hammer. A minha confirmação definitiva de que não gostava dele veio com “Jeff Beck with the Jan Hammer Group” (CBS, 1977). Ainda bem que resolveu fazer trilhas de cinema e séries de TV.

Ouça “Timeless”.




Em 1977, além de “Gateway 2”, o segundo em formato trio, com Dave Holland e Jack DeJohnette, saiu “Characters”, solo dele, tocando em overdubs violão, guitarra e bandolim elétrico. Estampou toda a sua maestria como instrumentista, compositor e improvisador. Se alguém quer conhecer a sua música – digo àqueles que nunca o ouviram – e querem ter um único disco dele, este é a escolha certa.

Ouça “Parable”, a primeira do álbum.




John gravou umas duas dezenas de álbuns para a ECM, com formações bem diferentes. Sua guitarra com aquela sonoridade etérea, meio abstrata, com o passar do tempo foi ficando mais seca, valorizando mais ainda o seu talento para harmonia, valorizando a sofisticação no desenvolvimento dos temas musicais. Abercrombie é um dos poucos que se pode reconhecer às primeiras notas. Seu estilo era inconfundível, tocando com quem fosse.

Algumas recomendações
Obviamente, não ouvi todos os discos do guitarrista. Faço uma lista bem pessoal do que ouvi.

• “Timeless” (ECM 1974) – Vale pela música título. Existe uma grande gravação dela de Ralph Towner, em “Solo Concert” (ECM 1979).

• “Sargasso Sea” (ECM 1976) – Álbum em duo com Ralph Towner. O violonista (nunca tocou guitarra) admirava Abercrombie. Este é melhor do que “Five Years Later” (ECM 1981)

• “Characters” (ECM 1977) – Sons de guitarras, violões e bandolins elétricos em overdubs. Primoroso.

• “Abercrombie Quartet” (ECM 1979) – Perfeita combinação do lirismo de John e o pianista Richard Beirach. Completam o quarteto George Mraz e Peter Donald.

• “Straight Flight” (Jazzamerica 1979) – Com o mesmo baixista e baterista, executa standards como “In You Own Sweet Way”, “Nardis”, “There Is No Greater Love”, dentre outros. John privilegia composições próprias ou de quem toca com ele, na ECM. Nos outros selos demonstra como é bom nos standards também. O destaque é a versão matadora de “My Foolish Heart”.

Ouça o álbum na íntegra.




• “November” (ECM 1992) – Um dos meus preferidos. Uma das razões é John Surman, um dos mais geniais no sax barítono, clarineta baixo e sax soprano. Os outros de “November” são Marc Johnson e Peter Erskine. Time de primeira.

Ouça a faixa título.




Ouça “J.S”, composição de Abercrombie e Surman no sax barítono. Genial.




• “Open Land” (ECM 1998) – Este álbum é uma boa amostra por conta dos músicos participantes. Estão no line-up o genial Kenny Wheeler, falecido em 2014, Joe Lovano (saxofone), Dan Wall (órgão), Mark Feldman (violino) e Adam Nussbaum (bateria). Boa amostra porque estão reunidos alguns que participaram de outras formações da banda de John.

• “The Third Quartet” (ECM 2007) – O tal terceiro quarteto não estava gravando pela primeira vez: John, Mark Feldman, Marc Johnson e Joey Baron.  Antes deste, foi lançado “Class Trip” (ECM 2003), com a mesma formação. Depois, em 2009, na mesma gravadora, saiu “Wit Till You See Her”, com Thomas Morgan no lugar de Johnson. O diferencial é o violino de Feldman, o melhor, talvez, da atualidade.

Ouça “Elvin”. Claro que não falta um solo de bateria, já que a referência deve ser Elvin Jones.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O talento elevado ao quadrado do Oregon

Towner, McCandless, Moore e Walcott (na tabla)
Vamos combinar, Oregon não é o melhor nome para uma banda. Pode existir um New York Trio ou um New York Dolls, mas dificilmente uma com o nome de alguma cidade ou um estado, se bem que agora lembro de uma banda brasileira chamada Tokyo, do conhecido Supla, filho de Eduardo e Marta Suplicy.

Glen Moore é natural de Portland. Ele e Ralph Towner, natural de Chehalis, Washington, se conheciam desde o início dos anos 1960, quando cursaram a Universidade do Oregon. Anos depois, quando ambos estavam morando em Nova York, conheceram Collin Walcott. Os três foram tocar na Paul Winter’s Consort. A banda fez uma excursão que passou por 50 cidades dos EUA. Paul McCandless, oboísta formado pela Manhattan School of Music, também estava na banda de Winter. Os quatro tinham o costume de fazer jam sessions particulares nos quartos de hotéis em que se hospedavam. Essas sessões de improviso resultaram na ideia de montar uma banda. Na hora de escolherem um nome para a banda, McCandless sugeriu que se chamassem Oregon. Justamente ele, natural de Indiana, Pensilvânia, do outro extremo do país, achou que era um bom nome em razão das lembranças que Towner e Moore narravam da época em que estudaram em Portland.

Tendo iniciado a carreira como saxofonista de jazz, seu envolvimento com as questões ambientais, com o direito dos animais e o pacifismo, fizeram com que Paul Winter almejasse criar uma forma musical que refletisse suas ideias. O músico criou a Paul Winter Consort. O nome era bem apropriado. Na sonoridade que procurava, a combinação de instrumentos de sopro, cordas e percussão, resultaria em algo bem diferente de tudo, abarcando elementos da música erudita, do jazz e das músicas oriental e étnica.

Como Ralph Towner, Glen Moore, Paul McCandless e Collin Walcott calharam de estarem na banda ao mesmo tempo, natural que o som do Oregon tivesse algo a ver com a de Winter. Mas os caminhos das duas bandas se dividiram. Enquanto o Oregon procurava privilegiar os improvisos com a formação pouco usual, combinando violão clássico, trumpete, piano (Ralph Towner), contrabaixo, violino, piano, flauta (Glen Moore), corne inglês, oboé, clarinetas, saxofones (Paul McCandless), tabla e cítara (Paul McCandless), em cima de temas, na maioria, compostos por eles, Paul Winter prosseguia em sua caminhada ambientalista, cada vez mais radical, tendendo ao que classificaram como new age, earth music, ecological jazz, etc.

Talentos unidos
O primeiro álbum que gravaram em 1971 não saiu, pois a Increase Records faliu antes. O primeiro oficial, “Music of Another Present Era”, acabou por ser lançado pela Vanguard, em 1972. Depois lançaram “Distant Hills” (1973), “Winter Light” (1974), “In Concert” (1975), “Together” (1976), com Elvin Jones, “Friends” (1977), “Violin” (1978) e “Moon and Mind” (1979). Nos álbuns, a característica a ser ressaltada é a da alta energia musical com instrumentos não usuais na música instrumental de improviso.

Manfred Eicher percebeu logo a qualidade da música do Oregon. A síntese que faziam da instrumentação da música européia com a harmonia do jazz, incorporando elementos orientais encaixava perfeitamente com o que Eicher pensava para a sua gravadora, a ECM. Durante os anos Vanguard, os músicos do Oregon participaram de vários projetos desse selo. Esses álbuns contribuíram bastante para o reconhecimento deles.

Em 1978, contrato assinado com a Elektra/Asylum Records, lançaram “Out of the Woods”. Foi considerado um dos melhores do ano e é o ápice criativo da banda. Gravaram ainda “Roots in the Sky” (1979) e “In Performance” (1978). Depois do nascimento do filho de Walcott, a banda deu um tempo, mas cada um continuou com seus projetos individuais.

Na nova/velha casa, a ECM, lançaram um novo álbum em 1983, e no ano seguinte, “Crossing”. Nem bem tinha sido lançado e acontece uma tragédia: Walcott morre em um acidente de ônibus. Estavam no auge. Trilok Gurtu entrou em seu lugar, mas o Oregon nunca mais foi o mesmo. Continuam na ativa, pelo jeito. Na atual gravadora, a italiana CamJazz, lançaram “Family Tree”, em 2012.

“Waterwheel” é uma das melhores de “Out of the Woods”. A química é perfeita. O oboé de McCandless é o instrumento dominante, combinando com a marcação de Walcott na tabla e Towner no violão.





Outro belo tema é “Witchi-Tai-To”, de Jim Pepper. A cítara é de Walcott.




O som do Oregon, com Walcott, era único. Ouça “Silence of a Candle”, composição de Towner. Maravilhoso. O interessante é que ele, depois de ter aprendido cítara com Ravi Shankhar, em vez de emular a música indiana, vai pelo caminho de criar uma linguagem própria que se adapta melhor à linguagem ocidental.




Ouça “Silence of a Candle” na versão ao vivo de “In Concert”.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

John Abercrombie começou atemporal

Towner e Abercrombie, sem bolsas “Capanga”
Imagine você pagar uma quantia nada desprezível em uma dessas casas de espetáculos com cadeiras rodeando mesas ridiculamente pequenas, ao lado de um casal que você nunca viu na vida, para ver dois de seus ídolos que nunca imaginara fossem vir para o Brasil. Daí, você leva um susto, ou melhor, se surpreende; em uma casa metida à besta, entram dois caras vestindo roupas simples e sandálias tipo surfista dos anos 1980, parecidas àquelas Rider, de tiras grossas, que existem até hoje, com ambos, segurando pela tira que desce diagonalmente do ombro até a altura dos quadris, bolsas “Capanga”. Para quem é mais novo, nem deve saber que um dia existiram. Chamadas de “Capanga”, não sei por que razão, eram para ser presas na cintura, como um cinto com uma pequena bolsa costurada nela, ou, simplesmente, a bolsa com uma alça, o suficiente para prendê-la no punho e ficar segura na mão. Tinham sua praticidade e era uma opção intermediária entre ficar com os bolsos estourando com chaves, carteiras, documentos e outros apetrechos, ou usar bolsas a tiracolo, como as das mulheres. A partir dos anos 1960, haviam deixado de ser exclusivas do gênero feminino.

Meu primeiro juízo, quando vi os dois entrando no palco, foi a de que alguém deve ter-lhes falado que o Brasil era um país perigoso e seria temerário deixar documentos e dinheiro no camarim. Vestidos como se estivem indo tomar um café com leite e um pão na chapa, depositaram suas “capangas” no chão ao lado das cadeiras. Quando terminou o show, colocaram seus violões nos pedestais, pegaram suas “capangas” e, saíram. No bis, voltaram segurando as bolsinhas.

Os dois no palco eram Ralph Towner e John Abercrombie. Não eram tão populares aqui; imagino que nem sejam até hoje em nossas terras. Conheci antes o trabalho do primeiro, por ser bem fã da banda Oregon, formada por ele, Collin Walcott, Glen Moore e Paul McCandless. Tinha vários álbuns dela. Abercrombie, conheci por Timeless, sua estreia como líder e em participações em alguns LPs da ECM.

Abercrombie, uns quatro anos mais novo que Towner, estudou na Berklee, e seu estilo e gosto inicial foi pela música rotulada na época como jazz-rock. Chamou a atenção de Manfred Eicher, e teve um início de ouro, gravando seu primeiro disco como líder, pela ECM. Timeless saiu em 1973 e teve como músicos parceiros o baterista Jack DeJohnette e o tecladista de alma roqueira Jan Hammer, pouco antes, membro da Mahavishnu Orchestra, de John McLaughlin. Todas as composições, com exceção da primeira, de Hammer, são de sua autoria. Tem ainda uma levada bem roqueira e sua guitarra lembra a de John McLaughlin e Larry Corell. Timeless é um disco que dá prazer de ouvir até hoje, trinta e poucos anos depois. Se não é excepcional como vários títulos posteriores, que são muitos, tem uma das grandes composições e uma das mais belas músicas de seu repertório, que é a música título.

Do estilo mais roqueiro do primeiro álbum, o som da guitarra de Abercrombie foi tendendo a um estilo mais climático, menos barulhento e mais melodioso com muitos efeitos na guitarra. Incorporou, como fez Pat Metheny, o sintetizador ao som das cordas e o bandolim elétrico também. Esse tipo de som mais atmosférico é uma das marcas do chamado “ECM sound”. Não é casual sua associação de mais de 40 anos com a gravadora.

Timeless
Towner e Abercrombie gravaram muitos discos juntos e estão entre o que há mais tempo gravam pela ECM. Quando os dois se apresentaram no antigo Palace, em São Paulo, não lembro bem quando foi, já tinham gravado em duo em Sargasso Sea (ECM, 1976) e Five Years Later (ECM, 1982).

Ralph Towner gravou Timeless, de Abercrombie mais de uma vez, uma com a sua banda Oregon, em Friends (Vanguard, 1977), e outra, em Solo Concert (ECM, 1979).

Ouça também a de 1977, em Friends.



Ouça a original, com John Abercrombie, Jan Hammer e Jack DeJohnette.




Uma pequena discografia

• Characters (ECM 1976). Excepcional. É um solo com overdubs em estúdio com guitarras e violões. Nota 10
• Animato (ECM 1989). Lembra um pouco Timeless, pois é um trio guitarra/teclados/bateria. Neste, são Vince Mendoza e Peter Erskine.
• November (ECM 1992). Muito bom, principalmente pela combinação do sax barítono e clarineta baixo de John Surman. O disco é bem distribuído em termos de autoria. Os destaques são J.S. (John Abercrombie), Rght Brain Patrol (Marc Johnson) e Rise and Fall (Peter Erskine).

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O jazz se encanta com Pavane pour une infante défunte, de Maurice Ravel

Maurice Ravel e seu piano



Pavane é composição da juventude; fora composta quando ainda era estudante. Como outras dezenas, fora feita originalmente para o piano e, depois, feita uma versão orquestral pelo próprio Ravel. Nesse quesito sempre foi um mestre; basta ouvir a transposição para orquestra que fizera de uma obra alheia: Quadros de Uma Exposição, de Mussorgsky.

Não deve ter havido peça mais maltratada do que a conhecida como “Ode à Alegria”, que corresponde ao último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, por intérpretes da música popular. Perpetraram versões “pop”, virou hino e tema de encerramento de eventos esportivos etc. Lembro de uma versão da Ode à Alegria lançada no fim da década de 1960 – ou será início dos 1970? – que atingiu sucesso estrondoso. Beethoven e Schiller mereciam um pouco mais de consideração. Perto do que foi feito, a versão “elétrica” do tecladista Walter Carlos, mais tarde, Wendy Carlos, para o filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, era refresco. No entanto, Beethoven não foi a única vítima dos intérpretes da música popular: tanto Mozart como Chopin e Richard Strauss tiveram suas músicas “vulgarizadas” para o gosto da patuleia. Esse tipo de “popularização” faz com que alguns incorram em casos parecidos à de uma amiga que, ouvindo um pedaço da Ode à Alegria, no original, disse: “oh, é a música do Laranja Mecânica!”. Beethoven não estava no seu repertório de conhecimentos.

Considerando-se alguns desses casos, pode-se dizer que Ravel foi mais respeitado. Há muito está no repertório dos jazzistas. Para o piano, é natural, pois muitos desses instrumentistas tiveram aprendizado clássico e conhecem bem música erudita. Mas não é só no piano que ela tem sido interpretada. A primeira que devo ter ouvido é uma de Larry Coryell, no álbum The Restfull Mind (Vanguard, 1974). Dos discos de Coryell, esse e Spaces (Vanguard, 1969) estão entre os melhores que gravou. The Restfull Mind é quase um disco da banda Oregon, com o acréscimo de Coryell; o único ausente do Oregon é o saxofonista e clarinetista Paul McCandless (os outros são Ralph Towner, o percussionista Colin Walcott e o baixista Glen Moore). Para que tenha atingido o estado de arte, a participação de Ralph Towner foi essencial. Excelente violonista, melhor até que Coryell, tecnicamente, “inaugurou” duos de violão que fez com o belga Philip Catherine e, mais tarde, com John McLaughlin, Al DiMeola e Paco de Lucia. Sem tirar o mérito de Coryell, responsável pela totalidade das composições e arranjos sobre obras de Ravel e do, relativamente obscuro Robert De Visée, instrumentista e compositor da corte de Luís XVI, Towner é corresponsável pela qualidade de The Restfull Mind. A Pavane de Ravel é um duo de Towner e Coryell, com arranjos do último.

Dentre as interpretações que conheço, além dessa, de Coryell, há outra no CD, com o título da peça de Ravel vertida para o inglês – Pavane for a Dead Princess (Venus Records, 2006) –, pelo pianista Steve Kuhn, tendo como sidemen o baixista David Finck e o baterista Billy Drummond. O tema recebe uma interpretação jazzística mesmo, em que Kuhn não se limita às notas originais. É interessante, mas nada de excepcional.

Os que estão acostumados a ouvir a Pavane em seu desenho original, apenas ao piano, ou na sublime versão orquestral não ficarão assustados ou mortificados e, muito menos, rogarão alguma praga em Art Farmer por sua interpretação que está contida em Big Blue (CTI, 1979). Acompanhado pela guitarra bela e econômica de Jim Hall, o vibrafone (essencial para o “clima”) de Mike Manieri, Mike Moore no baixo, e Steve Gadd na bateria, apesar dos improvisos e solos de praxe das improvisações jazzísticas, mantém-se no clima algo etéreo e evocativo da composição original.

Uma quarta interpretação da Pavane por alguém ligado ao jazz é a de Branford Marsalis em Creation (CBS, 2001). Esse álbum é dedicado apenas a composições eruditas de Ravel, Debussy, Fauré, Satie, Jacques Irert e Darius Milhaud, interpretadas por Branford nos saxes e a Orpheus Chamber Orchestra. A Pavane de Marsalis é fiel à original, arranjada para sax soprano.

A ligação mais incontestável com o jazz da Pavane está representada na música The Lamp Is Low. Essa composição da década de 1930 foi composta por Peter DeRose e Bert Schaffer com letras de Mitchell Parish e é uma adaptação dessa composição. Foi cantada pela primeira vez por Mildred Bailey e, posteriormente, por Frank Sinatra, Johnny Hartman, Carmen McRae, Doris Day e Ella Fitzgerald (são as que conheço).

Ouça Pavane for a Dead Princess com Larry Coryell.

A Pavane com Branford Marsalis é com ele no sax soprano, com a Orpheus Chamber Orchestra. Ouça.

Uma interpretação da Pavane, muito boa, é a do genial e discreto pianista Steve Kuhn.

Ouça a de Art Farmer. É de uma sonoridade rica, com guitarra de Jim Hall, e vibrafone, captando toda a magia hipnótica da música de Maurice Ravel.