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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Torquato Neto às três da madrugada

O anjo torto Torquato

Agora, com o horário de verão, três da madrugada serão quatro. A diferença não vai estragar a poesia dessa letra “Três da madrugada/ Quase nada/ Na cidade abandonada/ Nessa rua que não tem mais fim/ três da madrugada/ tudo é nada/ a cidade abandonada/ e essa rua não tem mais/ nada de mim.../ nada/ noite alta madrugada/ na cidade que me guarda/ e esta cidade me mata/ de saudade/ é sempre assim.../ triste madrugada/ tudo é nada/ minha alegria cansada/ e a mão fria mão gelada/ toca bem leve em mim/ saiba:/ meu pobre coração não vale nada/ pelas três da madrugada/ toda palavra calada/ nesta rua da cidade/ que não tem mais fim/ que não tem mais fim.”

Há dias que ando à procura do meu exemplar da primeira edição de Os Últimos Dias de Paupéria, livro organizado por Wally Salomão, de Torquato Neto. Como livro não tem asa e, raramente empresto livros, um dia, eu acho. Pelo menos, o compacto simples que vinha encartado está guardado. Eram duas músicas, uma em cada lado. As duas são composições de Carlos Pinto com letras de Torquato Neto: Três da Madrugada, cantada por Gal Costa, e Todo Dia É Dia D, com Gilberto Gil. Ficaram inéditas em CD por muito tempo. A gravadora Dubas, de Ronaldo Bastos, lançou uma coletânea de composições do poeta e escritor piauiense, em 2002, trinta anos após a sua morte. Estão lá.

Todo Dia É Dia D é excepcional, mas Três da Madrugada, com Gal no vocal e o violão econômico e “duro” de Gilberto Gil, é mais que excepcional. Gal foi ficando fanha de tanto eu ouvir o disquinho: sua voz foi sendo dilapidada pelo diamante da agulha Shure da minha picape Technics.

O livro com o disco havia sido lançado em 1973. Imagine então o tempo de espera até que fosse lançada a versão em CD, com a voz de Gal, limpa como era na primeira vez em que ouvi no compacto simples. Nesse meio tempo, a banda paulista meio jazz, meio qualquer coisa, mas de gosto apuradíssimo na escolha do repertório, o Nouvelle Cuisine, cantou Três da Madrugada. É uma interpretação também excepcional. Está em Novovelho, lançado pelo selo Eldorado, em 1995. A voz de Carlos Fernando está fazendo falta. Há muito não grava nada, até onde sei.


Algumas palavras sobre Torquato
Daqui a pouco, no dia 10 de novembro, fará 40 anos que Torquato se matou, um dia depois de fazer 28 anos. No bilhete que deixou, pede que “não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar.” Thiago era o filho pequeno, que tinha apenas dois anos.

Uma das mais belas e breves parcerias foi com Edu Lobo. Pra Dizer Adeus foi gravada em 1967 no LP Edu e Bethânia (1967). Ouça.



 Lembro de Caetano contar a história de como inspirou-se para compor Cajuína em um show. É o nome de uma bebida vendida engarrafada no Nordeste. Não é gaseificada, pois então, imagino que não seja considerada refrigerante. Não lembrava dos detalhes e procurei alguma referência em Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1997). Passei página por página, e nada. Recorri à internet e no blogue de Jorge Bastos Moreno há um relato do compositor sobre como surgiu a canção. Quem quiser lê-lo na íntegra, está disponibilizado em http://glo.bo/RNQB8P. Vou dar uma resumida. Cajuína foi composta depois de um encontro de Caetano com o dr. Eli, pai de Torquato, em um hotel em Teresina, anos após a morte dele.


Torquato chegou a morar na Bahia e foi um dos nomes importantes no disco Panis et Circensis, sendo autor de várias letras. Tudo era mais “quente” naquele tempo e andaram se estranhando – Caetano e Torquato. O piauiense andou disparando sua metralhadora giratória verbal para todos os lados e terminou por se distanciar de muitos amigos. Caetano, quando soube da morte de Torquato, ficou abalada, mas não chorou. “Me senti um tanto amargo e triste, mas pouco sentimental.”

Quando, anos depois, encontrei o dr. Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar. Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.”


Ouça Três da Madrugada, com Gal Costa.




E na bela interpretação de Carlos Fernando, com o Nouvelle Cuisine.



PS: achei o livro. Estava na minha estante com as publicações relacionadas à música e ao cinema, que fica no banheiro social. Estava na fileira “do cinema”. Um trecho que sublinhei: “Uma palavra é mais do que uma palavra, além de uma cilada. […] As palavras inutilizadas são armas mortas e a linguagem de ontem impõe a ordem de hoje. A imagem de um cogumelo atômico informa por inteiro seu próprio significado, suas ruínas, as palavras arrebentadas, os becos, as ciladas.” (in “Marcha à revisão”, pág. 23. Torquato Neto. Últimos Dias de Paupéria. Editora Livraria Eldorado Tijuca, Rio de Janeiro, 1973)

quinta-feira, 22 de março de 2012

A mais bela mulher solitária





Um dos belos momentos que presenciei foi quando Ornette Coleman começou a tocar Lonely Woman às escuras, sem amplificação, em um teatro com quase mil pessoas. Houve uma súbita interrupção de luz no Teatro Sesc-Pinheiros. Foi coisa de uns quinze minutos, creio. (sobre a apresentação, leia “A luz de Ornette Coleman”)

Lonely Woman é O clássico de Ornette Coleman, com “o” maiúsculo, como se dizia antigamente. É a mais conhecida desse saxofonista alto, célebre por ser considerado um dos inventores do que é conhecido como “free jazz”. Teve um início de carreira atribulado, com vários críticos musicais detratando sua capacidade como instrumentista.

O que é novo assusta, e Ornette era uma novidade, considerado por alguns, um iconoclasta. E, ousando mais, de vez em quando, “empunhava” um saxofone de plástico branco. Bem, Charlie Parker também andou tocando em saxes de plástico, portanto, não era por aí que a coisa estava “pegando”. Mas o som de Ornette era meio áspero, nervoso e anguloso, bem diferente do bebop e hardbop, estilos em voga. Mesmo assim, não se pode dizer que os caminhos para a propagação de sua música tenham sido dificultados. Nunca gravou por selos obscuros e, apesar de alguns companheiros o acharem um tanto desafinado, o maestro e compositor Leonard Bernstein o considerava um gênio. Em 1958, lançou Something Else!!! The Music of Ornette Coleman pelo selo Contemporary. Tem um primeiro clássico lá: The Sphinx.

Logo mais assinou com a Atlantic Records, a mesma que havia acabado de contratar John Coltrane. Este, em pouco mais de dois anos gravou Giant Steps, Coltrane Jazz, My Favorite Things, Coltrane’s Sound, Plays the Blues e Olé Coltrane, além de The Avant-Garde, com o trumpetista de Coleman, Don Cherry.

Os títulos dos álbuns de Coleman eram bombásticos; tinham apelo e, de algum modo, anunciavam ao que vinham: Tomorrow Is the Question, The Shape of Jazz to Come, Change of the Century, os três lançados em 1959, e Free Jazz, em 1960. Nesse, “arregaçou”: juntou dois quartetos, um em cada canal do estéreo tocando temas diferentes. Coleman foi radicalizando; passou a tocar trumpete e violino também. Juntou-se a “tribos estranhas” (músicos de rock – do Grateful Dead – e do funk) e com os marroquinos da Master Musicians of Jajouka. Na faixa que abre Dancing in Your Head – Theme from a Symphony –, repete indefinidamente o mesmo motivo por uns vinte minutos, com duas guitarras, um baixo e uma bateria, e é claro, o som de seu saxofone alto. A faixa com os marroquinos é uma coisa muito estranha: um “mexido” de instrumentos de sopro e percussão, com Ornette improvisando em cima. É uma coisa frenética, quase tanto quanto a primeira faixa.

Em 2006, ganhou o prêmio Pulitzer de Música. Sinal de que seus detratores erraram em suas avaliações. Leonard Bernstein estava certo.

Lonely Woman está no álbum The Shape of Jazz to Come (Atlantic, 1959). É um dos standards do jazz. Quem mais gravou foi, justamente, Charlie Haden, baixista por muito tempo de Coleman: Etudes (Soul Note, 1988), com Paul Motian e a pianista Geri Allen, The Montreal Tapes (Verve, 1989), com Paul Motian e Gonzalo Rubalcaba, e também, com o quarteto Old & New Dreams (Haden, Dewey Redman, Don Cherry e Ed Blackwell). Esta é uma das mais belas “mulheres solitárias”, na minha opinião. É a que você ouve a seguir.




Além de Haden, há várias gravações no piano: Oliver Jones e Hank Jones (Pleased to Meet You), Denny Zeitlin (Live at The Trident), Stephen Scott (The Beautiful Thing); com saxofone (Gary Bartz e Sonny Fortune, em Alto Memories), e guitarristas (Andy Summers, em The Last Dance of Mr. X, e com James Blood Ulmer, em Music Speaks Louder Than Words). Existe uma interpretação excepcional do Modern Jazz Quartet, disponibilizado adiante para audição. Das mais recentes, destaca-se o duo no piano de Brad Mehldau e Kevin Hays, em Modern Music (ouça e leia sobre, em “Brad Mehldau e Kevin Hays ao piano”)

Uma bela música como essa, naturalmente, entraria no repertório dos cantores. A letra, de Margo Guryan, é de 1960. Foi cantada por Helen Merrill (Shade of Difference, 1968) e há uma interpretação bem interessante dos brasileiros do Nouvelle Cuisine. Apesar de certos maneirismos vocais, Carlos Fernando é um grande intérprete.




Um detalhe importante: o Lonely Woman de Ornette Coleman não é a única com esse nome. Um dos homônimos é a de Horace Silver  – existe uma boa gravação com Dee Dee Bridgewater em Love and Peace (1995), e outra, com Pat Metheny, em Rejoicing (1984). O segundo com o mesmo nome é de Benny Carter e Ray Sonin. Conheço apenas na interpretação de June Christy e Stan Kenton ao piano.


O Lonely Woman original.




Ouça Lonely Woman na bela interpretação do Modern Jazz Quartet.