terça-feira, 4 de outubro de 2016

Charenée Wade e a alta voltagem da música de Gil Scott-Heron

Das três primeiras colocadas no Thelonious Monk International Jazz Vocalist Competition de 2010, a menos conhecida, por enquanto, é Charenée Wade. Ficou em segundo, com a estupenda Cécile McLorin Salvant em primeiro e Cyrille Aimée completando a lista. Mas a hora dela chegou.

Gil Scott-Heron, falecido em 2011, foi um gênio rebelde, com altos e baixos em razão de seus problemas com as drogas, principalmente. Foi preso mais de uma vez. Fugiu de uma clínica de reabilitação alegando que não estavam lhe dando remédios para o tratamento de HIV. Até então, não se sabia que Heron era soropositivo. Isso se confirmou posteriormente. O autor de “The Revolution Will Not Be Televised” foi uma artista fora da curva. Quando estudante na Lincoln University, Pensilvânia, seu herói era o poeta Langston Hughes, negro, homossexual e comunista. Além de músico, é autor dos romances “The Vulture” e “Nigger Factory”. Seu interesse pela literatura e pela luta dos negros contra o domínio da cultura branca influenciaram na sua forma de fazer música. Inicialmente classificado como autor que em suas canções mesclava o jazz, o soul e o blues, Scott-Heron introduziu o canto falado, quase sempre em tom de manifesto. Nesse sentido pode-se dizer que é um dos pioneiros do rap.

Conheci Scott-Heron ao ouvir o LP “Real Eyes”, em 1980, na casa em que o Hilton Raw dividia com o Arnaldo Black e o Aaron (esqueci o sobrenome). O Hilton estava fascinado por ele e o apelidou de “Sócrates da música”, em alusão à semelhança dele na imagem da contracapa do disco com o jogador. Acho que referia-se também à categoria de ambos em suas especialidades. Por coincidência, os dois morreram no mesmo ano: 2011. Um abusou das drogas, e o outro, do álcool.

Na capa, Gil aparecia com um bebê, sorridente e feliz. Devia estar em uma fase pacificada com a vida. Conheci um Gil diferente do que descobri mais tarde. A curiosidade me fez procurar outros discos, os anteriores ao “Real Eyes”. Um deles me impressionou bastante. “From South Africa to South Carolina” (Arista, 1975), com Brian Jackson.

Uma revelação

A quatro anos atrás, Mark Ruffin estava trabalhando com o cantor Giacomo Gates em um álbum com material de Scott-Heron. Como o lançamento de “Revolution Will Be Jazz: The Songs of Gil Scott-Heron” coincidiu com a morte dele, o álbum foi erradamente interpretado como um tributo.

Apesar da grande qualidade do álbum de Gates, um dos melhores cantores de jazz da atualidade, Ruffin planejava um outro que fosse realmente um tributo póstumo. O ponto de partida foi Charenée. A tônica foi sobre a parceria de Scott-Heron com Brian Jackson. Foi escolhido um time de grandes músicos, incluindo o vibrafonista Stefon Harris, o guitarrista Dave Stryker, o pianista Brandon Kune, o baixista Lonnie Plaxico e o baterista Alvester Garnett, além das participações especiais de Lakecia Benjamin no sax alto, Marcus Miller na clarineta baixo e Malcoln-Jamal Warner na declamação em “Essex Martin, Grant, Byrd & Till”, e o baixista Christian Bride na declamação de “Peace, Go with You, Brother”.

Lançado pelo selo Motéma, “Offering: The Music of Gil Scott-Heron & Brian Jackson”. Christopher Loudon, da JazzTimes, compara a voz de Wade à “flexibilidade [vocal] de Dianne Reeves com o espírito de Abbey Lincoln.” Boa lembrança: Lincoln é um dos nomes mais importantes da música de protesto, com o álbum “We Insist!”, com o então marido, o baterista Max Roach.

Wade tem a perfeita consciência do que Scott-Heron representa na sociedade americana. Nas liner notes, refere-se a “questões que ainda precisam ser abordadas hoje. […] mesmo à luz de alguns progressos que nos foi proporcionado pelo milagre do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ainda há muitas lutas que revelam o nosso trabalho que ainda não foi realizado.”

Com a consciência de seu lugar no mundo, sendo artista, sua maior qualidade é a de ser um mensageiro por meio de sua arte. Seu grande valor está em interpretar a poesia de Scott-Heron de modo que transcenda o panfletário. Ela se faz por meio de uma voz privilegiada, arranjos engenhosos de Wade que combinam energia e lirismo, doces mas incisivos. Ainda vamos ouvir bastante o seu nome. O reconhecimento já está chegando. Além de várias crítica elogiosas, ficou entre os 20 melhores lançamentos na lista da “64th Critics Poll”, da Downbeat.

Ouça “Song of the Wind”. Destaque para o vibrafone de Stefon Harris.




Ouça também “Ain’t No Such Thing As Superman”.




Outro destaque é “A Toast to the People”.




Ouça a original, com Gil Scott-Heron.




Clique aqui para ouvir o álbum na íntegra.