quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A peça que o destino aplicou em Eva Cassidy

Quando, finalmente, o mundo poderia saber quem era Eva Cassidy, o destino pregou-lhe um peça. Foi ao médico por causa de uma dor persistente no quadril. Constataram um melanoma nas costas. Isso foi nos primeiros meses de 1996. Morreu em novembro.

Conhecida apenas localmente, na região de Washington D.C. tocando em bares e clubes, juntou um dinheiro para a gravação de duas apresentações programadas para os primeiros dias de janeiro de 1996. Bill Straw, dono da Blix Street Records, lançou Live at Blues Alley, com treze canções pinçadas dos shows. Das escolhidas, incluíam-se standards do jazz como Cheek to Cheek, Stormy Monday, Fine and Mellow, Blue Skies, Autumn Leaves, Honeysuckle Rose e What a Wonderful World; além delas, números do cancioneiro popular como Bridge Over Troubled Water, de Paul Simon, Take Me to the River, de Al Green, Fields of Gold, de Sting, e People Get Ready, de Curtis Mayfield. Em princípio, considere-se que era uma salada mista. De fato. Era a demonstração do ecletismo de Eva. Não era jazz, pop, rhythm’n’blues, blues, gospel, country ou rock; era uma fusão de gêneros muito bem engendrada por ela e uma banda, apresentando uma síntese da música americana. Não importa que Sting seja inglês ou Joseph Kozma, franco-húngaro. Vai no bojo dos argumentos.

Quase 30 anos depois da sua morte, a mesma Blix Street Records lança um álbum duplo com 33 músicas, 20 a mais que o original de 1996 do memorável show no Blues Alley. Algumas das canções tinham sido lançadas em coletâneas organizadas depois de seu falecimento, mas vale pelo conjunto do que foi tocado no clube.

Das 30 a mais, destacam-se temas conhecidos nas vozes de Aretha Franklin (Chain of Fools), Son of a Preacher Man (Dusty Springfield), Fever (Peggy Lee), Time After Time (Cindy Lauper), e Late in the Evening (Paul Simon), dentre outros.

Sting, quando ouviu sua composição Fields of Gold, emocionou-se. É provavelmente o que acontece com qualquer um ao ouvir Eva pela primeira vez. Não a conhecia até um amigo, o Alberico Clento, dizer que havia ganhado de presente de uma prima que viera um disco seu. Ao ouví-la, depois disso, fiquei interessado em conhecê-la melhor. Cassidy canta com muita propriedade qualquer gênero. Suas interpretações são naturais, como se tivessem sido compostas especialmente para ela. O lançamento do álbum Nighbird é um acontecimento. Se estivesse viva, estaria desfrutando do sucesso merecido. Eva morreu aos 33. Muito cedo para morrer.

Ouça algumas interpretações de Nightbird

Fields of Gold, que emocionou seu autor.



Outro clássico moderno: Ain’t No Sunshine, de Bill Withers.



Versão mortal de Take Me to the River, de Al Green.



Existem alguns vídeos de Eva no YouTube da apresentação no Blues Alley. Aliás, Nightbird vem com dois CDs e um DVD. Veja-a cantando Autumn Leaves.



Nightbird, que dá título ao disco.



Time After Time.



A fenomenal People Get Ready, de Curtis Mayfield.




terça-feira, 17 de novembro de 2015

Allen Toussaint, o músico dos músicos

No último dia 10, Allen Toussaint sofreu um ataque de coração no hotel, em Madri, e não resistiu. Excursionava pela Europa e tinha um show marcado com Paul Simon no começo de dezembro com renda a ser revertida para a New Orleans Artists Against Hunger and Homelessness, organização de caridade da qual Toussaint foi um dos fundadores.

Toussaint ganhou reconhecimento tardio, mas do público. Era venerado pelos músicos por seu trabalho como produtor, diretor musical e compositor, bem antes de lançar From a Whisper to a Scream. seu primeiro álbum como líder. Isso foi em 1970. Sua estreia no mundo do disco, no entanto, havia se dado em 1958 com The Crazy World of New Orleans, assinando como Al Tousan. Os Rolling Stones, Aaron Neville, The Yardbirds, Irma Thomas, Oti Redding, dentre outros, gravaram suas composições. Era um cara de bastidores e ajudava não ser conhecido assinar suas músicas como Naomi Neville, o nome de sua mãe.

Era de New Orleans. Diferentemente de outros nativos da terra do dixieland, de Louis Armstrong e do clã Marsalis, seu gosto inclinava-se ao rhythm’n’blues, consequentemente, ao rock e ao funk. Ao lançar The Crazy World of New Orleans, todo instrumental, Allen mostrava ao que tinha vindo. Em vez de continuar a gravar, aceitou um convite para ser A&R do selo Minit. Foi produtor de inúmeros sucessos e emplacou várias composições neste selo e no seguinte, que foi criado por ele e o produtor Marshall Sehorn. Na década de 1970, quando lançou Toussaint, relançado como From a Whisper to a Scream, participou, como produtor principalmente, e também como arranjador de álbuns de Paul McCartney, Dr. John, The Band, John Mayall, Etta James, Patti Labelle, dentre outros.


O legado
The Bright Mississippi é um dos grandes álbuns de Toussaint. Lançado em 2009 por uma gravadora maior, a Nonesuch, serve como síntese de sua genialidade em um álbum que se inclina mais ao jazz do que a outros ritmos.

O lançamento do discoi foi acompanhado de críticas entusiasmadas. Menos rhythm’n’blues e mais jazz, mesmo assim, Toussaint, afirmava suas raízes. Afinal, New Orleans é a terra de Louis Armstrong, Lil Harding, genial pianista e compositora uma das mulheres do trompetista, o berço do ragtime, que teve como expressões Buddy Bolden, Sidney Bechet e Jelly Roll Morton.

Allen, ao piano e nos vocais (em Long, Long Journey) e um conjunto estelar do qual participam Don Byron, Marc Ribot, David Piltch, Jay Bellrose e Nicholas Payton fizeram um disco excepcional, delicioso, quente e contagiante. Seu piano é o eixo. O violão de Ribot relembra o estilo de Django Reinhardt e de ritmistas como Freddie Green. O trompete de Payton, este, natural de New Orleans, e a clarineta de Don Byron, em conjunto com o contrabaixo bem marcado de Piltch e a bateria de Bellrose rememoram temas caros como West End Blues, de King Oliver, St. James Infirmary, e Egyptian Fantasy, de Sidney Bechet.

Ouça Egyptian Fantasy, a primeira do disco.




Ouça St. James Infirmary.




The Bright Mississippi conta com participações especiais em dois números: Brad Mehldau em Winin' Boy Blues, de Jelly Roll Morton, e Joshua Redman Daydream, de Billy Strayhorn e Duke Ellington.

Ouça o duo de Mehldau e Tossaint. Belíssimo.



O sax tenor de Joshua Redman e o piano de Toussaint.



O piano de Allen Toussaint era realmente especial, não? Sua elegância não era apenas no vestir. Toussaint era a própria expressão da elegância.