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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Haydn por Paul Lewis e “concorrentes” de peso

Após ouvir o novíssimo lançamento com Paul Lewis tocando as “Sonatas de Piano Hob. XVI:32, 40, 49 e 50” (as numerações confundem, pois alguns as nomeiam pelo número e outros pela catalogação chamada Hoboken, feita por Anthony von Hoboken), penso quem pode ser o meu intérprete preferido dessas sonatas do Haydn. O inglês é um dos meus candidatos, com certeza.

Por alguma obsessão (patológica?), ponho-me a ouvir durante dias as mesmas peças tocadas por diferentes intérpretes. Há algum encanto, além da genialidade mais que afirmada no decorrer da história de Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, Schubert, Schumann, Haydn e outros, que é a de ser executada exaustivamente por músicos igualmente talentosos, e cada interpretação ser diferente da outra. Na música erudita não serve a expressão “cover”, ou “versão”, se traduzida para o português.

Os olhos azuis penetrantes de Paul Lewis
Antes de mais nada, devo ressaltar que nunca tive algum aprendizado formal em música, fora um semestre que resolvi estudar no Conservatório, depois dos 20 anos, que apenas confirmou minha falta de jeito para a coisa. Mal leio as notas de uma partitura. Não escrevo, portanto, como um expert em música erudita, e sim, mais como um ouvinte atencioso. Minhas avaliações são “gosto mais dessa do que daquela”. Se me perguntarem por que gostei de certa interpretação, responderei: “Porque emociona.”

Minha preferência mais antiga, quando se trata das sonatas para piano de Joseph Haydn, é a de Alfred Brendel.

Algo enervante era ficar a ouvir estalidos de estática e riscos nos antigos discos de vinil. Quando surgiram os CDs, privilegiei os de música erudita. Meus Led Zeppelin, Rolling Stones em formato LP poderiam esperar para serem substituídos pela nova mídia.

Um dos primeiros que comprei foi justamente de Brendel tocando três sonatas de Haydn, que tinha passado a ser um dos meus preferidos depois que comprei um LP com as últimas sonatas de Franz Schubert.  Não havia uma grande oferta de álbuns com as sonatas dele. Encantado por elas, passei a procurá-las e nem estava preocupado de ser por algum pianista mais famoso. Achei um CD de Emanuel Ax, da Sony. Nem o conhecia. A aposta foi acertada. Ax é um tremendo pianista. Recentemente, com Leonidas Kavakos e Yo-Yo Ma, gravou um grande CD com os trios de piano de Johannes Brahms.

Alfred Brendel pensa na vida
Hoje, há uma boa oferta de títulos com as sonatas de Haydn, e todos, sem exceção, são muito bons e aí vai pelo gosto do ouvinte. Há uma integral pela Warner, com dez CDs, de Rudolph Buchbinder, de Ax, que foi citado no parágrafo anterior, um album com tquatro CDs – três com sonatas e um com dois concertos. András Schiff tem dois álbuns. Este é um dos grandes pianistas da atualidade. Depois de longa jornada na Decca, está na ECM, fazendo novas leituras de vários autores que tinha gravado antes. Dentre os novos registros incluem-se Bach, integral das sonatas de Beethoven, e Schubert.

Dos pianistas do segundo andar – expressão do meu amigo para os que já morreram –, Sviatoslav reina no céu com grandes gravações. Como gosto é gosto e não se discute; apenas se lamenta, li em algum lugar alguém descendo a lenha em sua interpretação do “Cravo Bem Temperado”, de Johann Sebastian Bach. Na minha proverbial ignorância, adoro. O único problema é que fico tonto com o “prestissimo” que imprime no “2º Prelúdio” do “Livro 1”. Concorre com o de Hélène Grimaud, tão “presto” quanto. Seus registro estão dispersos em gravações ao vivo – naquele tempo, não estava tão fácil para os russos gravarem em selos ocidentais. Acho que estão em catálogo dois muito bons pela Decca. Há um outro na coleção “Richter – Authorizing Recordings”, da Philips.

Outro do segundo andar, falecido muito jovem, é Glenn Gould. Amado e odiado, vai, é um gênio. Suas leituras de Bach marcaram o universo da música. Quem assistiu a um documentário mostrando sua visita à antiga União Soviética viu, que além dos russos que o ouviram nas salas de concerto, era um revolucionário, não na acepção Lenin/Stalin/Kruschev. Foi o primeiro ocidental da América do Norte a pisar em terras soviéticas. Sem armas, apenas com as mãos, fez a sua revolução: mexeu com os cânones artísticos vigentes de uma terra que se orgulhava de sua tradição.

Pouco mais de uma década após o fim da Segunda Guerra e a maior transformação da geopolítica da história, mais exatamente em 1957, os russos viram com desconfiança a vinda de um “invasor”. Na primeira apresentação, poucos ursos pardos acomodaram-se em suas poltronas. Bastou a primeira parte para que a novidade de se espalhasse como rastilho, pelos que lá estavam. Mais ursos pardos foram chegando para ouvir aquele alienígena. No fim da apresentação, a sala estava cheia. E nem tinha sanduíche de mortadela e um copo de suco Tang. Foram por vontade própria. E também não era um público qualquer: em sua maioria, músicos e instrumentistas. Nas apresentações posteriores, as salas ficaram lotadas. Gould parecia um espião que saiu do frio – ou melhor, entrou, pois nunca saiu –, vestindo sempre pesados sobretudos, cachecóis, boinas e luvas. Pela temperatura, estava em seu habitat.

Sendo tão paradigma da obra de Bach para teclado, um pouco decepcionado depois de comprar dois CDs duplos com as sonatas de piano de Mozart, passei a ter receio de ouvi-lo a tocar outros compositores. Podemos achar, mas nunca fincarmos nossas convicções em alguma avaliação passível de modificar-se. Acabei comprando uma caixa com dois Cds com as tais sonatas de Haydn. Surpreendeu. É diferente de tudo. Por onde pisa, deixa a sua marca. É o que se percebe na “Sonata no. 50, Hob XVI:60”. Lembra o seu Bach. Foge daquele “romantismo” de um Horowitz, por exemplo. Ele é seco. Sua mão esquerda marca as notas com toques muito definidos. Ouve-se cada uma delas separada, mesmo em tempos mais rápidos. O lento é preenchido pelo silêncio e o acelerado é percebido em cada passada – ou melhor, nota – tão definida, com pouco uso de pedal. Gould foi único. Depois de sua morte, alguns o viram como um simples mortal, ou quiseram. Thomas Bernhard, ao escrever “O Náufrago”, apenas confirmou a sua genialidade.

Para se comparar, ouça Alfred Brendel o segundo movimento “Adagio e cantabile”, da “Sonata 59, Hob XVI:48”.



Glenn Gould, no mesmo movimento da mesma sonata. Compare.




Jean-Efflam Bavouzet pensando em Haydn
Novas gerações
Há uma turma de pianistas excepcionais com excepcionais abordagens das sonatas de Haydn. Um é Andreas Staier, que gravou em um pianoforte fabricado nos anos 1989, a partir de um original de Anton Walter, de 1790. É bem interessante, pois resgata a sonoridade do piano da época do austríaco, menos potente que o da atualidade. Outra ótima é a de Marc-André Hamelin, com as sonatas 23, 24, 32, 37, 40, 41, 43, 46, 50, 52. Está entre as melhores, na minha opinião de leigo.

Uma das minhas preferidas das “Sonatas” é a de número 50, Hob XVI: 60. Veja o segundo e terceiro movimentos, com Hamelin.




O mesmo Adagio, com Alfred Brendel. Compare.



Outro com um bom álbum simplesmente chamado “Sonatas” (Hob XVI:10, 31, 35, 37, 43) é o conterrâneo do escritor Omar Pamuk, Fazil Say. Sai da curva dos virtuoses. É compositor também, algo raro dentre eles. Tem uma pegada enérgica, “sin perder la ternura”, como demonstra tocando os “Noturnos” (Warner Classics, 2017), de Frederic Chopin.

A crítica tem incensado as interpretações de Jean-Efflam Bazouvet. Lançou em 2012, em cinco volumes, pela Chandos. As “Sonatas” de Haydn não chegam à “cerebralidade” de últimas de Beethoven. São anteriores às dele. São geralmente mais curtas; possuem dois ou até três movimentos. Possuem a leveza e beleza lírica de seu quase contemporâneo Mozart, que nasceu depois de Haydn e morreu antes de seu longevo conterrâneo. Bavouzet compreendeu muito bem esse espírito.

Ouça a Sonata no. 50 Hob XVI:37, com Bazouvet.




Só faltou dizer algo mais do Haydn de Paul Lewis. Depois de ouvir “Sonata” (Harmonia Mundi, 2006), com obras de Beethoven, Schubert e Liszt, liguei para o meu amigo Carlos Guena para dividir meu entusiasmo pela novidade. Nem sei a diferença de um lá menor de um dó maior, mas sou um apaixonado por música. Sou um simples amante dessa arte. Ao ouvir sua interpretação da “Sonata no. 20, D 959”, de Schubert, pensei: “Que maravilha!” Não estava longe do senso comum. Lewis, hoje, é reconhecido como os melhores gigantes deste início de século. Não é pouco perto do número de virtuoses do piano. Gravou depois, Beethoven – a integral das sonatas, os cinco concertos –, Schubert – sonatas e obras para dois pianos, Mussorgsky – “Quadros de Uma Exposição” –, Brahms – “Concerto no. 1” –,  e Liszt – “Sonata em Ré menor” e outras para piano.. Em maio, completa 46 anos. Tem um mundo pela frente. Sou fã. Deu para perceber?

Veja-o tocando o segundo movimento da “Sonata no. 54, Hob XVI:40”. Na legenda do vídeo está erroneamente registrado como Sonata no. 40. No primeiro parágrafo, escrevi que as numerações confundem. Não estava certo?


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Hélène Grimaud, o “Cravo Bem Temperado”, de Bach, e suas várias interpretações

Hélène Grimaud
Duas matérias recentes em O Estado de S.Paulo sobre Hélène Grimaud, por conta de apresentação na Sala São Paulo, em maio, trazem referência aos animais. O título de matéria/entrevista de João Luiz Sampaio (9/5/2013) é “Dança com lobos”. Grimaud, além de pianista, tem dois livros publicados e criou e cuida de uma fundação dedicada à preservação de lobos. Em outra, João Marcos Coelho (11/5/2013) inicia o texto da seguinte forma: “Além da beleza felina, a francesa Hélène Grimaud é uma pianista excepcional, que faz do palco a arena de saltos mortais sem rede.” Sendo mais direto, é uma gata, se bem que essa é uma expressão que está caindo em desuso.

A beleza é a primeira qualidade referida. Os versos iniciais de Retrato de mulher – “As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental. É preciso/ Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso” –, de Vinícius de Moraes, ditas e escritas de memória e ouvidas de outrem foram aliteradas e pouco distorcidas. No final, querem dizer a mesma coisa. Se beleza não é fundamental, pelo menos, ajuda, independente de gênero.

Hélène e os lobos
Mesmo em um mercado como o da música erudita, a beleza tem sido explorada. Vai longe o tempo de intérpretes geniais como Wanda Landowska, Ingrid Haebler, Birgitt Nilsson ou Montserrat Caballé, que não primavam pelos atributos físicos. Nem conta o fato de que Elisabeth Schwarzkopf, Martha Argerich e Kiri Te Kanawa fossem belas. É que tal predicado não era importante como chamariz para vender discos. O mundo sob a avalanche da exploração de celebridades e consumismos tornou-se mais frívolo. Intérpretes atuais como Anna Netrebko, Anne-Sofie Mutter, Anne Sophie Mutter, Sol Gabetta, Alison Balsom, e a própria Hélène Grimaud são talentosas e beleza entra como o chantilly do bolo.


Hélène Grimaud, Bach e uma comparação com outras interpretações
Num claro sinal de que estou ficando velho, tenho pouca curiosidade de conhecer novos intérpretes. Elegi meus preferidos e tendo a ouví-los ou sou obrigado em razão de tê-los disponíveis nas minhas prateleiras. Habitam-nas Sviatoslav Richter – falo de pianistas –, Glenn Gould, András Schiff, Willhem Kempff, Valdimir Ashkenazy, Walter Gieseking, Artur Schnabel, Alfred Brendel, Claudio Arrau, Arturo Benedetti Michelangeli, Maurizio Pollini, Maria João Pires, Martha Argerich, Nelson Freire, Radu Lupu e alguns outros. Acho que os meus preferidos estão entre os citados. Por insistência de um amigo, ouvi Lang Lang. Muito bom. Não sei se compraria um CD dele. Meu senso crítico, em relação à música, é limitado: passando de bom, para mim é ótimo.

Dois intérpretes mais jovens (dos com menos de 60), entretanto, me impressionaram: Grimaud e Paul Lewis. Nunca imaginei que um dia pudesse ouvir um Schubert melhor do que o de Richter e Brendel. Enganei-me. E não é só Schubert. Lewis é magistral executando Beethoven. Um terceiro nome interessante é o de Yuja Wang. A pequena chinesa – de novo a referência à beleza – se apresenta com roupas bem ousadas, curtas e (ou) decotadas. Quando a vi, usava um longo preto com um corte lateral de deixar qualquer cristão perturbado. Até hoje fico a pensar de como consegue usar os pedais do piano com aqueles sapatos com salto 15.

Grimaud é uma mulher de atitude. Foi muito noticiado o entrevero que teve com o Claudio Abbado. Maestros são como imperadores – ou ditadores? Suas ordens devem ser obedecidas e, pronto. Abbado foi o escolhido para suceder o “kaiser” Herbert von Karajan na Filarmônica de Berlim. Ficou pouco em razão de ter tido um câncer no estômago. Alguns dizem que foi por culpa dos músicos.

Pela gravidade da doença, não se imaginava, mas voltou e tem gravado bastante e, atualmente está à frente da Orquestra Mozart, de Bolonha. A história com HG aconteceu na gravação do Concerto nº 23 para Piano e Orquestra, de Mozart. Grimaud queria tocar a cadenza de Busoni e Abbado preferia a de Mozart. É raro pianistas criarem suas próprias cadenzas. Poucos têm essa capacidade improvisativa, tão comum no jazz. A francesa não foge à regra.

Abbado concordou e a registrada foi a escolhida por Grimaud. Depois que a orquestra foi dispensada, este pediu que ela gravasse a de Mozart, separadamente. Quando a Deutsche Grammophon enviou a gravação para a aprovação de Hélène, esta percebeu que a cadenza que escolhera fora substituída. Nos bateres de pés, o disco não saiu: disse que a parte do solista quem decidia, por direito, era ela.

Pegou mal para Abbado. Manchou a reputação do defensor do meio ambiente, criador de uma orquestra de jovens da Europa e ainda, historicamente ligado ao Partido Comunista Italiano. Bom, mas Abbado, apesar da fama de democrático, agiu como muitos de seus pares. Músicos têm relação problemática com maestros. É só lembrar do filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini, ou até dos problemas enfrentados por Roberto Minczuk com membros da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro.

A personalidade decidida de HG, de certo modo, se reproduz nos rubatos vigorosos de seu estilo de tocar. Impressiona a clareza de digitação, mesmo em andamentos rápidos. É uma coisa que fica muito evidente em sua interpretação do Prelúdio nº 2 do Cravo Bem Temperado, livro 1, que está no álbum Grimauld Plays Bach (DG, 2008).

Impressionado com o andamento rapidíssimo que imprime à peça. resolvi ouvir outras para comparar. Comecei pelo meu Cravo preferido (ela muda de tempos em tempos), que é o de Sviatoslav Richter. Para minha surpresa, a dele é tão rápida quanto. A próxima que ouvi foi a de Glenn Gould, meu intérprete preferido antes de conhecer a de Richter. É bem mais lenta e sincopada (devido à velocidade imprimida por Grimaud e Richter, os contrastes são menores). Conclusão: preciso voltar a ouvir o Cravo de Gould. Fala-se menos dele nos dias de hoje. Seus pontos de vista idiossincráticos resultaram em discussões apaixonadas. São conhecidas as polêmicas com o violinista Yehudi Menuhim e com o maestro e compositor Leonard Bernstein. Era um gênio e em relação à Bach é a referência. Suas gravações das Suítes Inglesas e Francesas são as melhores, na minha opinião.

Sempre em relação ao 2º Prelúdio e Fuga do Livro 1 de Bach, a de Edwin Fischer, de 1930 e tanto, é tão acelerada quanto a de Grimaud e de Richter. A diferença do tempo de gravação entre as três é de um segundo apenas, enquanto a de Gould a duração é de 4:08 minutos, e a de András Schiff, 3:36 minutos, e a do jazzista que se aventura no erudito Keith Jarrett, 3:18.

Para as comparações, ouça o Prelúdio tocado por Hélène Grimaud, e a seguir, a de Glenn Gould.


A de Grimaud.




A de Gould.




Veja HG interpretando o 4º Concerto para Piano e Orquestra, de Beethoven.