Por alguma obsessão (patológica?), ponho-me a ouvir durante dias as mesmas peças tocadas por diferentes intérpretes. Há algum encanto, além da genialidade mais que afirmada no decorrer da história de Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, Schubert, Schumann, Haydn e outros, que é a de ser executada exaustivamente por músicos igualmente talentosos, e cada interpretação ser diferente da outra. Na música erudita não serve a expressão “cover”, ou “versão”, se traduzida para o português.
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| Os olhos azuis penetrantes de Paul Lewis |
Minha preferência mais antiga, quando se trata das sonatas para piano de Joseph Haydn, é a de Alfred Brendel.
Algo enervante era ficar a ouvir estalidos de estática e riscos nos antigos discos de vinil. Quando surgiram os CDs, privilegiei os de música erudita. Meus Led Zeppelin, Rolling Stones em formato LP poderiam esperar para serem substituídos pela nova mídia.
Um dos primeiros que comprei foi justamente de Brendel tocando três sonatas de Haydn, que tinha passado a ser um dos meus preferidos depois que comprei um LP com as últimas sonatas de Franz Schubert. Não havia uma grande oferta de álbuns com as sonatas dele. Encantado por elas, passei a procurá-las e nem estava preocupado de ser por algum pianista mais famoso. Achei um CD de Emanuel Ax, da Sony. Nem o conhecia. A aposta foi acertada. Ax é um tremendo pianista. Recentemente, com Leonidas Kavakos e Yo-Yo Ma, gravou um grande CD com os trios de piano de Johannes Brahms.
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| Alfred Brendel pensa na vida |
Dos pianistas do segundo andar – expressão do meu amigo para os que já morreram –, Sviatoslav reina no céu com grandes gravações. Como gosto é gosto e não se discute; apenas se lamenta, li em algum lugar alguém descendo a lenha em sua interpretação do “Cravo Bem Temperado”, de Johann Sebastian Bach. Na minha proverbial ignorância, adoro. O único problema é que fico tonto com o “prestissimo” que imprime no “2º Prelúdio” do “Livro 1”. Concorre com o de Hélène Grimaud, tão “presto” quanto. Seus registro estão dispersos em gravações ao vivo – naquele tempo, não estava tão fácil para os russos gravarem em selos ocidentais. Acho que estão em catálogo dois muito bons pela Decca. Há um outro na coleção “Richter – Authorizing Recordings”, da Philips.
Outro do segundo andar, falecido muito jovem, é Glenn Gould. Amado e odiado, vai, é um gênio. Suas leituras de Bach marcaram o universo da música. Quem assistiu a um documentário mostrando sua visita à antiga União Soviética viu, que além dos russos que o ouviram nas salas de concerto, era um revolucionário, não na acepção Lenin/Stalin/Kruschev. Foi o primeiro ocidental da América do Norte a pisar em terras soviéticas. Sem armas, apenas com as mãos, fez a sua revolução: mexeu com os cânones artísticos vigentes de uma terra que se orgulhava de sua tradição.
Pouco mais de uma década após o fim da Segunda Guerra e a maior transformação da geopolítica da história, mais exatamente em 1957, os russos viram com desconfiança a vinda de um “invasor”. Na primeira apresentação, poucos ursos pardos acomodaram-se em suas poltronas. Bastou a primeira parte para que a novidade de se espalhasse como rastilho, pelos que lá estavam. Mais ursos pardos foram chegando para ouvir aquele alienígena. No fim da apresentação, a sala estava cheia. E nem tinha sanduíche de mortadela e um copo de suco Tang. Foram por vontade própria. E também não era um público qualquer: em sua maioria, músicos e instrumentistas. Nas apresentações posteriores, as salas ficaram lotadas. Gould parecia um espião que saiu do frio – ou melhor, entrou, pois nunca saiu –, vestindo sempre pesados sobretudos, cachecóis, boinas e luvas. Pela temperatura, estava em seu habitat.
Sendo tão paradigma da obra de Bach para teclado, um pouco decepcionado depois de comprar dois CDs duplos com as sonatas de piano de Mozart, passei a ter receio de ouvi-lo a tocar outros compositores. Podemos achar, mas nunca fincarmos nossas convicções em alguma avaliação passível de modificar-se. Acabei comprando uma caixa com dois Cds com as tais sonatas de Haydn. Surpreendeu. É diferente de tudo. Por onde pisa, deixa a sua marca. É o que se percebe na “Sonata no. 50, Hob XVI:60”. Lembra o seu Bach. Foge daquele “romantismo” de um Horowitz, por exemplo. Ele é seco. Sua mão esquerda marca as notas com toques muito definidos. Ouve-se cada uma delas separada, mesmo em tempos mais rápidos. O lento é preenchido pelo silêncio e o acelerado é percebido em cada passada – ou melhor, nota – tão definida, com pouco uso de pedal. Gould foi único. Depois de sua morte, alguns o viram como um simples mortal, ou quiseram. Thomas Bernhard, ao escrever “O Náufrago”, apenas confirmou a sua genialidade.
Para se comparar, ouça Alfred Brendel o segundo movimento “Adagio e cantabile”, da “Sonata 59, Hob XVI:48”.
Glenn Gould, no mesmo movimento da mesma sonata. Compare.
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| Jean-Efflam Bavouzet pensando em Haydn |
Há uma turma de pianistas excepcionais com excepcionais abordagens das sonatas de Haydn. Um é Andreas Staier, que gravou em um pianoforte fabricado nos anos 1989, a partir de um original de Anton Walter, de 1790. É bem interessante, pois resgata a sonoridade do piano da época do austríaco, menos potente que o da atualidade. Outra ótima é a de Marc-André Hamelin, com as sonatas 23, 24, 32, 37, 40, 41, 43, 46, 50, 52. Está entre as melhores, na minha opinião de leigo.
Uma das minhas preferidas das “Sonatas” é a de número 50, Hob XVI: 60. Veja o segundo e terceiro movimentos, com Hamelin.
O mesmo Adagio, com Alfred Brendel. Compare.
Outro com um bom álbum simplesmente chamado “Sonatas” (Hob XVI:10, 31, 35, 37, 43) é o conterrâneo do escritor Omar Pamuk, Fazil Say. Sai da curva dos virtuoses. É compositor também, algo raro dentre eles. Tem uma pegada enérgica, “sin perder la ternura”, como demonstra tocando os “Noturnos” (Warner Classics, 2017), de Frederic Chopin.
A crítica tem incensado as interpretações de Jean-Efflam Bazouvet. Lançou em 2012, em cinco volumes, pela Chandos. As “Sonatas” de Haydn não chegam à “cerebralidade” de últimas de Beethoven. São anteriores às dele. São geralmente mais curtas; possuem dois ou até três movimentos. Possuem a leveza e beleza lírica de seu quase contemporâneo Mozart, que nasceu depois de Haydn e morreu antes de seu longevo conterrâneo. Bavouzet compreendeu muito bem esse espírito.
Ouça a Sonata no. 50 Hob XVI:37, com Bazouvet.
Só faltou dizer algo mais do Haydn de Paul Lewis. Depois de ouvir “Sonata” (Harmonia Mundi, 2006), com obras de Beethoven, Schubert e Liszt, liguei para o meu amigo Carlos Guena para dividir meu entusiasmo pela novidade. Nem sei a diferença de um lá menor de um dó maior, mas sou um apaixonado por música. Sou um simples amante dessa arte. Ao ouvir sua interpretação da “Sonata no. 20, D 959”, de Schubert, pensei: “Que maravilha!” Não estava longe do senso comum. Lewis, hoje, é reconhecido como os melhores gigantes deste início de século. Não é pouco perto do número de virtuoses do piano. Gravou depois, Beethoven – a integral das sonatas, os cinco concertos –, Schubert – sonatas e obras para dois pianos, Mussorgsky – “Quadros de Uma Exposição” –, Brahms – “Concerto no. 1” –, e Liszt – “Sonata em Ré menor” e outras para piano.. Em maio, completa 46 anos. Tem um mundo pela frente. Sou fã. Deu para perceber?
Veja-o tocando o segundo movimento da “Sonata no. 54, Hob XVI:40”. Na legenda do vídeo está erroneamente registrado como Sonata no. 40. No primeiro parágrafo, escrevi que as numerações confundem. Não estava certo?



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