quinta-feira, 1 de março de 2012

Ah, insensato Dexter Gordon

DG pelo gênio de Herman Leonard
Começo misturando Dorival Caymmi com Antônio Carlos Jobim, dois nomes maiores da música brasileira. Uma de minhas maiores emoções musicais foi a da primeira vez em que ouvi o disco – LP, na época – Caymmi e Seu Violão. A voz gutural, que parecia vir da alma, e os acordes um tanto rudes e pontuais me marcaram. Desde então, as canções praieiras estão entre as minhas preferidas, mais do que as urbanas. Caymmi é o nosso Thelonious Monk: compôs menos de uma centena de canções e todas são clássicas.

Ao ouvir How Insensitive, lembro-me imediatamente dos versos – “Ah! insensato coração/ Por que me fizeste sofrer/ Porque de amor para entender/ É preciso amar, porque…/? Só louco”. São de Dorival. E os de Jobim, letra de Vinícius de Moraes, são: “A insensatez que você fez/ Coração mais sem cuidado/ Fez chorar de dor/ O seu amor/ Um amor tão delicado/ Ah, porque você foi fraco assim/ Assim tão desalmado/ Ah, meu coração que nunca amou/ Não merece ser amado// Vai meu coração ouve a razão/ Usa só sinceridade/ Quem semeia vento, diz a razão/ Colhe sempre tempestade/ Vai, meu coração pede perdão/ Perdão apaixonado/ Vai porque quem não/ Pede perdão/ Não é nunca perdoado.” “Quem semeia vento […]/ Colhe sempre a tempestade.”

Por razões muito particulares, o melhor Insensatez instrumental é o de Dexter Gordon, do álbum Sophisticated Giant. Num tempo em que os LPs importados eram quase que um produto de luxo, principalmente para um estudante que vivia da mesada do pai, juntei um dinheirinho em uma das idas ao Rio de Janeiro para comprar LPs. Discos de jazz eram mais comuns nas cariocas Billboard e Modern Sound, ambas na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, do que no Museu do Disco, a maior loja de importados em São Paulo. Lembro até hoje que, além desse LP do saxofonista, comprei Grazing Dreams, de Collin Walcott. É provável que seja um desconhecido para muitos, mas quem conhecia uma banda chamada Oregon, sabe que era seu percussionista. Walcott morreu em um acidente besta: o ônibus do grupo bateu e, como estava dormindo, acabou batendo a cabeça.

Meu interesse pelo jazz se deu de maneira inversa como, imagino, aconteceu com muitos da minha geração. Basicamente “roqueira”, os primeiros a me chamar a atenção foram Weather Report, Chick Corea, Miles Davis e o Soft Machine, protagonistas do que estava sendo chamado de jazz progressivo ou jazz elétrico. Éramos da turma do Bitches Brew. Tempos depois, quando fui ficando amigo de admiradores do jazz, todos mais velhos do que eu, percebi o ódio que alguns tinham do Miles Davis pós Bitches Brew.

Nesse “caminho inverso” passei depois a prestar atenção nos músicos consagrados – Duke Ellington, Count Basie e, não me pergunte por que, Art Tatum – e, em alguns que se apresentaram nos primeiros festivais de jazz que aconteceram no Teatro Anhembi, o do pudim, como costumávamos dizer, devido ao seu formato. Desse modo, eu e meus amigos da USP, tivemos a oportunidade de ver, pela primeira vez, Ahmad Jamal, Stan Getz, Zoot Sims, Frank Rosolino, Joe Pass, Dizzy Gillespie e Benny Carter, dentre outros. Claro que os elétricos – ou quase – eram os que mais nos empolgavam: John McLaughlin, Chick Corea, Larry Coryell, Philip Catherine.

Na época em que conheci Dexter Gordon, conheci também o Gustavo, um apaixonado pelo saxofone tenor. Era um dos amigos que tinha ido ao Rio conosco, daquela vez, para assistir ao único Festival de Monterrey, se não me engano, que aconteceu lá. Foi a oportunidade de conhecer o Weather Report em seu auge criativo, ver McCoy Tyner e Pat Metheny. Inesquecível. O melhor do Gustavo era o de que tinha um tenor Selmer Mark IV, sonho de qualquer saxofonista. Com muitas reservas e palhetas velhas, nos deixava soprar no seu sax. Não sei se por essa razão, o saxofone tenor virou o meu segundo instrumento preferido no jazz. Além de Dexter Gordon, Lester Young, Coleman Hawkins e Ben Webster viraram deuses, para mim. Ficávamos eu e o Gustavo, ouvindo os LPs que Hawkins e Webster tinham gravado juntos, com um terceiro tenor – Budd Jonhson – e ficávamos “reconhecendo” cada solo dos discos. Para mim, o sax tenor é o que existe de mais próximo à voz humana.

Dexter Gordon, depois da volta aos EUA (tinha emigrado, como muitos músicos, para a Europa, em razão de problemas que teve com o consumo de drogas consideradas ilícitas). Em seu retorno, foi contratado pela Columbia e foi “redescoberto” pela crítica e pelo público. Depois de um álbum ao vivo com apresentação no Carnegie Hall, lançou Sophisticated Giant. O título era apropriado: era um gigante de quase dois metros de altura e um Dodge Dart – era como designávamos os grandes bebedores, pois esse carro era enorme e “bebia” bem. Na primeira apresentação em São Paulo, cada vez que terminava um de seus longos solos, saía do palco para “molhar” a garganta. Dizem que bebeu 25 latas de cerveja durante uma única apresentação. Era uma figura! Enorme, andava a passos lentos e, quando apresentava a música, falava no mesmo ritmo, com voz de trovão. Foi memorável.

O responsável pelos arranjos de Sophisticated Giant foi o trombonista Slide Hampton. Aí reside a grande qualidade do disco. São dois trumpetes ou flugelhorn (Woody Shaw e Benny Bailey), dois trombones (Hampton e Wayne Andre), uma tuba (Howard Johnson, que toca sax barítono também), a “cozinha” (George Cables ao piano, Rufus Reid no baixo e Victor Lewis na bateria), Frank Wess na flauta e no saxofone alto, e, finalmente, Gordon no sax tenor e no soprano.

O repertório é, igualmente, excepcional: Laura, The Moontrane (Woody Shaw), The Red Top (L. Hampton e B. Kynard), Fried Bananas (DG), You’re Blasé (O. Hamilton, B. Sievier), e How Insensitive, que fecha o disco. Na canção de Jobim, Gordon estraçalha. Seus solos no sax soprano são coisa de gênio e o arranjo, também. O resto não é resto: é tudo muito bom, com destaque para Laura (superlativo), The Moontrane e You’re Blasé. Se você não conhece o disco, vá atrás.

Preste atenção nos metais em How Insensitive.



Insensatez pelo gênio de JG.



Se você está muito interessado e não conhece o disco Sophisticated Giant, tente esse link. Tem até uns bonus track.

http://turbobit.net/ombxjhya93qr.html

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Paul no seu tocador de mp3

O feliz Paul
Não é novidade que os álbuns lançados no mercado, no mesmo dia, estão disponíveis para download grátis. Ilegal ou não, se os que baixam filmes, jogos e músicas pela internet, fossem presos o mundo estaria na cadeia. Depois de ter gastado uma pequena fortuna em prol das gravadoras – o suficiente para comprar um apartamento de bom padrão –, ando revendo as minhas reservas em “baixar” discos como tanta gente faz. Os links que estou passando não estão sendo disponibilizados por mim, portanto, não posso me responsabilizar por eles.

No texto de ontem, falo do mais novo CD de Paul McCartney – Kisses on the Bottom (http://bit.ly/zvm79F). Quem estiver curioso e com preguiça de ir até a loja pode acessá-lo por este link:  http://uploaded.to/file/tny8jnv2

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Até tu, Paul?

Paul, um setentão com cara de moleque
Na coluna de sexta-feira, 17 de fevereiro, na Folha de S. Paulo, Barbara Gancia fala um monte de Paul McCartney: “Fiquei deprimida ao ver Paul abanando os bracinhos. Deu para perceber que o hoje rei da falsa modéstia nunca carregou o baixo do quarto do hotel até o elevador.” No parágrafo anterior diz que “o problema é quando um ícone da infância se transforma em José Sarney diante dos seus próprios olhos, no domingo à noite.” Referia-se à presença de McCartney na premiação do Grammy.

O caso é que ídolos, dos que hoje têm mais de 50 anos, envelheceram. Uns mais; outros souberam conservar-se melhor fisicamente. O rebelde Leonard Cohen continua tentando parecer como tal afirmando coisas que ainda podem dar manchete, como a morte, por exemplo. Para alguém com 77 anos, essa ideia pode ser persistente, apesar de a média de expectativa de vida da humanidade ser cada vez mais alta. As roupas surradas de outrora deram lugar a costumes de bom corte. Aparece sempre vestido com chapeu e óculos escuros. Faz cara de mal, e mesmo proferindo frases controversas, no fundo, nunca foi um “bad boy”.

Paul sempre teve cara de “rapaz de bem”; o cara que podia ser mal ou polêmico era John Lennon. Se Cohen parece adequar-se à idade que tem, Paul, usando terninhos cor de rosa, calças de cintura alta e suspensórios, de cabelos tingidos, parece um tanto “fora” do tempo. Tem um “quê” de moleque em seus traços facias, mas vieram-lhe as rugas, como costuma acontecer com todo mundo. Esta sempre com um sorriso estampado na cara, possui energia de sobra no palco. Mas tem alguma coisa que não se encaixa. No fundo, apesar das tintas, Barbara Gancia tem razão. E para quem o teve como ídolo na juventude, vê-lo assim, dói.

Pela qualidade excepcional, as canções da época em que era parte dos Beatles, são perenais e continuam a “ganhar” novos ouvintes. Passa uma geração depois da outra e Paul continua a ganhar novos fãs. É impressionante – e emocionante – ver gente de todas as idades cantando junto dele em shows (sobre isso, leia em http://bit.ly/x8aXYK). Faz muito tempo que não me interesso em ouvir suas novas composições: é um receio um tanto difuso de me decepcionar. O recém lançado Kisses on the Bottom, produzido por Tommy LiPuma, o mesmo de alguns discos de Diana Krall, despertou curiosidade pelo fato de que cantava alguns standards. Se até Miguel Bosé cantando boleros ouvi, por que não o velho Macca?

Intérpretes do reino pop, há tempos, andam gravando standards: Linda Ronstadt, Carly Simon, Rod Stewart… são muitos. Bem, Paul teria de fazer o seu um dia. A ironia é que Paul cantando composições próprias da época dos Beatles, já está cantando standards. Qual é o conceito de “standard”? São aquelas canções que, de tanto serem gravadas por outros intérpretes, se tornam clássicas. É o caso de Something, de George Harrison. Também é o de Blackbird e Yesterday. Foram cantadas por Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Tony Bennett, Carmen McRae, Ella Fitzgerald. Mas, no sentido mais tradicional, e até na cabeça de Paul, standards são aquelas compostas por Cole Porter, Gershwin e Cia.

A razão do disco, segundo Paul, é a de ter resolvido gravar algumas canções que seu pai ouvia quando ele era criança. São músicas consagradas como Bye bye Blackbird, It’s Only a PapermoonI’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a LetterMore I Cannot Wish YouAc-Cent-Tchu-Ate the PositiveAlways e The Inch Worm. Nas primeiras ouvidas senti certa decepção. Comparando-se com outras interpretações, Paul está em desvantagem. Até o fã mais cego do ex-Beatle será obrigado a admitir que Frank Sinatra e Tony Bennett dão de goleada. Não há nada de excepcional na voz de Paul. Aos poucos, no entanto, nos acostumamos ao seu canto, calmo, despretencioso, e dá para perceber uma sinceridade dele em seus propósitos. E, talvez seja esse o mérito maior de Kisses. Sem querer muito, torna-se mais e mais agradável. Seu Bye Bye Blackbird é muito bom. E, quando esperamos muito dos velhos e conhecidos standards, a surpresa é My Valentine, da lavra do velho Macca.

Tudo bem, concorde-se que é um tanto ridículo tentar parecer um eterno adolescente, mas, um desconto para esse que compôs tantos clássicos quanto Irving Berlin, Harold Arlen, Frank Loesser, Johnny Mercer e Johnny Burke, que são os autores de algumas canções que estão em Kisses on the Bottom.

Ouça My Valentine.