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| Paul, um setentão com cara de moleque |
O caso é que ídolos, dos que hoje têm mais de 50 anos, envelheceram. Uns mais; outros souberam conservar-se melhor fisicamente. O rebelde Leonard Cohen continua tentando parecer como tal afirmando coisas que ainda podem dar manchete, como a morte, por exemplo. Para alguém com 77 anos, essa ideia pode ser persistente, apesar de a média de expectativa de vida da humanidade ser cada vez mais alta. As roupas surradas de outrora deram lugar a costumes de bom corte. Aparece sempre vestido com chapeu e óculos escuros. Faz cara de mal, e mesmo proferindo frases controversas, no fundo, nunca foi um “bad boy”.
Paul sempre teve cara de “rapaz de bem”; o cara que podia ser mal ou polêmico era John Lennon. Se Cohen parece adequar-se à idade que tem, Paul, usando terninhos cor de rosa, calças de cintura alta e suspensórios, de cabelos tingidos, parece um tanto “fora” do tempo. Tem um “quê” de moleque em seus traços facias, mas vieram-lhe as rugas, como costuma acontecer com todo mundo. Esta sempre com um sorriso estampado na cara, possui energia de sobra no palco. Mas tem alguma coisa que não se encaixa. No fundo, apesar das tintas, Barbara Gancia tem razão. E para quem o teve como ídolo na juventude, vê-lo assim, dói.
Pela qualidade excepcional, as canções da época em que era parte dos Beatles, são perenais e continuam a “ganhar” novos ouvintes. Passa uma geração depois da outra e Paul continua a ganhar novos fãs. É impressionante – e emocionante – ver gente de todas as idades cantando junto dele em shows (sobre isso, leia em http://bit.ly/x8aXYK). Faz muito tempo que não me interesso em ouvir suas novas composições: é um receio um tanto difuso de me decepcionar. O recém lançado Kisses on the Bottom, produzido por Tommy LiPuma, o mesmo de alguns discos de Diana Krall, despertou curiosidade pelo fato de que cantava alguns standards. Se até Miguel Bosé cantando boleros ouvi, por que não o velho Macca?
Intérpretes do reino pop, há tempos, andam gravando standards: Linda Ronstadt, Carly Simon, Rod Stewart… são muitos. Bem, Paul teria de fazer o seu um dia. A ironia é que Paul cantando composições próprias da época dos Beatles, já está cantando standards. Qual é o conceito de “standard”? São aquelas canções que, de tanto serem gravadas por outros intérpretes, se tornam clássicas. É o caso de Something, de George Harrison. Também é o de Blackbird e Yesterday. Foram cantadas por Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Tony Bennett, Carmen McRae, Ella Fitzgerald. Mas, no sentido mais tradicional, e até na cabeça de Paul, standards são aquelas compostas por Cole Porter, Gershwin e Cia.
A razão do disco, segundo Paul, é a de ter resolvido gravar algumas canções que seu pai ouvia quando ele era criança. São músicas consagradas como Bye bye Blackbird, It’s Only a Papermoon, I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter, More I Cannot Wish You, Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive, Always e The Inch Worm. Nas primeiras ouvidas senti certa decepção. Comparando-se com outras interpretações, Paul está em desvantagem. Até o fã mais cego do ex-Beatle será obrigado a admitir que Frank Sinatra e Tony Bennett dão de goleada. Não há nada de excepcional na voz de Paul. Aos poucos, no entanto, nos acostumamos ao seu canto, calmo, despretencioso, e dá para perceber uma sinceridade dele em seus propósitos. E, talvez seja esse o mérito maior de Kisses. Sem querer muito, torna-se mais e mais agradável. Seu Bye Bye Blackbird é muito bom. E, quando esperamos muito dos velhos e conhecidos standards, a surpresa é My Valentine, da lavra do velho Macca.
Tudo bem, concorde-se que é um tanto ridículo tentar parecer um eterno adolescente, mas, um desconto para esse que compôs tantos clássicos quanto Irving Berlin, Harold Arlen, Frank Loesser, Johnny Mercer e Johnny Burke, que são os autores de algumas canções que estão em Kisses on the Bottom.
Ouça My Valentine.

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