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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Ótimos lançamentos em série da ECM

De hoje em dia, ficou impossível ouvir tudo o que sai. Não que a vinte anos atrás fosse, mas dava para acompanhar os principais lançamentos. Se não desse para ouví-los todos, tínhamos noção dos movimentos que a música ia percorrendo. Há hoje uma pulverização na indústria, com discos saindo por inúmeros selos independentes. Era possível, se você estivesse acompanhando o jazz, prestar atenção do que saía pela PolyGram, Columbia, EMI, Warner, BMG e suas subsidiárias, como o Blue Note, Verve, Impulse e outros mais.

O interessado em música erudita estava em dia com as novas gravações se acompanhasse o que saía pela Deutsche Grammophon, Decca, Philips, Telefunken (Telarc) e RCA. Nesse setor, segundo o crítico Norman Lebrecht, o fim do domínio das majors se dá com o surgimento do selo Naxos, vendendo CDs a preços bem mais baixos, com boas gravações de orquestras da Europa Oriental, ainda antes da queda do muro de Berlim, composta de bons músicos e cachês baixíssimos. Os valores de estúdio eram altos e era pior nesse setor devido ao aparato necessário para a reunião de orquestras. No setor de óperas, a coisa era pior. Reunir estrelas do bel canto, ensaios etc, aumentava em muito os custos, fora que os cachês dos cantores, como o de Luciano Pavarotti ou Plácido Domingo. Só não ganhavam mais que estrelas do rock, como Mick Jagger ou Paul McCartney.

O surgimento da Internet representou outro baque. A facilidade para se piratear um disco quebrou a indústria da música. Ao mesmo tempo, a evolução tecnológica barateou enormemente os custos de gravação. De hoje em dia, mesmo as grandes, como a Deutsche Grammophon, registram as óperas nos teatros, em espetáculos ao vivo, principalmente. Diante da facilidade de se gravar, ficou fácil para o artista lançar CDs com distribuição independente. O barateamento resultou no surgimento de milhares de pequenos selos e ficou impossível acompanhar tudo o que é lançado.

Novos lançamentos
No gênero que acompanho melhor, por gosto pessoal, de meados do ano passado até agora, estou surpreso com a qualidade do que tem saído. Como é bem mais difícil o acesso ao que saem como “self released” ou de pequenas gravadoras, vou citar inicialmente os dos selos mais conhecidos.

ECM
No jazz, ou melhor, na música instrumental, a ECM está superando as outras com álbuns de ótima qualidade. Vamos a eles:

• Aaron Parks: “Find the Way”
• Andrew Cyrille Quartet: “The Declaration of the Musical Independence”
• Avishai Cohen: “Cross My Palm with Tree”
Bill Frisell & Thomas Morgan: “Small Town”
• Chris Potter: “The Dream Is the Dream”
• Collin Valon Trio: “Danse”
• Craig Taborn: “Daylight Ghosts”
• David Virelles: “Antenna”
• Dominic Miller: “Silent Night”
• Ferenc Snétberger, Anders Jormin, Joey Baron: “Titok”
• Jakob Bro: “Streams”
• John Abercrombie: “Up and Coming”
• Julia Hülsmann: “Sooner and Later”
• Keith Jarrett: “A Multitude of Angels”
• Louis Sclavis: “Asian Fields Variations”
• Quercus (June Tabor, Iain Bellamy, Huw Warren): “Nightfall”
• Ralph Towner: “My Foolish Heart”
• Roscoe Mitchell: “Bells for the South Side”
• Tarkovsky Quartet, François Couturier: “Nuit Blanche”
• Zsófia Boros: “Local Objects”
• Theo Bleckmann: “Elegy”
• Tomasz Stanko New York Quartet: “December Avenue”
• Wolfgang Muthespiel: “Rising Grace”

A ECM é uma das campeãs em bons lançamentos. É um selo que desde sua criação, em 1969, manteve um nível elevadíssimo de qualidade de cast e de gravações. Manfred Eicher não tem medo de ousar. Não ouvi todos, mas o meu preferido, dentre eles, é “The Dreamer Is the Dream”, de Chris Potter. “Titok”, do húngaro Ferenc Snétberger, em sua segunda aventura na gravadora, com Armin Jordan e Joey Baron, é outro que gostei muito. Snétberger tem 56 anos, mas só agora fiquei sabendo dele pelo excepcional solo no violão, em “In Concert”, sua estreia na ECM.

Os veteranos ainda dão um bom caldo. Nessa classificação, entram Roscoe Mitchell, John Abercrombie, Ralph Towner, Tomasz Stanko e Andrew Cyrille. Provam que a criatividade não fenece com a idade.

Dos que estão em seu primeiro ou segundo pela gravadora, destacam-se os húngaros Ferenc Snétberger e Szófia Boros, violonistas excepcionais. Em “En Otra Parte”, Szófia já impressionava. O bom é que apresentava mestres do instrumento, mais conhecidos em terras latinas, como Dilermando Reis e Leo Browuer. “Local Objects”, lançado em outubro passado, está no mesmo nível do primeiro. E não faltou um brasileiro. Neste, o escolhido é Egberto Gismonti.


Ouça “Yasodhara”, do álbum “The Dreamer Is the Dream”, de Chris Potter. Line up de primeira: David Virelles ao piano, Joe Martin no baixo e Marcus Gilmore na bateria.




Ouça “Rambling”, de “Titok”, de Ferenc Snétberger.




Excepcional também é o recém lançado “Cross My Palm with Silver”, do israelense trompetista Avishai Cohen (não confunda com seu homônimo e conterrâneo contrabaixista e conhecido há mais tempo). Ouça "Will I Die, Miss? Will I Die?" O belo piano é de Yonathan Avishai.




Zsófia Boros é espetacular tocando “Bodas”, de Egberto Gismonti.





terça-feira, 7 de julho de 2015

Os melhores álbuns pela Downbeat: do 11º pra frente

Adoro listas, como o protagonista de Alta Fidelidade (High Fidelity), de Nick Hornby. Presumo que não sou tão diferente de muitos que habitam este planeta. Tenho amigos que adoram fazer listas das mais variadas coisas. Como ouço música até para dormir – ou mal dormir –, nada mais natural que distrair-se com listas, vendo o meu ídolo por tantos anos no sax barítono e no soprano, John Surman, depois de ficar tanto tempo em primeiro, estar em 11º na primeira categoria e, na segunda, nem constar na “63rd Annual Critics Poll”, da Downbeat.

Antigamente, se não me engano, colocavam apenas os 10 melhores do ano. Foram aumentando e, na última, citam 42. Naturalmente, não ouvi todos. Vou relacionar apenas alguns que achei interessantes – outros menos –, que podem despertar a curiosidade de alguns.

Billy Childs, Map to the Treasure: Reimagining Laura Nyro (11º). O pianista é um bom arranjador e nesse álbum em que faz tributo à compositora e cantora, morta precocemente aos 49 anos. O álbum conta com várias participações especiais como a de Renée Fleming, a celebrada soprano americana, de conhecidas cantoras como Rickie Lee Jones, Lisa Fischer, Alison Krauss, Dianne Reeves e a emergente Becca Stevens e músicos como Esperanza Spalding (cantando), Wayne Shorter, Chris Botti, Chris Potter e a estrela erudita Yo-Yo Ma. Os álbuns de Childs são sempre instigantes pelos bons arranjos.

Ouca Map to the Treasure, com vocais de Lisa Fischer. Para quem não sabe, é a backing dos Rolling Stones.



Chris Potter, Imaginary Cities (12º). o saxofonista tenor, que tocou por muito tempo na banda de Dave Holland e é um bons (ficou em 4º lugar em seu instrumento pela Downbeat). É o segundo que grava pela ECM. Fez parte da Unity Band, com Pat Metheny, Ben Williams e Antonio Sanchez. Foi lançado um único álbum deles, em 2012.

Chris fal sobre Imaginary Cities.




Mark Turner, Lathe of Heaven (13º). Não está entre os meus saxofonistas tenor preferidos, mas isso quer dizer apenas que tudo é questão de gosto. Até por isso, Lathe of Heaven está em 13º. Sinal de que muitos não concordam comigo.

Ouça The Edenist.




The Cookers, Time and Time Again (14º). Os “cookers” são Billy Harper, Donald Harrison nos saxofones, David Weiss e Eddie Henderson, trompetse, George Cables, piano, Cecil McBee, contrabaixo, e Billy Hart na bateria. Não dá para ignorar uma formação dessa. É bem bom. Estaria na minha lista dos dez.

Veja os “cookers” em Sir Galahad. Nada como a experiência. David Weiss é o mais novo. Grande Billy Harper.




Anat Cohen, Luminosa (14º). Faz alguns anos que não tem ninguém para Anat, na clarineta. Na última votação teve exatamente o dobro do segundo, que foi o cubano expatriado Paquito D’Rivera. Há uma coisa em comum entre esses dois: são apaixonados pela música brasileira. A israelense tem sangue latino. Toca choros como ninguém. Sua paixão é tão grande que seu álbum tem esse título que tão bem combina com ela e sua música. Anat merece um texto separado. Só para adiantar, ela abre com Lília, de Milton Nascimento. Não para por aí. Tem K-Ximbinho, Edu Lobo e Severino Araújo. Na minha lista estaria entre os dez melhores.

Ouça Anat em In the Spirit of Baden.




Keith Jarrett/Charlie Haden, Last Dance (16º). Tudo o que os dois gravaram é, no mínimo bom. É o que é esse álbum. É o complemento de Jasmine. Todos os registros foram feitos na casa do pianista em 2007. Ouça e leia em http://bit.ly/1IuEue8. Leia também sobre os duos de Haden com outros grandes músicos em http://bit.ly/1LWaQ0u.

Ouça alguns trechos de Last Dance.




Sonny Rollins, Road Shows 3 (17º). Noutro dia (re)li uma história ótima sobre a imprevisibilidade do saxofonista. Na década de 1950, o saxofonista tenor era celebrado como um dos grandes, depois de lançar os hoje clássicos Saxophone Colossus e Tenor Madness. Antes, já tinha passado uma pequena temporada na cadeia por roubo e lutava contra o vício de heroína. Um certo comportamento errático, dando várias pausas na carreira, tornando-se muçulmano e depois abraçando seitas orientais, foi morar na Índia, e ficou por lá um tempo fazendo ioga e meditação. Max Gordon, dono do clube Village Vanguard, em certa feita, soube que ele estava em Nova York. Conseguiu falar com ele ao telefone. Sonny foi encontrar-se com Max vestido com uma túnica branca que ia até os pés e com a cabeça calva, com o cabelo desenhando uma cruz no topo. Este lhe ofereceu um drink. O saxofonista disse-lhe que não bebia mais. Naquela terça-feira de abril, em 1976, Sonny apareceu com sua banda. Estava em forma ainda. Arrebentou. Depois de um intervalo de meia hora, aconteceria a segunda parte do show. A banda voltou, mas Sonny tinha sumido, para a surpresa de todos.

Por excelência e por sua imprevisibilidade, Sonny é uma lenda viva. Tem 84 anos e ainda toca. É Road Shows 3, porque já foram lançados dois. O primeiro foi o disco do ano pela Downbeat em 2009. Este terceiro merece eatr entre os vinte melhores do ano, até pelo que Sonny fez pela música. Max Gordon considerava-o o melhor tenorista de sua geração, melhor que Billy Harper, Dexter Gordon e Johnny Griffin. Bom, Gordon é um dos meus preferidos. Rollins está abaixo na minha lista. Mas, o velhinho manda bem. Tem fôlego para fazer solos espetaculares ainda.

Ouça Biji, a primeira faixa.




Tony Bennett e Lady Gaga, Cheek to Cheek (19º). O que esperar de um ancião quase nonagenário e uma cantora que adora mostrar as suas nem tão divinas tetas? Bem, chamar Tony de ancião é um insulto. Impressionante como mantém a verve de grande cantor. E Lady Gaga, para a minha, a nossa e a sua surpresa, manda bem nos standards. Sobre esse álbum, leia http://bit.ly/1MpEQpH.

Veja Tony e Lady Gaga cantando Anything Goes, Cheek to Cheek e They All Laughed.




Marc Ribot Trio, Live at The Village Vanguard (20º). Sem ser um virtuose, Marc se diferencia pelo som original que tira da guitarra. É o que faz, por exemplo Ry Cooder. Suas participações em álbuns de outros músicos são sempre interessantes. Deve ter tocado com todo mundo. Tocou em vários discos de Tom Waits. Este ao vivo é muito bom.

Ouça Sun Ship.