terça-feira, 3 de março de 2026

The Frame of Life, de Renato Mello e Fabio Golfetti

 Alguém me viu, um abraço, ambos com máscara, decerto, em um vernissage, e disse: “Que legal te encontrar!” Não a via há uns três ou quatro anos. Conversamos como velhos amigos. Depois de nos despedirmos, algo me afligiu. Não lembrava do nome dela. Só fui lembrar no dia seguinte depois de ficar fazendo (muitas) associações aleatórias.

Amigos diziam que tinha uma memória prodigiosa. Posso dizer que sim, principalmente, na música. Por curiosidade, ao ouvir discos de minha preferência, sabia até quem tinha sido o engenheiro de som, muito pelo costume de ler encartes e contracapas. Agora tem o Google e não guardo mais nada na memória. Espero que esses esquecimentos banais não atinjam um nível preocupante.

Ao ouvir Frame of Life, álbum de Renato Mello e Fabio Golfetti, vejo o tanto quanto somos habitados por lembranças longínquas que perduram.

Renato, arquiteto por profissão, foi um dos membros de uma banda paulistana que alguns devem conhecer: Kafka. Lançaram dois discos LPs pelo selo Baratos Afins. Apresentaram-se em casas como Madame Satã, frequentada por uma juventude digamos, alternativa, que gostava de Sisters of Mercy, Bauhaus, The Smiths, Acho and the Bunnymen, The Cure e outras do gênero. Renato se distanciou do universo da música, mas nunca se desligou dela. Nunca deixou a guitarra e o saxofone alto e teclados, exercitando-se sempre, e compondo, enfim, a música sempre esteve presente.

A origem do título do disco está intimamente relacionado à formação de arquiteto de ambos. Vem de uma frase de Frank Lloyd Wright: “Architecture is the frame of life. It is the nature and substance of whatever is.”. 

A gravação de Frame of Life coincide com a época da pandemia da Covid. Foi feita entre setembro e dezembro de 2021, imagino que tenha sido remotamente com cada um dos músicos em suas casas. Além de Mello no sax alto, guitarra, teclados e vocais, e Golfetti na guitarra, tocam Gabriel Golfetti (teclados e baixo), Giovanni Lenti (bateria) e Gustavo Santhiago (flauta em Space Is the Key).

Future Past Mystery, que abre o disco, é uma faixa longa de quase dez minutos. Instrumental, bem climática, tem Fabio nos glissandos e Renato no sax. É impactante. Fica melhor ainda pela perfeita combinação com a próxima, mais tranquila, cheia de nuances: Starfish. Os vocais e a letra são de Renato. Fallingwater, a seguinte, a referência, evidentemente é Frank Lloyd Wright, arquiteto da Casa da Cascata, na Pensilvânia. Fruitless Park é outra não instrumental. Space Is the Key é a mais “complicada”, inspirada em Sun Ra, cultuado por Fabio e Renato. Tem uma estrutura circular, com flautas de Gustavo Santhiago em overdubs. End of Life encerra o disco.

Frame of Life 2, gravado entre o fim de 2022 e abril de 2023, vai na linha do anterior. Os títulos das músicas – Songs of Two Planets, Sounds Like Paintings, The Sky Above, Events in Calm Water, Daybreak, Night Sketch, Off White Shadows – dão uma pista clara para o tipo de som que ouvimos. Podemos descrever como paisagens sonoras, até na construção delas, lembrando vagamente Music for Films (EG Records, 1976), de Brian Eno, pelo menos nos títulos. São camadas superpostas, instrumentações em overdubs, guitarras em glissandos de Golfetti que funcionam, assim como os teclados, sugerindo pinturas impressionistas, paredes sonoras virtuais. Um destaque é Events in Calm Water. Como sugere o título, sobre a superfície da água, que são o baixo e um teclado discreto, sobressaem-se sons de saxofone, às vezes só, em outras em camadas sobrepostas, e um breve solo de guitarra, que nem chega a ser um solo exatamente. Na verdade são sons que dançam em uma superfície.

Nesse segundo disco, Fernando Alge participa das cinco faixas finais. Não posso dizer com certeza se os solos em Events in Calm Water são dele, assim como outro belíssimo solo em Day Break, que é a seguinte. A sétima, Night Sketch, com uma batida mais roqueira, com baixo e bateria bem marcados, ouvimos belíssimas intervenções de guitarra.

Ouça Frame o Life.

Ouça Frame of Life 2.

segunda-feira, 2 de março de 2026

O fantasma de Clifford Brown

O “careta” Clifford Brown
Na mesma época em que tinha comprado os dois volumes que compõem A Volta ao Dia em Oitenta Mundos, referência de Julio Cortázar sobre um título de Jules Verne, estavam sendo lançados alguns álbuns duplos destacando alguns nomes do jazz pela PolyGram. De capa branca e ilustrações em tinta marrom, eram suficientemente caros para os bolsos dos universitários que tinham que se virar com mesadas “na conta”. Até essa data, meados da década de 1970, eram raros os lançamentos de jazz no Brasil.

Na página 109 do tomo I de A Volta…, da edição em espanhol da Editora Siglo Veinteuno – na FAU-USP, a Ciça, arquiteta formada pela UnB, montou uma “banquinha” de livros de literatura e de arquitetura em espanhol – Cortázar falava desse até então desconhecido, para mim, Clifford Brown: “Como Bird, como Bud, he didn’t stand the ghost of a chance”. O autor fazia um jogo de palavras com o título do standard composto por Victor Young, com letra de Bing Crosby e Ned Washington, de 1932, e os relacionava à morte de outras duas figuras do jazz: o pianista Bud Powell e o sax-alto Charlie Parker.

Ao contrário desses dois, o trumpetista Clifford era “careta”. Era um certinho, enfim, mas de um talento estupendo. Parker morreu antes dos 40, vítima dos excessos da droga e do alcool. Powell, apesar de “un poco loco”, decorrente – dizem – de uma surra que levara da polícia, e lhe acarretara transtornos de ordem mental – ficou internado por um ano sendo tratado com eletrochoques –, foi brilhante pianista e fez parte do lendário show no Massey Hall, Toronto, com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Charles Mingus e Max Roach, em 1953. Morreu relativamente cedo – pouco mais de 40.

Nos anos 1950 reinavam o trumpete de Miles Davis e o do atrevido Dizzy Gillespie. Brown surgiu nesse cenário e logo se destacou como, se não o melhor, tão bom quanto os outros dois. Miles era o cara do sopro sem vibrato, dos registros médios, e se destacaria por estar no lugar certo e na hora certa. Estaria entre os gestores do bebop e dentre os que criariam o cool jazz. Clifford surgiu como um furacão. Se estivesse vivo, certamente, estaria liderando as listas dos melhores em seu instrumento. Além do poder de invenção harmônica era dono de um sopro que sabia ser doce e agressivo, atingindo as notas mais altas do trumpete sem “gritar”.

Não é possível se prever o que teriam sido os percursos de Jimi Hendrix, Janis Joplin, de Jim Morrison ou do trumpetista Fats Navarro, sua grande influência – morreu antes de completar 27 anos de idade, vítima da tuberculose e da heroína –, e também de Clifford. Mas Brown teve uma carreira fulgurante num tempo em que Miles e Dizzy Gillespie estavam na linha de frente.

A ascensão dele foi algo que lembra – desculpem se acharem a comparação um pouco fora de contexto – à do espetacular astro do soul Otis Redding, morto em um acidente no próprio avião, aos 26 anos. Clifford ia fazer 26 – coincidência ou não, Hendrix, Morrison e Joplin, com 27, um a mais – e ambos estavam no topo e, certamente, avançariam muito além. Redding morreu sem ter visto (Sittin’ on) The Dock of the Bay atingir o primeiro lugar das paradas. Brown gravava um disco melhor que o outro pela EmArcy. Numa noite chuvosa de junho de 1956, a caminho de Chicago, onde fariam uma apresentação, a mulher do pianista Richie Powell, que dirigia o carro, perdeu o controle e derraparam. Resultado: três mortos.

Max Roach, um dos pioneiros do bebop e dos maiores bateristas da história, já era figura de proa no jazz quando surgiu Brown. Mesmo assim, ao formarem a banda, deixou que Brown tivesse seu nome em primeiro lugar. A bateria enérgica de batidas limpas combinaram perfeitamente com seu trumpete. E não seria despropósito algum dizer que Roach foi o par ideal de Brown. Juntos, com o belo sax tenor do underrated Harold Land, do pianista irmão menor de Bud e igualmente talentoso, Richie Powell, e George Morrow no baixo, formaram uma das mais integradas bandas do jazz. Eram excepcionais nas músicas uptempo, em que a bateria de Roach brilhava e que, nas baladas, Land – como em Darn That Dream –, Powell e Clifford despejavam emoção da mais pura qualidade.

Algumas músicas ficaram associadas às interpretações de Brown e Roach: Delilah, do mesmo Victor Young, que compôs I Don’t Stand a Ghost of a Chance With You – que tem um belo solo de Richie Powell e lembra seu irmão Bud –, Parisian Thoroughfare e Jordu, de Duke Jordan. Nem é preciso dizer a mesma coisa de The Blues Walk, Daahoud e Joy Spring: são composições do trumpetista.

Segundo Julio Cortázar, Brown “inventa uma ilha do absoluto na desordem, onde ele e tantos outros estamos mortos”. Talvez pensasse assim o argentino quando se arriscava a “ser” Clifford ao tocar amadoristicamente seu trumpete.

Ouça o clássico Clifford Brown and Max Roach, gravado entre 1954 e 1955, pelo selo EmArcy.





Esse texto foi publicado e escrito em 5 de abril de 2010