quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A aventura americana de Lisa Bassenge

São poucas as referências sobre Lisa Bassenge. Pelo que é possível se saber, nasceu em 1974, é filha de pai alemão e mãe iraniana. Um dado significativo para o que escolheu fazer da vida, é a de que tomou lições com Judy Niemack, na Hochschule für Musik Hanns Eisler.

Cheguei a Lisa por meio de seu álbum recente, que tem um título interessante: Canyon Songs. Sem ter alguma referência dela, o que me chamou a atenção foi o nome de Larry Klein como produtor. Fãs de Madeleine Peyroux, Melody Gardot, Luciana Souza e, principalmente, Joni Mitchell, sabem quem é Larry. [sobre Larry Klein, leia http://bit.ly/21cIbjs]

Em termos de cantoras, Larry é o cara, não por ter sido casado durante anos com Joni e, atualmente, estar com a brasileira Luciana. Larry é um mago que tem produzido grandes discos com elas. Saindo um pouco do elenco das mais conhecidas, há pouco produziu Heartland, de Indra Rios-Moore [sobre esse álbum, leia http://bit.ly/1UeTzpE], e o resultado é excepcional.

Imagino que Klein não vai, simplesmente, aceitando produzir quem o procura. Deve ter um filtro. E, ademais, não creio que consiga tornar alguém medíocre em gênio. Não faço ideia de como Lisa chegou até ele. O certo é que Canyon Songs é um belo disco. As canções que o compõe são de autores americanos, a começar por Jim Morrison, com Riders on the Storm, o manjado Tom Waits, com Blue Skies (não é a conhecida de Irving Berlin) e All Stripped Down, o cult Elliott Smith, que pôs fim a sua vida em 2003, com Angeles, Joni Mitchell, com The Same Situation, e Shuggie Otis, hoje um tanto esquecido, mas um mestre do rhythm’n’blues, multi-instrumentista e bom guitarrista de blues, com Aht Uh Mi Hed. Completam a lista Stephen Stills, Warren Zevon, Rickie Lee Jones, James Taylor e Brian Wilson. Como se vê, não é um repertório lugar comum. Essa é uma das qualidades de Canyon Songs.

Por que é pouco conhecidas?
Depois de ter gostado de Canyon Songs, fui atrás de outros álbuns de Bassenge. O mais antigo que achei, foi A Sigh, a Song, de 2002. Percebo que o que está apresentado no disco lançado no ano passado está lá, a voz muito afinada, o repertório inteligente, de boas escolhas, com uma ou outra composição própria, alguns standards, surpresas como a escolha de um tema brasileiro, no caso, a belíssima Pra Dizer Adeus, de Edu Lobo, no CD, intitulada Adeus, clássicos modernos, como Blue, de Joni Mitchell, um Elvis Presley, com Blue Suede Shoes, cantado e tocado de forma interessante, com instrumentação minimalista, com um belo “walking bass”.

Ouça Pra Dizer Adeus.


Ouça Ol’ ’56, de Tom Waits.





Em álbuns posteriores que ouvi, Lisa continua boa na escolha do repertório, sempre fugindo do comum. Em A Little Loving (2006), canta In Between Days, de The Cure, Overload, do Sugarbabes, com The Thrill Is Gone. Aliás, neste, só para me contrariar, canta em alemão. É Ohne Dich, de Hildegard Knef. Em Going Home (2007), belíssimo disco, canta Lennon e McCartney (A Hard Day’s Night), Madonna (Like a Virgin), Paul Simon (Fifty Ways to Leave Your Love), Consuelo Velasquez (Besame Mucho) e Bart Howard (Fly Me to the Moon). Mistura fina.

Ouça Besame Mucho.




Ouça alguns trechos de Canyon Songs.




Ouça Riders on the Storm na íntegra. O trompete é de Till Brönner.




Ouça Blue Skies, de Tom Waits.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Bons produtores, bons produtos

O produtor e baixista Klein
Não dá para ignorar a importância da figura do produtor musical. Não é à toa que o britânico George Martin era considerado o “quinto beatle”: é um reconhecimento de sua influência sobre o som do quarteto formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star. No Brasil, nos anos 1980, o ex-baixista dos Mutantes, Liminha, sob alguns aspectos, pode ser considerado um dos artífices da explosão do pop/rock, produzindo Titãs, Chico Science & Nação Zumbi, Barão Vermelho, Gilberto Gil, Lulu Santos, Ritchie e outros mais. Às vezes, a mão do produtor pode anular o produto. É o caso de Lincoln Olivetti, muitas vezes acusado de impor um estilo pasteurizado que igualando o trabalho e repertório de artistas díspares como Gal Costa, Wando, Gilberto Gil e Rita Lee.

Por alguma coincidência, um dos grandes produtores da atualidade, começou tocando baixo, como o brasileiro Liminha. Em 1982, Larry Klein entrou para a banda que acompanhava a canadense Joni Mitchell. Tornaram-se parceiros na música e na vida. Produziu com Mitchell uma boa leva de CDs muito bem recebidos pela crítica e representou uma mudança de rumo em sua carreira, reaproximando-a do pop. Mesmo com o fim do casamento, em 1994, ano do lançamento de Turbulent Indigo, continuou a colaborar com ela em Both Sides Now, gravado com orquestra. Aproveitando o formato de Both Sides, gravaram o duplo Travelogue, que contém vários sucessos antigos de Mitchell. O bom produtor é aquele que sabe realçar as qualidades dos seus intérpretes. (sobre Joni Mitchell, leia: http://bit.ly/itpMsv ,  http://bit.ly/k81URE , http://bit.ly/kmauYk , http://bit.ly/eX6YHX , http://bit.ly/md969w)
Além dela, Klein produziu os últimos álbuns de Madeleine Peyroux, Careless Love (2004) e Half the Perfect World (2006) e Bare Bones (2009). Peyroux tinha gravado seu primeiro disco Dreamland em 1996. Imediatamente, por causa do timbre muito parecido ao de Billie Holiday, ganhou projeção. E sumiu. Reapareceu em grande estilo realizando um álbum impecável. Seria a mão de Klein? (sobre Peyroux, leia: http://bit.ly/hEOMMehttp://bit.ly/lYZbSu)

Dentre outros, produziria também o trumpetista e cantor Till Brönner – uma espécie de carbono de Chet Baker piorado – em Oceana (2006) e Rio (2008) – este último, lançado no Brasil. Na minha opinião – conheço apenas Rio – a mão de Klein é primordial para que o disco seja razoável. Juntou uma penca de convidados ilustres: Milton Nascimento, Vanessa da Mata, Luciana Souza, Annie Lennox, Aimee Mann, Melody Gardot e Kurt Elling. Bom, com um time desses, qualquer curioso se arrisca a conhecer Till Brönner. Foi o que aconteceu comigo.

Larry Klein tem mostrado competência como produtor, principalmente com cantores e cantoras. Em 2007, produziu o CD The New Bossa Nova, de Luciana Souza. Por coincidência, com a mesma “química” que ocorrera com Joni Mitchell: os dois, atualmente, são parceiros na música e na vida.

Para frisar de como o trabalho de um produtor pode ser um diferencial, basta comparar o primeiro CD de Melody Gardot com o segundo, My One and Only Thrill, produzido por ele (sobre Gardot, leia http://bit.ly/eXhQSQ). E fica a expectativa se não acontece no futuro um novo casamento.

Joni Mitchell canta Sex Kills.




Luciana Souza canta Morrer de Amor.



Melody Gardot canta Baby, I’m a Fool.




Publicado inicialmente em 27/10/2009