Duas obras de Beethoven são conhecidas até o fim do mundo. A Quinta Sinfonia, por sua abertura, e a Nona, pelo último movimento. A parte que ficou conhecida como Ode à Alegria, foi extraída de um poema de Friedrich Schiller. O mesmo Schiller teve versos utilizados por Franz Schubert em seus lieder (canções). Poetas maiores e menores como Goethe, Heinrich Heine, Johann Mayrhoffer, Wilhelm Müller e Shakespeare tiveram seus versos utilizados por Schumann, Richard Strauss e Hugo Wolf. É, portanto, um procedimento habitual.
Mesmo na música popular, é comum. Caetano Veloso compôs seu Elegia com poema de John Donne, Canção Amiga, cantada por Milton Nascimento, é de Carlos Drummond de Andrade, e Fagner musicou Motivo, de Cecilia Meireles, logo depois proibida por seus herdeiros. Em 2004, Luciana Souza, há mais de 20 anos residente dos EUA, gravou um disco com poemas de Pablo Neruda. Antes, tinha lançado um álbum a partir de poemas de Elizabeth Bishop.
Pablo Neruda é um dos poetas mais cultuados no Brasil, principalmente por uma geração que tem mais de 60 anos. Submersos na onda latina, literatos como Jorge Luis Borges, Juan Carlos Onetti, Alejo Carpentier, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Eduardo Galeano, Gabriel García Marquez, Roa Bastos e Pablo Neruda fizeram enorme sucesso, assim como os intérpretes/compositores Mercedes Sosa, Violeta Parra e Victor Jara, ídolos da juventude que vivia sob a pressão do regime ditatorial vigente. Fizeram bastante sucesso conjuntos como o Tarancón e Raíces de América, formações brasileiras que cantavam música latino americana. Pejorativamente, era a geração denominada pelo colunista Telmo Martino como ‘poncho e conga”.
Neruda e Jara viraram mártires da esquerda brasileira, por serem figuras de proa no período em que Salvador Allende instaurou um governo de feições marxistas. Victor Jara foi preso, torturado e fuzilado pelos militares que tomaram o poder. Pablo Neruda morreu uma semana antes de Jara, vítima de um câncer de próstata. Até hoje duvidam se não foi envenenado.
Em 1971, Neruda ganhou o prêmio Nobel de Literatura, mas antes dele, Gabriela Mistral tinha sido agraciada com a mesma honraria em 1945, mas sua fama foi eclipsada pela de Neruda, ativo em sua militância de esquerda. No governo Allende, recitou seus poemas para cerca de 70 mil pessoas no estádio de Santiago do Chile. Para o novo governo, a morte de Neruda caiu bem. Tornou-se um símbolo para os que resistiam à escalada da direita absolutista na América Latina.
Luciana não viveu esse período negro da história do Brasil e do Chile, mas seus pais, sim. Livros de Neruda faziam parte da biblioteca de Walter Santos e Tereza Souza. Luciana lembra de sua mãe recitando seus poemas quando era criança. Disse que sua identificação com as palavras do chileno é tão grande que “sentia como que estivesse escrito aquelas palavras para mim mesmo.” Costumava enviar seus poemas aos amigos em aniversários e outras ocasiões especiais.
As conexões com a poesia de Neruda eram, portanto, umbilicais. A ideia de fazer um disco com a poesia de Neruda teve como gancho a comemoração dos 100 anos de seu nascimento, em 2004. Uma outra incrível coincidência serviu como mais uma razão: ela e Neruda nasceram em 12 de julho.
O disco
A estrutura de Neruda é mais enxuta do que a do disco em que canta Elisabeth Bishop. Tocam apenas ela e o pianista venezuelano Edward Simon. As percussões eventuais de Luciana foram acrescentadas depois. As músicas foram baseadas no ciclo Canções e Danças do compositor erudito catalão Frederic Mompou. Luciana afirma que “há uma universalidade e atemporalidade na música de Mompou, assim como na poesia de Neruda – o modo como ele fala de amor, poderia ser sentido em qualquer outro lugar do mundo hoje ou a duzentos anos atrás. Há uma certa simplicidade e pureza em ambos – a poesia de Neruda é muito coloquial e Mompou soa como uma criança improvisando no piano. E Neruda é tão feminino, da mesma forma em que a música de Mompou é delicada.”
Desde que passou a gravar com frequência, Luciana amealhou um bom número de admiradores e a crítica especializada a tem em boa conta. Há anos está entre as dez mais votadas pela revista Downbeat. Nunca chegou a ser considerada a primeira, mas está ao lado de veteranas como Dee Dee Bridgewater, Dianne Reeves e Sheila Jordan.
Na minha lista, não está entre as minhas dez preferidas. Como se diz por aí, “gosto não se discute, lamenta-se apenas”. Acho-a contida demais, meio “roda presa”, mas não duvido de suas boas qualidades. Repito: cada um com seu gosto. Ouvi quase tudo o que Luciana gravou. Neruda era um dos que não conhecia até agora. Para mim, foi uma surpresa positiva. Depois de ouvir umas cinco vezes, gosto cada vez mais. Acho que é um de seus melhores trabalhos. Luciana é uma intérprete inteligente, tem clareza do que quer, e isso é uma grande qualidade. Juntar Hahm e Neruda foi uma bela sacada.
Veja Luciana cantando o Soneto 49 (é um dos 100 Sonetos de Amor), acompanhada pela kalimba, tocada por ela mesma.
Ouça Leaning into the Afternoon.
Ouça Memory.
Ouça o Soneto 99.
quinta-feira, 31 de março de 2016
terça-feira, 29 de março de 2016
O AC/DC em outro contexto, com Jens Thomas
Confesso a minha total ignorância quanto ao AC/DC. A primeira associação que faço é a de que um deles sempre usa uma boina. Ao pesquisar na internet, vejo que são dois os que adornam suas cabeças com frequência. Lembrava bem da imagem do guitarrista, que se veste como um estudante inglês, de bermudas, sapatos, uma gravatinha. Talvez, por essa imagem juvenilizada do guitarrista, tenha uma certa antipatia por eles. Antes que alguém saia me bombardeando por ignorar essa banda, fiquei curioso de ouví-los depois de conhecer o CD Speed of Grace (A Tribute to AC/DC), de Jens Thomas, lançado pela ACT Music, em 2012.
Jens lançou poucos discos até hoje. Logo que ficou conhecido, foi elogiado pela crítica, teve disco considerado o melhor do ano na Alemanha, e até foi dito que era o “único músico de jazz com mais prêmios que Albert Mangesldorf”. A explicação é a de que tem se dedicado mais ao teatro, cantando, tocando e improvisando, do que apresentando-se como músico de jazz.
Seu álbum Alone at Last, em 1999, despertou a atenção de Siggi Loch, dono da ACT Music. Gravou o álbum You Can’t Keep a Good Cowboy Down, com Paolo Fresu e Antonello Salis, sobre a obra composicional para o cinema de Ennio Morricone. Shadows in the Rain, com o saxofonista Christof Lauer, foi considerado o “álbum do ano”. Depois deste, foi a vez do duo Pure Joy, com o mesmo Lauer.
Sua participação em Othello, espetáculo produzido por Luk Perceval, no Munich Kammerspiele, Jens ficou longe das gravações até o CD Speed of Grace. Cantando o repertório da banda AC/DC, fez algo que foge totalmente ao espírito hard rock dos australianos. Acompanhando-se nos teclados e percussão e, em algumas faixas, com Verneri Pohjola no trumpete, os temas ‘hard” transformam-se em interpretações intimistas e originais. É até curioso Jens cantando “Se você quer sangue, você terá/ Se você quer sangue, você terá/ Sangue nas ruas/ Sangue nas pedras/ Sangue na sarjeta/ Até a última gota/ Você quer sangue, você terá”, versos de If You Want Blood, por exemplo, como se fosse um acalanto.
Não conhecia ou não lembrava de nenhuma canção cantada pela banda, mas o que sei é que Jens Thomas fez uma pequena obra prima em Speed of Grace. Vou apresentar algumas do disco, acompanhadas das originais para efeito de comparação.
Ouça Highway to Hell.
Ouça a mesma com o AC/DC.
Veja Thomas cantando Hells Bells.
Veja com AC/DC.
Jens lançou poucos discos até hoje. Logo que ficou conhecido, foi elogiado pela crítica, teve disco considerado o melhor do ano na Alemanha, e até foi dito que era o “único músico de jazz com mais prêmios que Albert Mangesldorf”. A explicação é a de que tem se dedicado mais ao teatro, cantando, tocando e improvisando, do que apresentando-se como músico de jazz.
Seu álbum Alone at Last, em 1999, despertou a atenção de Siggi Loch, dono da ACT Music. Gravou o álbum You Can’t Keep a Good Cowboy Down, com Paolo Fresu e Antonello Salis, sobre a obra composicional para o cinema de Ennio Morricone. Shadows in the Rain, com o saxofonista Christof Lauer, foi considerado o “álbum do ano”. Depois deste, foi a vez do duo Pure Joy, com o mesmo Lauer.
Sua participação em Othello, espetáculo produzido por Luk Perceval, no Munich Kammerspiele, Jens ficou longe das gravações até o CD Speed of Grace. Cantando o repertório da banda AC/DC, fez algo que foge totalmente ao espírito hard rock dos australianos. Acompanhando-se nos teclados e percussão e, em algumas faixas, com Verneri Pohjola no trumpete, os temas ‘hard” transformam-se em interpretações intimistas e originais. É até curioso Jens cantando “Se você quer sangue, você terá/ Se você quer sangue, você terá/ Sangue nas ruas/ Sangue nas pedras/ Sangue na sarjeta/ Até a última gota/ Você quer sangue, você terá”, versos de If You Want Blood, por exemplo, como se fosse um acalanto.
Não conhecia ou não lembrava de nenhuma canção cantada pela banda, mas o que sei é que Jens Thomas fez uma pequena obra prima em Speed of Grace. Vou apresentar algumas do disco, acompanhadas das originais para efeito de comparação.
Ouça Highway to Hell.
Ouça a mesma com o AC/DC.
Veja Thomas cantando Hells Bells.
Veja com AC/DC.
Ouça Touch Too Much.
Veja com o AC/DC.
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