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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Morrissey. Ou onde os velhos têm vez

O topete de Morrissey continua o mesmo
“Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro?”

A frase acima é de Metamorfoses, de Ovídio e foi escrita em alguma data próxima ao ano zero. Vinte séculos depois, o homem continua a se alimentar de animais mortos. É imoral? Pode ser. Mas está arraigado na cultura dos homens.

Na onda chamada natureba, que corresponde temporalmente à onda hippie fez emergir a figura do vegetariano militante. E, como qualquer coisa pode tornar-se mais radical, há os vegans, aqueles que não consomem também derivados animais, como queijos, leites, iogurtes e outras variantes. Alguns militantes defendem que alimentar-se de animais mortos influencia na agressividade do ser humano. Mas é inegável que que ser vegetariano não faz de ninguém um ser melhor. Basta lembrar de Adolf Hitler. Adorava os animais, não fumava e não comia carne. Evidente que os vegetarianos fazem questão de dizer que isso não é verdade. Falam que não gostava de carne mesmo, mas que era chegado numa salsicha acompanhada de cerveja. Tinha afeição especial por seus cães. Quando refugiou-se no bunker, levou Blondi, a sua pastora preferida.

Outra variante é o militante pela preservação da natureza. Quem não conhece alguém que jura conversar com as plantas? Outros abraçam árvores para trocarem energias. Inventaram até um apelido para essas pessoas: “ecochato”. Bom, ninguém mais pode ser assim chamado. Pela situação atual, se não nos preocuparmos com o planeta, o mundo acaba e não sobra ninguém para contar história.

O chato verdadeiro é aquele sujeito que deseja convertê-lo às suas crenças. Tanto faz ser o carnívoro defensor dos benefícios de uma picanha, o vegetariano comedor de alface que fica a tentar convencê-lo dos males de comer carne vermelha, ou o pregador evangélico desejoso de converter os “pecadores”.

Uma das Ongs mais conhecidas por se manifestar contra o abuso no tratamento dos animais e consequentemente ao sacrifício deles como fonte de alimentação é a Peta  – People for the Ethical Treatment of Animals. Suas campanhas são, às vezes, bem humoradas e bem feitas, em outras fazem o figurino do militante chato.

Morrissey e The Smiths. Os Smiths foram uma das bandas emblemáticas dos anos 1980. Considere-se que são da mesma década em que surgiram Joy Division, The Cure, Talking Heads, Siousxie and The Banshees, Bauhaus, Echo and The Bunnymen e Gang of Four. Tinha me cansado de rock. Por conta do barulho que se estava fazendo na imprensa em torno de um tal de Smiths, tomado de curiosidade, na hora do almoço fui até o Museu do Disco, a melhor loja de discos importados à época e paguei uma pequena fortuna pelo bonachão de 12 polegadas, em cuja capa em tons vinhos e azuis, via-se um torso desnudo. Fora tirado de uma cena de um filme de Andy Warhol. Era do ator Joe Dallessandro, um ícone do imaginário gay.

Devido à expectativa gerada pela imprensa, senti-me um pouco decepcionado. A guitarra de Johnny Marr era extraordinária. Não senti a voz do cantor como algo especial. Era normal. Ouvindo mais vezes, o disco me pegou e me fez passar a, novamente, ficar antenado nos lançamentos da música britânica.

Comentavam das boas letras de Morrissey, mas até hoje sinto certa dificuldade em prestar atenção nelas, talvez porque goste muito de jazz e, consequentemente, de música instrumental. Não poderia, no entanto, deixar de “desconfiar” do que poderia querer dizer um título como Meat Is Murder. A revolta sempre foi uma das características do rock. E, por que não o denuncismo? Pelo que parece, Morrissey desejava fazer um barulho. Falar mal do governo sempre funciona. Melhor ainda: viviam a era Tatcher. É mais fácil falar mal da direita. Tanto faz que a esquerda possa ser corrupta ou autoritária. A direita sempre esteve associada à caretice e ao conservadorismo. Ao colocar a inscrição “meat is murder” sobre uma foto de 1967 de um soldado na guerra do Vietnam no lugar de “make war not love” representava um ato político: fazer a guerra ou comer carne não eram coisas tão diferentes.

Os Smiths se separaram logo. Foi o suficiente para deixarem um marca indelével na história do rock. A química entre Morrissey e Marr era perfeita. O guitarrista meio que desapareceu. Lançou no entanto, The Passenger, no ano passado, e parece estar voltando aos bons momentos. Morrissey foi mais bem sucedido, porém seus álbuns solo nem chegavam perto em qualidade aos dos Smiths.

Capa do mais novo CD
O novo solo. No dia 15 deste mês, Morrissey lançou World Peace Is None of Your Business. Nem todo mundo gostou. O cineasta e crítico André Barcinski, em Folha de S.Paulo (11/7/2014), dá o teor do que acha já no título: “Morrissey vira ombudsman do mundo em CD”. Na primeira audição o que mais chama mais atenção é isso mesmo: uma certa pretensão em ser uma espécie de voz da razão. É o que Barcinsky afirma: “Acontece que, de uns anos para cá, o compositor parece ter embarcado numa egotrip exagerada até para sua conhecida ojeriza à modéstia.”

A começar pelo título “A paz mundial não é da sua conta”, seu discurso soa presunçoso e ingênuo ao mesmo tempo. Morrissey canta “Each time you vote, you support the process/ Brasil and Bahrein/ Oh, Egypt, Ukraine/ So many people in pain/ No more, you poor little fool/ No more, you fool.”

A fúria vegetariano-militante está de volta em The Bullfighter Dies. O bom é que Morrissey continua sendo um craque nos achados. Nos primeiros versos, brinca com sonoridades: “Mad in Madrid/ Ill in Sevilla/ Lonely in Barcelona.” Logo a seguir, repete: “Gaga in Malaga/ No mercy in Murcia/ Mental in Valencia.” Claro. A felicidade do inglês é que “ninguém chora/ porque todos queremos que o touro sobreviva.”

É o velho Morrissey na mais bela composição: Neal Cassady Drops Dead. Mosca morta, não? Essa história de apelar à geração beat ainda dá um caldo. Lá se vão décadas – On the Road, de Jack Kerouac foi publicado em 1957 – e Lawrence Ferlinghetti, Allen Ginsberg, William Burroughs, Neal Cassidy continuam chamando atenção de gerações e gerações diferentes. Como em The Bullfighter Dies, Morrissey constrói versos por meio de pequenos achados, como em “Neal Cassady drops dead/ And Allen Ginsberg’s howl becomes a growl.” “E o uivo de Allen Ginsberg torna-se um rosnado”. Bom, e depois tece um monte de enfermidades e imagens mórbidas. Vai ver que Morrissey anda preocupado com seus últimos problemas de saúde. Claro que a brincadeira com o mais famoso poema de Ginsberg – “Howl”, ou “uivo” – faz parte da “graça” da canção.

Ouça Neal Cassady Drops Dead.




Assista ao vídeo de Morrissey recitando os versos de The Bullfighter Dies.




Ouça a música.




Outro bom momento é I’m Not a Man. Fica a dúvida: ele entrega ou não entrega. Sexualidade é um problema para todos os gêneros, imagine para quem sempre deixou uma nuvem de fumaça em volta dessa questão. O bom, nesse caso é sentir-se (ou dizer-se) acima de tudo isso: “I’m not a man/ I’m something much bigger than/ A man.” Para afirmar que não é um homem, recorre a um punhado de exemplos duvidosos para dizer-se alguém melhor: “Don Juan/ Picaresque/ Wife beater vest/ Cold hand/ Ice man/ Warring cave man/ Well if this is what it takes to describe/ I’m not a man.” Para completar, volta com sua fúria “PETA” nos versos finais: “Não sou um homem/ Nunca matarei ou comerei um animal/ E nunca destruiria nesse planeta em que vivo/ Bem, o que você acha que eu sou?/ Um homem?”


Ouça I’m Not a Man.




Contraditório ou não – quem não é? – Morrissey, raivoso ou não, World Peace Is None of Your Business é um álbum enérgico, com guitarras espanholadas que “esquentam” e, por momentos causam estranhamentos e são prova de que os “velhos” ainda têm vez. Pensando melhor, o título de um disco de Jethro Tull – Too Old to Rock’n’Roll, Too Young to Die – não serve nem a Ian Anderson, e muito menos a Morrissey. Afinal é um jovem de 55 anos.

Ouça World Peace Is None of Your Business.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O melhor disco ao vivo de Jimi Hendrix

Jimi Hendrix empunha a sua Fender
Logo após a morte de Hendrix, considerado por 99% da população (1% é surda) o melhor guitarrista de todos os tempos, em setembro de 1970, foi lançado o álbum Cry of Love. Isso foi em 1971. Pouco antes saíra Band of Gypsys, com a banda que sucedeu ao Experience, com Billy Cox no baixo e Buddy Miles na bateria. Para alguns – é o meu caso –, era uma formação inferior à anterior. Com Mitch Mitchell na bateria e Noel Redding no baixo, e o mesmo Cox, posteriormente, Jimi fez o que de melhor houve na história dos power trios. Não sei se gosto da levada mais funk e rhythm’n’blues dos “gypsies”. Quem sabe, é a minha bronca primordial com os vocais de Buddy Miles

Foram lançados Crash Landing e Midnight Landing aproveitando-se a oportunidade comercial de exploração de sua morte prematura. Eram bem ruins. Mas, em 1972, saiu Hendrix in the West, uma compilação com algumas apresentações em solo americano que representava o melhor do talento de Jimi. Era ainda tempo dos LPs, aqueles discões de vinil de 12 polegadas. Por que razões, lançaram-no em CD apenas em 2011. O “in the west” é o melhor disco ao vivo lançado até hoje do americano. Tudo é impecável.

O álbum é um apanhado de apresentações ocorridas em quatro lugares. Organizado pelo produtor e engenheiro de som Eddie Kramer, abre com God Save the Queen, intitulado no CD, apenas The Queen, tirado da apresentação de Hendrix na Ilha de Wight (30/8/1970) e, na sequência, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, de Lennon e McCartney; tudo muito rápido, coisa de menos de um minuto, mas que vale uma vida. Curiosidade: tocou, pela primeira vez, Sgt. Pepper em junho de 1967 no Saville Theatre, Londres, três dias depois do lançamento do LP dos Beatles, na presença de McCartney e George Harrison. Desde então, Paul tem dito que foi um dos momentos marcantes na sua vida e uma grande honra na sua carreira.

A terceira faixa é de uma apresentação no Winterland, em San Francisco. É o melhor Little Wing ao vivo. Outras interpretações definitivas são as de Red House, em San Diego — a melhor, segundo a crítica —, e Vodoo Child (Slight Reurn).

Além de Sgt Pepperr’s Lonely Hearts Club Band, as que não foram compostas por Henderix são Lover Man, de Carl Perkins, e Johnny B. Goode, de Chuck Berry. É essa a que você ouve.




Ouça o melhor Red House.




Little Wing. Não é a versão do disco. Tentei disponibilizar, mas o vídeo foi bloqueado.





terça-feira, 22 de maio de 2012

A solidão de Jack White

Jack White e suas olheiras
Ao ouvir Missing Pieces, a primeira faixa de Blunderbuss, primeiro disco solo da parte masculina da dupla White Stripes, fica-se com a sensação de que aquele velho Jack se perdeu em algum lugar. Quando o White Stripes lançou o primeiro disco, pouco antes do fim do século XX, foi um choque. Aquilo era para fechar o século mesmo. Como era possível apenas duas pessoas – ele, Jack, e Meg White – fazerem tanto barulho? Fiquei pensando em truques de gravação, fitas pré-gravadas, overdubs, mas quando os vi no Credicard Hall, percebi que era possível. Meg, furiosa, de carinha entre o angelical e aquela menina que protagonizou O Exorcista… Linda Blair… esse era o nome, golpeava a bateria com raiva. A técnica estava em algum plano desnecessário. Meg personificava a fúria assassina e, no caso, a vítima era a bateria.

Não que Missing Pieces seja ruim. Mas, começar com umas notas no Fender Rhodes que se replicam na batida da bateria e no baixo? Muito calmo para o que se espera de Jack. Na faixa seguinte – Sixteen Saltines –, aí sim, lá está o velho Jack. De vez em quando penso que ele é uma mistura de Robert Plant e Jimmy Page numa só pessoa. White explora todos os sons da guitarra; não é à toa que o colocam no patamar de Hendrix. É o que se conclui ouvindo-se Freedom at 21, a seguinte. Que bom gosto nas distorções e overdubs!

As seguintes – Love Interruption, Blunderbuss, Hypocritical Kiss, Weep Themselves to Sleep, I’m Shakin’, Trash Tongue Talker, Hip (Eponymous) Poor Boy, I Guess I Should Go to Sleep, On and On and On e Take Me With You When You Go – são bem diversas entre si. A diferença entre o tempo do White Stripes e o do solo é o uso mais intensivo do piano e “puxadas” de slide guitar. Jack é country (com direito a cordas), é rock britânico, americano, folk e blues. O disco solo corresponde ao fim do White Stripes – nesse ínterim, montou o The Racounteurs, com Brendan Benson, Jack Lawrence e Patrick Keeler, e o Dead Weather, com Alison Mosshart (The Kills), Jack Lawrence e Dean Fertita (Queens of The Stone Age) – e de seu casamento. Mas o disco não pode ser rotulado de triste. Segundo Jack, rompimentos não precisam ser, necessariamente, trágicos ou tristes, conforme disse à Folha de S. Paulo.

Apesar do estranhamento, para quem se acostumou com Jack no White Stripes, aos poucos, acostuma-se com o Jack líder solitário. Em Blunderbuss, algumas músicas são muito boas: Hypocritical Kiss, Weep Themselves to Sleep, On and On and On. Fazem valer os reais que se gastam.

White faz os diabos com a guitarra, e canta, ao mesmo tempo. É fenomenal mesmo e a crítica já o coloca entre os melhores de todos os tempos. Thales Menezes, na Folha de S. Paulo (9/5/2012), diz que “uma revista o deixou atrás apenas de Jimi Hendrix, outra indicou que só Eric Clapton foi melhor”. O fato é que White ouviu todos esses grandes guitarristas e assimilou a técnica, tanto de Hendrix como a de Jimmy Page (na minha opinião, quem mais o influenciou) e de Buddy Guy. É um instrumentista versátil, tira tudo da guitarra e é ótimo compositor. Jack White caminha em várias direções. É a expressão de seu talento.

Fique com Sixteen Saltines. É poderosa.



E, com Hypocritical Kiss, só com as meninas.



Ouça Weep Themselves to Sleep.



Veja Jack cantando Freedom at 21, só com as meninas, de novo. Ele montou uma banda só de mulheres; alterna com uma com os homens.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A apresentação de Jeff Beck no Via Funchal, SP

Achei que Jeff Beck tinha se apresentado no Brasil antes, mas não. Disse, no show, que ocorreu em 25 de novembro no Via Funchal, ser a primeira vez. As apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo aconteceram por conta do lançamento do último CD Emotion and Commotion. Não o ouvi ainda, mas a crítica tem elogiado o disco, que apresenta algumas canções não exatamente do repertório do rock, como a conhecida ária Nessum dorma, da ópera Turandot, de Puccini, e Over the Rainbow, clássico de Harold Arlen e letra de E.Y. Hayburg. Além da banda, conta com uma orquestra, trilhando a onda que costumam chamar de crossover, atraindo, tanto os “roqueiros” flertando o formato erudito, como o contrário, casos de Yo-Yo Ma e Gidon Kremer, ou de cantoras consagradas no universo clássico como Jessye Norman, Barbara Hendricks, Frederica von Stade… bom, a lista é bem grande. Nessum dorma, por ser um tema belíssimo e tão popular, se não me falha a memória, foram registradas por Branford Marsalis e Grover Washington, músicos ligados ao jazz.

Jeff adora uma roupa sem manga
Em razão da generosidade do meu amigo Jay Horvath, convidado por ele, fui ver o show. Foi uma mescla de alguns sucessos consagrados, como Led Boots, do clássico do fusion, Blow by Blow, de 1974, e músicas do novo CD. Beck iniciou com Plan B, bem pauleira, para esquentar a plateia, que respondeu com entusiasmo. Seguiu com Corpus Christi Carol e Hammerhead, do novo álbum, desconhecidas do público. Esquentou mesmo com um solo performático da baixista Rhonda Smith, craque no palco em vista da experiência de ter tocado na banda de Prince. Tal Wikinfeld, a baixista anterior, uma lourinha com cara de menina, é mais técnica que Rhonda, mas com maior presença, vestida de preto, calça justa, gestos e poses. Narada Michael Walden é um poderoso baterista substituiu Billy Cobham na banda de John McLaughlin na época do Mahavishnu Orchestra) e tocou anteriormente com Beck em Wired, na década de 1980. É também músico de estúdio requisitado (tocou em discos de Diana Ross, Mariah Carrey, Aretha Franklin e Whitney Houston. Ambos dão um peso considerável ao conjunto do som. Complementa a banda o experiente Jason Rebello, que acompanhou vários músicos de jazz e também, Sting.

Os destaques do show foram a citada anteriormente, Over the Rainbow, People Get Ready, clássico de Curtis Mayfield, e I Want to Take You Higher, poderosa composição conhecida na interpretação de Sly and The Family Stone. O ponto negativo, segundo meu ponto de vista, foi um canhestro How High the Moon, clássico do jazz. Quando Beck empunhou a Gibson Les Paul, imaginei que fosse acontecer algo de muito especial (só tinha o visto com a Fender Stratocaster). Soltaram um vocal absurdamente feio em playback para a performance da banda. Horrível. Não fosse isso, teria sido um show irrepreensível.

Para fugir do trânsito pós-show, não assisti ao último bis: Nessum dorma. Fui na do amigo Jay: melhor perder uma música do que ficar uma hora preso no trânsito da saída. Há um vídeo disponível com orquestra da ária de Puccini. Confira.



Jeff Beck e a baixista Rhonda Smith:




Jeff Beck toca Led Boots com a antiga baixista, Tal Wikenfeld.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jeff Beck no Brasil

Esse texto foi publicado no blogue do jornalista Paulo Moreira Leite, no ano passado, e, aproveitando a vinda de Jeff Bek ao Brasil – apresenta-se hoje no Via Funchal, São Paulo – estou republicando no meu blogue. Os comentários são mais em cima de sua breve aparicão em Blow Up, de Antonioni.


Em uma cena do filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni, o fotógrafo protagonizado por David Hemmings, vai parar num bar em que a banda de rock Yardbirds está tocando a música Stroll on. Dois de seus componentes, além de Eric Clapton, transformaram-se, mais tarde, em ícones da guitarra no rock. Os ingleses Jimmy Page, Jeff Beck e Clapton formam o grande trio da guitarra e, por coincidência, ou porque o mundo é muito pequeno, tocaram na mesma banda, os Yardbirds. Por conta do destino, Jimi Hendrix, aquele que é considerado o melhor guitarrista de todos os tempos, iniciou sua carreira na Grã-Bretanha, apesar de ser americano de Seattle. Todos moravam na mesma cidade em meados da década de 1960.

Jeff Beck, um ego do tamanho de sua habilidade
Por outra obra do destino, dos três ingleses, o mais prestigiado naquela época, ficou para trás. Clapton, que foi “Deus”, e Jimmy Page, que se consagrou no Led Zeppelin, ficaram mais famosos que Jeff Beck. Várias razões contribuiram para que isso acontecesse. Uma delas, provavelmente, foi o ego “gigante” de Beck e, consequentemente, sua dificuldade de trabalhar com pessoas que pudessem concorrer com ele. Em Blow Up, o amplificador Vox da guitarra de Jeff Beck começa a “chiar”. Ele se irrita, esmurra o amplificador, arrebenta a guitarra e a lança em direção à plateia. O público briga avidamente para pegar a guitarra destruída. O fotógrafo consegue pegá-la. Thomas – que deve ter sido inspirado no grande fotógrafo da “swinging London”, David Bayley – sai com ela e depois, joga-a no lixo. É claro que, sendo Antonioni, aquele objeto fetichizado tem um significado: jogá-lo fora é desprezar as idolatrias ou seus objetos. Numa entrevista, anos depois, Beck disse que odiou Antonioni, dizendo ser ele um cara “metido a intelectual” ou qualquer coisa parecida. Vejam, a “subversidade contracultural” de Antonioni não foi entendida pelo jovem Beck.

Depois desse filme, lançado em 1966, Antonioni dirigiu outro grande filme “contracultural” no seio dos Estados Unidos. Zabriskie Point, produzido pelo marido de Sofia Loren, o produtor Carlo Ponti, é a própria síntese daquele tempo, retratando revoltas estudantis, intermináveis assembleias, movimentos libertários contra a segregação racial. Zabriskie tem um dos finais mais impressionantes do cinema. Um palacete construído no alto de uma montanha, em que capitalistas discutem sobre um grande projeto imobiliário, explode em bilhões de partículas que voam pelos ares em camera lenta acompanhado pela música “psicodélica” de Pink Floyd. Antonioni era um cara antenado, atento aos movimentos do mundo. Ao mesmo tempo em que Godard fazia sua A Chinesa do outro lado do oceano, num discurso caracteristicamente na tradição europeia do pensamento, o italiano Antonioni foi à América para tentar entender o movimento contracultural americano in loco.

A “aparição” de Jimi Hendrix foi “mortal para o “Deus” Clapton. Eric ficara tão impressionado com Jimi, que quase desistiu de continuar a tocar guitarra. O alcool e as drogas não conseguiram destruí-lo e está até hoje na ativa. Deus foi bondoso com ele, pois sobreviveu a Jimi e a tudo. Deus também tem sido bondoso com Jimmy Page. Ele continua inteiro e ainda é referência para várias gerações de novos guitarristas. Jeff Beck, que era o grande do meio dos anos 1960, não teve a glória de seus conterrâneos britânicos e não é, por isso, menor. Continua um grande guitarrista, mas tem uma carreira, por vezes, errática. Tem grandes discos e um deles é o instrumental Blow by Blow, de 1975.

Jeff Beck é um estranho na seara do chamado jazz-rock,  jazz-fusion, jazz-progressivo, e outros “jazzis”. Nomes associados a esses gêneros são músicos de jazz que absorveram a linguagem do rock, como Chick Corea, Joe Zawinul, Herbie Hancock ou Miles Davis. Mesmo assim, Beck, músico nascido sob a influência do rhytm-blues americano, gravou um dos melhores discos fusion de todos os tempos. Acompanham Beck o tecladista Max Midleton, o o baixista Phil Chen e o baterista Richard Bailey. É um belo showcase das habilidades do guitarrista. Há uma química fenomenal com o Fender Rhodes de Middleton e os sons de Beck. A produção do mestre George Martin é perfeita. Abusa-se dos efeitos do estéreo nos sons que saem do piano elétrico: dançam nos canais esquerdo e direito, “etereamente”, flutuando sobre a marcação firme do baixo e da bateria. Beck tem um jeito diferente de tocar, recorrendo pouco da paleta, usando bastante o dedão (usa três dedos, incluindo o polegar) e, abusando da alavanca para distorcer o som, produzindo uma verdadeira miríade de sons possíveis. Além da infinidade de sons que Beck tira de seu instrumento, Blow by Blow é uma coleção de climas que se associam à sugestibilidade de títulos como Air Blower Scatterbrain e Freeway Jam. O momento mais belo, no entanto, é em ’Cause We’ve Ended as Lovers, de Stevie Wonder. É um clássico inesquecível. Para quem não conhece, creia, é um pedaço do paraíso.

Vejam Jeff Beck em ’Cause We’ve Ended as Lovers no Ronnie Scott. Pena que a baixista Tal Wilkenfeld não está mais com ele. Prestem atenção em sua performance.



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ladies & gentlemen, The Rolling Stones

Muitos, com razão, se perguntados sobre qual é o grande disco dos Rolling Stones, elegerão Exile on Main Street. Se não é o melhor, pelo menos, é o último grande disco deles. Muitos dos posteriores eram bons, afinal, se são os RS, o médio deles é melhor que o melhor da maioria das bandas. Agora, em 2010, foi lançado um DVD registrado em quatro noites no Texas da excursão de lançamento do Exile…, em 1972. Esqueça os megaespetáculos e megashows que fizeram em série a partir de Bridges to Babylon (1997). Tem produção, claro, mas nada comparado a qualquer show atual de Ivete Sangalo, por exemplo.

Grande Mick Taylor. Richards e Wyman em segundo plano
Que diferença faz um guitarrista! Não é para menosprezar Ron Wood, o atual segundo guitarrista dos RS. Depois da morte de Brian Jones, seu sucessor, Mick Taylor, foi o perfeito parceiro para a guitarra suja de Keith Richards. Antecede a fase glitter de Mick Jagger, de roupas espalhafatosas e maquiagem, mas não prescindia de brilhos em um macacão dourado ou na camisa preta de seda pois e o chapéu de caubói – afinal, o show era no Texas. É claro que You Can’t Always Get What You Want (excepcional), Street Fighting Man e Jumpin’ Jack Flash fazem parte do set list, mas as músicas são, na maioria, de Exile on Main Street e Sticky Fingers: Brown Sugar, Bitch, Dead Flowers, Happy, Love in Vain, Tumbling Dice e Sweet Virginia.

Os Rolling Stones, apesar do tempo e das rugas, da saída de Mick Taylor e da entrada de Ron Wood, bem como da deserção de Bill Wyman, mantiveram certa unidade. Não compõem sucessos à altura dos antigos, mas, graças à energia de Mick Jagger e ao carisma de Richards e Charlie Watts (o baterista cool, que não sorri, não movimenta um músculo do rosto enquanto toca, na hora das apresentações dos músicos, é sempre o que recebe os aplausos mais calorosos). E merece ser citado o saxofonista Bobby Keys, assim como, apesar de morto em 1994, o tecladista Nicky Hopkins. Ambos são ou foram partes da “alma” dos RS.

Com certeza – o DVD é da Eagle Vision – será lançado no Brasil. Que os mais pacientes esperem. Os apressados podem adquiri-lo nos sites como a Amazon por um preço pra lá de camarada (US$ 8 + frete). Os loucos por novas tecnologias podem comprar em Blu-ray (US$ 16 + frete, preço baixo frente aos ridículos 90 reais que cobram no Brasil por um DVD Blu-ray).

Ouça Happy, cantada por Keith Richards e Mick Jagger:

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Johnny Marr: grande guitarrista!

Por onde anda Johnny Marr? Depois da dissolução do The Smiths, “dissolveu-se” também, formando o Electronic com o baixista Peter Hook, do New Order. E assim, foi pouco aparecendo, gravando em discos alheios. Como o mundo musical pode prescindir de um grande guitarrista como Marr? Uma das últimas bandas em que participou se chama Modest Mouse.

Cansei do rock. Em 1984 ouvia quase que exclusivamente jazz e música erudita. E como nunca fui de ouvir rádio, ficava completamente por fora das novas tendências – como continuo até hoje. Um dia, indo para a praia com minhas sobrinhas coloquei no CD player uma música do Outkast que tinha acabado de descobrir: Hey Ya! Para a minha surpresa, vi que pelo espelho retrovisor que as duas dançavam fazendo movimentos coreografados com os braços. Riram, e uma delas disse, “tio, faz uns dois anos que essa música faz sucesso nas rádios e na MTV.”

Surgiam novas bandas no início dos anos 1980: Siouxie & The Banshees, The Cure e Echo & The Bunnymen. Mesmo o Joy Division, que mais tarde se tornaria uma de minhas preferidas de todos os tempos, não conhecia.; aliás, conhecia, mas nunca tinha ouvido. Fui escutar só depois da morte de Ian Curtis. Mais do que todos os citados, os jornais  e outros veículos falavam muito de um tal The Smiths. De tanto ouvir falar, fui até o Museu do Disco, a melhor loja de discos importados à época, em São Paulo, e morri com uma bela grana comprando o lp deles. Foi um choque ouvir. Começava com uma música meio dolente chamada Reel Around the Fountain. Meio chata, achei. Quando cheguei em Hand in Glove, tinha ficado fã e totalmente impressionado com o som do guitarrista. Daí, voltei a comprar alguns dias de rock, inglês, principalmente.

Os comentários sobre Marr surgiram porque tenho ouvido uma coletânea com algumas faixas inéditas que saiu há alguns anos. Ouvi em dias próximos uma banda chamada The XX e o Our Love to Admire, do Interpol. São bons discos, mas – coincidência? – achei as guitarras tão fracas, sem energia, pouco criativas.

Ouçam uma amostra do que Johnny Marr faz com a guitarra em uma faixa menos conhecida dos Smiths: Money Changes Everything.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Mutações de Peter Gabriel

Desde 2002, Peter Gabriel não lançava algum disco. Agora, neste ano, sem muito barulho, saiu o Scratch My Back. Como sempre, Gabriel invariavelmente tem uma surpresa. Fez um disco de covers. Bem, até aí não é nenhuma novidade: tantos fizeram! O diferencial é o conceito. Desta vez se propôs a gravar músicas alheias, e a seus compositores foi proposto que gravassem as suas. Ele fez a parte dele. A contrapartida, como ele mesmo diz, “acontecerá mais tarde.” O título é referente a essa ideia: “você coça as minhas costas e eu, a de vocês.”
Desde o início de sua carreira, esse hoje jovem senhor de 60 anos, “fez diferente” e continuou em sua jornada de ser um indivíduo mutuante, como David Bowie. 

A originalidade vem dos tempos em que formou o Genesis. Representantes do rock progressivo britânico, apesar de certa pretensão em suas propostas em realizar álbuns como suítes, em que as partes se completam, várias bandas dessa época conseguiram fazer discos que, até hoje, se sustentam. Um diferencial do Genesis eram as apresentações ao vivo, sempre teatrais. Gabriel costumava se apresentar mascarado ou maquiado em roupas extravagantes.

Depois de sair do Genesis, construiu uma carreira solo representativa. Dessa época as músicas mais conhecidas são Biko, Shock the Monkey, I Don’t Remember, Not One of Us, Sladgehammer, San Jacintho e mais uma penca de sucessos. Compôs música para cinema – Birdy e A Última Tentação de Cristo. Criou a gravadora Real World e produziu uma série de discos com músicos árabes, africanos e sul-americanos até então pouco conhecidos no mercado do Primeiro Mundo. Foi, com o tempo, perdendo os cabelos e hoje se parece um pouco com o escritor Paulo Coelho, mas diferente deste, conservou o talento.

Qualquer receita depende dos ingredientes. Em Scratch My Back, prescinde da cozinha tradicional – bateria, baixo e guitarra – e fez um CD com orquestração John Metcalfe. A energia em todas as faixas é contida, e as músicas são, sem exceção, melancólicas e reflexivas. Juntou um punhado de canções preferidas e construiu versões personalíssimas de David Bowie (Heroes), Paul Simon (The Boy in the Bubble), Lou Reed (The Power of the Heart), e Neil Young (Philadelphia), dentre outros. Antenado, gravou composições mais contemporâneas como My Body Is a Cage (Arcade Fire), Street Spirit (Radiohead) e Regina Spektor (Après Moi). Esta última é um dos pontos altos do disco. Apesar da orquestração, às vezes, lembrar Philip Glass e Steve Reich, compositores eruditos minimalistas, o resultado geral é brilhante. Mais uma vez, Peter Gabriel surpreende.

Ouçam Après Moi, de Regina Spektor:

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Nada que se compare à Sinead O’Connor

Certa vez, com o amigo Marcio Uehara – Magoo desde os tempos de FAU-USP – falávamos de Sinead O’Connor, que “cantava” no aparelho de som.  A conversa era sobre os nomes irlandeses e as maneiras específicas de pronunciá-los. No escritório onde trabalhava, em Paris, tinha três irlandeses.

Quando entrou Nothing Compares to U, perguntou se sabia se era dela. Respondi que era de Prince. “— Ah, é do Prince? Só podia ser. Esses versos, ‘It’s been seven hours and fifteen days since you took away’…, bem coisa dele.” O comentário era sobre as “sete horas e quinze dias”.

Sinead fez e falou o tanto suficiente para criar inimigos e fatos. Pediu a renúncia do Papa Bento XVI, rasgou a foto de João Paulo II e deixou Frank Sinatra irado – mandou-a “kick her ass” – por ter se recusado a se apresentar em New Jersey se fosse tocado o hino americano. Tinha peito, a moça! Mas agora, sumiu. Ou não. Fotografaram-na saindo do filme do show do U2. Irreconhecível. Sua “reaparição” serve para lembrar da bela interpretação da música de Prince.

Vejam e ouçam. A de Prince está no link http://www.youtube.com/watch?v=lWBZINmN7Ts&feature=youtube_gdata

Veja a de Sinead:

sábado, 26 de junho de 2010

Barack Obama e o rock

Até onde sei, a banda The National não tem algum disco lançado no Brasil. De tanto ouvir falar deles, adquiri o Boxer (Beggars Banquet, 2007) para matar a curiosidade – não tenho o costume de ficar procurando em sites de Internet. Excelente aquisição. Gostei das músicas e, especialmente, da voz de barítono de seu cantor, Matt Berninger, que lembra Ian Curtis – mais – e Nick Cave – mais ou menos. Aliás, o tom soturno da banda lembra o som da banda de Ian, o Joy Division. Por conta do lançamento de High Violet (não ouvi ainda, mas já encomendei), lembro de uma história que saiu em algumas publicações.


Em 2008, a pretexto do apoio à candidatura de Barack Obama à presidência dos EUA, os membros do The National mandaram confeccionar camisetas com os dizeres “Mr. November” ( é o mês das eleições presidenciais), nome de uma canção do álbum Alligator (2005). Como retribuição, o staff da campanha de Obama utilizou trechos da canção Fake Empire (2007) na peça de campanha Signs of Hope & Change.

A música e o vídeo Signs of Hope… estão aqui anexadas:


Fake Empire - The National from Scott Cudmore on Vimeo.