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quarta-feira, 29 de abril de 2026

“A Time for Love” é o título do novo álbum de Stacey Kent

Não é de se estranhar que Stacey Kent tenha se lançado profissionalmente quando tinha pouco mais de 30 anos. Talvez tivesse outros objetivos. Formou-se em Literatura Comparada na Sarah Lawrence College em Nova York. Depois foi morar em Londres e estudou na Guildhall School of Music and Drama. 

Na escola, conheceu Jim Tomlinson, com quem se casaria. Passaram a se apresentar em clubes, que lhe deu uma boa cancha. Quando lançou o primeiro disco, pelo selo Candid, nem parecia uma estreante. Isso fica claro desde a primeira audição de Close Your Eyes (Candid, 1997). Acompanhada por Jim Tomlinson, o guitarrista Colin Oxley, egresso da Guildhall também, o pianista David Newton, Andrew de Jong Cleyndert (baixo) e Steve Brown (bateria), Stacey revelava-se uma intérprete com personalidade logo na primeira faixa: More Than You Know.

Ouça More Than You Know. Quer melhor apresentação da qualidade de Stacey Kent?

De 1997 até 2026 são mais de duas dezenas de discos lançados, todos muito bons. Seu repertório é amplo e variado. É a única cantora que domina vários idiomas com perfeição: em inglês, sua língua nativa, em francês, que aprendeu criança e aperfeiçoou na faculdade, e em português, que aprendeu e aperfeiçoou com o poeta português Antônio Ladeira. A ligação com o português vem, antes de mais nada, de sua paixão pela música brasileira, despertada ao ouvir o álbum Getz/Gilberto (Verve, 1964). 

A surgimento da Bossa Nova foi um acontecimento marcante no cenário musical americano, em proporções diferentes, tanto quanto a do rock britânico, com a primeira excursão dos Beatles.Houve a famosa apresentação dos brasileiros no Carnegie Hall, em Nova York. Foi um sucesso enorme o disco do saxofonista britânico Stan Getz com João Gilberto e Astrud Gilberto. Logo depois todo mundo tocava ou cantava Bossa Nova. Nem o maior cantor de todos os tempos a ignorou. Apresentou Jobim em seu programa de TV e gravou Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim (Capitol, 1967). 

Sinatra não ousou cantar em português. Suas interpretações são com versões de Ray Gilbert. Tom Jobim se lamentou muitas vezes por isso. Tanto Gilbert e outros que fizeram as versões ficaram com 50% dos direitos autorais. Ficaram milionários sem fazer força. Ao contrário de Sinatra, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, as maiores cantoras da geração, resolveram cantar algumas composições em português. Por mais geniais que foram, dói nos ouvidos. Em anos mais recentes temos intérpretes americanos que cantam em português, como Kurt Elling, Diana Krall, Carol Welsman, Esperanza Spalding e Gretchen Parlato, até com certa competência. Mas, como Stacey, ninguém. 

A paixão de Kent pelo Brasil é recíproca. Deve ter feito ao menos uma dezena de apresentações aqui. Fora isso tem álbuns com Marcos Valle (Live at Birdland – New York City, 2013 e Ao Vivo Comemorando 50 anos de Marcos Valle) e Roberto Menescal (The Changing Lights, 2013). 

Desde a pandemia da Covid (2020-2023), Stacey tem lançado discos com menor frequência. Nesse período, em dezembro de 2021 saiu Songs from Other Places, acompanhada apenas pelo marido e produtor Jim Tomlinson – sax e flauta – e o pianista Art Hirahara.

Summer Me, Winter Me é de 2023. A base continua a mesma, dessa vez acrescida de uma banda e uma formação camerística em alguns números.Nesse álbum, que mereceria uma postagem separada, tem algo que merece uma observação. Summer Me, Winter Me, Under Paris Skies, If You Go Away são versões em inglês de canções francesas. A última faixa é Ne me quite pas, de Jacques Brel, a versão original de If You Go Away.

Grande interpretação do clássico de Jacques Brel, com o belo piano de Art Hirahara.

Maturidade. Em março completou 61 anos. É uma idade em que não é mais preciso prestar satisfação a ninguém. O tempo pode correr mais lento (ou não) e é possível deixar a pressa de lado. 

A combinação com a gravadora era de que um novo álbum seria lançado em 2025. Aconteceram alguns contratempos. Por ter sido anunciado nas redes sociais, a solução foi a de lançarem singles em um EP intitulado A Little Time for Love enquanto não se completassem as gravações. Finalmente, em abril de 2026 disponibilizou-se A Time for Love.

Pelo título, fica clara a concepção. É intimista. Segue a linha de Some Other Places. Kent é acompanhada apenas por Jim Tomlinson e Art Hirahara. O ecletismo dela não se resume apenas ao repertório, em que convivem música francesa, brasileira, italiana e de língua inglesa. Como vários outros intérpretes contemporâneos, incorpora músicas compostas depois dos anos 1960, quando o jazz e os musicais do teatro americano deixam de ser tão populares. No disco recente, o standard mais antigo é Lucky to Be Me, de Leonard Bernstein, Adolph Green e Betty Comden, de 1944. The Shadow of Your Smile e A Time for Love, ambas do genial Johnny Mercer e letra de Paul Francis Webster, são da década de 1960, respectivamente, de 1965 e 1966. Trains and Boats and Planes, de Burt Bacharach e Hal David, é de 1965

As associadas ao pop são God Only Knows, de Brian Wilson, e  As, de Stevie Wonder, do clássico Songs in the Key of Life (1976). Sobre incluir temas não considerados standards, Kent, em entrevista feita por Sergio Martins (OESP, 25/04/2026), afirma: “Tinha acabado de me apresentar no Ronnie Scott’s, em Londres, quando um senhor chamou a minha atenção por eu ter cantado You’ve Got a Friend, de Carole King – uma música que adoro e há tempos faz parte do meu repertório. Ele disse então que Billie Holiday jamais teria interpretado You’ve Got a Friend. Respondi então que ela nunca gravou porque trata-se de uma canção que foi composta doze anos depois da morte dela. Mas provavelmente faria parte do repertório de Billie caso ainda estivesse viva. Porque é uma grande música e Billie era uma intérprete tão comovente que certamente se interessaria por You’ve Got a Friend.”

Nas composições que não são na língua inglesa, Stacey revisita La javanaise, de Serge Gainsbourg, canta E la Chiammo Estate, de Bruno Martino, e Carinhoso.

É difícil destacar as melhores. Na minha opinião, vale destacar God Only Knows – a primeira vez que a ouvi com um cantor associado ao jazz foi com John Pizzarelli em uma apresentação no Bourbon Street há mais de quinze anos –, Trains and Boats and Planes, What Goodbye Is For, única do marido Jim Tomlinson,  As, de Wonder, a mais animada do disco, La javanaise, com o duo teclado e flauta, e, naturalmente, Carinhoso.

Uma última observação. Stacey Kent é cantora de voz pequena, sem arroubos. É a sua grande qualidade. Em uma publicação no Facebook dia que sua voz é a pela qual se expressa. “Existe o canto operístico, existe o canto folk, existem todas essas diferentes abordagens para a voz humana. […] é ótimo que existam. A minha é mostrar a minha voz natural. O estilo é uma abordagem muito natural, e isso porque a minha metaé alcançar as pessoas de uma forma muito humana e direta. Mas isso me lembra certas coisas, como a maneira como um pai ou mãe fala com o filho, como um amigo íntimo fala com alguém próximo. É essa linha direta entre as pessoas”. Perfeito, não. Stacey nos toca diretamente, como se estivesse cantando para nós, humanos encantados por ela.

Ouça o novo álbum.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Nana Caymmi e uma historinha com amigos

Nana quando jovem

Apesar das diferenças de idade, ela e ele, mais de vinte anos mais novo que eu, ficamos muito amigos e mantivemos por alguns anos uma forte amizade, mesmo fora do trabalho. O que nos uniu foi que tínhamos muitos interesses em comum. A primeira aproximação foi com ele. Como ouvia música em qualquer momento, tinha uma caixinha de som e ficava trabalhando embalado pelo jazz. Ele veio puxar uma conversa porque eu estava ouvindo John Coltrane, se não me falha a memória. 

Com ela, lembro que nossa primeira conversa foi sobre cinema. Assistia tudo, conhecia muito, adorava Audrey Hepburn em “Boneca de Luxo” (“Breakfast at Tiffany’s, 1961), de Blake Edwards. Amava também Diane Keaton e Woody Allen. Apesar de ter menos de 30 anos na época, em vez de filmes contemporâneos, tinha predileção pelos clássicos americanos das décadas de 1950 e 60. Tínhamos outra predileção em comum, os discos de Eydie Gormé cantando boleros, que, aliás, ele detestava e achava muito brega. Adorávamos também o álbum “Lágrimas Negras” de Bebo Valdés e o espanhol El Cigala. Esse ele odiava mais que a vida. Em casa, quando coloquei o vídeo, ele, num ataque de ira, tirou o DVD e disse: “Isso vocês não vão ouvir!”. Aí colocou “Pulse”, do Pink Floyd, que ele adorava.

Passamos a fazer coisas juntos. Como eu tenho quase todos esses clássicos, os discos e filmes em DVD, muitos dos encontros aconteciam na minha casa. Eu fazia jantares ou lanches e bebíamos bem. Eu e ela tínhamos uma preferência especial pelas “torch songs”, que hoje podemos classificar como “sofrências”, mas por favor, não nos confundam com fãs de música sertaneja. Daí a razão de gostarmos especialmente do estilo “esganado” de cantar de El Cigala.

É aqui que Nana Caymmi entra na história. Um dia saímos nós três e o Ricardo, que não tinha quase nada em comum com a gente. Fomos no meu carro ao restaurante. Na época, tinha um aparelho de MiniDisc, que hoje nem mais existe. Tinha o costume de fazer seleções temáticas para ouvir no trânsito – playlists, para usarmos a expressão atual. Na volta do almoço, começa a tocar “Boca a Boca” (Milton Nascimento, Fernando Brant). Entramos no estacionamento, desliguei o carro, e ficamos ouvindo a música até o fim. Nós três, emocionados, em silêncio, estávamos com os olhos marejados. Saímos em silêncio, sem trocarmos uma palavra. O Ricardo não deve ter entendido nada.

Ouça o meu playlist com a Nana. As minhas preferidas são da década de 1970.


terça-feira, 5 de novembro de 2024

Algumas coisas sobre Agnaldo Rayol

Até os onze anos morei em Passos, MG. Na minha infância ouvia Tonico e Tinoco, Miguel Acevez Mejía, Agnaldo Timóteo e Elvis Presley, os preferidos da Elsa, que era a empregada doméstica – era assim que eram designadas naquele tempo. Meus pais vinham a São Paulo com frequência, mais meu pai que tinha que vir para comprar materiais para a sua loja de fotografia.

Nas vezes em que minha mãe o acompanhava sempre vinha com novidades fonográficas. Trazia discos (chamados compactos simples, em que cabiam apenas duas músicas, uma em cada lado dos disquinhos). Assim, meu gosto foi ficando mais sofisticado. Não sei se ela pedia recomendação nas lojas, mas trazia os sucessos da época: Wanderley Cardoso, Ronnie Von e Chico Buarque, que fez o maior sucesso em um dos primeiros festivais da TV Record com “A Banda”. Ah, não posso deixar de citar Roberto Carlos. A televisão não tinha chegado em Passos, mesmo assim comprava semanalmente a revista “Intervalo” e ficava sonhando com o dia em que me pai comprasse uma. Na revista, na parada de sucessos musicais, o destaque eram os Beatles, de quem não fazia a menor ideia do que tocavam.
Pensando na educação dos filhos, meu pai, quando terminei o primário, que eram os primeiros anos do antigo primeiro grau, com o dinheiro que ganhou, construiu um sobrado em que a loja ficava no térreo e casa no outro pavimento em um bairro da periferia de São Paulo, onde dois de seus irmãos tinham se estabelecido.
Desse início em São Paulo, em poucos anos ele montou uma loja em um lugar melhor, o Brooklin Paulista e prosperou. Comprou um terreno no bairro do Morumbi e construiu uma nova casa.
Bom comerciante, em pouco tempos “engoliu” seus dois concorrentes na região. A Foto Yokoyama virou “a loja do Brooklin”. Executivos da Volkswagen, Alpargatas, Casas Pernambucanas eram seus clientes, moradores da parte rica do bairro. Algumas figuras mais conhecidas moravam lá também e se tornaram clientes, dentre eles, Rivellino e alguns astros da música: Agnaldo Rayol, seu irmão Reynaldo Rayol, Marcos Roberto e Marcos Fridman, esse últimos que apareciam eventualmente no programa Jovem Guarda, de Roberto e Erasmo Carlos.

Um pequeno parágrafo antes de chegar ao último. Agnaldo Rayol era o representante, digamos, da música brega, comparando-o com Ronnie Von e Roberto Carlos. Fizera o maior sucesso com “A Praia”. Foi tanto que saiu até um disquinho promocional da pasta de dentes Kolynos. Aposto que quem nasceu em meados dos anos 1950 deve ter tido esse compacto simples, brinde que você ganhava ao comprar o dentifrício.

Bem, chegando onde eu queria chegar. O Agnaldo Rayol ia fazer uma viagem ao exterior e precisava tirar a foto 5x7 para o passaporte. Ligaram para a loja avisando que ele ia em um horário determinado, sabe, tipo estrela mesmo. Naquela época fãs atacavam seus ídolos, rasgavam suas roupas etc. Evidente que meu pai nos avisou e, estávamos todos lá, minha mãe e meus irmãos. Entra ele todo bem vestido, com óculos escuros maior que a cara dele, tira a foto e vai embora. Esse foi o meu único e derradeiro encontro com o Agnaldo Rayol.


Ouça “A Praia”.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Marcos Resende, um “desconhecido” genial

O único trabalho de Marcos Resende e sua banda Index lançado no Brasil foi “Festa Para Um Novo Rei”, em 1978, na série MPBC (Música Popular Brasileira Contemporânea), selo criado pelo selo Philips para promover alguns nomes da música instrumental brasileira. 

O selo surgiu no mesmo ano em que aconteceu o  I Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em parceria com os realizadores do tradicional Festival de Montreux. De vida breve, 1978 a 1981, deu espaço a músicos como o pianista e arranjador Nelson Ayres, o percussionista Djalma Corrêa, atração de um dos primeiros festivais, Nivaldo Ornellas, saxofonista e flautista que tocou com Milton Nascimento, o baterista Robertinho Silva, o pianista Túlio Mourão e Marcos Resende, dentre outros.

Antes desse álbum, em 1976, Resende gravou no estúdio Sonoviso um disco tendo Toninho Barbosa como engenheiro de som, conhecido pelos trabalhos com o Azimuth (depois americanizaram trocando o “i” pelo “y”) e Marcos Valle. Parece que ele ofereceu o disco para a CTI, gravadora americana que teve seu auge nos anos 1970, com um cartel que incluiu os brasileiros Airto Moreira, Eumir Deodato, Milton Nascimento e Antônio Carlos Jobim, além de outros como Paul Desmond, Hubert Laws e Joe Farrell. As negociações não prosperaram, mas Resende manteve as fitas de gravação com ele. Em 2017, entrou em contato com a gravadora Far Out Recordings, do DJ e produtor inglês Joe Davis que, entusiasta da música brasileira, lançou nos últimos anos discos fora de catálogo e esquecidos, ou quase, como o de Arthur Verocal, Os Ipanemas, Sabrina Malheiros e até de Marcos Valle, Azymuth e Joyce Moreno no mercado internacional. Verocal foi um dos que que foi redescoberto no Brasil depois do relançamento pela Far Out.

As fitas foram recuperadas, remasterizadas e o álbum foi lançado em janeiro de 2021. Infelizmente, Resende não pode festejar. Morreu em 12 de novembro, vítima de câncer, aos 73 anos, em Lisboa, cidade em que tinha voltado a morar. Esse álbum cobre uma grande injustiça ao tecladista e compositor. É um exemplo acabado de quão talentoso ele era, totalmente contemporâneo à corrente do que alguns chamaram de jazz-rock, e outros, de jazz progressivo. 

É uma injustiça para um músico antenado ao seu tempo, com a experiência de, antes de ter tocado no Festival de Jazz de Cascais de 1971, abrindo a apresentação de Dexter Gordon. Esse fato é porque Resende, nascido no Brasil em Cachoeiro do Itapemirim, ES, resolveu estudar Medicina em Portugal, ainda nos anos 1960. Com formação musical sólida, formou um trio e começou a se apresentar no continente europeu.

Em 1974, resolveu voltar para o Brasil. No ano seguinte, gravou o disco lançado pelo selo inglês, com sua banda formada por Rubão Sabino no baixo, Claudio Caribé na bateria, Oberdan Magalhães, da Banda Black Rio nos saxofones e flauta, e ele, nos teclados Prophet-5, o Mini Moog e o Yamaha CP-708. É uma pena não ter sido lançado na época. Teria sido um marco para a música instrumental brasileira, ao lado de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, com a característica de ser mais cosmopolita, mais influenciada pelo jazz-rock.

A grande qualidade do álbum de 1976, lançado na Inglaterra no começo deste ano, é a de que a música de Resende não era uma simples imitação ou diluição da onda inaugurada por Miles Davis e vários músicos que participaram das gravações de “Bitches Brew”. Além dos dois tecladistas citados no parágrafo anterior – Corea e Hancock –, outros, como John McLaughlin, com a Mahavishnu Orchestra, Wayne Shorter e Joe Zawnul, que criaram o Weather Report, foram as grandes bandas que popularizaram o jazz-rock. Ele, influenciado pelo novo gênero, conseguiu construir um som original ao incorporar seu conhecimento e vivência com a música brasileira.

“Festa Para Um Rei”, de 1978, curiosamente, não tem a potência do álbum que ficou inédito até agora. Neste, os músicos são outros, com exceção de Oberdan Magalhães, encarregado dos sopros. São Claudio Gabis na guitarra, Jorge Degas no contrabaixo elétrico, Wilson Meireles na bateria e Marcelo Salazar na percussão. Vários títulos remetem ao Brasil e sua cultura: “Terra de Vera Cruz”, “Mulato”, “Macacheira” e “Vidigal”.

Em 1990, Resende resolveu voltar a morar em Portugal. Seus outros álbuns são “About Jobim” (1996), gravado ao vivo no Festival de Jazz de Kopenhagen, “Tributo a Roberto Carlos” (1998) – como ele, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim –, “Abrolhos” (1993) e “Nonchalance” (1990). Lançou também “Som e Fantasia” (1984), com Nivaldo Ornelas. São discos difíceis de serem encontrados, com preços bem altos em sites de vendas de LPs e CDs usados.

De “Festa Para Um Rei”, “Vidigal” é uma música relativamente conhecida, pelo menos para os que gostam de música instrumental.

 
 
“Corsários” é um tema bem interessante, com um solo belo de Oberdan Magalhães, um dos criadores da Banda BlackRio.
 
 
 
 
Ouça o álbum “Marcos Resende & Index”, lançado agora pela Far Out Recordings.
 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Quando a new wave foi a bossa-nova


Ondas. Cada uma é diferente da outra, como o rio que corre. “The river runs through”. A água que corre no rio ou a das ondas, nunca é a mesma. No eterno retorno, tudo é sempre novo, mesmo que, aparentemente, não seja.Por isso, talvez um dia, a Bossa Nova foi “new wave”. É o que penso ao ouvir “New Wave!”, de Dizzy Gillespie, lançado em 1963.

No começo da década de 1960, a Bossa Nova era a grande onda, que invadiu a América, a “onda que se ergueu no mar”, como cantou um dia João Gilberto, “e das estrelas que esquecemos de contar”. Bem, João completa: “fundamental é mesmo amor”. Estava certo o compositor Antônio Carlos Jobim.

O mundo passou a adorar a Bossa Nova. Nessa onda surfaram Stan Getz, Charles Byrd, Lalo Schifrin, inicialmente, e, até hoje, o gênero ainda dá um caldo. “Garota de Ipanema”, de Vinícius e Tom, ainda é uma das mais executadas no mundo. Dizzy Gillespie navegaria nessa onda, naturalmente. Ele, que disseminou os ritmos caribenhos para o dito Primeiro Mundo, não poderia ficar indiferente.

Maldosamente, poderíamos dizer que Gillespie foi esperto, mas insensato seria, para citar a clássica “Insensatez“ (“How Insensitive”, na sua versão em inglês), o brilhante trompetista ignorá-la. Para ele, a “new wave” teria um quê de latino. Pois, latino é a Bossa Nova, já que o Brasil, apesar de sua pujança geográfica, está espremida entre o Oceano Atlântico e os países colonizados pela Espanha.

Não podemos ignorar o que um músico do quilate de Gillespie possa ter feito, influenciado pela “nova bossa”. “Chega de Saudade”, originalmente, de ritmo malemolente, tão brasileira em sua essência, ficaria caliente na versão dele, naturalmente. Dizzy sempre foi exuberante e nunca poderia ser cool, como é e foi a Bossa Nova em sua origem. E é nessa exuberância que devemos ver a música do trompetista. E devemos ver sob essa ótica e aquilatar seu valor por aí.

E, vamos combinar uma coisa: a Bossa Nova tem sua origem no samba-canção. E aí, pois, o ritmo reside no cerne do gênero. E, vamos combinar outra coisa: Dizzy Gillespie foi um gênio, e estamos conversados. E no gênio está a capacidade da transformação, da transliteração dos gêneros. É o que Gillespie demonstra em fazer da Bossa Nova o samba do “crioulo doido”.


Ouça a new wave gillespiana.




Se não conseguir ouvir por aí, vá direto no link do Spotify: https://open.spotify.com/album/4hGmuIZf2US0XzzplPki1I?si=56L7u7bDQDiss1-4L6mX3g

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O caso de Caetano Veloso com John e Paul

Caetano Veloso, sem lenço, sem documento
Nesses dias, por razões mais e menos obscuras, para mim, entrei em uma onda nostálgica, que me levou a gravar vários CDs com mp3 de álbuns significativos de música brasileira, para ouvir no carro. Nessa seleção, estão Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Beto Guedes, Dorival Caymmi, Dori Cammi, Nana Caymmi e Edu Lobo. Nesses dias, na maior parte do tempo, ouço meus CDs no meu amplificador de válvulas. Nesse frio, o calor físico e sonoro das válvulas parecem fazer diferença.

Deles, dois álbuns de Caetano Veloso estão entre os selecionados por estarem entre os meus preferidos: “Joia” e “Qualquer Coisa”. De 1975, saíram juntos. A referência maior são os Beatles, a começar da capa do último, inspirada em “Let It Be”, com a diferença de que os quatro são ele apenas, em variações de uma foto, com registros de fotolito deslocados. Das doze faixas, três, cantadas em seguida, são de John Lennon e Paul McCartney: “Eleanor Rigby”, For No One” e “Lady Madonna”; em “Joia”, uma única composição: “Help”. Mais de 40 anos depois, continuam entre as mais originais leituras existentes, dentre as milhões disponíveis.

Ouça “Eleanor Rigby”.




Ouça “For No One”.




Ouça “Lady Madonna”.




Nas três, os violões são de Caetano e Perinho Albuquerque. Em “Help”, que está em “Joia”, é Caetano sozinho.




Caso interessar, os manifestos lançados com os discos, acesse aqui.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O olhar moderno de Nicola Conte

Mistura de DJ, produtor, músico, arranjador, Nicola Conte é um pesquisador sagaz, e seu talento está em conseguir fazer uma boa sopa com ingredientes bem diferentes entre si. Em sua sede de descobrir, conhece a música brasileira muito mais que nós, moradores dessa terra, e também de muitos especialistas no assunto. Na saga em conhecer ritmos sul americanos, lançou cinco álbuns, até agora (pode ser mais), com o título “Nicola Conte Presents Viagem” (1, 2, 3 etc.). Inclui nomes da música brasileira como Edith Veiga, Luis Carlos Vinhas… esses você conhece, sem dúvida mas, e esses? Zumba 5, Papudinho, Myrzo Barroso, Kazinho, Marcio Diniz? São 84 canções, com vários de quem poucos de nós ouviram dizer. A tônica, ou o gosto dele,  é o samba jazz, por meio de luminares do gênero, como Tenório Jr, JT Meirelles, Brazilian Octopus, César Camargo Mariano, Som Três e outros mais.

Em um post, programado há muito e até agora irrealizado, escreverei sobre as “viagens” de Conte. Tenho até o título: “O Brasil que o Brasil não conhece”. Mas vamos ao tema de hoje, o álbum duplo “The Modern Sound of Nicola Conte: Versions in Jazz-Dub”, de 2011. A razão de ter citado a série “Viagem” é porque os ritmos brasileiros são a fonte das remixagens de Conte.

“The Modern Sound” é um mélange de dois gêneros: o jazz e o que já é uma mistura, o samba jazz, que foi a forma brasileira de apimentar o gênero originário do hemisfério norte. Aliás, o que Nicola faz não é bem jazz: é o tal do “jazz-dub”, que sub-intitula esse álbum.

Os temas considerados standards são “Stolen Moments”, “All or Nothing at All”, “Charade”, “Take Five”, “When You Wish Upon a Star”, famoso tema de “Pinocchio”, filme de Walt Disney, e “Mood Indigo”. “Flamenco Sketches” (Miles Davis), “Shape of Jazz to Come” (Ornette Coleman) e “Quiet Nights” (Antônio Carlos Jobim), apesar dos títulos conhecidos, não possuem alguma semelhança com os originais. JT Meirelles, Marcos Valle e Sérgio Mendes são os compositores brasileiros presentes no álbum.

A qualidade de Conte é a de juntar bons músicos vindos de várias searas e de criar uma sonoridade original. Dentre os que dão a base sonora estão nomes de conterrâneos da primeira linha do jazz italiano, como Lorenzo Tucci (bateria), Nicola Stilo (flauta), Gianluca Petrella (trombone), Rosario Giuliani (sax alto), Fabricio Bosso (trompete e fluguel), Flavio Boltro (trompete), dentre outros, e convidados como Till Brönner, Lisa Bassenge, Sabrina Malheiros, Sheila Landis e José James.

Dentre as reinterpretações de standards, duas faixas são os destaques: “Stolen Moments”, em que usa a voz de Mark Murphy e o arranjo original de Oliver Nelson, autor da canção, e “All or Nothing at All”, na voz de José James.

Ouça “Stolen Moments”.



Ouça “All or Nothing at All”.



Um destaque, fora dos standards, é “Elevated States”, interpretado pelo Thunderbird, formado por Rob Myers, Steve Raskin e Sid Barcelona.



Outra boa é o remix que Conte faz de “Yellow Daisies”, do Fertile Ground, muito mais interessante que a original.