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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A classe insuperável de Roberta Gambarini

Mesmo não lançando discos com frequência maior, Roberta Gambarini está sempre entre as melhores nos “polls” da crítica. Isso tem uma explicação: há algo de atemporal no seu cantar. A italiana imprime uma elegância em suas interpretações como ninguém. Além dela, talvez, Stacey Kent e Diana Krall.

Autodidata, conviveu desde criança com o jazz — seu pai tocava saxofone tenor — e aprendeu sozinha a tocar piano. Tinha 17 anos e, decidida em ser cantora, procurou seu espaço em Milão, considerado o centro do jazz italiano. Passava os dias à base de arroz, batatas e queijo. Nos fins de semana, voltava a Turim, cidade onde nascera e moravam seus pais.

Mudou-se para os Estados Unidos, aproveitando a oportunidade ao ser convidada a cursar na New England Conservatory of Music, em Boston. As dificuldades eram as mesmas ou até piores. Morando em um pequeno quarto em Roxbury, ficava imaginando uma forma de sair da penúria. Poderia ser uma “singing waitress” em algum restaurante italiano, quem sabe. Surgiu a oportunidade de participar do Monk Competition, edição 1988. Ficou em terceiro lugar e um dinheiro para sobreviver por mais três meses. Em primeiro, ficou Teri Thornton, e em segundo, Jane Monheit. Para alguns, não foi justo.

Teri cantava desde 1950, quando iniciou a carreira em clubes de Detroit e depois mudou para Nova York e tinha gravado uns poucos discos no início dos anos 1960, sem nunca chegar ter atingido grande notoriedade. Era uma veterana. Não fazia o perfil das competidoras do Thelonious Monk Institute Vocal Competition, quase sempre de intérpretes iniciantes. Ao ficar em primeiro, gravou “I’ll Be Easy to Find”, pela Verve. Ficou nisso. Morreu no ano seguinte. Ficou a impressão de que ganhara por conta da idade, 54 anos. Jane, a segunda colocada, era a “it girl du jour”. Roberta era uma estrangeira de quem nunca tinham ouvido falar. Por isso, muitos consideraram o resultado injusto. De qualquer maneira, chamou a atenção ao ponto de logo mais ser chamada por músicos como Jimmy Heath, Harold Land, Billy Higgins, James Moody e Benny Carter.

Cult singer
Depois do terceiro lugar, Gambarini foi convidada para cantar em Nova York. Teve boa ajuda de James Moody e Benny Carter, que organizou sua primeira apresentação em Los Angeles. Excursionou com a Dizzy Gillespie All Star Big Band e com o pianista Hank Jones.

Em 2006, seu primeiro álbum, pela Groovin’ High. “Easy to Love”, basicamente de standards, contou com o piano de Tamir Hendelman e Gerald Clayton, Chuck Berghofer e John Clayton no baixo, Willie Jones III e Joe LaBarbera na bateria e participação especial de James Moody, no sax e vocais. Foi reconhecida com a nominação do Grammy como melhor álbum de jazz vocal do ano.

Nem parecia um disco de estreia de tão bom. Roberta dominava a arte de intérprete como poucas. É absoluta nos tempos do jazz. Veja-a cantando “Lover Come Back to Me”, que está em seu primeiro disco, em uma apresentação tributo a Ella Fitzgerald.




Veja Gambarini em “Porgy, You Is My Woman Now”, com a Latvian Radio Big Band.




Oficialmente, o segundo álbum de Gambarini é “You Are There”, duo com Hank Jones, um dos melhores acompanhadores de cantores e cantoras, o que é uma arte. Gravado em 27 de setembro de 2005, foi lançado em 2007. Tem a qualidade do seu disco de estreia. É composto de standards conhecidos, como “Just Squeeze Me”, “Stardust”, “Come Sunday” e “Lush Life”, e menos populares, como “People Time” (Benny Carter), “Reminiscing” (Gigi Gryce, Jon Hendricks) e “You Are There” (Dave Frishberg, Johnny Mandel).

Ouça “Stardust”.




“So in Love” (2009) foi gravado em junho e outubro de 2008, mas contém duas faixas que são de 2001. Os músicos são quase os mesmos do primeiro, como Eric Gunnison, Tamir Hendelman e Gerald Clayton (este, apenas em “Estate”). É muito bom, mas nem tanto quanto os dois primeiros. Vale ressaltar que tanto neste como no primeiro, apesar de não ter passado por um aprendizado formal em música, com exceção do pouco tempo em que ficou na New England Conservatory of Music, os arranjos são dela. Outra coisa a ressaltar é sua pronúncia perfeita em inglês. Em uma entrevista para a All About Jazz, de 2006, Judith Schlesinger se refere ao seu bom vocabulário e pronúncia perfeita, e ela respondeu que sempre leu muito e chegou a trabalhar para um publisher de Nova York. Além de James Moody, tem a participação de Roy Hargrove. Ela e o trompetista mantêm uma bela parceria. Apresentaram-se mais de uma vez no Brasil. Tive a oportunidade de vê-los no Bourbon Street Bar, em São Paulo. Impressionante o magnetismo dela.

Ouça a música título.




A única que foge um pouco do padrão é o medley “Golden Slumbers / Here, There and Everywhere”, de John Lennon e Paul McCartney. Ouça.



Assista ao vídeo de “Estate”, em brilhante duo com o também italiano Enrico Rava. Quando criança, gostava de imitar o som do trompete (aqui, assemelha-se mais ao som de um trombone) com a boca e improvisar scats, influenciada pela audição dos discos que Ella Fitzgerald e Louis Armstrong juntos.



É um tanto inexplicável a discografia irregular de Roberta Gambarini em termos de constância. Depois desses três, em 2013 saiu “The Shadow of Your Smile – Homage to Japan”, que, se não me engano, não chegou a sair nem nos Estados Unidos nem na Europa. Quem quiser adquiri-lo, vai ter de desembolsar 31 dólares, porque é importado do Japão. Até nas plataformas digitais há poucas opções. De graça, via torrent, nem existe. É inexplicável porque é ótimo. O pianista da vez é George Cables, outro grande nome no instrumento. Há interpretações maravilhosas de “Poor Butterfly”, “Close to You”, “Embraceable You”, “I Remember Clifford”, “Moanin”, “My One and Only Love” e outras do cancioneiro americano.

Ouça “Poor Butterfly”. Começa a capella. Estupenda. Quando entra o piano, é demais. Cables arrasa ao piano.



“Embraceable You” é outro destaque. O saxofone alto é de Justin Robinson.



“Moanin” é um dos clássicos do jazz. Benny Golson, no dia que a compôs, estava muito inspirado.



Dê uma busca por “Roberta Gambarini The Shadow of Your Smile homage to Japan” no YouTube, que tem o álbum inteiro.


O mais recente
Saiu em 2015 o último de Gambarini. Chama-se “Connecting Spirit – RG Sings Jimmy Heath Songbook”. A opção mais barata de compra – “de grátis”, impossível – é pelo Google Play Store: 21 reais. Na loja iTunes Store é mais cara. O chato de comprar pela internet, mesmo em sites oficiais, é a ausência de um booklet do disco, na maioria das vezes. Jimmy Heath ainda toca seu saxofone, mesmo prestes a fazer 90 anos. Foi homenageado agora, em 21 de outubro, no Jazz at The Lincoln Center.

“Connecting…” não é um disco para todos. Acho que atinge um público mais ligado ao jazz. Jimmy é de uma família de músicos, como a do pianista Hank Jones, que tocou bastante com Gambarini. Os irmãos de Hank são bem conhecidos – Elvin, baterista do quarteto de John Coltrane, e Thad, do Thad Jones-Mel Lewis Big Band –, e Jimmy é irmão de Percy Heath, do Modern Jazz Quartet, e o baterista Albert “Tootie” Heath, na ativa até hoje.

As referências de Jimmy Heath para as suas composições têm uma ligação com o mundo do jazz. Exemplos: “The Voice of the Saxophone”, “Frank Foster” e “Ellington Stray Horn”.

Ouça esta última. O título, por si, é sugestivo: separa o nome do grande parceiro de Duke Ellington em dois.



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Estate, João Gilberto, USP 1977

Parece – digo “parece” porque reconto algo de alguém que ouviu de outrém e, assim por diante – que a história é a seguinte: o cantor, pianista e compositor italiano Bruno Martino abrira um show de João Gilberto na Itália. Impressionado com uma das músicas que ouvira, mais tarde, procurou-o. Conversaram e passaram várias horas até João decorar a harmonia e a letra dela. Chamava-se Estate.

Depois de alguns anos sem gravar, João lançou, em 1973, o álbum Amoroso. Sucesso imediato. Eu e meus amigos corremos às lojas para comprá-lo. Tornou-se o disco de cabeceira de muitos de meus colegas da USP. Falávamos só dele. A piada que fazíamos era a de que João Gilberto era a única pessoa que tinha o direito de dizer “besame mu(n)cho”. Não estávamos loucos não, apesar da maconha que corria solta no campus da USP e no bosque da Biologia, outrora aberta e não cercada como agora. Prestem atenção: ele canta “muncho”.

A primeira música já era um choque: um ‘S Wonderful, de George e Ira Gershwin, num ritmo bossa nova “nunca dantes” ouvido, na orquestração delicada do alemão Claus Ogerman. A segunda também era uma novidade: João cantando em italiano Muito estranho. Conhecíamos, “sabidos” que éramos, como a maioria dos jovens recém-saídos da adolescência, João Gilberto en Mexico, conhecido também como Farolito, álbum em que cantava em espanhol Farolito, Bésame Mucho e Eclipse, do grande Lecuona.

Ouça Bésame Mucho, gravada no México.




Pois então, a América descobriu Estate. Existem várias gravações cantadas disponíveis nos sites de vendas de CD. Conheço a de Roseanna Vitro, a de John Pizzarelli, de Susanne McCorkle, de Carla Cook, e a melhor, a de Shirley Horn. Sua interpretação é brilhante. Lenta, quase parando, como sói cantar, cada sílaba é um pedaço de uma bela arquitetura que vai se erguendo. Ironicamente, a italiana Caterina Valente gravou-a em inglês sob o nome de Maybe This Summer. No mercado americano é conhecida pelo seu nome original ou por Summer.

Existem muitas versões instrumentais: a do pianista francês Michel Petrucciani, a da suave harmônica do belga Toots Thielmans, de duas gravações do baixista “dançarino” Ray Brown, a do baixista Richard Davis com o estupendo piano de John Hicks e a da pianista JoAnne Brackeen. Considero, no entanto, a mais bonita e poética a do vibrafonista Bobby Hutcherson numa gravação ao vivo no Village Vanguard.

Confira.




Para quem quiser ouvir o Estate em sua língua nativa, importem urgentemente o último CD de Roberta Gambarini, So in Love. Tem também um da brasileira Eliane Elias, que depois do sucesso de Diana Krall resolveu também cantar. Olhe, não estou falando mal dela, não!

Ouça Estate com Roberta Gambarini, em apresentação ao vivo, com o grande trompetista Enrico Rava.




Relaciono a seguir os álbuns citados:
João Gilberto: Amoroso
Shirley Horn: I Thought About You e Here’s to Life (é deste a melhor interpretação, fora a do nosso João Gilberto)
Roberta Gambarini: So in Love
Carla Cook: Simply Natural
Eliane Elias: Bossa Nova Stories
Roseanna Vitro: Softly
John Pizzarelli: Bossa Nova
Susannah McCorkle: Sabiá
Michel Petrucciani: Estate
Ray Brown: Live at Scullers
Richard Davis & John Hicks: Homage to Diversity
JoAnne Brackeen: Take a Chance
Bobby Hutcherson: In The Vanguard

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Alguém para se ouvir (Roberta Gambarini e Stacey Kent)

Gambarini e Roy Hargrove, no Rio
Esse texto é uma republicação. Foi o meu primeiro e foi postado no blogue do Paulo Moreira Leite em 15/9/2009 (http://bit.ly/xu9zwc). A razão da “repostagem” se deve a uma mensagem da amiga Marisa Marcondes Leal, ao fazer um comentário sobre Stacey Kent. É a minha recomendação para que ela conheça a excepcional Roberta Gambarini.


Cantoras surgem em pencas, ao contrário de cantores. Todos os dias aparece uma nova cantora na música brasileira. CéU, Ana Canãs, nomes há pouco circunscritos aos frequentadores de bares e pequenas salas de shows já estão no segundo cd. Somando as mais e as menos conhecidas na mídia, podemos, facilmente, exceder o número de dedos das mãos e dos pés. E haja ouvido e curiosidade para acompanhar. O mesmo se pode dizer das cantoras não brasileiras: para cada Amy Winehouse surgem centenas de nomes dos quais nem tínhamos alguma referência um mês atrás.

Num universo menor, o do jazz, muitas cantoras têm surgido, e quase sempre interpretando velhos standards consagrados pelas vozes negras de Billie Holiday, Sarah Vaughan e Carmen McRae, e brancas, de Anita O’Day, June Christy e Chris Connor. A persistência dessas músicas no imaginário auditivo é algo interessante. Cada um desses clássicos permite “reinvenções” surpreendente. Basta ouvir uma das mais conhecidas: Summertime (DuBose Heyward/G. Gershwin) na voz de Janis Joplin, cantora mais associada ao universo da música popular. Nos últimos anos — falo de um amplo período –, pois as intérpretes sobre quem escrevo não são exatamente noviças, tampouco “macacas velhas”. Nesse espectro em que surgiram Jane Monheit, bem conhecida dos brasileiros – já gravou o Ivan Lins , Tierney Sutton, cantoras dos mais diversos lugares do planeta, como a brasileira Luciana Souza, a chilena Claudia Acuña e a excelente Jacintha, nascida em Cingapura, vale destacar Stacey Kent e Roberta Gambarini. Elas possuem um diferencial que as destacam das demais. Jacintha, Sutton e Monheit são afinadíssimas, mas parece que falta alguma coisa: perfeitas e tão pouco ousadas! Tinham de tomar um ácido, como Janis Joplin. E ousar não significa que devam “viajar” em scats: nem todo mundo tem a classe de uma Betty Carter ou de Ella. Maus scats apenas prestam um desserviço ao jazz.

Stacey Kent, com pouco menos de dez anos de carreira, se diferencia por algumas especificidades. Primeiro: tem aquela voz que, pejorativamente, comparam com a de Pato Donald. Na música pop é fácil de lembrar de algumas com essa característica: além de Cindy Lauper, a mais conhecida é Macy Gray e nem por isso são ruins. A de Kent não é tão “Pato Donald”, mas seu registro nos faz lembrar da saudosa e excepcional Blossom Dearie, grande pianista e intérprete de personalidade especial. Na sua quase dezena de CDs lançados, Kent carimba sua marca pessoal em interpretações inesquecíveis em velhos clássicos e em composições mais recentes.

No seu disco de estréia, Close Your Eyes já surpreende. More than You Know, a primeira faixa é a melhor amostra de sua qualidade como intérprete. Acompanhada apenas pela guitarra de Colin Oxley, os primeiros versos, “Wether you are here or yonder / Wether you are false or true / Wether you remain or wonder. / I’m growing fonder of you / Even tough your friends forsake you / Even though you don’t succeed / Wouldn’t be glad to take you / Give you the break you need…” … aí entra o refrão “More than you know, more than you know, / Man of my heart, I love you so / Lately I find you’re on my mind / more than you know.” A partir desse momento estamos apaixonados por Stacey e sua voz penetrará indelével e imperceptivelmente em nossas mentes. Seu segundo cd, Dreamsville é uma coleção de baladas, clássicos de Rodgers & Hart, dos mais “novos” Henry Mancini e Johnny Mandel, interpretadas com os mesmos acompanhantes de seu primeiro cd, um quinteto liderado por seu marido, o saxofonista Jim Tomlinson. O destaque são a guitarra de Oxley e algumas intervenções de Tomlinson tocando flauta e clarineta, instrumentos nem tão usuais no jazz. A faixa mais bela é Hushabye Mountain, de Richard e Robert Sherman, um standard “tardio” da década de 1960.

O segundo ponto que a distingue é de como os anos “formativos” na Inglaterra influenciarão em sua futura carreira. Nascida Americana, foi estudar literatura comparada na Europa, fixou residência na Inglaterra, estudou por um ano na Guildhall School of Music e casou-se com um músico. Esses “acontecimentos” estão presentes no conceito de seu mais recente cd: Breakfast on the Morning Tram. Quatro de suas composições têm letras do consagrado escritor Kazuo Ishiguro: a música título, The Ice Hotel, I Wish I Could Go Travelling Again e So Romantic. A ligação de Ishiguro e Kent não é casual: ele costuma escrever sobre jazz em publicações inglesas e seu último livro tem o mesmo título de um standard de Jay Livingston e Raymond B. Evans – Never Let Me Go. O velho mundo está em duas canções de Serge Gainsbourg, brilhantemente cantadas em francês perfeito: Ces petites rien e La saison des pluies. E de quebra, Samba Saravah, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, música celebrizada por Pierre Barouh em Um Homem e uma Mulher, filme de Claude Lelouch.

Roberta Gambarini fez o caminho contrário. Nascida em Turim, mora, desde 1986 nos Estados Unidos. Jane Monheit e Tierney Sutton, suas contemporâneas, participaram do mesmo concurso que as fez chamar a atenção dos críticos de música: o Thelonious Monk Institute of Jazz Vocal Competition. A comparação que se faz com Ella Fitzgerald não é de toda descabida. Ela canta tão “fácil” quanto Ella. A música flui como um rio que segue seu curso, sua dicção é clara e a forma de como “constroi” os scats não tem concorrentes no cenário musical de agora.

A primeira vez em que a ouvi foi numa estrada americana. Como de costume, estava com um bolo de cds comprados e louco para ouvi-los, mesmo antes de voltar ao Brasil. Não me causou “aquela” impressão. O surpreendente é que a voz de Roberta vai, aos poucos te penetrando, e de repente, te possui. O primeiro CD lançado no mercado americano começa com a música que dá título a ele: Easy to Love. Começa a capella, daí entra o baixo marcando o ritmo, entra a bateria e depois o piano; discretos scats acompanhados do baixo fecham num discreto final. Novamente, apenas o baixo e sua voz introduzem o tema de Lover Man e, sorrateiramente, o sopro aberto e sensual do sax de James Moody sinaliza a entrada do piano e de uma discretíssima bateria. Sobre todos os instrumentos reina a voz de Gambarini: em On the Sunny Side of the Street e em I Loves You Porgy, as modulações de voz revelam total domínio. Para concluir, vale também uma ouvida em No More Blues, a nossa Chega de Saudade, naquele ritmo de samba que apenas os americanos fazem e, nós brasileiros, já nos acostumamos. Como em várias faixas, a voz entra solo e depois os demais instrumentos entram. É como um prelúdio que te prepara para o que vem.

Especial mesmo é o segundo cd lançado pela EmArcy no mercado americano: o You Are There. Acompanhado apenas pelo nonagenário e legendário pianista Hank Jones, cada número prepara para um próximo nível de encanto. Acompanhar cantores é uma verdadeira arte. Nisso, Jones, como Tommy Flanagan, é mestre. Coincidentemente, por anos acompanharam a grande diva Ella Fitzgerald. E é nessa arte que a combinação de Jones e Roberta chega perto da perfeição. A voz límpida se soma à elegância econômica quase minimalista dos solos de Hank. Paralisante. Dá para ouvir o cd inteiro sentado no sofá, paradão, só curtindo.

Deve ser difícil para o artista estar sempre tentando se superar.Como para qualquer ser humano, um pouco de acomodação é necessário. Na volta da minha última viagem, em agosto, a primeira coisa que fiz ao chegar foi colocar o recém lançado So In Love. Senti um certo desapontamento. Já ouvi Day in, Day out melhor. Senti que era um CD que poderia ser classificado como um “mais um do mesmo”. Mas não é por isso que Marisa Monte é idolatrada? Roberta também tem esse direito. E depois: seu So in Love é genial e suas versões para Golden Slumbers e Here, There and Everywhere são bem originais. Na quinta vez em que ouvia a CD, estava novamente apaixonado por Roberta Gambarini.

Para referência, àqueles loucos de “possuir” os CDs em vez de, simplesmente baixá-los pela Internet, Breakfast on the Morning Tram, de Stacey Kent e You Are There, de Roberta Gambarini e Hank Jones sairam no Brasil. Não precisa importar. Com um pouco de esforço dá para encontrar. Em São Paulo, a dica é a Pop Discos, na rua Teodoro Sampaio 763. Tel. 11-3083.2564.


Roberta Gambarini canta Lush Life.




O More Than You Know, com Stacey Kent, é espetacular.