Autodidata, conviveu desde criança com o jazz — seu pai tocava saxofone tenor — e aprendeu sozinha a tocar piano. Tinha 17 anos e, decidida em ser cantora, procurou seu espaço em Milão, considerado o centro do jazz italiano. Passava os dias à base de arroz, batatas e queijo. Nos fins de semana, voltava a Turim, cidade onde nascera e moravam seus pais.
Mudou-se para os Estados Unidos, aproveitando a oportunidade ao ser convidada a cursar na New England Conservatory of Music, em Boston. As dificuldades eram as mesmas ou até piores. Morando em um pequeno quarto em Roxbury, ficava imaginando uma forma de sair da penúria. Poderia ser uma “singing waitress” em algum restaurante italiano, quem sabe. Surgiu a oportunidade de participar do Monk Competition, edição 1988. Ficou em terceiro lugar e um dinheiro para sobreviver por mais três meses. Em primeiro, ficou Teri Thornton, e em segundo, Jane Monheit. Para alguns, não foi justo.
Teri cantava desde 1950, quando iniciou a carreira em clubes de Detroit e depois mudou para Nova York e tinha gravado uns poucos discos no início dos anos 1960, sem nunca chegar ter atingido grande notoriedade. Era uma veterana. Não fazia o perfil das competidoras do Thelonious Monk Institute Vocal Competition, quase sempre de intérpretes iniciantes. Ao ficar em primeiro, gravou “I’ll Be Easy to Find”, pela Verve. Ficou nisso. Morreu no ano seguinte. Ficou a impressão de que ganhara por conta da idade, 54 anos. Jane, a segunda colocada, era a “it girl du jour”. Roberta era uma estrangeira de quem nunca tinham ouvido falar. Por isso, muitos consideraram o resultado injusto. De qualquer maneira, chamou a atenção ao ponto de logo mais ser chamada por músicos como Jimmy Heath, Harold Land, Billy Higgins, James Moody e Benny Carter.
Cult singer
Depois do terceiro lugar, Gambarini foi convidada para cantar em Nova York. Teve boa ajuda de James Moody e Benny Carter, que organizou sua primeira apresentação em Los Angeles. Excursionou com a Dizzy Gillespie All Star Big Band e com o pianista Hank Jones.
Em 2006, seu primeiro álbum, pela Groovin’ High. “Easy to Love”, basicamente de standards, contou com o piano de Tamir Hendelman e Gerald Clayton, Chuck Berghofer e John Clayton no baixo, Willie Jones III e Joe LaBarbera na bateria e participação especial de James Moody, no sax e vocais. Foi reconhecida com a nominação do Grammy como melhor álbum de jazz vocal do ano.
Nem parecia um disco de estreia de tão bom. Roberta dominava a arte de intérprete como poucas. É absoluta nos tempos do jazz. Veja-a cantando “Lover Come Back to Me”, que está em seu primeiro disco, em uma apresentação tributo a Ella Fitzgerald.
Veja Gambarini em “Porgy, You Is My Woman Now”, com a Latvian Radio Big Band.
Oficialmente, o segundo álbum de Gambarini é “You Are There”, duo com Hank Jones, um dos melhores acompanhadores de cantores e cantoras, o que é uma arte. Gravado em 27 de setembro de 2005, foi lançado em 2007. Tem a qualidade do seu disco de estreia. É composto de standards conhecidos, como “Just Squeeze Me”, “Stardust”, “Come Sunday” e “Lush Life”, e menos populares, como “People Time” (Benny Carter), “Reminiscing” (Gigi Gryce, Jon Hendricks) e “You Are There” (Dave Frishberg, Johnny Mandel).
Ouça “Stardust”.
“So in Love” (2009) foi gravado em junho e outubro de 2008, mas contém duas faixas que são de 2001. Os músicos são quase os mesmos do primeiro, como Eric Gunnison, Tamir Hendelman e Gerald Clayton (este, apenas em “Estate”). É muito bom, mas nem tanto quanto os dois primeiros. Vale ressaltar que tanto neste como no primeiro, apesar de não ter passado por um aprendizado formal em música, com exceção do pouco tempo em que ficou na New England Conservatory of Music, os arranjos são dela. Outra coisa a ressaltar é sua pronúncia perfeita em inglês. Em uma entrevista para a All About Jazz, de 2006, Judith Schlesinger se refere ao seu bom vocabulário e pronúncia perfeita, e ela respondeu que sempre leu muito e chegou a trabalhar para um publisher de Nova York. Além de James Moody, tem a participação de Roy Hargrove. Ela e o trompetista mantêm uma bela parceria. Apresentaram-se mais de uma vez no Brasil. Tive a oportunidade de vê-los no Bourbon Street Bar, em São Paulo. Impressionante o magnetismo dela.
Ouça a música título.
A única que foge um pouco do padrão é o medley “Golden Slumbers / Here, There and Everywhere”, de John Lennon e Paul McCartney. Ouça.
Assista ao vídeo de “Estate”, em brilhante duo com o também italiano Enrico Rava. Quando criança, gostava de imitar o som do trompete (aqui, assemelha-se mais ao som de um trombone) com a boca e improvisar scats, influenciada pela audição dos discos que Ella Fitzgerald e Louis Armstrong juntos.
É um tanto inexplicável a discografia irregular de Roberta Gambarini em termos de constância. Depois desses três, em 2013 saiu “The Shadow of Your Smile – Homage to Japan”, que, se não me engano, não chegou a sair nem nos Estados Unidos nem na Europa. Quem quiser adquiri-lo, vai ter de desembolsar 31 dólares, porque é importado do Japão. Até nas plataformas digitais há poucas opções. De graça, via torrent, nem existe. É inexplicável porque é ótimo. O pianista da vez é George Cables, outro grande nome no instrumento. Há interpretações maravilhosas de “Poor Butterfly”, “Close to You”, “Embraceable You”, “I Remember Clifford”, “Moanin”, “My One and Only Love” e outras do cancioneiro americano.
Ouça “Poor Butterfly”. Começa a capella. Estupenda. Quando entra o piano, é demais. Cables arrasa ao piano.
“Embraceable You” é outro destaque. O saxofone alto é de Justin Robinson.
“Moanin” é um dos clássicos do jazz. Benny Golson, no dia que a compôs, estava muito inspirado.
Dê uma busca por “Roberta Gambarini The Shadow of Your Smile homage to Japan” no YouTube, que tem o álbum inteiro.
O mais recente
Saiu em 2015 o último de Gambarini. Chama-se “Connecting Spirit – RG Sings Jimmy Heath Songbook”. A opção mais barata de compra – “de grátis”, impossível – é pelo Google Play Store: 21 reais. Na loja iTunes Store é mais cara. O chato de comprar pela internet, mesmo em sites oficiais, é a ausência de um booklet do disco, na maioria das vezes. Jimmy Heath ainda toca seu saxofone, mesmo prestes a fazer 90 anos. Foi homenageado agora, em 21 de outubro, no Jazz at The Lincoln Center.
“Connecting…” não é um disco para todos. Acho que atinge um público mais ligado ao jazz. Jimmy é de uma família de músicos, como a do pianista Hank Jones, que tocou bastante com Gambarini. Os irmãos de Hank são bem conhecidos – Elvin, baterista do quarteto de John Coltrane, e Thad, do Thad Jones-Mel Lewis Big Band –, e Jimmy é irmão de Percy Heath, do Modern Jazz Quartet, e o baterista Albert “Tootie” Heath, na ativa até hoje.
As referências de Jimmy Heath para as suas composições têm uma ligação com o mundo do jazz. Exemplos: “The Voice of the Saxophone”, “Frank Foster” e “Ellington Stray Horn”.
Ouça esta última. O título, por si, é sugestivo: separa o nome do grande parceiro de Duke Ellington em dois.

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