sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sharon Jones é para sorver aos poucos

Quem conhece Sharon Jones? Se você não a conhece, é explicável. Essa senhora de 54 anos trabalhou como carcereira e segurança de carro-forte antes de ficar conhecida como cantora. Mas vou falar dela em outro texto. Como aperitivo, ouça 100 Days, 100 Nights com Sharon e a excepcional The Dap-Kings. É do dsico com o mesmo nome, lançado em 2007. Depois lancou outro petardo: I Learned the Hard Way.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A segunda vez de Stacey Kent

Por pão-durismo ou por revolta, decidi não pagar 300 reais para assistir à apresentação de Stacey Kent no Brasil, em setembro de 2010, mas estou arrependido. Para se ver alguma atração no Village Vanguard custa 25 dólares, com os artistas no seu nariz. Em São Paulo, no Via Funchal, por 150 reais, você teria o direito de ver Stacey de pertinho, no telão, de binóculos. E tem outra coisa: a atmosfera de intimidade que a voz delicada da cantora sugere não existe na aridez de uma área enorme coalhada de mesas. Parece um salão de bailes, daqueles que existiam aos montes em qualquer cidade do interior. É uma chance, no entanto, se você não estiver em Nova York ou em outro lugar no qual é possível se assistir um show desses. Mesmo num espaço maior como o do Dizzy’s Club Coca-Cola do Jazz at Lincoln Center, localizado num shopping center, onde é possível comer alguma coisa – no Village só servem bebidas –, o ambiente é incomparavelmente mais aconchegante, e mais barato.

É a segunda vez que Stacey se apresenta no Brasil. Na primeira, apresentou-se no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, em outubro de 2008. Surpreendentemente, está ficando cultuada pela parcela mais “sabida” dos brasileiros e teve, salvo engano, três discos lançados no mercado tapuia. É bom sinal, apesar de não conseguir imaginar por que não lançam Egberto Gismonti e Keith Jarrett, que teriam tanto apelo de vendas quanto ela. Várias matérias foram publicadas nos principais veículos de comunicação. Foi entrevistada, inclusive, no Programa do Jô. Muitos já estão sabendo que Stacey está aprendendo a língua portuguesa, que o francês é sua segunda língua etc. O que fico sabendo por meio de uma coluna de “fofocas” do Segundo Caderno de O Globo, é que Stacey é vegan, ou seja, além de não comer carne vermelha, não se alimenta de nenhum derivado de origem animal. Ah, por isso é tão magrinha!

Stacey e Jim em segundo plano
Impossível saber, se na casa de Stacey, quem manda é ela ou o marido Jim. No palco, ele sabe bem onde é seu lugar: a cozinha. Diante da plateia, Stacey é a rainha, e os músicos, seus súditos. Jim é o diretor musical e saxofonista da banda e, sabiamente, fica em plano secundário. Lembra um pouco o caso de Julie London. Bobby Troup conheceu a “loura fatal” de Cry Me a River num clube qualquer, apaixonou-se, e viu que tinha uma “bomba de beleza e sensualidade” à espera de ser lapidada. Bobby já era conhecido pianista e compositor (é autor de Route 66, famosa na voz de Nat “King” Cole e, mais tarde na interpretação de Chuck Berry e The Rolling Stones). Em 1955, Julie London lançou um álbum em que é acompanhada pelo guitarrista Barney Kessel. Explodiu. O mundo descobriu-a e em todo lugar uma cantora era acompanhada por uma guitarra. Bobby virou “o marido de Julie London”. O que se pode especular é se ficou chateado por ter virado “marido”, ou feliz por despertar inveja de todos os homens.

O “plano secundário” não significa de maneira alguma demérito para Jim Tomlinson. Como líder da banda, o saxofonista e flautista soube consolidar um formato de som que, mesmo com trocas de instrumentistas, molda-se muito bem à voz de Kent. Nos primeiros discos, os sons do guitarrista Colin Oxley eram perfeitos adornos para a voz pequena e levemente anasalada dela. Infelizmente saiu. John Paricelli o substituiu. É bom, mas, questão de gosto, Oxley era o “encaixe”. Os arranjos de Tomlinson são elegantes e dosa bem as intervenções de cada instrumentista. Nunca acontecem excessos, nem mesmo da parte de Kent. Em parte, é a razão da música dela parecer tão próxima, íntima do ouvinte.

Prestem atenção na guitarra de Oxley ao ouvir I’ve Got a Crush on You, do álbum Dreamsville.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Quando o amor acaba

Um disco chamado Steve McQueen? Não é o máximo? Alguém sabe quem é Steve McQueen? Uma pista: foi casado com Ali McGraw. Alguém sabe quem é McGraw? É, para as gerações mais recentes está mais difícil de responder a essas perguntas.

1. Ali McGraw morreu jovem, mas apenas no filme que fez um sucesso tremendo nos anos 1970, o Love Story. Jennifer tenta engravidar de Oliver (Ryan O’Neal) e não consegue. Num dos exames descobre que está com uma doença incurável. Milhões de espectadores choraram com Oliver. A música de Francis Lai, cantada pelo “proto-brega” – sorry para que os amam – Johnny Mathis, foi um sucesso estrondoso, como o filme baseado numa história de Erich Segal.

2. Steve McQueen protagonizou Os Implacáveis (The Getaway, 1972), de Sam Peckinpach, no qual deve ter conhecido Ali, que foi casada com o produtor Robert Evans. O “blue eyes boy” era o próprio bad boy, considerado sucessor de James Dean. A diferença era a de que James possuía algo de andrógino. Steve era “O” macho. Isso não queria dizer que não atraísse homens também. Mas, com certeza, muitas mulheres sucumbiram ao olhar duro – apesar dos olhos azuis – de bad boy de Steve.

Recentemente, outro McQueen foi-se embora. O inglês Alexander morreu porque queria. Steve, não. Mas foi cedo e deixou saudades. A refilmagem de Crown, The Thomas Crown Affair, protagonizado por Pierce Brosnan e pela espetacular Rene Russo, só deixou saudades de Steve, segundo uma amiga. O “tough guy” ainda “faz coisa”.

Capa vetada do disco de Prefab Sprout nos EUA
Pois, então, a banda Prefab Sprout gravou um disco espetacular e quis fazer-lhe uma homenagem a ele intitulando-o Steve McQueen. Deste mundo todos querem somente dinheiro – como, sabiamente, Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, disse “mim gosta ganhar dinheiro” –, proibiram que o disco fosse lançado com esse título nos EUA. Foram obrigados a trocar o título por Steels Wheel Good. Na capa, fazem-se de bad boys, sentados numa motocicleta. No fundo, são bons rapazes que queriam fazer boa música. Gravaram bons discos e é imerecido o ocaso a que foram destinados. Faziam música pop inteligente e de bom gosto. Essa banda surgida em fins dos anos 1980 é autora de belas e sensíveis músicas. When Love Breaks Down é uma delas. Ouça no vídeo linkado.

Para os que tiverem interess por outros álbuns do Prefab Sprout, From Langley Park to Memphis e Jordan: The Comeback são muito bons também.


terça-feira, 21 de setembro de 2010

A melhor loja de jazz no mundo

Uma loja que todo mundo deve conhecer
Na obsessão que a humanidade tem de classificar e comparar tudo o que existe nessa terra, afirmo que a melhor loja especializada em jazz do mundo é a Jazz Record Center, do Fred Cohen, em Nova York. O colecionador é, antes de mais nada, um obsessivo. É capaz de ir até o fim do mundo à caça do objeto de seu desejo. Pode ser para colecionar tampinhas de garrafa ou maços de cigarros. É capaz de arrumar um jeito de conseguir aquela tampinha de certa garrafa de cerveja do Cazaquistão. Às vezes, o colecionador, em sua patológica busca, deixa de fruir e passa a, simplesmente, ter o prazer de possuir, de conseguir ter seu objeto de desejo.

Duas lojas do Rio de Janeiro, a Modern Sound e a Billboard, ambas localizadas na Barata Ribeiro, em Copacabana, fizeram a alegria de muita gente. Lembro que, moleque, quando ia para lá, mesmo com pouco dinheiro, fazia questão de comprar “aquele” disco importado que nenhuma loja em São Paulo possuía. Em São Paulo, existiam duas grandes lojas especializadas em jazz e música erudita: a Bruno Blois e a Brenno Rossi. Uma terceira loja, o Museu do Disco, era o paraíso dos que buscavam as últimas novidades do rock. Como as importações eram difíceis e custosas, os discos chegavam em lotes de centenas. Os clientes mais contumazes tinham o privilégio de ser avisados antecipadamente. Sobre isso, há uma história muito boa, contada por Carlos Conde. Disse que o Alberico Cilento era o “inimigo” a ser combatido no caso de compras de discos.

Um americano ia voltar à terra natal e pretendia vender sua coleção de LPs. Assíduo frequentador da Bruno Blois, fez um arranjo para que a loja conseguisse compradores de uma coleção de 450 vinis em perfeito estado. Vários clientes foram avisados: o Conde, o Alberico e o Ronald Rodrigues, executivo da Gessy Lever, que tinha a sede perto da Praça da República, bem próxima à rua 24 de Maio, onde ficava a loja. Alberico tomou um táxi e foi até lá. Chegou antes de todos. Escolheu os que queria. No lote, simplesmente, todas aquelas joias da gravadora Blue Note estavam dando sopa. Bom, o Alberico levou 446 LPs. Deixou quatro porque os tinha repetidos ou porque não se interessou. No dia seguinte, quando apareceram os demais avisados, restava menos 1% do que tinham posto à venda. Todo mundo ficou chateado com o Alberico.

Fui vítima do Alberico uma vez. Na época em que ainda era estudante, sobrevivendo de mesada, costumava ir a uma pequena loja no bairro de Pinheiros, a Edgar Discos (tenho uma história sobre esse estabelecimento; se quiserem ler, está em http://bit.ly/cKfOiM). Era ótimo, pois, frequentemente, encontrava boas ofertas de LPs usados de jazz e música clássica. Tinha visto um disco de Ben Webster com o pianista Joe Zawinul. Como a minha capacidade de compra era bem limitada, olhava tudo para depois levar dois ou três LPs. Enquanto ia fuçando, chega o Alberico que, naquela época sabia quem era e o conhecia de vista apenas, e logo vai separando uns LPs. E, assim, fiquei sem o disco do Ben Webster. Anos depois, quando já tinha me tornado seu amigo, contei do ocorrido. Alberico disse: “Podia ter falado que eu deixava o disco para você.” Bom, na oportunidade, não tive coragem de dizer alguma coisa.

Uma loja do Rio abriu uma filial em São Paulo, na avenida Juscelino Kubitshek. Tinha boas ofertas de LPs importados de jazz e música erudita, e também de CDs – naquele tempo, os dois coexistiam e ainda muita coisa não tinha sido lançada nesse novo formato. Os sábados se tornaram o dia em que a turma do jazz se encontrava na Grammophone. Entre às 11 e 13 horas, o Conde, o Alberico, o Sieiro, eu e outros mais trocávamos considerações e recomendações. Como eram mais velhos e experts, as recomendações eram para mim. Gastei muito dinheiro por culpa deles. Aprendi muito, também.

As grandes dicas são as lojas fora do Brasil. Alguns países como a Espanha e os Estados Unidos, naturalmente, são lugares preciosos. Além das tradicionais HMV (cadeia inglesa), a Virgin e a Tower, todas desaparecidas, assim como a Borders que, se não me engano, se foi também, o grande lugar para se encontrar discos a bom preço é ainda a J&R, que fica perto das caídas Torres Gêmeas. A propósito, dias depois do 11 de setembro, falei com o Conde e ele saiu com uma de humor negro: “Você sabe qual a maneira mais rápida de se chegar à J&R? De avião.” Ele tinha voltado de Nova York uns três dias antes da tragédia. Dôra, sua mulher, e Denise, a filha, ainda se encontravam lá e estavam tendo problemas de voltar para o Brasil.

Com o fim das megastores, sobraram as pequenas. E são elas os achados. Passei dias em Firenze e não encontrava uma loja de discos. Casualmente, passando por uma ruela ouvi alguma música. Entrei e comecei a fuçar. Era o único cliente. Perguntei de Roberta Gambarini. Apesar de radicada em Nova York, nasceu na Itália. Queria saber se encontrava algum disco anterior aos que gravou em gravadoras americanas. Disse-me que tinha acabado de sair um, mas pela americana EmArcy. Mostrou-me um álbum duplo gravado na Itália com Andrea Donati, cantado em italiano. Falei da dificuldade em achar lojas de discos pelos lugares que havia passado. Conclusão: esse tipo de comércio tende a desaparecer.

Chegou-me pelo correio o livro Jazz Covers, editado pela Taschen. Ao abri-lo, vi que a segunda apresentação era de um tal Fred Cohen. Lembrei logo dele. É o dono de uma loja escondida na West 26th Street no oitavo andar de um prédio. É preciso apertar a campainha para que abram a porta. Conheci-a por causa do Conde. Na primeira vez em que estive lá, falei dele e Fred perguntou dele. A loja não é só de discos. É, antes de mais nada, a memorabilia do jazz. Tem desde vinis raros, como posters, publicações, discos autografados e filmes. Tem outra história muito boa envolvendo o Conde relacionada a essa loja. Ele, ao longo da vida, colecionou discos autografados pelos artistas. Descobriu que podia vendê-los, não no Brasil, mas nos EUA, onde há um comércio desse tipo de coisa. Como costumava ir, ao menos duas vezes por ano a Nova York, sempre levava alguma coisa e deixava em consignação. Uma vez, disse para o Alberico Cilento que tinha vendido um LP do Mel Tormé autografado por 100 dólares. O problema é que o disco não era dele. Era do Alberico.

Faz dois anos que não vou à Jazz Record Center, a melhor loja de jazz do mundo. Espero que não tenha fechado.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Novo Interpol

Minha prima foi morar em Los Angeles e, como sempre, generosa, mandou-me um presente pelo iTunes. Foi mão de obra conseguir o “redeem”. Por questões de direitos autorais, a loja brasileira da Apple não vende música nem filmes. É uma pena. É tanta coisa que a gente perde.

Tive de colocar um endereço americano – sem poder comprar – só se você tiver um cartão de crédito americano – e, assim, poder receber o belo presente que a Fernanda enviou: o último Interpol.

Bela banda! No começo, ficaram estigmatizados como cópia do Joy Division. Culpa da voz grave de Paul Banks – nem tão soturna quanto a de Ian Curtis – e de um som com fortes marcações de baixo e riffs que se repetem ad infinitum. Injusto. Mesmo assim, não se deve desconsiderar as influências. O penúltimo CD, Our Love Admire, dessa banda novaiorquina é, realmente, bom. Essa último, ando escutando por esses dia. É bom, também.

Uma palhinha. Ouça Success, primeira faixa. Sinta a marcação do baixo.