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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Kate McGarry é um destaque entre as novas cantoras

Tom Jobim e Luiz Bonfá são os campeões brasileiros em registros fonográficos. Faz muito tempo que a Bossa Nova deixou de ser “o novo ritmo brasileiro”. Hoje, Jobim é mainstream. Foi e é gravado no mundo inteiro. Outro com muitas gravações é Ivan Lins. A impressão é de que é mais popular lá do que aqui, tantos são os registros. Começou, se não me engano, com Sarah Vaughan e novas gerações sempre lembram dele. Um pouco menos é Djavan. Mas outros, como Toninho Horta, Milton Nascimento e Dori Caymmi são lembranças menos óbvias.

Kate McGarry na capa de Girl Talk
Duas cantoras, ou melhor, três, pois não se deve deixar de citar a carismática Esperanza Spalding (http://bit.ly/1m6vaje, http://bit.ly/1nL3AqG), uma apaixonada pela música brasileira, ótima baixista e cantora que engana bem, andaram gravando brasileiros. Há controvérsias quanto a Esperanza. Alguns vão discordar veementemente de mim, mas não acho que seja grande cantora. É um charme, presença agradabilíssima nos palcos, reconheça-se. As “duas” são Gretchen Parlato (http://bit.ly/1gwWENB) e Kate McGarry. São dois nomes pouco conhecidos aqui, mas prestigiados pela crítica americana.

Gretchen é a décima primeira e Kate, a décima terceira melhor dentre as melhores vocalistas no “poll” dos críticos do ano passado, pela revista Downbeat. Na categoria “rising star”, Gretchen nem aparece, e Kate é a quarta. Devem estar considerando a primeira uma veterana, já que não aparece dentre as “estrelas ascendentes”, mas não é. Tem apenas quatro álbuns lançados. McGarry tem até mais: cinco. Um a mais ou, e se considerarmos o mais recente – Genevieve & Ferdinand –, com o marido Keith Ganz, seis.

Genevieve e Ferdinand, afinal, são Kate e Keith. Genevieve é o nome do meio de Kate, e Ferdinand é porque, segundo ela, Keith lembra “o velho touro tranquilo dos velhos livros infantis que quer somente sentar-se debaixo de uma árvore e sentir o perfume das flores enquanto os outros touros estão brigando.” Uhm! Muito doce! O que é a paixão! Pois Keith, do jeito que toca o violão, é esse Ferdinand imaginado por Kate. Prefere a discreção. Ela achou que um nome com Kate e Keith Duos não soava bem e preferiu um mais poético.

Capa de Genevieve & Ferdinand
McGarry tem uma voz suave que, por distração, soaria como tantas outras. Mas tem um “algo a mais”. É o pequeno detalhe que faz a grande diferença. É especial, porque é aconchegante, parece tão íntimo que podemos imaginá-la cantando ao seu lado. A voz é delicada, afinadíssima, pequena e sem arroubos do estilo Etta James ou Aretha Franklin.

Seu penúltimo disco, Girl Talk (Palmetto, 2012), recebeu 4 estrelas pela Downbeat, ficou na lista dos 50 melhores lançamentos na lista de Scott Albin, na JazzTimes. Um dos pontos altos, junto com The Man I Love e Charade é O Cantador. Kate, ao escolher um tema brasileiro, não foi pelo consagrado. Aqui divide os vocais com Kurt Elling, o melhor intérprete do jazz nos últimos quinze anos. Elling é outro que incorpora composições que fogem das escolhas óbvias. Em This Time It’s Love (Blue Note, 1998) ataca um Rosa Morena, do pai do autor de O Cantador… em português.

Ouça a música título Girl Talk.




Ouça Charade, do penúltimo álbum.





No recente Genevieve & Ferdinand, o escolhido é Toninho Horta, com Aquelas Coisas Todas e Aqui Ó! em medley com Third Wind, de Pat Metheny. Como a maioria da nova geração de vocalistas, faz uma mistura com standards jazzísticos, composições próprias e temas do pop, de autores como James Taylor, Joni Mitchell e Paul Simon. Aliás, é deste último a primeira faixa do álbum: American Tune.

Ouça Aquelas Coisas Todas / Third Wind / Aqui, Ó!.




Veja o clipe de American Tune.



Os standards escolhidos por Kate e Keith são Can’t Help Loving That Man, de Jerome Kern e Oscar Hammerstein III, Smile e Let’s Face the Music and Dance, em belas interpretações.

Ouça Let’s Face the Music and Dance. É a segunda vez que grava a composição de Irving Berlin. A primeira está em If Less Is More... Nothing Is Everything (2006)



Genevieve & Ferdinand recebeu quatro estrelas e meia, pela Downbeat. É uma bela estreia pela Sunnyside, sua nova gravadora.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Gretchen Parlato não canta: resmunga

No CD recente, Parlato vira a franja pro outro lado
O que me chamou a atenção, primeiro, foi o nome “Gretchen”. Claro, lembrei-me de nossa cantora, dançarina e eventual atriz pornô com o mesmo nome. O sobrenome deve ser latino: Parlato. Pelo que está escrito sobre ela, concluímos que aptidões musicais podem estar nos genes: seu pai, Dave Parlato, foi baixista de Frank Zappa.

O que essa cantora de voz pequena e afinada tem para cair nas graças da crítica? Em 2007, foi considerada a terceira melhor vocalista “Rising Star” da revista Downbeat. Seu primeiro disco foi lançado em 2005. Menos quatro anos depois lançou In a Dream, pela gravadora ObliqSound, a mesma de seu mais recente CD: The Lost and Found. Seu segundo disco foi nomeado como o melhor disco vocal de 2009 pelos críticos do Village Voice de Nova York e ficou entre os dez melhores, segundo o Boston Globe, JazzTimes, Washington City Paper, Hot House e NPR. Agora, em 2011, acaba de ser considerada a melhor cantora “Rising Star” (Downbeat) pela segunda vez consecutiva. Em 2008, foi considerada a quarta “Rising Star”. Sua classificação em 2009, não tenho em meus arquivos.

A moça é do jazz, isso, não se duvida. É natural que, no meio de tantos medalhões que, ano a ano, se mantêm no topo das melhores vocalistas, novas vozes são auspiciosas. Na cena feminina, essas novidades são frequentes, o oposto do que ocorre no “setor” masculino: Kurt Elling é considerado o melhor há mais de dez anos, seguido de perto por Andy Bey.

Gretchen tem uma qualidade a mais que algumas cantoras: compõe, e em muitos casos é autora das letras em temas de músicas como Juju, ou E.S.P., de Wayne Shorter. E para nós brasileiros, um dado interessante é o de que Gretchen, quando canta em português, sem sotaque (apresentou-se com Gal Costa, Oscar Castro Neves e Ivan Lins em Washington D.C.). Em nossa insuspeitada xenofobia, consideramos esse fato. Patriotada? Um pouco. É um átimo do nosso orgulho tão solapado por tantos maus exemplos. Conheço apenas os dois últimos discos: no anterior canta Doralice; no mais recente, Alô, Alô, de um tal Da Viola. É assim que está registrado no encarte; é o nosso grande Paulinho cantado em balanço bem brasileiro. Por um momento podemos até pensar que o samba está em seu DNA.

O fator Brasil não se evidencia apenas nessas canções. Os arranjos econômicos, ritmos malemolentes em percussões inteligentes, nos quais se incluem batidas de mão, de vozes, violões acústicos e baterias nos fazem concluir que ela ouviu e ouve música brasileira com muita atenção, e claro, ouviu muito João Gilberto. Com certeza, é a razão de ter gravado Doralice. Seu violonista/guitarrista, Lionel Loueke, também: deve ter ouvido muito João Gilberto. Kendrick Scott, da mesma forma, contribui: é um baterista sofisticado, de notas essenciais e cheias de bossa.

E nem é preciso que a música seja brasileira para “ficar brasileira”: o melhor exemplo é I Can’t Help It – do CD In a Dream –, composição de Stevie Wonder. Quem não a conhece, provavelmente, deve tê-la ouvido na interpretação de Michael Jackson no álbum Off the Wall (1979). É uma canção típica de Stevie, mansa e cheia de balanço. Mas Parlato a subverte transformando-a em pura “new bossa”; mais brasileira, impossível. Ouça, para dizer que não estou mentindo.



O título desse texto, um tanto irônico, é apenas uma graça que faço. Na primeira vez que ouvi Gretchen, estranhei demais sua voz anasalada; pareciam resmungos. Aos poucos, fui percebendo que sua voz é o perfeito complemento para a construção das canções. Um detalhe na capa de seu último disco – The Lost and Found – me chamou a atenção: Parlato usa um vestido com uma alça à esquerda e sua enorme franja atravessa toda a extensão de sua testa em sentido oposto. Um comentário ou uma graça? Passou um tempo até começar a gostar dessa imagem de deliberada sensualidade; na contracapa, vemo-la de costas, com o vestido marcando seu corpo curvilíneo. Na capa do anterior – In a Dream – Gretchen aparece deitada sobre um fundo cor de rosa com algo que parecem pétalas que lhe cobrem o colo. Irresistível.

À medida que fui ouvindo mais, passei a gostar mais e mais e percebi que os que a elogiam tinham razão. Quando me dei conta, havia sucumbido ao discreto charme do canto de Gretchen Parlato.

Ouça Parlato cantando Butterfly. Veja o que faz com a voz e com as mãos.