quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Julio Cortázar e Charlie Parker

Julio Silva e Cortázar
Primeiro, faz tempo que não leio nada de novo de Julio Cortázar. O que tenho feito, esparsamente, é relê-lo. Um segundo, se é que isso pode ser chamado de fato, em todas as ocasiões, isso tem acontecido quando estou em algum meio de transporte, ou seja, nunca em casa, que é onde leio mais, de preferência, deitado, segurando o livro (com o que leio agora, Crime e Castigo, de Dostoiévsky, não é possível fazer isso) com uma das mãos, com o polegar a separar as páginas e o resto dos dedos servindo como apoio. Não aconselho essa posição, mas me acostumei com ela.

Na viagem que fiz a Montevidéu há dois anos, a melhor coisa que me ocorreu foi encontrar Último Round como fora editado originalmente. É cortado em duas partes, sendo a parte superior maior, dois terços da inferior. Se em Jogo da Amarelinha, a “subversão” era ler os capítulos fora da ordem em que fora publicado, o jogo em Último Round era mais radical. É uma empreitada que teve o artista plástico e diagramador Julio Silva como parceiro. O livro é constituído de textos, naturalmente, fotos, ilustrações de todo tipo e desenhos de Alechinsky e de Jean-Michel Folon, que chegou até a ser premiado em uma das bienas de arte de São Paulo e, hoje, ninguém mais fala dele.

A primeira vez que tinha visto o livro, fiquei maluco em adquirí-lo com o pouco dinheiro de estudante. Na FAU-USP havia a banca da Ciça, uma brasiliense que vendia livros em espanhol, de arquitetura, basicamente, mas possuía um belo estoque de literatura, que era o que me mais me interessava. Bom, o negócio é que consegui apenas uma edição em dois tomos, com cada uma das partes impressas separadas. Perdeu a graça. Os textos eram curtos e podiam ser lidos aleatoriamente. Passei a gostar de boxe (hoje, acho qualquer coisa relacionada a lutas corporais horrível) por causa de Cortázar. Através do saudoso amigo Zeca Leal, que tinha uma coleção de vídeos de lutas clássicas, tive acesso a embates, citados pelo escritor, como os de Joe Louis, Rocky Marciano, Max Schmeling e de outros de quem não vou lembrar agora. Se Cortázar considerava o boxe uma arte (a paixão dos argentinos por esse esporte era grande e fizeram grandes campeões como o peso médio Carlos Monzón), devia ser arte. Bom, ninguém é perfeito. Ernest Hemingway e Pablo Picasso adoravam touradas, a atriz Ava Gardner, toureiros.

Lembro da felicidade de ter conseguido comprar um Obras Completas, de Jorge Luis Borges em espanhol, um catatau de capa dura e sobrecapa verde escura na banquinha da Ciça. Os outros de Cortázar que devo ter comprado foram La vuelta ao día em ochenta mundos (1967), Todos los fuegos el fuego (1966) e Historia de cronopios y de famas (1962). Eram edições de bolso, impressos em papel bem ordinário.

De vez em quando, me dá vontade de reler Cortázar, Borges e Carpentier, principalmente. Reli há pouco tempo Pedro Páramo, de Juan Rulfo, mas não consegui resgatar o encantamento que tivera ao lê-lo pela primeira vez. As “retomadas” são perigosas por isso: podemos nos decepcionar com facilidade. Era o que mais temia quanto a Cortázar.

Comecei dizendo que nas vezes em que andei lendo Cortazar estava em um meio de transporte. Quando fiz um cruzeiro no Mediterrâneo botei dois livros na mala (tinha um terceiro, mas esqueci): História de Cronópios e de Famas e Dubliners, no original, de James Joyce. Aquela coisa meio nonsense dos cronópios não estava combinando com a paisagem. Como o livro era muito velho (comprado em 1976 ou 77), as páginas em papel ordinário papel, tinham ficado quebradiças e começaram a se desfazer por causa do vento. As folhas pareciam aquelas bolachas cream-crackers. Explicação: marzão e muito sol, sentava no deque, ouvindo música no iPod e aquelas folhas se autodestruindo; não estava combinando mesmo. Desisti antes que o livro deixasse de existir fisicamente, em razão dos ventos mediterrâneos.

Outro dia li algum crítico proferir que, passado um tempo, vão reconhecer a irrelevância da obra de Cortázar. Até em razão de confirmar se esse crítico estava certo, enfiei As Armas Secretas na minha bolsa. Tendo de fazer um trabalho no centro da cidade de São Paulo, por causa desse trânsito infernal e fantasiando que, ao deixar de usar o automóvel estarei contribuindo para a sua melhoria, resolvi tomar um coletivo urbano. Pensei: em vez de ficar olhando a paisagem externa ou fuçando no celular, posso ler um livro. escolhi um livro pequeno, e o conto escolhido foi O Perseguidor, lido há tanto tempo, que não me lembrava de mais nada. Sabia que tinha algo a ver com Charlie Parker. Era tudo. Mais uma vez, estava lendo o argentino, belga de nascimento, com a Terra a mover sob meus pés. Como o conto é comprido, não deu para terminar. Na semana seguinte, voei para os EUA. Como tenho certa dificuldade em dormir nessas condições, concluí a leitura do conto a 10 mil metros de altura.

Charlie Parker por William Claxton
Passado quase um mês, lembro disso por causa de um ensaio publicado em “Sabático”, de O Estado de S. Paulo (28/7/2012), cujo título é “Nas águas do jazz e das vanguardas”, do espanhol Carlos Granés. Esclarecimento: as viagens de ônibus e de avião aconteceram no fim de agosto e começo do mês seguinte; li o ensaio bem depois de publicado pois tenho o costume de ir guardando as páginas e cadernos que exigem um pouco mais de atenção e lê-los em momentos mais oportunos.

O ensaio versa sobre a influência do surrealismo na obra de Cortázar, Miguel Ángel Asturias e Alejo Carpentier. Este último foi apresentado por Robert Desnos, que o conheceu em 1928 no 7º Congresso de Imprensa Latina, a Andre Breton, Antonin Artaud e Jacques Prévert. Granés escreve sobre isso dizendo que “é paradoxal que o surrealismo, a vanguarda poética e artística que mais aversão teve ao romance, houvesse sido a fonte de inspiração para alguns dos romancistas mais criativos e renovadores da América Latina.”

Diz o ensaísta que Cortázar foi “grande admirador do surrealismo” e, em artigos publicados entre 1948 e 1949, defendeu “o irracionalismo como uma maneira de ampliar os limites da liberdade, a possibilidade de experimentar poeticamente a realidade, e a necessidade de um novo humanismo que contemplasse as necessidades mais profundas do ser humano.”

Como Horácio de Oliveira, personagem de Jogo da Amarelinha, Johnny Carter, de O Perseguidor, é também um “desajustado e insatisfeito que despreza o insípido mundo real e persegue algo impossível, sem nome, que ele só intui quando entra no mundo da criação.” Como nos roman à clef, a diversão é encontrar paralelos e semelhanças com personagens da vida real, no caso aqui, o saxofonista Charlie Parker. Temos a espiral do consumo de drogas e álcool, a marquesa (a “inspiração” é a baronesa Pannonica de Koenigswarter) que o ajuda e atrapalha ao mesmo tempo, auxiliando-o financeiramente e assim, ao acesso às drogas. É um comportamento perverso das pessoas, como diz o narrador: “No fundo somos um bando de egoístas sob pretexto de cuidar de Johnny, o que fazemos é salvar a ideia que temos dele, preparar-nos para os novos prazeres que Johnny nos dará, polir a estátua que erguemos juntos e defendê-la a qualquer preço.” (pág. 113, As Armas Secretas, Civilização Brasileira, tradução de Eric Nepomuceno). Numa exacerbação desse egoísmo, Bruno, autor de uma publicação sobre o saxofonista, pensa que “o fracasso de Johnny seria ruim para o meu livro (a qualquer momento sairá a tradução para o inglês e o italiano), e parte de meu cuidado com Johnny está feito de coisas assim. Art e Marcel [os músicos que o acompanha] precisam dele para ganhar o pão, e a marquesa,quem sabe o que a marquesa vê em Johnny além do talento.” (págs 113-114)

Johnny é um perseguidor porque “incapaz de se satisfazer, vale como um estímulo contínuo, uma construção infinita cujo prazer não está no arremate e sim na reiteração exploradora, no emprego de faculdades que deixam atrás o imediatamente humano sem perder a humanidade. […] Ir a um encontro não pode ser nunca fugir, embora cada vez releguemos o lugar do encontro.” (pág. 116). “Johnny persegue em vez de ser perseguido, que tudo o que está lhe acontecendo na vida são azares do caçador e não do animal acossado.” (pág. 129)

A música de Carter é intangível: “Suas conquistas são como um sonho, esquece delas ao despertar.” (pág. 117); ou como Carlos Granés escreve: “Johnny nunca consegue agarrar aquilo que o persegue, que sempre escorrega entre seus dedos.”

Bem, falei um monte sobre Cortázar e pouco sobre Charlie Parker. Mas, o melhor mesmo é ouví-lo. Aqui está uma das minhas preferidas: Bird of Paradise (Miles Davis, trumpete; Charlie Parker, sax alto; Duke Jordan, piano; Tommy Potter, contrabaixo; Max Roach, bateria. Noova York, 28/10/1947). Faz parte das gravações pela Dial Records, quando Parker estava no auge de sua forma musical.

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Leia aqui outro texto de Julio Cortázar. É sobre Clifford Brown.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O “Duos III”, de Luciana Souza

Foto de Bob Wofelson, bela capa de Kiko Farkas
Sempre lembro de histórias do Carlos Conde. Não sei se a que vou contar já foi contada por mim. Como tantas que divertiam seus amigos por conta de suas idiossincrasias e particularidades, essa também tem seu lado engraçado. Em um dos festivais de jazz, em São Paulo, Luciana Souza estava dando sopa no saguão do teatro, depois de terminadas as sessões, muito simpática, autografando discos, conversando com os fãs. O Alberico Cilento, muito amigo do Conde, sabendo da “mania” dele de colecionar autógrafos, perguntou se não ia pedir um para ela. O Conde respondeu: “Mas ela é muito nova.”

Ele tinha uma infinidade de discos autografados, desde a época dos LPs. A dezena de discos com autógrafos foram conseguidos quando eu estava com ele. Normalmente, nos shows levava os LPs e os CDs em um envelope e, findas as apresentações, ia ao camarim conversar com os músicos e pedir autógrafos. Bom papo, sempre tinha do que conversar com eles devido ao enorme conhecimento que tinha do jazz. Eu, bem mais tímido que ele, passei a levar os encartes dos CDs dos artistas no bolso e, aproveitando da situação, pedia também.

A parte engraçada do “mais ela é muito nova” se devia a um motivo bem particular. Cliente dos bons da Jazz Record Center, o melhor lugar para se adquirir discos, cartazes, revistas e souvenirs relacionados ao gênero, descobriu que aqueles autógrafos poderiam se transformar em dólares. Como ia com frequência – umas duas vezes por ano a Nova York –, ficara amigo do dono, o Fred Cohen. Em uma das ocasiões em que fui à loja, que fica em um lugar escondido no Chelsea, no oitavo andar, o Fred perguntou pela saúde do Conde, sabendo que ele estava doente. Era um dos bons clientes do Fred.

Lembro dessa história, agora quandoé lançado o álbum Duos III, de Luciana. Estabelecida há muito tempo em Nova York, é um nome bem conhecido e consagrado. No último “Melhores do Ano”, da revista Downbeat, foi considerada a décima melhor cantora. Não é pouco. Num universo concorrido em que o que não falta é cantora, é uma boa classificação, principalmente por interpretar mais em português do que em inglês. Para se ter uma ideia, dentre as vinte melhores, quase todas são americanas, canadenses ou inglesas. As exceções são Roberta Gambarini – italiana –, e Claudia Acuña – chilena.

Em seu Duos III, os “outros” são os brasileiros Toninho Horta, Marco Pereira e Romero Lubambo. As atuações dos violonistas são divididas democraticamente em quatro num total de doze faixas. Toninho toca em Pedra da Lua, Tim Tim por Tim Tim, Inútil Paisagem e Beijo Partido; Marco Pereira em Chora Coração, Dona Lu, Eu Vim da Bahia e Mágoas de Caboclo; e Romero Lubambo em Doralice, As Rosas Não Falam, Lamento Sertanejo/ Maçã do Rosto e Dindi. O repertório bem conhecido.

Toninho Horta sempre imprime sua marca ao violão. Possui uma levada só dele, muito especial. É o único que participa nos vocais, fazendo um belo vocalise em Pedra da Lua. Participa com duas composições próprias: além desta, Beijo Partido. Pereira também tem uma sua, sem letra, apenas com vocal de Luciana, e a música se chama Dona Lu; acho que não é para dona Lu Alckmin. Marco, dos três, é o mais clássico. É da tradição dos grandes virtuoses do violão no Brasil. Lubambo, desde 1985, mora nos EUA e, além do trabalho solo, tocou e gravou com Paquito D’Rivera, Dianne Reeves, Astrud Gilberto, Dizzy Gillespie, Herbie Mann, Michael Brecker, Al Jarreau e Dave Douglas.

Duos III é um disco muito agradável de se ouvir, intimista. Ela é afinada, mas parece muito contida. Sempre foi assim. Não empolga, bom, essa é a minha opinião e nem todos precisam concordar. Mesmo quando canta mais “balançado”, como Maçã do Rosto, de Djavan, não é daquelas que nos faça sair dançando pela sala. Sem ser uma crítica e, já que comecei, acho que os americanos deviam conhecer Monica Salmaso.

Como sou fã de carteirinha de Toninho Horta, acho que você deve ouvir Pedra da Lua. (Sobre ele, leia O céu mais lindo do Brasil, TH, um talento pouco reconhecido? , TH e espinha de peixe)


Outro belo destaque é Mágoas de Caboclo, com Marco Pereira.

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Ouça Luciana e Toninho Horta em Pedra da Lua.

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Agora, bom mesmo é Mágoas de Caboclo, com Orlando Silva. Essa é imperdível.

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