sexta-feira, 8 de abril de 2011

Imagens de Chungking Express, mais um belo filme de Wong Kar-Wai

É interessante acompanhar a carreira de um cineasta como Wong Kar-Wai de trás para a frente. Em dois posts anteriores, coloquei imagens e fiz alguns comentários sobre Beijos Roubados (My Blueberry Nights, 2007), e 2046 (2004). Assistindo a Chungking Express (1994), bem anterior aos dois citados, evidencia-se uma “marca Kar-Wai”. Realizado com mais de dez anos de diferença, certos recursos estilísticos estavam presentes em 2004, e bem delineados. O esmero visual e alguns recursos como alterações de tempo em slow e fast motion são utilizados com frequência com a finalidade de alterar a percepção do espectador.

As primeiras cenas acontecem num ritmo alucinante, câmera na mão, imagens em motion blur, fachos de luzes coloridas e rastros de movimentos. É impactante. Kar-Wai gosta de fundir “contrastes”: a imagem real se funde com a refletida, perpassa por uma barreira física (vista por trás de vidros que espelham parcialmente e deixam que as imagens os atravessem). Outro recurso é o de, na mesma imagem, o primeiro plano ter uma velocidade (quase parada), e o fundo ter outra (transeuntes que caminham e são vistas como manchas desfocadas).

Duas histórias de policiais são narradas. Ambos são frequentadores de um mesmo lugar: o Midnight Express. O dono desse estabelecimento de refeições rápidas representa o eixo da narrativa. Ele divide uma espécie de intimidade com os clientes a ponto de, depois de ouvir suas lamúrias, toma a liberdade de aconselhá-los.

Na primeira parte, He Zhiwu (Takeshi Kaneshiro), nomeado como “Cop 223” pelo dono do Midnight, lamenta o sumiço da namorada. Fica passando recados pelo pager (para quem não sabe o que é, era um tipo de trocador de mensagens: se você quisesse falar com alguém, ligava para uma central e deixava o recado que era enviado para um aparelhinho com tela de cristal líquido), falando com conhecidos para saber dela. Como todo solitário, cultiva obsessões doentias. Uma delas é a de tomar seu suco de abacaxi só se a data de vencimento for maio. É que o nome da mulher que o deixou se chama May. O problema é a proximidade do mês de maio. É cada vez mais raro se encontrar um produto com data de validade para esse mês. Quando encontra latas de compota de abacaxi com vencimento em maio, compra-as todas: 30. Paralelamente, vemos a ação criminosa de uma mulher misteriosa que usa peruca loura, óculos escuros e trenchcoat (Brigitte Lin). A gângster arregimenta um grupo de paquistaneses para transportar drogas como “mulas” do tráfico. Num momento de distração, no aeroporto, desaparecem com a droga e com o dinheiro que lhes haviam sido dado como adiantamento.

Os dois “destinos” encontram-se em um bar, num fim de noite. Ele busca consolo com uma mulher que imagina, solitária como ele. Não percebe que o que ela menos quer é conversa, após uma longa noite  procurando os paquistaneses e fugindo deles depois.

“Cop 663” (Tony Leung, ainda com cara de moleque) é outro frequentador do Midnight. O lugar é também o ponto de encontro dele com uma bela aeromoça com quem tem um caso. Quando resolve deixá-lo, deixa um envelope com um bilhete e a chave do seu apartamento. Não lembra algum outro filme? Pois é, no bar de Jeremy (Jude Law), em My Blueberry Nights há um pote de vidro em que seus clientes deixam as chaves, às vezes, quando vão embora da casa de seus namorados, em outras, quando precisam deixar as chaves para o outro. Em My Blueberry… é uma espeecie de volta ao mesmo motivo.

Faye (Faye Wong) é uma nova atendente da casa. É prima do dono. Espera juntar dinheiro para poder mudar-se para a California. Deixa o som ligado nas alturas (ouve invariavelmente California Dreamin’, de The Mamas & Papas. Nota: a preferida da comissária é What a Difference a Day Made, cantada por Dinah Washington) a ponto de mal conseguir escutar o que os clientes querem. Sente-se atraída pelo policial e desenvolve – mais uma vez – uma obsessão por ele; a ponto de ficar de posse da chave que a antiga namorada de 663 e passar as tardes na sua casa sem que ele saiba.

Em comum entre as duas narrativas é a de que os dois policiais são solitários e infantis. O policial vivido por Tony Leung passa as noites “brincando de aviãozinho” (lembro que a namorada é comissária de bordo) e conversando com bichos de pelúcia e consigo mesmo.

Vamos às cenas.

1. Na abertura aparece a loura misteriosa caminhando. Depois do letreiro inicial, há a cena da perseguição ao preso que consegue escapar do policial.



















































2. A loura sai à procura de suas “mulas” indo procurá-los no bairro dos paquistaneses. É seguida por um deles e, percebendo atira nos perseguidores, até conseguir safar-se entrando no metrô.

3. Faye é flagrada dentro da casa do policial. Diante do assédio constante, combina um encontro. Ela não aparece. Vai até o Midnight e o dono lhe diz que ela foi embora, deixando um envelope para lhe ser entregue. Prefere não abrir, como havia feito com o que a comissária tinha deixado na lanchonete. Saindo de lá para num bar chamado California. Chove. Decide abrir e ver o que contém o envelope. É um pedaço de papel “imitando” um boarding pass para a Califórnia. As imagens são uma demonstração da maestria de Kar-Wai em composições impressionistas por meio de distorções utilizando-se de tomadas através do vidro molhado pela chuva e tomadas distorcidas e desfocadas.








Para concluir, fique com Dinah Washington cantando What a Difference a Day Makes.


quarta-feira, 6 de abril de 2011

O inexplicável em Susannah McCorkle

Oh, Susannah!
Às vezes, imagino que o suicídio é explicável apenas para o suicida. É o que faz pensar a razão de Susannah McCorkle ter pulado de 16º andar de um prédio localizado na West 86th Street, Nova York. Há semelhanças intrigantes entre a trajetória de vida de Susannah e Stacey Kent. Ambas são americanas, estudaram línguas e depois se mudaram para a Europa. Kent fez literatura comparada e McCorkle, literatura italiana. Adorava música brasileira, como Stacey que, inclusive, está aprendendo português.

Mudou-se primeiro para a França, depois para a Bélgica e Londres. Tinha facilidade com línguas. Falava quatro idiomas, inclusive o português. Despertou para a música no Velho Mundo, apresentando-se em pequenos espaços em Londres. Gravou dois álbuns que não fizeram “muito barulho”. Voltou aos EUA e baseou em Nova York e passou a se apresentar no Cookery, em Greenwich Village.

Devido à formação em letras, escreveu ficção e artigos sobre músicos como Bessie Smith, Ethel Waters, Irving Berlin e também da atriz Mae West. Pelo domínio da língua portuguesa, traduziu letras de compositores brasileiros e gravou um disco com músicas brasileiras (exceção de Estate, que é quase brasileira, pois quem a descobriu foi João Gilberto). Em Sabiá (1990), além do repertório de bossa nova costumeiro, gravou Tristeza, Travessia e Pra Machucar Meu Coração, de Ary Barroso. Canta algumas em português, com sotaque, decerto, e em Tristeza, mistura a nossa língua com o italiano. Se é boa a mistura, não sei, ao menos, desconcerta.

A primeira influência de McCorkle foi Billie Holiday. Era uma cantora incomum. Ganhou três “Discos do Ano” pela Stereo Review e gravou dezessete discos, a maioria, pela Concord Jazz. A instrumentação das músicas é, geralmente, mínima e realça seu “modo” de cantar. Sabiá é uma boa amostra da originalidade nas abordagens que faz das músicas. Suas interpretações de Manhã de Carnaval, Pra Machucar Meu Coração, Estate e Travessia servem de bons exemplos.

Uma afirmação de McCorkle é reveladora. Disse, uma vez, que cantar jazz lhe deu um senso de inclusão: “Antes disso, sempre fui solitária e introvertida. Como cantora, comecei a encontrar outras pessoas que eram solitárias e introvertidas, mas também grandes músicos de jazz. Era como se eu tivesse achado a minha tribo”. Se não explica o suicídio com apenas 55 anos, em 19 de maio de 2001, algum indício é dado para a razão de seu cantar melancólico, meio dolorido. Sobreviveu a um câncer de mama, mas não à depressão. Deixou uma carta antes de pular do 16º andar, mas apenas os familiares devem saber o que escreveu.

Ouça Manhã de Carnaval.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Por que gosto tanto de Siboney?

Sem medo de ser feliz, entre as minhas “14 Mais” – essa referência é muito antiga e só alguns irão se lembrar que uma gravadora (a antiga CBS, se não me engano) lançava, semestralmente, um LP de vinil contendo as 14 preferidas ou melhores (era o que cabia em um LP) –, está a música Besame Mucho. João Gilberto cantou, os Beatles cantaram, informalmente, é certo, sem gravarem. Os boleros têm seus fãs incondicionais.

Quando a mexicana Consuelo Velazquez compôs Besame Mucho, era menor de idade – 15 anos, presume-se – virgem e nunca tinha beijado alguém. Tendo estudado piano desde criancinha, inspirou-se – é o que se diz – em uma peça do espanhol Granados: “Quejas, o la maya y el ruiseñor”, do ciclo Goyescas. Consuelo faleceu há seis anos, em 2005, com 84 anos. Besame foi composta em 1940. São 71 anos. Longa vida para um clássico.

Ernesto Lecuona é, por algumas semelhanças com o americano compositor de Summertime na formação musical, considerado o “Gershwin cubano”. Ambos transitaram entre os formatos do popular e do erudito. Nasceu em 1895 e veio a falecer distante da terra natal por conta da instauração do governo revolucionário de Castro, em 1963, e enterrado em terras americanas; e deve ser trasladado a Cuba após o fim do regime vigente. Pelo menos, é a vontade de Lecuona, registrada no testamento. O treinamento clássico no piano o levou a estudar brevemente com o franco-basco Maurice Ravel. Compôs música para teatro, cinema, além de peças eruditas para o piano; são cerca de 600 composições no total. Lecuona, porém, é um dos reis da época de ouro da música latina.

Apesar de israelense, Anat Cohen adora música latina
Há um contingente enorme de fãs do bolero, apesar de outro tanto de pessoas considerá-lo um gênero, usando termos que caíram em desuso, “brega”, ou “kitsch”. Mesmo para um público menos habituado ou que desconhece o bolero, que mal ouviram falar de Gregorio Barrios, Angela Maria, Lucho Gatica, ou Miguel Aceves Mejía, devem ter escutado clássicos como Malagueña, Besame Mucho e, menos, Siboney. Certamente terão pouco ouvido falar de intérpretes como Trini Lopez ou Concetta Rosa Maria Franconero. Os dois, americanos de nascimento, tinham origem hispânica e foram propagadores da música latina em terras ianques. Sei de um bocado de gente fã de ambos.

Veja como os tempos mudam. Na década de 1960, um boa-pinta de olhos meio puxados, cabelo armado com gumex, e sempre de violão em punho (os americanos puros preferiam uma arma), provocou frisson entre as moças no Brasil. Vários LPs de Lopez foram lançados pela CBS (atual Sony). Um de seus sucessos foi La Bamba. Gerações que não chegaram aos 40 anos, certamente, conhecem essa música, muito em razão do filme sobre a vida de Richie Valens, contemporâneo do astro seminal do rock, Buddy Holly.

Não ligo nem um pouco para a música La Bamba (foi gravada pela banda Los Lobos nos anos 1980), mas Siboney está entre as 14 Mais, como Besame Mucho. É obra que sobrevive e gerações recentes continuam a gravá-la. Ouça uma interpretação da clarinetista israelense – é isso mesmo – Anat Cohen. A paixão dela por música latina demonstra que a música desconhece fronteiras.



Ouça também no piano sublime do cubano Ruben González. É a minha preferida, pelo menos, por agora.



Não se pode esquecer da interpretação de Connie Francis. Essa é para você, amigo SK.