quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Messiaen e a adversidade

Cristo e os pássaros, as guias de Messiaen
Quem nasceu a partir depois de meados do século 19 e início do seguinte viveu duas grandes guerras. É um dado e tanto aos que sobreviveram, principalmente para os que estavam nos palcos dos conflitos.

Pierre Messiaen foi um deles. Professor e tradutor de William Shakespeare, mesmo assim, foi convocado na 1ª Guerra Mundial. Tinha dois filhos e era casado com a poeta Cécile Sauvage. Um deles, Olivier Messiaen, se tornaria um dos compositores mais importantes do século 20.

Com sete anos, Olivier aprendeu a tocar piano sozinho. Com onze, entrou no Conservatório de Paris e, além de instrumentista, passou a compor.

Olivier não tinha a esta muito boa, mas assim mesmo foi convocado na 2ª Guerra Mundial, mas trabalhando como auxiliar em um hospital. Foi capturado pelos alemães, em maio de 1940, ficando prisioneiro em um campo perto de Nancy. Na mesma situação, encontravam-se o clarinetista Henri Akoka e o violoncelista Étienne Pasquier. Na breve estada, Messiaen compôs uma peça solo para Akoka.

Antes do início da Guerra, Messiaen já tinha um bom número de obras compostas, como os “Prelúdios” para piano (1928-1929), várias para órgão — “Le banquet céleste” (1926), “Diptyque” (1930) e “Apparition de église èternelle” (1932) — e “Les offrandes oubliées” (1930) para orquestra.

No fim de junho, foram transferidos para Stalag VIII-A, a 110 quilômetros de Dresden. Um dos guardas, Carl-Albert Brüll, apaixonado por música e fluente em francês, auxiliou Messiaen. Arrumaram um piano de armário, o que foi de grande auxílio para que continuasse a compor, embora desafinado. Aos dois músicos que foram transferidos, juntou-se o violinista Jean Le Boulaire. Assim nasceu “Quatuor pour la fin des Temps”, feita para ser tocada pelos músicos disponíveis no campo. Em condições adversas, Messiaen não deixou de compor.

Há um elemento simbólico bem forte de ter sido composto durante a Guerra, e mais ainda em um campo de prisioneiros, e o título ser “Quarteto pelo Fim dos Tempos”. Na verdade, alguns movimentos tinham sido concebidos anteriormente. A peça foi concluída em Stalag VIII A. “Louange à l’Éternité de Jésus” (Prece para a eternidade de Jesus”), o quinto movimento, é de “Fête des belles aux” (1937). A segunda “prece” – “Louange à l’Immortalité de Jésus” –, movimento final, é um retrabalho baseado em “Diptyque” (1930). O solo composto para a clarineta de Henri Akoka, em Nancy, passou a fazer parte do terceiro movimento: “Abîme des oiseaux”.

Ao vivo em Stalag VIII A
A première do “Quarteto” aconteceu em 15 de janeiro de 1941, às 18 horas, em Hut 27B, feito um teatro improvisado. Messiaen disse em uma entrevista que cerca de 5 mil pessoas, de diversas classes, ouviram o “Quarteto” em total silêncio. Empolgação do compositor.

É o tipo de coisa que fica no mito, na lenda. Impossível 5 mil. Étienne Pasquier, o violoncelista, relata que todos assentos estavam ocupados, cerca de 400. Muitos estavam ouvindo música de câmera pela primeira vez. Era uma noite fria e os telhados estavam cobertos de neve. Étienne faz outra retificação: o seu violoncelo estava com as quatro cordas, e não três, como relatou Messiaen. “Quatuor” era uma obra revolucionária. Obviamente, alguns dos espectadores ficaram irritados.

No mesmo ano, Messiaen foi solto e apresentou a peça, pela primeira vez, em Paris, em 24 de junho, no Théâtre des Mathurins. Antes, houve uma introdução falada. O compositor Arthur Honneger, com certo sarcasmo, afirmou em uma crítica em Comoedia que “algumas pessoas, talvez, tenham encontrado um pouco de literatura demais na música.”

Ser católico (fervoroso) e vanguarda ao mesmo tempo é um tanto contraditório, não? São duas substâncias que não se misturam, aparentemente. Mas Messiaen tinha duas paixões: Cristo e o canto dos pássaros. O “Quatuor” era uma peça programática e o texto explicativo era parte essencial.

A peça pode ser ouvida sem o texto, sem dúvida. É impactante, revolucionária e emblemática, considerando-se a época em que foi composta. As marcações de tempo coincidem com os sentimentos que o compositor imprime: infinitamente lento, estático (“Louange à l’Éternité de Jésus”), extremamente lento e terno, estático (“Louange à l’Immortalité de Jésus”), decidido, vigoroso, granítico, um pouco vivo (“Danse de la fureur, pour les sept trompettes”) e, por aí vai.

A parte do texto é também muito interessante, poético e religioso. É um complemento que merece ser conhecido. Está um tanto longo para ser lido em uma tela de computador ou celular, mas, paciência.

• “Liturgy de cristal”: Entre três e quatro da manhã, o coro da aurora: um pássaro preto e uma andorinha improvisam um solo, rodeados por sons esparsos… transponha isso para um plano religioso e você tem o silêncio harmonioso do céu.

• “Abîme des oiseaux”: O abismo, que é o Tempo, na sua tristeza e cansaço. Os pássaros são o oposto do Tempo: representam nosso desejo pela luz, pelas estrelas, por arco-íris e vocalises radiosos.

O “fim dos tempos” não é o fim da humanidade. Na visão religiosa, ou de Messiaen, significa a supressão do tempo, e não uma visão apocalíptica. No sétimo movimento – “Fouillis d’arcs-en-ciel, pour l’Ange qui annonce la fin du Temps” – percebe-se o que o compositor busca exprimir: O anjo aparece com toda força… Em meus sonhos, ouço e vejo acordes ordenados e melodias, cores e formas familiares; então me transporto para a irrealidade e sofrimento, com êxtase, um redemoinho de sons e cores sobre-humanos.

Melhores gravações
Apesar de ser um quarteto, não segue a formação tradicional de violinos, viola e violoncelo. Por essa razão, as gravações existentes são de músicos reunidos para tocar “Quatuor pour la fin de Temps” exclusivamente. O primeiro registro que ouvi é o meu preferido – é quase sempre assim, não?, a primeira impressão – é de Hans Deinzer (clarineta), Aloys Kontarsky (piano), Saschko Gawriloff (violino) e Siegfried Palm (cello), da Deutsche Harmonia Mundi (1978). Acho que não existe em CD.

Em 1979, pela Deutsche Grammophon, saiu o “Quarteto”, com Claude Desurmont, Daniel Barenboim, Luben Yordanoff e Albert Tétard (mantenho a ordem dos instrumentos aqui e nos próximos). Essa é versão que menos gosto. Por que? Não sei. Questão de gosto.

Outra é com Wolfgang Meyer, Yvonne Loriod, Christoph Poppen e Manuel Fischer-Dieskau, lançado pela EMI, em 1991. O destaque aqui é Loriod, segunda mulher de Messiaen, que deve ter passado boas orientações.

Em 2000, pela Deutsche Grammophon, os instrumentistas são Paul Meyer, Myung-Whun Chung, Gil Shaham e Jian Wang. Não gosto.

Acaba de ser lançada, pela Sony, e é essa a razão de estar a escrever sobre esse quarteto, é com Martin Fröst, Lucas Debargue, Janine Jansen e Torleif Thedéen. Ouvi umas três vezes e torna-se a minha primeira opção, já que a de 1978 ficou apenas na minha lembrança como a melhor e nem posso comparar. Nem sei por onde anda esse LP.

No YouTube tem várias gravações na íntegra. Por ser uma peça que foge à formação costumeira de um quarteto, há uma profusão de virtuoses em seus instrumentos reunidos, o que o torna mais interessantes. Disponibilizo duas dessas.

Veja esta, com Patrick Messina, Nicolas Stavi, Daniel Hope e Tatjana Vassilijeva.




Nesta, músicos do primeiro time: Sabine Meyer, na clarineta, e Sol Gabetta, no violoncelo, são as mais conhecidas. Os outros são Bertrand Chamayou, ao piano, e Antje Weithaas no violino.