quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O estranho mundo de Elina Duni

Elina Duni pelas lentes de Blerta Kambo
Em uma área de pouco mais de 28 mil metros quadrados encontra-se um país que possui um histórico de opressão e isolamento. A hoje República da Albânia, localizada na Penínsinula dos Balcãs, faz limites com antiga e hoje desmembrada Iugoslávia (Montenegro, Croácia, Macedônia e Sérvia) e a Grécia. O Kosovo, ainda parte da Sérvia, almeja sua independência e é povoado por maioria de albaneses.

A Albânia, como a Grécia, ficou por cerca de 400 anos sob o jugo do Império Otomano. Quando tudo poderia ficar melhor, ficou pior, se visto por um lado. Antes da Segunda Guerra, foi invadida pelas tropas de Mussolini. Um dos líderes da resistência, pouco antes do fim da Segunda Guerra, Enver Hoxha, comandou o país até morrer, em 1985. Nesse período, alinhou-se à União Soviética de Stálin, mas não se entendeu muito bem com seu sucessor Kruschev e em 1961 entrou na esfera do comunismo chinês. De novo, após a morte do Grande Timoneiro Mao Tsé-Tung, rompeu relações.

Se era um país pobre, a situação econômica ficou pior. Muitos abandonaram suas terras e fugiram para a Grécia, Itália e países vizinhos nos Balcãs. O regime de Hohxa fez da Albânia um dos países mais fechados do século XX. Mesmo assim, no meio dos comunistas brasileiros havia quem simpatizasse com esse peculiar regime. Tínhamos, além dos tradicionais comunistas, os militantes que preferiram a linha chinesa e alguns que abraçaram a albanesa.

Oprimidos por séculos de dominação e o isolacionismo no século passado, de certo modo, contribuíram para a manutenção de valores culturais locais.

Culturalmente, o nome mais conhecido é o de Ismail Kadaré, escritor sempre lembrado para ganhar o prêmio Nobel e autor de Abril Despedaçado (virou filme dirigido por Walter Moreira Salles). Pouco sabemos, no entanto, sobre a música da Albânia. Uma ponta que é o vislumbre do que é revela-se com Elina Duni.

Nasceu em Tirana em 1981 e, com 11 anos mudou, com a mãe, para a Suiça. Estudou canto e composição e formou um quarteto com o pianista suiço Colin Vallon, o baixista Bänz Oester e o baterista Norbert Pfammatter. Lançou o álbum Baresha em 2007 e logo ganhou reconhecimento. No primeiro disco, além de canções cantadas em albanês, gravou três músicas francesas conhecidas – La javanaise, Ces petits riens e Avec le temp – e Solitary Moon, Loch Ness e Spice Island em inglês.

Ouça Elina Duni cantando La javanaise, de Serge Gainsbourg.




Em Lume, Lume, pela mesma Meta Records, explorou um pouco mais a música tradicional de seu país, Romênia, Bulgária e Grécia. A exceção é River Man, do inglês Nick Drake, em emocionante interpretação.

Ouça River Man.


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Elina Duni canta Kaval Sviri, do folclore búlgaro. Esta é de Lume, Lume.




Tornou-se tão conhecida a ponto de chamar a atenção de Manfred Eicher. Agora, neste ano, estreou com Matame Malit (Beyond the Mountain), pela ECM. É a grande oportunidade para ampliar o número de ouvintes. Pouco antes, em 2011, Eicher produzira o primeio solo de Colin Vallon – Rruga –, em 2011. Sendo pianista de Elina, é possível que isso a tenha ajudado.

Capa de Matame Malit
Matame Malit tem uma linda capa, como é costumeiro na ECM, e a imagem com silhuetas de pessoas caminhando sugere um êxodo e lembra imagens de O Vale dos Lamentos (The Weeping Meadow), de Theo Angelopoulos. Apesar de o álbum não ter recebido boa crítica pela revista Downbeat – recebeu três estrelas –, pejorativamente comparada aos discos da malfadada gravadora Windham Hills, especizada em música “new age” e hoje extinta, é um disco bem interessante. A revista é especializada em jazz, apesar de acolher matérias e resenhas de música que não é do gênero. O que Duni faz é diferente de tudo o que estamos acostumados a ouvir.

Segundo Elina, o álbum vai além da música folclórica. Algumas são canções que foram proibidas de serem difundidas na Albânia. Erë Prnaverore (Spring Breeze) é uma delas. Mini Peza é outra. Conta o drama real de Mini: ela lamenta a prisão de seus filhos que lutavam contra a ocupaçao italiana, nos anos 1940.

É a que você ouve aqui.


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Decerto, Matame Malit não é um disco que faz o gosto mais comum, É cantado em uma língua estranha e são músicas de forte conteúdo regional. Mas, por que não conhecê-lo? O quarteto é de primeira. Vallon é um pianista brilhante, Patrice Moret (até o segundo era Bänz Oester) é um baixista muito bom e a bateria de Norbert Pfammatter é espetacular.

A música cantada por Elina é quase sempre melancólica. Quando perguntada se havia uma tristeza inerente no repertório de Matame Malit, respondeu: “É tristeza. Acho que é mais melancolia. Os Balcãs são um lugar onde a alegria é melancólica, e onde a melancolia pode ser alegre. Nos Balcãs temos um jeito de cantar nossos sofrimentos – é um tipo de terapia.”

A bela Elina canta U rrit vasha. É a décima primeira do CD mais recente. Preste atenção ao piano de Colin Vallon.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O talento em família de Anat, Avishai e Yuval Cohen

Da esquerda para a direita: Avishai, Anat e Yuval
Por um tempo muito breve trabalhei com um sujeito que se dizia publicitário – e não se chamava Mario –, arrogante. Achava-se o “bom” e era muito feio. Certo dia, perguntei de onde era. Respondeu: “Sou do mundo.” “Se achar” era a compensação para tamanha fealdade.

Cohen é um sobrenome comum. Entre judeus, talvez seja como Silva, no Brasil, ou Yokoyama, no Japão. Avishai é um nome comum. O público do jazz conheceu Avishai Cohen quando virou baixista do Origin, de Chick Corea. Tremendo baixista, em um época em que Jaco Pastorius havia se tornado uma espécie de ícone, gravou alguns discos pela Concord, criou selo próprio e seu Seven Seas, de 2011, saiu pela Blue Note.

Para confundir um pouco, surge na cena novaiorquina outro Avishai, e com o mesmo sobrenome, mas este toca trumpete. Ainda bem: imagine se fosse também baixista. Enquanto este tem barba e usa óculos, o baixista é louro. O Avishai mais novo tem os cabelos bem pretos. O primeiro nasceu em um kibutz, o segundo, em Tel Aviv.

O Avishai mais novo é um dos três irmãos que compõe o 3 Cohens. A irmã, a mais talentosa, toca sax tenor e é, simplesmente, a melhor clarinetista da atualidade. O último é Yuval e seu instrumento é o sax alto e o soprano. Gravaram três discos. O último se chama Tightrope, ou seja, “corda esticada”. Bom nome para o CD. Os três contam com participações de Fred Hersch ao piano, Christian McBride no baixo e Jonathan Blake na bateria. As faixas mais interessantes são as que contam apenas com a participação dos Cohens. Lembra vagamente aqueles discos antigos do World Saxophone Quartet (David Murray, Oliver Lake, Hamiet Bluiett e Julius Hemphill), mas aqui, no caso, são dois saxofones (ou uma clarineta e um sax) mais o trumpete.

Ouça um genial Squeeze Me, com participação de Christian McBride no baixo.



Ouça também o clássico Hot House, de Tadd Dameron.



Sobre Anat Cohen, leia “A ‘brasileira’ Anat Cohen”: http://bit.ly/1aNCrfu
e “Por que gosto tanto de Siboney”: http://bit.ly/1bKkV05