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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Sting na ótica de Tierney Sutton

Em um primeiro momento, você irá pensar que colocou o CD errado no player. Às primeiras notas, você pensará que colocou “Kind of Blue”. E é “The Sting Variations”, o álbum mais recente da Tierney Sutton Band.

Em 1988, Sutton estreou com “Introducing Tierney Sutton”. Em 2000, lançou o primeiro em uma gravadora de porte maior, a Telarc: “Unsung Heroes”. Esse mesmo ano foi o da estreia de Jane Monheit, com “Never Never Land”. Comprei os dois, o de Jane porque quem a acompanhava era Kenny Barron e sempre avalio cantores desconhecidos por quem é o pianista . No line up de “Unsung Heroes”, aparecia o nome de outro bom tecladista: Christian Jacob. As duas eram afinadas, boas cantoras, belas, mas como diria uma amiga baiana, “não tinham borogodó”. Nas suas perfeições faltava aquela pegada selvagem de uma Dianne Reeves, de uma Dee Dee Bridgewater, um pouco mais velhas que elas. Fiquei com uma ponta de decepção, mas nunca deixei de ouvir cada CD lançado por elas posteriormente.

Meu juízo em relação à Sutton foi mudando, não a ponto de fazê-la uma das minhas preferidas, mas perceber que é uma das boas intérpretes da atualidade. Prestando um pouco mais de atenção, percebi que seus álbuns não eram uma repetição do repertório Tin Pan Alley. Em cada um deles percebia-se um conceito mais ou menos definido, ora centrado em Bill Evans, em Frank Sinatra, mas não de maneira óbvia. Outra qualidade perceptível foi a de que na maioria dos novos lançamentos, passava a assinar The Tierney Sutton Band. Era uma evidência de que os músicos não eram meros acompanhantes. A participação de Christian Jacob é capital, tanto quanto a voz e a peculiar formação, com dois baixistas (Kevin Axt e Trey Henry), e a bateria de Ray Brinker.

Com “American Road”, assinando The Tierney Sutton Band, e “After Blue”, como Tierney Sutton simplesmente, a cantora tem conseguido boa recepção pela crítica. É uma cantora ciente da sua qualidade, demonstrando a maturidade que só o tempo traz. No primeiro explora standards de Gershwin (“Summertime”, “My Man’s Gone Now” e “It Ain’t Necessarily So”), clássicos populares como “Tenderly”, assim como canções emblemáticas do cancioneiro americano como “Amazing Grace”, “Wayfaring Stranger”, “Shenandoah” e “The Water Is Wide”. [sobre “America Road”, leia “Preciso rever os meus conceitos sobre Tierney Sutton”]

“After Blue”, o leitor mais arguto deve estar desconfiado: é um álbum com a música de Joni Mitchell. Do extraordinário “Blue”, Sutton canta a música título e “All I Want”. Apesar de não contar com sua banda de costume, os arranjos são excepcionais e originais, com a participação do Turtle Island Quartet, de Larry Goldings no Hammond B-3, Hubert Laws na flauta e Al Jarreau fazendo o duo em “Be Cool”. É um álbum tão bom quanto “River: The Joni Letters”. Recebeu 4 estrelas e meia. Próximo da perfeição.

Ouça “Woodstock”.




Veja Sutton a cantar “Don’t Go to Strangers”, no Blue Note de Milão.




Entre o pop e o jazz
Outro compositor e intérprete que fica no crossover entre a música popular e o jazz é Sting, um dos três da extinta banda pop/rock Police. Logo depois de desfeita, gravou álbuns com a presença de alguns jazzistas como Kenny Kirkland e Branford Marsalis. Mais tarde, suas ambições musicais chegaram à música erudita, tendo inclusive lançado discos pela Deutsche Grammophon. Pretensões maiores não querem dizer muita coisa em termos de qualidade superior.

As músicas mais populares de Sting, no entanto, continuam sendo as da época do Police. Composições posteriores não são melhores que “Every Breath You Take”, “Every Little Thing She Does Is Magic”, “Walking in Your Footsteps”, “Driven to Tears”,“Synchronicity I” e “Message in the Bottle”, incluídas em “The Sting Variations”, recém lançado álbum de Sutton. “If You Love Somebody Set Them Free”, “Consider Me Gone”, “Fortress Around Your Heart” e “Shadows in the Rain”são de “The Dream of the Blue Turtle”, primeiro solo do inglês.

A escolha da maioria das canções, sendo da época do Police e o álbum solo imediatamente posterior, traem o gosto de Sutton, condizente com o que acha boa parte dos fãs de Sting. De suas composições, a mais popular entre os cantores de jazz é “Fragile”. Caiu no gosto deles, não sei por que. As restantes são “Fields of Gold” e “Language of Birds”.

Ouça“Fragile”. Aqui a banda faz um medley com “Gentle Rain”, um dos maiores clássicos da música brasileira, de autoria de Luiz Bonfá. Essa faixa é um dos destaques do álbum.




Ouça “Fields of Gold”.




Ouça “Synchronicity I”.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A peça que o destino aplicou em Eva Cassidy

Quando, finalmente, o mundo poderia saber quem era Eva Cassidy, o destino pregou-lhe um peça. Foi ao médico por causa de uma dor persistente no quadril. Constataram um melanoma nas costas. Isso foi nos primeiros meses de 1996. Morreu em novembro.

Conhecida apenas localmente, na região de Washington D.C. tocando em bares e clubes, juntou um dinheiro para a gravação de duas apresentações programadas para os primeiros dias de janeiro de 1996. Bill Straw, dono da Blix Street Records, lançou Live at Blues Alley, com treze canções pinçadas dos shows. Das escolhidas, incluíam-se standards do jazz como Cheek to Cheek, Stormy Monday, Fine and Mellow, Blue Skies, Autumn Leaves, Honeysuckle Rose e What a Wonderful World; além delas, números do cancioneiro popular como Bridge Over Troubled Water, de Paul Simon, Take Me to the River, de Al Green, Fields of Gold, de Sting, e People Get Ready, de Curtis Mayfield. Em princípio, considere-se que era uma salada mista. De fato. Era a demonstração do ecletismo de Eva. Não era jazz, pop, rhythm’n’blues, blues, gospel, country ou rock; era uma fusão de gêneros muito bem engendrada por ela e uma banda, apresentando uma síntese da música americana. Não importa que Sting seja inglês ou Joseph Kozma, franco-húngaro. Vai no bojo dos argumentos.

Quase 30 anos depois da sua morte, a mesma Blix Street Records lança um álbum duplo com 33 músicas, 20 a mais que o original de 1996 do memorável show no Blues Alley. Algumas das canções tinham sido lançadas em coletâneas organizadas depois de seu falecimento, mas vale pelo conjunto do que foi tocado no clube.

Das 30 a mais, destacam-se temas conhecidos nas vozes de Aretha Franklin (Chain of Fools), Son of a Preacher Man (Dusty Springfield), Fever (Peggy Lee), Time After Time (Cindy Lauper), e Late in the Evening (Paul Simon), dentre outros.

Sting, quando ouviu sua composição Fields of Gold, emocionou-se. É provavelmente o que acontece com qualquer um ao ouvir Eva pela primeira vez. Não a conhecia até um amigo, o Alberico Clento, dizer que havia ganhado de presente de uma prima que viera um disco seu. Ao ouví-la, depois disso, fiquei interessado em conhecê-la melhor. Cassidy canta com muita propriedade qualquer gênero. Suas interpretações são naturais, como se tivessem sido compostas especialmente para ela. O lançamento do álbum Nighbird é um acontecimento. Se estivesse viva, estaria desfrutando do sucesso merecido. Eva morreu aos 33. Muito cedo para morrer.

Ouça algumas interpretações de Nightbird. 

Fields of Gold, que emocionou seu autor.



Outro clássico moderno: Ain’t No Sunshine, de Bill Withers.



Versão mortal de Take Me to the River, de Al Green.



Existem alguns vídeos de Eva no YouTube da apresentação no Blues Alley. Aliás, Nightbird vem com dois CDs e um DVD. Veja-a cantando Autumn Leaves.



Nightbird, que dá título ao disco.



Time After Time.



A fenomenal People Get Ready, de Curtis Mayfield.




terça-feira, 7 de agosto de 2012

Os melhores discos segundo a revista Downbeat (parte 2)

Estou repetindo a lista dos dez melhores do ano, pela revista Downbeat, para poder falar alguma coisa acerca dos que eu conheço.

1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33

O álbum que foi considerado o quarto melhor do ano é de Gregory Porter. Be Good é o seu segundo disco. É a revelação como cantor; foi o segundo classificado, atrás de Kurt Elling. Este é hors-concours: leva todas há muito tempo, com justiça (sobre ele e seu pianista Laurence Hobgood, leia http://bit.ly/MXCcHL). Porter é, se me faço entender, sem ironias, um Kevin Mahogany menos vitaminado. Há uma característica bem específica em relação aos cantores negros que os diferencia: o registro da voz, e como no caso de Mahogany, tende a uma forma de interpretar mais conectada ao blues e até ao rhythm’ blues. É um grande cantor. Comentarei, com maiores detalhes sobre Porter em outra ocasião, pois ele merece. Por enquanto, ouça Painted on Canvas.



Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


O álbum Live in Marciac é mais um solo de Brad Mehldau. Para os que não possuem nenhum disco do pianista, é uma boa. É um combo com dois CDs e um DVD. Por conta de uma “overdose” de Mehldau durante todos esses anos, confesso, não ouvi com a atenção que ele merece. Mehldau, para mim, é como aquela velha Levi’s 501 que está guardada no armário. Sabemos que é um porto seguro, mas a deixamos guardada à procura de novidades.

Um comentário: o saudoso Carlos Conde não gostava de piano solo; gostava mesmo era do tradicional formato trio piano, baixo e bateria. Perguntei se tinha gostado de Live in Tokyo (Nonesuch), na ocasião de seu lançamento em 2004. Perguntei porque Brad tinha se tornado um dos meus pianistas preferidos. Respondeu: “O disco é muito triste. Coitado, esse rapaz deve ter algum problema.” Pensando bem, sua observação tinha alguma lógica. Em um longo texto em Elegiac Cycle (WB, 1999), Brad desvela seu amor pelo romantismo germânico; não é à toa que sua editora se chama Werther Music.

Na repetição de seu costumeiro repertório percebem-se as mudanças no desenvolvimento dos temas, desconstruindo-os cada vez mais. Parece mais uma viagem particular de Brad e, por isso, é um tanto difícil ocorrer uma maior empatia. Em Live in Marciac, a seleção é bem eclética, como é de seu feitio. São seis temas próprios e quatro standards (It’s All Right with Me, Lilac Wine, My Favorite Things e Dat Dere). Brad é responsável pela inclusão de certas canções contemporâneas do repertório popular. Algumas estão nesse disco: Lithium (Kurt Cobain), Exit Music (for a Film) (Radiohead), Martha My Dear (Lennon & McCartney), e Things Behind the Sun (Nick Drake). O destaque do disco é Dat Dere, de Bobby Timmons. Ouça.



Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Se você quiser tiver interesse, leia mais alguma coisa sobre Brad Mehldau em: http://bit.ly/MxnvIK e http://bit.ly/GD0MZ8.

O terceiro disco comentado é Snakeoil (ECM, 2012), de Tim Berne. É mais avant garde do que os outros dois. O início de Simple City – a primeira faixa – lembra um pouco o clássico Nefertiti The Beautiful Has Come, de Cecil Taylor, gravação de uma apresentação de novembro de 1962 no Café Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca, pelas primeiras notas de piano e a posterior entrada do sax alto de Berne. Em Nefertiti, o sax alto era de Jimmy Lyons, e a bateria, de Sunny Murray. É um disco bem interessante. Tocam com Tim, Oscar Noriega (clarinetas), Matt Mitchell (piano) e Chess Smith (bateria e percussão). O som é sempre tenso, dramático, às vezes, impressionista, climático, enfim, é um bom disco. Merece estar entre os dez melhores. A banda é afinadíssima. Um destaque é Noriega na clarineta e clarineta baixo.

Ouça Scanners. Decerto não é o gênero que cai melhor no gosto da maioria, mas para quem gosta é um prato cheio.




Do décimo primeiro ao trigésimo

A Dowbeat, desta vez (não me recordo se em 2011 foi assim, também), classificou até o trigésimo. Estão incluídos, For True (Trombone Shorty), Samdhi (Rudresh Mahanthappa), Charlie Haden e Hank Jones (Come Sunday), Matthew Shipp (The Art of the Improviser), Charles Lloyd (Athens Concert), Branford Marsalis e Joey Calderazzo (Songs of Mirth and Melancholy), Chick Corea, Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations), 3 Cohens (Family), Christian McBride (Conversations with Christian McBride) e Tierney Sutton Band (American Road). Cito apenas os que ouvi, nem todos com a atenção devida.

Trombone Shorty tem pouco mais de 25 anos e já é considerado um dos melhores trombonistas (toca trumpete também) pela crítica. For True conta com participações de Jeff Beck e Lenny Kravitz. O som de Shorty é um jazz mesclado por tinturas de rap e funk e, naturalmente, com o som de New Orleans, sua cidade natal. É vibrante, jovem e esfuziante.

Veja Shorty em Buckjump, a primeira faixa de For True.



Nem tão vibrante é Songs of Mirth and Melancholy. Bem, canções de alegria e melancolia. Esta última palavra não é antônimo de alegria. Ao contrário do disco de Trombone Shorty, este não é para sair pulando pela sala. O álbum de Branford Marsalis com o pianista Joey Calderazzo, com exceção de One Way e Bri’s Dance (a primeira e a última), tende mesmo à melancolia. Branford Marsalis tinha gravado antes em duo com piano, Loved Ones (Columbia 1995), com seu pai Ellis, belíssimo. Songs of Mirth and Melancholy é quase tão bom quanto.

Ouça Hope, uma das melhores do CD.



Está ficando longo. Serei mais curto. Dois dos citados já foram objetos nesse blogue: Come Sunday, de Hank Jones e Charlie Haden (leia em http://bit.ly/OlS6MC), e Athens Concert, de Charles Lloyd e Maria Farantouri (leia em http://bit.ly/MxItap).

Samdhi, de Rudresh Mahanthappa, ficou em 13º lugar. Poderia estar entre os dez melhores. Foi o melhor saxofonista alto neste ano, pela Downbeat. Já tinha me impressionado quando se apresentou com Vijay Iyer em São Paulo, no Bridgestone Music Festival de 2008. O line up De Rudresh é excepcional, com o guitarrista David Gilmore (por favor, não confunda com David Gilmour, do Pink Floyd), Rich Brown no baixo elétrico, Damion Reid na bateria, e "Anand" Anantha Krishnan tocando mirdangam e kanjira.  

Ouça Killer, do álbum Samdhi.




American Road, de Tierney Sutton Band, 26º, merecia melhor colocação. É uma das boas cantoras da atualidade e tem o pianista Christian Jacob como ótimo parceiro.

Conversations with Christian McBride ficou em 25º. É o melhor disparado em seu instrumento – contrabaixo – e arrasa também no baixo elétrico. É um álbum de duos com astros do pop como Angelique Kidjo e Sting, sendo a maioria intérpretes do jazz como Dee Dee Bridgewater, Hank Jones, Russell Malone, Dr. Billy Taylor, Roy Hargrove e Ron Blake. Bom disco.

Veja e ouça Sting e Christian McBride em Consider Me Gone, composição do britânico.