José James e seu visual para homenagear Bill Withers
Boa parte da nova geração de vocalistas considerados do universo do jazz, estão bem longe do mainstream como, digamos, Tony Bennett.
Gerações mais novas, mesmo gostando de jazz, cresceram ouvindo outros gêneros musicais. São exemplos, Gregory Porter, José James, Leslie Odom, Jr., Jamison Ross, Dwight Trible e o alemão Theo Bleckman, esses dois últimos, nem tão jovens. Podem até cantar “Summertime”, “They Can’t Take That Away from Me” ou “I Love Paris”, mas não são o prinicipal de seus repertórios.
O mais conhecido e considerado o melhor é Gregory Porter. Tem uma bela voz de barítono, registro que não é comum. São poucos: Billy Eckstine, Johnny Hartman, e, dentre os não tão antigos, Andy Bey e Kevin Mahogany, morto há pouco mais de um ano. No álbum mais recente, Porter homenageia seu ídolo, em “Nat King Cole & Me”.
O que ajuda na popularidade de Porter é lançar por um grande selo. Tradicional e responsável por um respeitável portfólio de grandes discos de jazz, o Blue Note, atendendo às mudanças do público, tem contratado intérpretes que em outros tempos não se encaixariam no seu perfil. Outro destaque da mesma gravadora é José James. Como Porter, lançou álbuns com repertório mais tradicional, como “For All We Know” (Impulse, 2010), com o pianista Jef Nieve, e mais recentemente, o fenomenal “Yesterday I Had the Blues” (Blue Note, 2015), tributo à Billie Holiday. Sua preferência, entretanto, é por um som cujas linhas musicais estão mais associadas ao pop, r&b e ao hip-hop.
James é outro cantor de voz grave, um pouco diferente da de Porter, um “whiskey-sour baritone”, segundo John Murph, da revista Downbeat. Coincidentemente, seu disco mais recente é um tributo, mas de alguém da seara r&b, Bill Withers, autor do clássico “Ain’t No Sunshine”
Veja JJ interpretando “Ain’t No Sunshine’, em apresentação em Paris.
Em “Lean on Me”, abre justamente com essa canção. Não é o único hit do compositor. Tem muitos outros, que estão presentes no álbum: a música título,“Kissing My Love”, “Just the Two of Us”, “Hope She’ll Be Happier” e “Better Off Dead”, as minhas preferidas.
Na postagem anterior, listei os principais lançamentos pela ECM. Não é a única a nos brindar com bons discos.
Muita coisa mudou na estrutura e grandes selos importantes do jazz como o Verve, criado por Norman Granz, e abrigou estrelas como Ella Fitzgerald e Oscar Peterson, não existem mais, pelo menos, nos modelos em que os conhecemos. Se não me engano, agora, pertence ao Universal Music Group, e controla também selos da música erudita, como a Deutsche Grammophon, Decca Classics, Mercury Classics; e é responsável pela distribuição mundial do catálogo da ECM.
Um dos chefões da Verve é David Foster, um produtor que mira mais as vendas do que a qualidade. E não vemos mais álbuns de jazz com o antigo logotipo Verve. Sua estrela é Diana Krall e parece ser a única do casting. Estranho, muito estranho.
Como “filhos” da Verve, destacam-se o Impulse, que abriga Madeleine Peyroux, Sarah McKenzie, John Scofield, Indra Rios-Moore, e o tradicional Blue Note, cada vez menos voltado ao jazz.
Fora da Universal, temos a alemã ACT Music, que comemora 25 anos, e possui um dos melhores catálogos da atualidade. O Concord Group, que cresceu muito, abarca uma série de selos, como a Telarc, Heads Up, Stax e o Concord Jazz.
Vamos aos destaques.
A imagem de José James no novo álbum
Blue Note
• Gregory Porter: “Take Me to the Alley”
• José James: “Love in a Time of Madness”
• Kandace Springs: “Soul Eyes”
• Nels Cline: “Lovers”
• Norah Jones: “Day Breaks”
• Robert Glasper Experiment: “Artscience”
• Terence Blanchard: “The Comedian Soundtrack”
• Trombone Shorty: “Park Lot Symphony”
O selo tem os dois cantores mais apreciados da atualidade. Gregory Porter desbancou o longo reinado de Kurt Elling como o melhor cantor de jazz. Como outro destaque do selo, José James, o rótulo “jazz” é pequeno para o que desenvolvem. É uma fusão do jazz, com fortes influências do soul, rhythm’n’blues, gospel, além da incorporação da eletrônica, mais no caso de James. São duas vozes poderosas e dois talentos criativos. Norah é Norah. “Day Breaks” é um álbum muito agradável. Robert Glasper começou “pianinho”. Impressionou a crítica. O mesmo foi com Trombone Shorty. Começaram com gravações “mais jazz”, para capturar a crítica, como Esperanza Spalding, e partiram para projetos mais pessoais e não possuem alguma relação com o que reconhecemos como jazz. Não é uma crítica; é uma constatação.
Kandace Springs é mais conservadora, comparando-se com os citados. Terence Blanchard, que surgiu na época de Wynton Marsalis, também. Nels Cline faz o percurso inverso: guitarrista da banda alternativa Wilco, o veterano tem feito bons discos instrumentais, seja como líder ou em parceria com guitarristas como o “newcomer” Julian Lage.
Ouça “Closer”, de José James.
Gregory Porter é a voz do momento, com James. Ouça “Take Me to the Alley”.
Ouça “The Bond”, de Nels Cline.
ACT Music
• Eric Schaefer: “Kyoto Mon Amour”
• Iiro Rantala, Lars Danielsson, Peter Erskine: “How Long Is Now?”
• Jan Lundgren: “Postdamer Platz”
• Julian & Roman Wasserfuhr: “Landed in Brooklyn”
• Lars Danielsson: “Liberetto III”
• Natalia Mateo: “De Profundis”
• Richie Beirach & Gregor Huebner: “Live at Birdland New York”
• Ulf & Eric Wakenius: “Father and Son”
• Victoria Tolstoy: “Meet Me at the Movies”
• Emile Parisien, Vincent Peirani, Andreas Schaerer, Michael Wollny: “Out of Land”
• Youn Sun Nah: “She Moves on”
A alemã ACT Music, fundada por Siegfried Loch, acaba de completar 25 anos de vida, e é uma das melhores gravadoras da atualidade. Foi nela que o genial pianista Vijay Iyer se consagrou como um dos novos nomes do jazz – grava atualmente na concorrente ECM – e foi responsável por tornar conhecido o trio e.s.t., de Esbjörn Svensson, tragicamente falecido fazendo mergulho. Com um elenco de bons músicos alemães, escandinavos e outros da Europa Oriental, a ACT vem sendo uma garantia de boa música.
Dentre as cantoras, a coreana Youn Sun Nah é a de maior prestígio internacional. Conta também com Victoria Tolstoy, que tem entre seus maiores atributos a beleza e o parentesco com o escritor russo Liev Tolstói. Natalia Mateo é uma das boas revelações. Diferente, é muito interessante.
Infelizmente, as canções do CD mais recente foram bloqueadas no YouTube. Mas como Mateo é uma intérprete que merece ser conhecida, ouça “Strange Fruit”, do penúltimo.
Não tive tempo de escutar todos os lançados pela ACT, mas dos que ouvi, “Father & Son”, de Ulf Wakenius, com seu filho Eric, é muito bom. Ouça o brilhante duo de violões, em “Birdland”, de Joe Zawinul.
Outras gravadoras
• Aki Takase & David Murray: “Cherry - Sakura” (Intakt)
• Akua Dixon: “Akua’s Dance” (self released)
• Andrea Motis: “Emotional Dance” (Impulse)
• Beata Pater: “Fire Dance” (B&B Records)
• Becca Stevens: “Regina” (GroundUP)
• Benny Green: “Happiness!” (Sunnyside)
• Betty Buckley: “Story Songs” (Palmetto)
• Billy Childs: “Reborn” (Mack Avenue)
• Bobby Watson: “Made in America” (Smoke Sessions)
• Cameron Graves: “Planetary Prince” (Mack Avenue)
• Chano Dominguez: “Over the Rainbow” (Sunnyside)
• Chick Corea: “The Musician” - 3 CDs + 1 DVD (Concord)
• Chris Thile & Brad Mehldau: “Chris Thile & Brad Mehldau” (Nonesuch)
• Christian Scott aTunde Adjuah: “Ruler Rebel” (Ropeadope)
• Christian Sands: “Reach” (Mack Avenue)
• Cuong Vu 4-tet: “Ballet | The Music of Michael Gibbs” (Rarenoise)
• Daniel Herskedal: “The Roc” (Edition Records)
• David Binney: “The Time Verses” (Criss Cross)
• David Gilmore: “Transitions” (Criss Cross)
• Dayna Stephens: “Gratitude” (Contagious)
• Diana Krall: “Turn Up the Quiet” (Verve)
• Dwiki Dharmawan: “Pasar Klewer” (Moonjune)
• Eliane Elias: “Dance of Time” (Concord)
• Enrico Pieranunzi: “New Spring | Live at The Village Vanguard” (Cam Jazz)
• Eric Alexander: Second Impression” (HighNote)
• Ethan Iverson: The Purity of the Turf” (CrissCross)
• Giacomo Gates: “What Time Is It?” (Savant)
• Jazzmeia Horn: “A Social Call” (Prestige)
• Jeremy Pelt: “Make Noise” (HighNote)
• Joey DeFrancesco: “Project Freedom” (Mack Avenue)
• Julian Lage & Chris Eldridge: “Mount Royal” (Free Dirt Records)
• Julian Lage: “Live in Los Angeles” (Mack Avenue)
• Kendra Shank & Geoffrey Keezer: “Half Moon | Live in New York”
• Kevin Eubanks: “East West Time Line” (Mack Avenue)
• Kurt Elling: “Sings Christmas | The Beautiful Day” (Okeh)
• Kurt Rosenwinkel: “Caipi” (Heartcore)
• Linda May Han Oh: “Walk Against Wind” (Biophilia)
• Madeleine Peyroux: “Secular Hymns” (Impulse)
• Matthew Stevens: “Preverbal” (Rodeadope 339)
• Miles Okazaki: “Trikster” (Salis Sea)
• Miroslav Vitous: “Ziljabu Nights” (Intuition)
• Noah Preminger: “Meditations on Freedom” (self released)
• Olivier Le Goas: “Reciprocity” (Neuklang)
• Omar Sosa & Seckou Keita: “Transparent Water” (Otá)
• Regina Carter: Ella: “Accentuate the Positive” (Okeh)
• Richard Galliano: “New Jazz Musette” (Ponderosa Music & Art)
• Roberto Fonseca: “ABUC” (Impulse!)
• Steve Nelson: Brothers Under the Sun” (HighNote)
• The Jazz at The Lincoln Center Orchestra: “The Music of John Lewis” (Blue Engine)
• Tigran Hamasyan: “An Ancient Observer” (Nonesuch)
• Tom Harrell: “Someting Gold, Something Blue” (HighNote)
• Troy Roberts: “Tales & Tones” (Inner Circle)
• Yelena Eckemoff: “Blooming Tall Phlox” (L&H)
• Yilian Cañizares: “Incocación” (Naïve)
• Yotam Silverstein: “The Village” (Jazz & People)
O tão esperado novo disco de Diana Krall é mais ou menos como o “tão esperado novo disco” de Marisa Monte. É mais ou menos o mais do mesmo. Não que isso signifique um trabalho ruim. “Turn Up the Quiet” é um bom disco, como qualquer outro dela. Diana chegou naquele ponto em que não faria coisa ruim, nem que quisesse. Esse álbum é resultado da competência adquirida pela experiência e talento natural. Ninguém vai dar cinco estrelas, porque não é superior aos seus melhores trabalhos. É mais jazz que os dois anteriores. O repertório de “Wallflower” era calcado em sucessos pops, como “Desperado”, dos Eagles, e “Sorry Seems to Be the Hardest Word”, de Elton John e Bennie Maupin. As canções de “Glad Rag Doll” são mais antigas; são temas que conheceu por meio das preferências de seu pai.
No setor de vozes, a boa novidade é a espanhola Andrea Motis. Com apenas 21 anos, Andrea transmite uma segurança não muito frequente para uma garota dessa idade. Lançou-se cedo na música, com 14 anos, participando da banda de Joan Chamorro, músico que tem revelado bons talentos em Barcelona. Motis tem futuro. É bela, é afinada e além de cantar, toca trompete, o que lhe dá um charme especial. “Emotional Dance” é seu primeiro álbum por uma gravadora maior.
O melhor dos álbuns vocais citados é o despojado “Secular Hymns”, de Madeleine Peyroux. Muito bom mesmo.
Veja Andrea Motis a cantar “He’s Funny that Way”.
Ouça “Tango till They’re Sore”, com Madeleine Peyroux.
Dessa avalanche de lançamentos, impossível ouvir todos para se fazer algum juízo. Dos aqui listados, gostei muito de “Sakura”, duo com Aki Takase e David Murray. Os dois são identificados como avant garde, mas perfeitamente palatáveis. Acompanho Murray desde “Low Class Conspiracy” (1976). Sou fã até hoje. “Sakura” é um dos meus preferidos do ano. Outros muito bons – vou pela ordem alfabética:
— “Akua’s Dance”, da excelente violoncelista Akua Dixon;
— “Happiness”, de Benny Green, excelente pianista;
— “Story Songs”, da cantora e atriz de musicais, como “Cats”, álbum duplo com temas de várias épocas, mas com temas mais contemporâneos, como os de Peter Gabriel, Sting, Leonard Cohen e Joni Mitchell;
— Tudo o que Billy Childs faz é bom. Inexplicável que não seja mais conhecido, tanto como compositor como tecladista e arranjador. “Reborn” é excepcional;
— O álbum de Chris Thile em duo com Brad Mehldau é bem interessante. Bandolinista e cantor, trafega à vontade no erudito, jazz e no folk. Lançou recentemente um CD com Yo-Yo Ma e Edgar Meyer, dedicado ao repertório de Johann Sebastian Bach;
— Christian Scott, que agora, assina Christian Scott aTunde Adjuah, tem novo CD na praça. “Ruler Rebel” não está entre seus melhores. Já seu xará, Christian Sands, manda bem com “Reach”, em sua estréia pelo Mack Avenue;
— Cuong Vu tinha impressionado em “Cuong Vu Meets Pat Metheny”. O vietnamita faz parte da banda de Pat e agora lança o belo “Ballet | The Music of Michael Gibbs”;
— “New Spring”, ao vivo no Village Vanguard, é mais um disco de Enrico Pieranunzi acompanhado de Scott Colley e Clarence Penn, nesses registros, com o saxofonista Donny McCaslin. O italiano é outro que nos álbuns recentes mantêm a qualidade em cima, como Eric Alexander, com “Second Impression”. É atualmente uma das vozes mais vigorosas do saxofone tenor. Ethan Iverson, pianista de The Bad Plus, em “The Purity of the Turf”, conta com outros companheiros: Ron Carter e Nasheet Waits. Ambos são garantia de boa música;
— Além de Diana Krall, na lista das vozes, temos Giacomo Gates, Jazzmeia Horn, Kurt Elling, Kendra Shank e Becca Stevens. De todos – Elling, Gates e Kendra Shank são veteranos –, a grande novidade é Jazzmeia Horn. Vencedora do Thelonious Monk International Jazz Vocal Competition de 2015, foi contratada pelo grupo Concord, por meio do selo Prestige (é um dos labels mais tradicionais do jazz e, vejam como essas mudanças são estranhas). Tem cancha e é craque nos scats e outros “truques” do jazz, o que pode levar a juízos equivocados, mas é boa, e se for bem assessorada, pode se transformar em uma das melhores cantoras.
Não é à toa que o álbum de estreia se chame “A Social Call”. Revela influências de Betty Carter. Ouça sua interpretação desse jazz standard.
Veja Kendra Shank, com Geoffrey Keezer.
Veja Aki Takase e David Murray, em “Bright Mississippi”, de Thelonious Monk.
Bem entendido: os melhores da revista Downbeat são escolhidos por críticos de vários países e correspondem ao que acontece e é lançado de março, mais ou menos, presumo, até o março seguinte. Assim, alguns álbuns recentíssimos entram na lista com outros que saíram no ano passado.
A opinião da crítica nem sempre corresponde com a dos leitores. Imagina-se que os primeiros são mais “cultos” que a segunda turma. Estou neste grupo, portanto, menos informado, mas curioso. No texto de hoje, listo apenas os que foram considerados os 10 melhores álbuns do ano e alguns comentários..
Aos 10:
1. Rudresh Mahantappa, Bird Calls (ACT)
2. Steve Lehman Octet, Mis en abîme (PI)
3. Jason Moran, All Rise: A Joyful Elegy for Fats Waller (Blue Note)
4. Wadada Leo Smith, The Great Lakes Suites (TUM)
5. Chick Corea Trio, Trilogy (Stretch/Concord)
6. Kenny Barron/Dave Holland, The Art of Conversation (Impulse)
7. Vijay Iyer, Break Stuff (ECM)
8. José James, Yesterday I Had the Blues: The Music of Billie Holiday (Blue Note)
9. Brian Blade & The Fellowship Band, Landmarks (Blue Note)
10. Fred Hersch Trio, Floating (Palmetto)
A curiosidade – ou coincidência – é que Rudresh Mahantappa e Steve Lehman tocam saxofone alto. A música deles é sem concessões. Não é tão avant garde quanto Cecil Taylor, mas não é o tipo de som que vai agradar alguém que não está tão acostumado a ouvir música instrumental de improviso. O mesmo ocorre com as últimas incursões de Wadada Leo Smith. Com uma produção intensa, o trompetista anda compondo temas longos que podem ser consideradas “suites”. Esta última é até menos ambiciosa do que The Freedom Summers, composta de quatro CDs.
Ouça Lake Superior, de Leo Smith.
Ouça Segregated and Sequential, do octeto de Lehman.O vibrafone de Chris Dingman e alto de Steve nos lembra Eric Dolphy. A formação da banda, no entanto é diferente e conta com mais membros.
Entre os três, em terceiro na votação, está Jason Moran, considerado um músico também associado ao que designam genericamente como post-bop. Excelente compositor, não privilegia tanto composições próprias como os outros. É considerado um dos melhores pianistas da atualidade. Foi considerado “artista do ano” em 2011, e Ten foi eleito o melhor lançamento. Este All Rise é um tributo, e um complemento a um projeto em que está envolvido, ao grande Fats Waller. Como se percebe pelo título, Moran privilegia a alegria. Assim, a música é mais “fácil”. Não toca apenas o piano. Em várias faixas pilota um Fender Rhodes e também conta com vários cantores. E, para confirmar que o mundo é pequeno, Lehman é o saxofonista alto em All Rise.
Veja um pequeno trecho, em Montreal, relacionado ao Jason Moran's Fats Waller Dance Party.
O quinto lugar, para a nossa felicidade, ou seja, a de nós, menos “eruditos”, foi concedido a Trilogy, de Chick Corea. Com tanta coisa sendo lançada nos últimos anos deste pianista, ainda não ouvi este álbum. Aliás é o único que não conheço dos dez. Mesmo assim, acho que deve ser bom. Pelo que leio agora, toca com Christian McBride e Brian Blade, o que já é uma recomendação.
É deste baterista o álbum que ficou em nono lugar. A primeira vez em que me chamou a atenção foi em um show em DVD de Joni Mitchell. Fiquei fascinado com a sutileza do seu modo de tocar um instrumento em que, normalmente, privilegiam a força bruta e o barulho. Quando conheci seu primeiro solo – Brian Blade Fellowship (Blue Note, 1998) – fiquei mais impressionado ainda. A sua música é sofisticada e densa, rica em matizes sonoros. Um dos responsáveis por esse colorido é o pianista Jon Cowherd, muito bom. Blade nunca excede no volume. Deve ser a bateria mais tonal do planeta.
Ouça Friends Call Her Dot, de Landmarks.
Vijay Iyer é o pianista da vez. É o “artista do ano” de 2015 pela Downbeat. Merecido. Grande músico, é um dos xodós da crítica. Tem grandes discos no currículo: Raw Material, duo com Rudresh Manhatappa, Historicity (ACT, 2009), Solo (ACT, 2010), Accelerando (ACT, 2012), considerado por muitos críticos o melhor naquele ano, e os mais recentes Mutations, o primeiro na ECM, e Break Stuff, o mais recente, que ficou em sétimo.
Assista ao vídeo promocional da ECM.
Kenny Barron é um dos melhores pianistas atuais. Sem o protagonismo de Keith Jarrett e nem tão associado à avant garde como Jason Moran e Vijay Iyer, inscreve-se na história dentro da tradição que nos legou Hank Jones, Wynton Kelly, Ray Bryant e Hank Jones. O que não o torna tão incensado é o fato de preferir executar composições próprias e menos batidos standards.
Mesmo daqui a 50 anos, Dave Holland vai estar entre os dez grandes baixistas da história. É também grande compositor. Inglês, portanto, um pouco fora do circuito principal, tocou com Miles Davis, na mesma época de outro conterrâneo: John McLaughlin. Fora da banda elétrica de Miles, construiu sólida carreira com ótimos álbuns pela gravadora ECM.
Pois Barron e Holland se juntaram para fazer um dos grandes discos do ano: The Art of Conversation. Os dois juntam talento, elegância e beleza. A harmonia entre eles é algo especial. Na minha lista, estaria entre os três melhores do ano.
Veja uma apresentação deles no La Villette.
O álbum que ficou em oitavo, ficaria facilmente dentre os meus três melhores. José James é o melhor cantor da atualidade. Mais uma vez, a crítica não acha o mesmo. O primeiro foi, de novo, Gregory Porter (sobre ele, leia http://bit.ly/UjCi2R). Yesterday I Had the Blues é o melhor álbum lançado em homenagem aos 50 da morte de Lady Day. Sobre ele leia: http://bit.ly/1NHLW4i, http://bit.ly/1DkXQRS e http://bit.ly/1Are1GR.
Quer a prova? Ouça Body and Soul com ele.
Ouça Strange Fruit. Genial.
Ouça também Tenderly.
Bom, não posso deixar de falar do décimo. Fred Hersch é um sobrevivente. Literalmente. Portador do vírus HIV, em 2008, ficou dois meses em coma, e sobreviveu. Mesmo acometido pela doença, nunca parou de tocar. É um tanto impressionante ver aquela criatura frágil aproximar-se do piano. Fui espectador por uma vez. Mas quando senta-se e toca as primeiras notas, agiganta-se. É um dos bons acompanhantes de cantores da atualidade; e é craques no formato trio. A enfermidade é um detalhe na sua vida. Gravou quase uma centena de discos. Floating, que ficou em 10º, é o mais recente.
Nenhum reinado é para sempre. O de Cassandra Wilson termina com a rápida ascensão de Cécile McLorin Salvant, o que não quer dizer nada. Amanhã Salvant pode ser “destronada” por outra, e assim por diante. Difícil mesmo é manter-se o tempo em que foi considerada como a melhor vocalista feminina. Sua voz é a mais espetacular dos últimos 30 anos. Difícil alguém como Cassandra. A Cassandra mitológica ouvia as vozes dos deuses. A Cassandra cantora nos lembra nos lembra da possibilidade de Deus existir.
A voz de contralto, tépida, sem arroubos e gritos, é única. Além de original, consolidou um estilo único, inimitável. Se começou interpretando standards como a maioria, enveredou-se em composições próprias e alheias do cancioneiro popular com The Weight (Robbie Robertson/The Band), Love Is Blindness (U2), Harvest Moon (Neil Young), Black Crow (Joni Mitchell) e tantas outras, explorando até o repertório country. O que a caracteriza não é apenas isso. Mesmo cantando standards como You Don’t Know What Love Is, é especial, muito em razão dos arranjos que sempre fogem do lugar comum.
Não poderia ser diferente, mesmo quando homenageia Billie Holiday. Mas alguma coisa ficou pelo caminho. Sim, aquele jeito soporífero de cantar de Wilson que, em vez de ser um defeito, é uma característica que a diferencia, se mantém, mas algo se perdeu. É uma hipótese que pode se originar de um certo cansaço por parte de seus ouvintes. Podemos enjoar até das melhores coisas. E, nesse cansaço, procuramos uma novidade. E, nesse momento, Cécile McLorin Salvant, com seu estilo jovial, pode se transformar em um novo alento ou uma variação.
A magia do som de Wilson estava em fundir o velho e o novo. A partir de Blue Light ’til Dawn (Blue Note, 1993) acontece uma transformação. Sua voz, entre o frio e o tépido, se junta a uma concepção sonora totalmente original. São paisagens sonoras, singulares, com arranjos econômicos em que se privilegia instrumentos de cordas pouco comuns como os banjos, resophonic guitars (são violões feitos com metal e madeira, e assim o som fica mais forte do que o do violão comum), muito usadas no bluegrass, pedal steel guitars, slide guitars, bazouki (uma espécie de bandolim com oito cordas, de origem grega) e mandocello (parece um bandolim, de origem italiana), utilizando mais percussões que a bateria.
Uma razão possível de que Cassandra tenha deixado de ser considerada a melhor vocalsta feminina é a de que seus dois últimos discos sejam relativamente fracos em comparação aos anteriores, também. Neste Coming Forth by Day, agora lançado, coicidindo com a efeméride dos 100 anos de nascimento de Lady Day, redime-se razoavelmete dos dois últimos “equívocos”, mas fica longe de álbuns como Blue Light ’till Dawn (Blue Note, 1993) e New Moon Daughter (Blue Note, 1995) em que, aliás tem uma das canções emblemáticas de Billie – Strange Fruit – repetida no mais recente disco.
Compare as duas. Ouça a de New Moon Daughter. Aqui, conta com Chris Whitley na resophonic guitar, Lonnie Plaxico no contrabaixo acústico, e Graham Haynes no cornet.
Ouça a do mais recente álbum.
A homenagem a Eleonora Fagan
A faixa que abre o tributo é Don’t Explain. Para quem quiser saber da “inspiração” da música, leia em http://bit.ly/1EWl1ms. Ouça. Aqui, a instrumentação lembra bem antigos arranjos, econômico e minimalista.
Outra indissociável à figura de Lady Day é Good Morning Heartache. O arranjo é um tanto grandiloquente. Não combina com Wilson. Nick Launay, produtor de Nick Cave, é o mesmo de Shadows in the Night, de Bob Dylan, e agora, do primeiro disco de Cassandra na sua nova gravadora. É uma mistura e tanto: arranjos orquestrais de Van Dyke Parks, dois membros de The Bad Seeds, Nick Zinner, dos Yeah Yeah Yeahs, T Bone Burnett, e o bom pianista (de jazz) Jon Cowherd. Quer saber? Questão de gosto, reafirmo. Tem vezes que não combina. Um dos números mais pavorosos de Coming Forth by Day é You Go to My Head. Parece orquestra de Percy Faith ou qualquer coisa do gênero. Em situação de quase empate, em termos de ruindade, é All of Me.
Ouça Good Morning Heartache.
Crazy He Calls Me é outra que é muito associada a Billie.
A orquestra funciona parcialmente bem em The Way You Look Tonight. Ouça.
Um dos artífices do som tão especial de Wilson é Kevin Breit, que a acompanha faz tempo tocando todos os tipos de instrumentos de cordas citados acima. É o único remanescente das melhores formações dos álbuns da cantora. As duas últimas faixas lembram um pouco o clima dos antigos. A penúltima, I’ll Be Seeing You, é uma das melhores. Bem climática, é espetacular.
Ouça.
Last Song (for Lester) é a homenagem de Cassandra Wilson ao grande parceiro dos melhores anos de Billie. Ela foi a única paixão feminina do homossexual Lester Young.
O melhor tributo a Holiday
José James acabou de lançar Yesterday I Had the Blues, em homenagem a Lady Day. Esse sim é um grande disco. Leia sobre ele e ouça algumas canções em http://bit.ly/1Are1GR
Outro lançamento relacionado a Billie é Because of Billie, de Molly Johnson, lançado ano passado. Não é ruim.
Um mais antigo é Eleonora Fagan (1915–1959): To Billie with Love from Dee Dee, de Dee Dee Bridgewater, de 2010. Não é todo mundo que gosta do estilo um tanto “excessivo” de Dee. Sou um deles, o que não quer dizer nada.
Desde a invenção dos fonógrafos, por Thomas Edison, o mundo da música passa a sofrer transformações rápidas. Dos pesados discos de acetato em 78 rpm ao mp3, aconteceram muitas coisas num espaço de tempo pequeno. Do fim dos LPs, invenção do CD, à internet, a indústria da música foi tendo que se adaptar e se reinventar. Um gênero considerado antigo, o da música erudita, na década de 1960, tinha 20% do mercado fonográfico e diminuíram para 5% em uma década, segundo Alex Ross, em Escuta Só – do clássico ao pop (Cia. das Letras, 2011). Atualmente, tem 2%. Como a história se repete como farsa, o jazz, gênero entre o pop e o erudito, vê o mesmo acontecer. Para reagirem ao decréscimo de vendas, gravadoras tradicionais como a Verve e a Blue Note, buscam saídas.
O que estava ruim pode ficar pior, de acordo com a velha máxima: mais venda, menos qualidade. Nos lugares outrora ocupados por Norman Granz e Bruce Lundvall, hoje estão David Foster e Dan Was, respectivamente. Um bom exemplo do que isso representa é o mais recente Wallflower, de Diana Krall. O álbum recebeu várias críticas negativas devido a, segundo alguns, “mão podre” de Foster. São sinais dos tempos. Eu gostei do disco e continuo a achar Krall, tremenda cantora. Faz um pouco de falta aquela energia dos primeiros álbuns, reconheço. Deve-se considerar que Diana cresceu ouvindo Elton John, Eagles, Jim Croce e Bryan Adams. É o caso de José James também. Cresceu gostando de Nirvana, hip-hop e aprendeu a gostar de jazz. Apesar dos detratores dos saudosos da Diana dos primeiros tempos, ela, nada mais que gravando canções que ouvia – e gostava – na adolescência.
Billie Holiday – 100 anos
Quando James foi contratado pela Blue Note, No Beginning No End estava pronto. Não teve teve mão do atual A&R do selo, Don Was. Era um disco de James, com a maioria das canções de sua autoria, assim como no seguinte While You Were Sleeping, comentado no post passado (http://bit.ly/1NHLW4i). Aparentemente, o mais recente Yesterday I Had the Blues, é bem diferente e deve ter a mão de Don Was, creditado também como produtor. É seu disco com mais standards desde For All We Know (Impulse, 2010), mas este era um duo com o pianista Jef Nieve.
Em Yesterday I Had the Blues, o subtítulo é A Tribute to Billie Holiday. É provável que as gravações já estivessem sendo “preparadas”, pois há uma apresentação disponibilizada de JJ no AB - Ancienne Belgique de 2012, e as músicas são do repertório de Billie. Neste show, os músicos são os mesmos de sua banda regular: o tecladista Kris Bowers, o saxofonista Michael Campagna, o trompetista Takuya Kuroda, o baixista Solomon Bowers e o baterista Richard Spaven.
A apresentação é apenas um “esquenta”, uma preparação para o álbum a ser lançado agora no começo de abril coincidindo com o centenário de nascimento de Lady Day. É muito diferente do álbum lançado hoje. É bem inferior.
Veja-o na íntegra.
O grande diferencial deste gravado em estúdio são os músicos que o acompanha: Jason Moran, John Patitucci e Eric Harland, um line up primoroso. É um line up para ninguém botar defeito. O premiado e prestigiado Jason Moran faz a diferença. Suas intervenções discretas e, às vezes, mínima, são de uma sutileza impressionante. Eric Harland está em perfeita sintonia com Moran. Ambos tocam há tempos com Charles Lloyd (sobre ele, leia xxxx). John Patitucci completa o trio.
Um bom exemplo da perfeição da banda e de JJ é Body and Soul. Ouça.
É difícil destacar alguma faixa, de tão bom que é o álbum. James tem uma voz grave, máscula, sem arroubos, mas que, assim mesmo, transpira sentimentos de vulnerabilidade, ternura e dor, tão típicos dos temas mais conhecidos de Billie. Muitas são inesquecíveis na voz de Lady Day. São tantas que seria impossível incluí-las em um único CD. Não faltam as intrínsecamente ligadas a ela, como Strange Fruit, God Bless the Child, What a Mooonlight Can Do e Fine and Mellow. As restantes, além de Body and Soul, são I Thought About You, Lover Man e Tenderly.
Ouça esta última.
Yesterday I Had the Blues, desde já, é um dos grandes lançamentos do ano. E olhe que estamos apenas em abril. Ouça o CD na íntegra no Spotify.
Em meio a tantos lançamentos, acabamos esquecendo de destacar aqueles que merecem menção. Um dos bons cantores surgidos nos últimos tempos é José James. Contratado pela Blue Note, No Beginning No End, que já estava pronto, portanto, sem algum palpite de algum produtor da casa, foi lançado e deu maior exposição ao enorme talento de José. Com três álbuns que não mereceram muita atenção da mídia, apesar de muito bons, conquistava o merecido espaço. Rapidamente, estava na lista dos melhores “rising stars”. [Sobre No Beginning No End, leia em http://bit.ly/1DkXQRS e ouça algumas canções do álbum]
Havia me “esquecido” de While You Were Sleeping, lançado em 2014. Seu mais recente Yesterday I Had the Blues – A Tribute to Billie Holiday, com previsão de sair oficialmente por esses dias me “lembrou” do penúltimo. Ao contrário deste, é menos jazz, em uma estrita definição do que isso significa. Em sua maioria, são composições do cantor. A instrumentação não tem nada de mainstream: tem pianos Fender e guitarras, e as músicas vão por uma tradição mais ligada à soul music. É neosoul, é a batida hip-hop absorvida e processada, é um pouco de Nirvana, uma de suas bandas preferidas na adolescência. James faz uma síntese interessantíssima de suas preferências.
Depois de mais uma década do domínio de Kurt Elling como o melhor intérprete masculino, os críticos da Downbeat, no ano passado, escolheram Gregory Porter como o melhor. Entre as mulheres, foi Cécile McLorin Salvant, deixando Cassandra Wilson em segundo lugar depois de muito tempo. Conclusão: os gostos mudam. Cassandra e Kurt continuam excepcionais, mas vai acontecendo um certo cansaço também. Outra razão deve ser a de que Elling não lança nenhum álbum desde 2012, e o último de Wilson ser muito fraco. A conclusão a que se pode chegar é a de que há uma certa saturação de gravações de standards. Um que não é do ramo, apenas para servir de exemplo – Rod Stewart –, está em seu centésimo disco do gênero. Cansa, né?
O melhor?
José James é uma estrela em ascensão. Melhores classificados na Downbeat que ele estão Elling, Bobby McFerrin, Andy Bey, Theo Bleckmann, Giacomo Gates e Tony Bennett. Dentre os citados, três deles são mais mainstream, Bey em classificação intermediária, e dois, como James, aventuram-se por um terreno mais pop, assim como Porter. Este e James têm preferência por repertório próprio e e o jazz é apenas parte (pequena) de suas criações. Dentre todos os da atualidade, tendo a achar James o melhor, apesar de gostar muito de Porter. Tudo é questão de gosto, como dizemos. A voz de barítono, ao mesmo tempo suave, é muito sedutora.
Voltando a While You Were Sleeping, a melhor é a música título. É especial em vários sentidos. É a demonstração de que José é bom compositor também; e o arranjo é perfeito. Veja.
Esta não é a única boa. Without U, de sua autoria, tem uma batida de bateria e baixo irresistíveis.
A próxima do CD segue a mesma batida. Veja o clip de Every Little Thing.
Duas composições dentre as 12, duas não são de autoria de James: Dragon, da “rising star” Becca Stevens, e Simply Beautiful, de Al Green. Veja.
A faixa de abertura é infernal. Ouça Angel. Grande começo. Pura energia.
Com razão, Tom Jurek, do site allmusic, diz que José James é “um dos cantores mais fascinantes surgidos na última década.”
O nome revela suas origens. José tem sangue latino. O James é da mãe, americana de origem irlandesa. Será que os latinos da América adotam o mesmo costume dos espanhóis, que usam o sobrenome da mãe, ao contrário de nós e de boa parte desse mundo?
JJ conviveu pouco com o pai músico (saxofonista), natural do Panamá. É aquele velho enredo: família pobre, pai vai embora, mãe cria filho. Teve, nas palavras dele, uma adolescência “fraturada”.
Segunda parte do enredo: foi mudando de cidade em cidade; nasceu em Duluth, Minnesota, morou em Seattle e em Minneapolis. José cresceu – tem hoje 34 anos – curtindo Nirvana, Digable Planets e Ice Cube, como muitos adolescentes de sua geração. O jazz ficou hibernando e viu despertado o interesse conhecendo músicos como Douglas Ewart, um dos expoentes da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), movimento vanguardista que teve entre seus membros Roscoe Mitchell, Anthony Braxton e Henry Threadgill.
A vida o transportou para Londres. Foi tentar a sorte participando de um concurso de canto. Não ganhou, mas uma fita demo despertou o interesse de DJ Gilles Peterson, da rádio BBC 1. Gravou dois discos: The Dreamer e Blackmagic. Passou a apresentar-se em clubes e salas da Europa e do Japão.
Blackmagic (2010) representa já uma amostra do que se ouve em No Beginning No End, o mais novo e primeiro álbum pela Blue Note. Lembra um pouco a música de Ed Motta. Vai por uma levada meio soul, rhythm’n’blues, sonoridades sofisticadas como as de Steely Dan, algo entre o pop e a sofisticação dos arranjos de jazz.
É uma música que encaixa bem no que os selos de jazz procuram hoje: se não for jazz, um híbrido. Há tempos a Blue Note explora sonoridades além do mainstream. Isso vem desde fins dos anos 1950 com Grant Green, Herbie Hancock, Big John Patton e Jimmy Smith. A gravadora que abrigou Bud Powell, Thelonious Monk e Miles Davis, principalmente, nos anos 1960, adaptou-se à força das manifestações pós-Elvis e depois, a dos “invasores” britânicos.
No mesmo ano em que lançou Blackmagic, assinou um contrato com a Impulse para um disco. Com o pianista belga Jef Neve gravou For All We Know. É uma coleção de consagrados standards. Não repercutiu muito. Em 2010, a tão tradicional gravadora que teve seu apogeu com o produtor Bob Thiele e o engenheiro de som Rudy van Gelder, lançando discos de John Coltrane, Charles Mingus, Archie Shepp, Oliver Nelson e McCoy Tyner deixara de ser o que era. Seu último suspiro como selo lançador foi quando contratou a canadense Diana Krall. Hoje é um selo da Verve (Universal Music Group) e só relança o catálogo antigo.
Apesar das reservas da crítica, For All We Know é um belo disco. Não traz grandes novidades, como centenas de álbuns com standards. Até Rod Stewart entrou nessa e está lá pelo enésimo disco desse tipo. É um belo showcase da bela voz que tem, meio “cool”, sem grandes arroubos. É emoção contida para ser apreciada aos poucos.
James não faz feio nos standards. Ouça Embraceable You.
No Beginning No End foi apresentado pronto à Blue Note. Esta resolveu lançar. Era uma boa oportunidade para James ficar mais conhecido em sua terra natal. É um disco com uma certa sofisticação instrumental. Conta com parcerias importantes como a do pianista Robert Glasper e do baixista e produtor Pino Palladino. Tanto um como o outro transita por um tipo de experimentação que extrapola um gênero específico. Palladino participou de inúmeras gravações em estúdio. Glasper, além do trabalho em trio, montou a Robert Glasper Experiment.
Black Radio (2012), de Glasper é uma boa referência para o que é o som de James em No Beginning No End. Ambos nasceram em 1978. Cresceram ouvindo os sons das ruas como o hiphop, funky, rock, soul music, blues, soul music e, inclusive, jazz. O que fazem é uma síntese dessas informações auditivas. E não é mera coincidência que Glasper tenha gravado Smells Like Teen Spirit em Black Radio. O Nirvana era uma das bandas que James ouvia na adolescência.
Ouça It’s All Over Your Body, a primeira faixa do mais recente CD.
Veja It’s All Over Your Body em AllSaints Basement Sessions.
Uma mais calma: Come to My Door.
O YouTube é uma caixa de surpresas. Encontrei uma apresentação de Do You Feel, que está em No Beginning No End. É uma boa amostra das influências do jazz. A do estúdio é uma e nesta apresentação, por ser ao vivo, há espaço para a improvisação dos músicos.
É possível ouvir-se o disco inteiro nesse “youtube”. O site deixou de ser apenas um veículo de imagens. Com frequência estão disponíveis CDs inteiros de muitos intérpretes.