quinta-feira, 8 de junho de 2017

Muitos lançamentos, além da ECM

Na postagem anterior, listei os principais lançamentos pela ECM. Não é a única a nos brindar com bons discos.

Muita coisa mudou na estrutura e grandes selos importantes do jazz como o Verve, criado por Norman Granz, e abrigou estrelas como Ella Fitzgerald e Oscar Peterson, não existem mais, pelo menos, nos modelos em que os conhecemos. Se não me engano, agora, pertence ao Universal Music Group, e controla também selos da música erudita, como a Deutsche Grammophon, Decca Classics, Mercury Classics; e é responsável pela distribuição mundial do catálogo da ECM.

Um dos chefões da Verve é David Foster, um produtor que mira mais as vendas do que a qualidade. E não vemos mais álbuns de jazz com o antigo logotipo Verve. Sua estrela é Diana Krall e parece ser a única do casting. Estranho, muito estranho.

Como “filhos” da Verve, destacam-se o Impulse, que abriga Madeleine Peyroux, Sarah McKenzie, John Scofield, Indra Rios-Moore, e o tradicional Blue Note, cada vez menos voltado ao jazz.

Fora da Universal, temos a alemã ACT Music, que comemora 25 anos, e possui um dos melhores catálogos da atualidade. O Concord Group, que cresceu muito, abarca uma série de selos, como a Telarc, Heads Up, Stax e o Concord Jazz.

Vamos aos destaques.

A imagem de José James no novo álbum
Blue Note
• Gregory Porter: “Take Me to the Alley”
• José James: “Love in a Time of Madness”
• Kandace Springs: “Soul Eyes”
• Nels Cline: “Lovers”
• Norah Jones: “Day Breaks”
• Robert Glasper Experiment: “Artscience”
• Terence Blanchard: “The Comedian Soundtrack”
• Trombone Shorty: “Park Lot Symphony”

O selo tem os dois cantores mais apreciados da atualidade. Gregory Porter desbancou o longo reinado de Kurt Elling como o melhor cantor de jazz. Como outro destaque do selo, José James, o rótulo “jazz” é pequeno para o que desenvolvem. É uma fusão do jazz, com fortes influências do soul, rhythm’n’blues,  gospel, além da incorporação da eletrônica, mais no caso de James. São duas vozes poderosas e dois talentos criativos. Norah é Norah. “Day Breaks” é um álbum muito agradável. Robert Glasper começou “pianinho”. Impressionou a crítica. O mesmo foi com Trombone Shorty. Começaram com gravações “mais jazz”, para capturar a crítica, como Esperanza Spalding, e partiram para projetos mais pessoais e não possuem alguma relação com o que reconhecemos como jazz. Não é uma crítica;  é uma constatação.

Kandace Springs é mais conservadora, comparando-se com os citados. Terence Blanchard, que surgiu na época de Wynton Marsalis, também. Nels Cline faz o percurso inverso: guitarrista da banda alternativa Wilco, o veterano tem feito bons discos instrumentais, seja como líder ou em parceria com guitarristas como o “newcomer” Julian Lage.

Ouça “Closer”, de José James.




Gregory Porter é a voz do momento, com James. Ouça “Take Me to the Alley”.




Ouça “The Bond”, de Nels Cline.




ACT Music
• Eric Schaefer: “Kyoto Mon Amour”
• Iiro Rantala, Lars Danielsson, Peter Erskine: “How Long Is Now?”
• Jan Lundgren: “Postdamer Platz”
• Julian & Roman Wasserfuhr: “Landed in Brooklyn”
• Lars Danielsson: “Liberetto III”
• Natalia Mateo: “De Profundis”
• Richie Beirach & Gregor Huebner: “Live at Birdland New York”
• Ulf & Eric Wakenius: “Father and Son”
• Victoria Tolstoy: “Meet Me at the Movies”
• Emile Parisien, Vincent Peirani, Andreas Schaerer, Michael Wollny: “Out of Land”
• Youn Sun Nah: “She Moves on”

A alemã ACT Music, fundada por Siegfried Loch, acaba de completar 25 anos de vida, e é uma das melhores gravadoras da atualidade. Foi nela que o genial pianista Vijay Iyer se consagrou como um dos novos nomes do jazz – grava atualmente na concorrente ECM – e foi responsável por tornar conhecido o trio e.s.t., de Esbjörn Svensson, tragicamente falecido fazendo mergulho. Com um elenco de bons músicos alemães, escandinavos e outros da Europa Oriental, a ACT vem sendo uma garantia de boa música.

Dentre as cantoras, a coreana Youn Sun Nah é a de maior prestígio internacional. Conta também com Victoria Tolstoy, que tem entre seus maiores atributos a beleza e o parentesco com o escritor russo Liev Tolstói. Natalia Mateo é uma das boas revelações. Diferente, é muito interessante.

Infelizmente, as canções do CD mais recente foram bloqueadas no YouTube. Mas como Mateo é uma intérprete que merece ser conhecida, ouça “Strange Fruit”, do penúltimo.




Não tive tempo de escutar todos os lançados pela ACT, mas dos que ouvi, “Father & Son”, de Ulf Wakenius, com seu filho Eric, é muito bom. Ouça o brilhante duo de violões, em “Birdland”, de Joe Zawinul.




Outras gravadoras
• Aki Takase & David Murray: “Cherry - Sakura” (Intakt)
• Akua Dixon: “Akua’s Dance” (self released)
• Andrea Motis: “Emotional Dance” (Impulse)
• Beata Pater: “Fire Dance” (B&B Records)
• Becca Stevens: “Regina” (GroundUP)
• Benny Green: “Happiness!” (Sunnyside)
• Betty Buckley: “Story Songs” (Palmetto)
• Billy Childs: “Reborn” (Mack Avenue)
• Bobby Watson: “Made in America” (Smoke Sessions)
• Cameron Graves: “Planetary Prince” (Mack Avenue)
• Chano Dominguez: “Over the Rainbow” (Sunnyside)
• Chick Corea: “The Musician” - 3 CDs + 1 DVD (Concord)
• Chris Thile & Brad Mehldau: “Chris Thile & Brad Mehldau” (Nonesuch)
• Christian Scott aTunde Adjuah: “Ruler Rebel” (Ropeadope)
• Christian Sands: “Reach” (Mack Avenue)
• Cuong Vu 4-tet: “Ballet | The Music of Michael Gibbs” (Rarenoise)
• Daniel Herskedal: “The Roc” (Edition Records)
• David Binney: “The Time Verses” (Criss Cross)
• David Gilmore: “Transitions” (Criss Cross)
• Dayna Stephens: “Gratitude” (Contagious)
• Diana Krall: “Turn Up the Quiet” (Verve)
• Dwiki Dharmawan: “Pasar Klewer” (Moonjune)
• Eliane Elias: “Dance of Time” (Concord)
• Enrico Pieranunzi: “New Spring | Live at The Village Vanguard” (Cam Jazz)
• Eric Alexander: Second Impression” (HighNote)
• Ethan Iverson: The Purity of the Turf” (CrissCross)
• Giacomo Gates: “What Time Is It?” (Savant)
• Jazzmeia Horn: “A Social Call” (Prestige)
• Jeremy Pelt: “Make Noise” (HighNote)
• Joey DeFrancesco: “Project Freedom” (Mack Avenue)
• Julian Lage & Chris Eldridge: “Mount Royal” (Free Dirt Records)
• Julian Lage: “Live in Los Angeles” (Mack Avenue)
• Kendra Shank & Geoffrey Keezer: “Half Moon | Live in New York”
• Kevin Eubanks: “East West Time Line” (Mack Avenue)
• Kurt Elling: “Sings Christmas | The Beautiful Day” (Okeh)
• Kurt Rosenwinkel: “Caipi” (Heartcore)
• Linda May Han Oh: “Walk Against Wind” (Biophilia)
• Madeleine Peyroux: “Secular Hymns” (Impulse)
• Matthew Stevens: “Preverbal” (Rodeadope 339)
• Miles Okazaki: “Trikster” (Salis Sea)
• Miroslav Vitous: “Ziljabu Nights” (Intuition)
• Noah Preminger: “Meditations on Freedom” (self released)
• Olivier Le Goas: “Reciprocity” (Neuklang)
• Omar Sosa & Seckou Keita: “Transparent Water” (Otá)
• Regina Carter: Ella: “Accentuate the Positive” (Okeh)
• Richard Galliano: “New Jazz Musette” (Ponderosa Music & Art)
• Roberto Fonseca: “ABUC” (Impulse!)
• Steve Nelson: Brothers Under the Sun” (HighNote)
• The Jazz at The Lincoln Center Orchestra: “The Music of John Lewis” (Blue Engine)
• Tigran Hamasyan: “An Ancient Observer” (Nonesuch)
• Tom Harrell: “Someting Gold, Something Blue” (HighNote)
• Troy Roberts: “Tales & Tones” (Inner Circle)
• Yelena Eckemoff: “Blooming Tall Phlox” (L&H)
• Yilian Cañizares: “Incocación” (Naïve)
• Yotam Silverstein: “The Village” (Jazz & People)

O tão esperado novo disco de Diana Krall é mais ou menos como o “tão esperado novo disco” de Marisa Monte. É mais ou menos o mais do mesmo. Não que isso signifique um trabalho ruim. “Turn Up the Quiet” é um bom disco, como qualquer outro dela. Diana chegou naquele ponto em que não faria coisa ruim, nem que quisesse. Esse álbum é resultado da competência adquirida pela experiência e talento natural. Ninguém vai dar cinco estrelas, porque não é superior aos seus melhores trabalhos. É mais jazz que os dois anteriores. O repertório de “Wallflower” era calcado em sucessos pops, como “Desperado”, dos Eagles, e “Sorry Seems to Be the Hardest Word”, de Elton John e Bennie Maupin. As canções de “Glad Rag Doll” são mais antigas; são temas que conheceu por meio das preferências de seu pai.

No setor de vozes, a boa novidade é a espanhola Andrea Motis. Com apenas 21 anos, Andrea transmite uma segurança não muito frequente para uma garota dessa idade. Lançou-se cedo na música, com 14 anos, participando da banda de Joan Chamorro, músico que tem revelado bons talentos em Barcelona. Motis tem futuro. É bela, é afinada e além de cantar, toca trompete, o que lhe dá um charme especial. “Emotional Dance” é seu primeiro álbum por uma gravadora maior.

O melhor dos álbuns vocais citados é o despojado “Secular Hymns”, de Madeleine Peyroux. Muito bom mesmo.

Veja Andrea Motis a cantar “He’s Funny that Way”.




Ouça “Tango till They’re Sore”, com Madeleine Peyroux.




Dessa avalanche de lançamentos, impossível ouvir todos para se fazer algum juízo. Dos aqui listados, gostei muito de “Sakura”, duo com Aki Takase e David Murray. Os dois são identificados como avant garde, mas perfeitamente palatáveis. Acompanho Murray desde “Low Class Conspiracy” (1976). Sou fã até hoje. “Sakura” é um dos meus preferidos do ano. Outros muito bons – vou pela ordem alfabética:
— “Akua’s Dance”, da excelente violoncelista Akua Dixon;
— “Happiness”, de Benny Green, excelente pianista;
—  “Story Songs”, da cantora e atriz de musicais, como “Cats”, álbum duplo com temas de várias épocas, mas com temas mais contemporâneos, como os de Peter Gabriel, Sting, Leonard Cohen e Joni Mitchell;
— Tudo o que Billy Childs faz é bom. Inexplicável que não seja mais conhecido, tanto como compositor como tecladista e arranjador. “Reborn” é excepcional;
— O álbum de Chris Thile em duo com Brad Mehldau é bem interessante. Bandolinista e cantor, trafega à vontade no erudito, jazz e no folk. Lançou recentemente um CD com Yo-Yo Ma e Edgar Meyer, dedicado ao repertório de Johann Sebastian Bach;
— Christian Scott, que agora, assina Christian Scott aTunde Adjuah, tem novo CD na praça. “Ruler Rebel” não está entre seus melhores. Já seu xará, Christian Sands, manda bem com “Reach”, em sua estréia pelo Mack Avenue;
— Cuong Vu tinha impressionado em “Cuong Vu Meets Pat Metheny”. O vietnamita faz parte da banda de Pat e agora lança o belo “Ballet | The Music of Michael Gibbs”;
— “New Spring”, ao vivo no Village Vanguard, é mais um disco de Enrico Pieranunzi acompanhado de Scott Colley e Clarence Penn, nesses registros, com o saxofonista Donny McCaslin. O italiano é outro que nos álbuns recentes mantêm a qualidade em cima, como Eric Alexander, com “Second Impression”. É atualmente uma das vozes mais vigorosas do saxofone tenor. Ethan Iverson, pianista de The Bad Plus, em “The Purity of the Turf”, conta com outros companheiros: Ron Carter e Nasheet Waits. Ambos são garantia de boa música;
— Além de Diana Krall, na lista das vozes, temos Giacomo Gates, Jazzmeia Horn, Kurt Elling, Kendra Shank e Becca Stevens. De todos – Elling, Gates e Kendra Shank são veteranos –, a grande novidade é Jazzmeia Horn. Vencedora do Thelonious Monk International Jazz Vocal Competition de 2015, foi contratada pelo grupo Concord, por meio do selo Prestige (é um dos labels mais tradicionais do jazz e, vejam como essas mudanças são estranhas). Tem cancha e é craque nos scats e outros “truques” do jazz, o que pode levar a juízos equivocados, mas é boa, e se for bem assessorada, pode se transformar em uma das melhores cantoras.

Não é à toa que o álbum de estreia se chame “A Social Call”. Revela influências de Betty Carter. Ouça sua interpretação desse jazz standard.




Veja Kendra Shank, com Geoffrey Keezer.




Veja Aki Takase e David Murray, em “Bright Mississippi”, de Thelonious Monk.





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