quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O meu 11 de setembro e o de Jonathan Franzen

Franzen, autor de Liberdade
Como ficar sozinho, lançado pela Companhia das Letras, agorinha, em 2012, é considerado um livro de ensaios. Lá nos States também. Preciso repensar o conceito do que são ensaios. Não é uma crítica. É que me passou isso pela cabeça. Alguns não deveriam ser classificados, simplesmente, como artigos? Bom, fora isso, sua leitura é (muito) agradável.

Alguns textos são especiais, como “Só liguei para dizer te amo” (2006). O título é de uma canção de Stevie Wonder (I Just Called to Say I Love You), bom, pelo menos é o que acho, também. Posso estar errado. Tinha lido antes em um caderno de informática, não lembro se foi no da Folha de S. Paulo ou de O Estado de S. Paulo. Franzen diz que o celular ocupou o lugar do cigarro, como um jeito de as pessoas ocuparem suas mãos. É verdade: você vê tanta gente manuseando seus celulares, em qualquer lugar, no metrô, na rua, no ônibus. Eu e meu ex-enteado gostávamos de provocar a minha ex-namorada, quando ela estava em um daqueles momentos, mexendo no celular. Funcionava. Em minutos, explodia e começava a gritar com a gente. Era o jeito de dizermos que a coisa estava chata. Mas o principal nesse ensaio – artigo? – é a irritação de Franzen de as pessoas, ao se despedirem ao celular, dizerem “eu te amo”. É, nunca foi tão fácil amar, mesmo sendo de mentirinha.

Segundo Franzen, o “eu te amo”, em sua cabeça, tinha um sentido sexual. Diz que “Both Sides Now, na versão de Judy Collins, foi a primeira música pop que grudou na minha cabeça. Tocava direto nas rádios quando eu tinha oito ou nove anos, e sua referência a declarar o amor ‘em alto e bom som’, combinada com a queda que eu tinha pela voz de Judy Collins, ajudou a fazer com que, para mim, o sentido primário de ‘eu te amo’ fosse sexual.”

Desconfio que leio bastante porque esqueço na mesma proporção. Ao terminar de ler o livro de Franzen, não consigo lembrar com melhor exatidão do que gostei. Preciso pegar o livro e procurar os que mais me chamaram a atenção. O primeiro – “A dor nos matará” (2011) – é muito bom. Aborda a questão do Facebook, daquela necessidade de sermos “amados”, a necessidade de os amigos clicarem “curtir” em suas postagens: “O verbo curtir, que deixa de descrever um estado de espírito e passa a designar um ato que desempenhamos com o mouse: deixa de ser um sentimento e vira uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto da cultura comercial para amar.”

O segundo é o “I just called…”. Vou falar de puladinho, para não encompridar. Os textos relacionados à sua família são muito ótimos. Sobre o pai e o mal de alzheimer que o acomete (“O cérebro do meu pai”, 2001), sua relação com a mãe e com a casa em que morou com a família em St. Louis (“Encontre-me em St. Louis”, 2001, mais uma brincadeira com títulos de múscas conhecidas). É tocante quando fala da mãe pouco antes de sua morte. Ela ficou viúva e preferiu continuar morando lá: “Nós [ele e o irmão] a convidamos para morar com um de nós, mas a casa era sua vida, era o que ela tinha, não era tanto o lugar da sua solidão, mas seu antídoto.”). “Uma semana antes de ser hospitalizada, minha mãe não conseguia reter os alimentos, e, quando cheguei, a geladeira estava vazia, a não ser por alguns condimentos e guloseimas. Na prateleira de cima havia apenas uma caixa de leite desnatado, uma latinha de ervilhas coberta com papel laminado e, ao lado, um prato com uma pequena porção de ervilhas. Fui atacado de surpresa e quase destruído por esse prato de ervilhas. Fui forçado a imaginar minha mãe sozinha na casa, obrigando-se a comer alguma coisa, qualquer coisa, um punhado de ervilhas, sem conseguir. Com a frugalidade e o otimismo de sempre, ela pusera na geladeira a lata e o prato, caso seu apetite voltasse.” Quem tem pais bem velhinhos ou próximos de morrer sabem muito bem o que pequenos detalhes ou comportamentos são motivos de dor e angústia.

Depois que sua mãe morreu, a casa virou passado. Não quis mais entrar nela (“a promessa que eu teria quebrado se tivesse entrado na casa hoje, era que eu tinha saído pela última vez e nunca teria de sair de novo.”). Um livro de Franzen foi considerado o “Livro do Mês” do programa de Oprah Winfrey (na primeira vez em que isso tinha acontecido, recusara-se, por não se sentir à vontade nesses “oba oba” que a vida nos prega, mas aceitou na segunda, acho que é isso) e fizeram um filme dele em St. Louis, uma daquelas coisas bem bobas, com ele chegando de carro e atravessando a ponte, passando pela rua de sua casa, etc. Pois, apesar da insistência do diretor do “filminho” que seria exibido no progama de Oprah, Franzen se recusou a visitar a casa em que viveu com os pais. Em “Sobre ficção autobiográfica” (2009), aborda a questão de Gary Lambert, personagem de As Correções (The Corrections, 2001), ser baseado na figura do irmão.

Outros a destacar são aqueles sobre o seu labor: “Qual é a importância?” (1996) e “Sobre ficção autobiográfica” (2009).

No final do outono de 2010, Franzen encontrava-se cansado com a maratona de compromissos e viagens por conta do lançamento de um romance. Decidira fazer uma viagem solitária, como uma forma de isolar-se, indo à ilha Alexander Selkirk, outrora conhecida como Masafuera, situada a 800 quilômetros de Santiago do Chile, no Oceano Pacífico. A ideia surgiu por causa de Robinson Crusoé, que, segundo ele “era o primeiro documento importante do individualismo radical, a história da sobrevivência prática e psicológica de uma pessoa em profundo isolamento”. Mais distante é o relato da viagem que empreendeu para fugir das “cinzas do tédio”. É uma narrativa interessantíssima. Sua aventura para poder avistar o rayadito, um tipo raro de pássaro, é fascinante. Franzen, como o compositor Olivier Messiaen, adora pássaros. Em vårios ensaios fala de sua paixão por eles.

O último ensaio do livro é “De onde vem essa certeza de que você mesmo não é o Mal?” (2004). É sobre Alice Munro. Bom, terminava de lê-lo, exatamente, em 11 de setembro de 2012. E há uma referência aos acontecimentos dessa data que me chamaram a atenção devido à coincidência. É o seguinte:

“8. Ódio é diversão.
“O grande insight dos extremistas da era da mídia. De que maneira explicar a eleição de tantos fanáticos repulsivos, a desintegração da civilidade política, a ascendência da Fox News? Primeiro o fundamentalista Bin Laden presenteia Bush com a dádiva do ódio, aí Bush capitaliza esse ódio através do seu próprio fanatismo, e agora metade do país acredita que Bush está fazendo uma cruzada contra O Mal enquanto a outra metade (e a maioria do mundo) acredita que Bush seja O Mal. Praticamente não há ninguém que não odeie alguém hoje, e absolutamente ninguém que não seja odiado.”

A 11 de setembro de 2012, repito. Fui dormir. Às quatro da manhã, acordo, e perco o sono. Franzen falou tão bem de Alice Munro, que me deu vontade de ler alguma coisa dela. Na certeza de que tinha um livro dela em casa, passei a fuçar pelas várias estantes que tenho em casa (tenho uma até no banheiro) em plena madrugada. Não encontrei. Não disse que esqueço facilmente do que leio? Não será engano achar que tenho alguma coisa de Munro. Continuo a achar que tenho. Mas minhas buscas, mesmo no dia seguinte, foram infrutíferas.

Como vivemos no mundo do amor (e do ódio, também), que tal ouvir Stevie Wonder?




Mas, a de cortar os pulsos é All in Love Is Fair.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

“Sleeper”, a apresentação perdida de Keith Jarrett com seu quarteto europeu

Jarrett e seu quarteto europeu. Jan Garbarek é o da esquerda
Keith Jarrett tinha um quarteto “americano” com Dewey Redman no sax tenor, Charlie Haden no contrabaixo e Paul Motian na bateria, com o acréscimo eventual de um percussionista. Era um brasileiro chamado Guilherme Franco. Os percussionistas brasileiros passaram a se destacar depois que Airto Moreira, do Quarteto Novo, emigrou e se destacou tocando com Miles Davis, Chick Corea e o Weather Report. Franco foi muito requisitado pelos estúdios principalmente e, além de ter tocado com Jarrett, participou de alguns discos de McCoy Tyner e David Byrne. Não há nada na internet que explique o súbito “desaparecimento” de Guilherme Franco, mas, se não me engano, envolveu-se em um furto, e daí para frente, o mundo deixou de ser róseo para ele.

Jarrett formou um quarteto na Europa e gravou um disco chamado Belonging (ECM 1974), com o saxofonista Jan Garbarek, o baixista Palle Danielsson e o baterista Jon Christensen. Antes do sucesso estrondoso do solo Köln Concert (leia em http://conteudodalata.blogspot.com.br/2010/09/dalva-herivelto-e-keith-jarrett.html), Quando começou a gravar pela alemã ECM já era bem conhecido. Participara das bandas de Charles Lloyd e de Miles Davis. Os discos lançados pela Columbia Records, Impulse e Atlantic, entre 1967 e 1976, sem exceções, são muito bons. O primeiro álbum de Jarrett pela ECM é um duo com o baterista e percussionista Jack DeJohnette, que, mais tarde, se tornaria membro efetivo de seu trio, junto com Gary Peacock. Ruta and Daitya (ECM, 1971), salvo engano, é seu último disco em que toca algum instrumento eletrônico. Antes de Wynton Marsalis ter se lançado como guardião do som acústico, o pianista já havia optado por isso. Não precisava ser eletrônico pois o som que tirava do piano era eletricidade pura.

Jan Garbarek não é Dewey Redman e Redman não é Jan. Apesar de o pianista ser o mesmo, os quartetos são bem diferentes entre si. Jarrett gravou Belonging em 1974 pela ECM Records. Lembro que os mais antenados logo “descobriram” o disco. Não era para qualquer antenado, pois discos importados eram bem caros e nem tudo vinha para cá. Às vezes, era preciso encomendar e esperar dois meses até chegar. Vida difícil; e revistas importadas vindas por via aérea eram caríssimas. A internet mudou tudo isso: democratizou a informação mas, surpreendentemente, não deixou as pessoas mais inteligentes.

Conheço ferrenhos inimigos do sax soprano, mas a juventude que gostava de jazz na década de 1970 era fã de Wayne Shorter no Weather Report; e Shorter era fã do Brasil: sua mulher era brasileira e adorava Milton Nascimento. E muitos tinham Shorter como referência para gostarem do som do sax soprano. Um tempo depois, fazendo caminho inverso, fui ouvir My Favorite Things, de John Coltrane. Por distorções naturais (fomos criados ouvindo Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin), a maioria dos da minha geração que passou a gostar de jazz começou ouvindo os sons eletrônicos de Chick Corea, Miles Davis e Herbie Hancock e depois descobriram Duke Ellington, Bill Evans e John Coltrane.

O gosto pelo som do soprano, naturalmente, me fez passar a prestar atenção em Jan Garbarek a partir de Belonging. Dois álbuns gravados nessa época, com Palle Danielsson, Jon Christensen e Bobo Stenson no lugar do americano – Dansere e Witchi-Tai-To –, são superiores aos de sua parceria com Jarrett.

O norueguês gravou dezenas de discos pela ECM. Explorou sons orientais e nórdicos, com Fateh Ali Khan, Anouar Brahem, Zakir Hussain, L. Shankar e com a cantora folclórica conterrânea Agnes Buen Garnås. Em discos mais vinculados à música erudita teve como parceiros a Hilliard Ensemble, Kim Kashkashian e David Darling. É um músico importante, goste-se ou não dele.

Mais de trinta anos depois do último lançamento do quarteto europeu de Jarrett, a ECM lança Sleeper, álbum duplo com uma apresentação em Tokyo’s Nakano Sun Plaza, de abril de 1979. Com a exceção de uma, a do bis, todas as faixas têm mais que dez minutos, sendo duas com mais de vinte. Na primeira vez, fiquei com a impressão de que “envelheceu”, quem sabe, por ter enjoado do sopro de Garbarek, um tanto estridente para o meu gosto (gostava, mas depois que conheci Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young, meus parâmetros mudaram). Depois de ouvir cerca de cinco vezes, passei a gostar mais, mas não é um disco excepcional. Para aqueles que ainda gostam de Belonging, Sleeper é um prato cheio.

A faixa que abre o disco é Personal Mountains, com um drive excepcional da bateria de Christensen. Sendo um número bem longo, com 21:12 minutos, inicialmente enérgico, instrumentação vigorosa, a menos de sete minutos do fim, há uma mudança de andamento, tornando-se melancólica. Bem Jarrett: ele adora alternar climas em uma mesma música. É um dos destaques. Outra muito boa é Oasis. Inicia com uma percussão com som parecido ao da kalimba e logo depois, uma flauta executada por Keith. Meio africana, combina com o título. Então, entram a bateria, o piano e o sax soprano tenso de Garbarek. Prism, de andamento mais lento, é outra faixa que deve ser destacada.

Ouça “Personal Mountains”