quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Do que falei de Eliane Elias e do que outros falaram

A capa de Light My Fire, de Elias
Luis Nassif, em 1º de fevereiro de 2010, publicou em seu blogue brasilianas meu post “O equívoco de Eliane Elias” (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-equivoco-de-eliane-elias). Várias pessoas se manifestaram nos comentários, na maioria, negativamente. Em outro post  – O balanço irresistível de Gilberto Gil e Eliane Elias –, peguei mais leve. Continuo não achando que o que disse no primeiro post tão ofensivo. Curiosamente, saiu uma crítica ao CD Light My Fire (Universal), de Elias, de Antonio Gonçalves Filho (OESP, 14/1/2011), um tanto negativa, que confirma algumas impressões registradas no meu primeiro post.

Antes de reproduzi-lo, cito alguns comentários dos leitores do Nassif.

Um que considero ser uma confirmação do que digo é a de ‘GalileoGalilei”: “Curiosamente eu achava, já no histórico álbum Eliane Elias Plays Jobim, Eliane grava a faixa Por Causa de Você de dois modos: uma instrumental, sublime e a outra, francamente, desnecessária, acompanhada por voz.”

A maioria, no entanto, foi negativa:
• Um tal “Sklogw” disse “Esse cara não entende nada de jazz. A Eliane Elias é uma grande pianista e uma espetacular cantora, com um timbre delicioso, uma técnica apurada e um suingue único. Atributos, aliás, que compartilha com a não menos ótima Diana Krall.”
• De Alberto Manoel Ruschel Filho: “Vai um pedido aí, Gwen: Deixa a Eliane cantar! Deixa ela tocar! Ouça sem mal-humor, relaxe e goze. E mais, deixe as pessoas ouvirem. Cada ouvido "vê" o que quer, né?
• Dulce: “‘Cabe aqui indagar por que resolveu cantar. Só porque é afinada?” É dose...ler uma crítica nestes termos. Só ??? É condição NÚMERO UM para alguém abrir a boca, e cantar, em público. ‘É, porém, bem superior com as mãos.’ Ora, desde quando alguém tem direito de limitar os talentos alheios, só porque um deles é de qualidade excepcional? Me poupe, "Só"!!!!

Uma foi bem preconceituosa, dirigindo-se à minha origem (deve achar que sou japonês): “Nassif. Tocar piano como ela toca autoriza, a linda Eliane, a fazer o que bem entender!! O equívoco é do Sakamoto!” Esse assinou como Jairog99z9.” Bom, se ele acha Ryuichi Sakamoto um equívoco, acho que ele deve ouvir uma pouco mais de música.

O texto de Antonio Gonçalves Filho (quem quiser o acesso,  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-verao-de-eliane-elias-,822608,0.htm)

Lançado no ano passado nos EUA, Light My Fire recebeu críticas positivas nos principais jornais (The New York Times) e revistas (Down Beat). No entanto, a expectativa dos críticos norte-americanos parecia mesmo a de ter um disco para ouvir no verão, como sugere a Down Beat. Light My Fire é justamente isso. Faltou um produtor para que o CD da cantora e pianista Eliane Elias resistisse além de uma temporada. O primeiro impedimento à perenidade é o repertório incoerente. As composições são inconciliáveis. Chamar Gil para um dueto em Aquele Abraço e programar como faixa seguinte Light My Fire, megahit de Jim Morrison, é uma inconsequência, agravada pelo cover dianakralliano e o arranjo bossanovista. A incômoda proximidade com Diana Krall (também boa pianista e cantora, como Eliane Elias) não se limita à emulação do estilo musical. As roupas e os cabelos cuidadosamente despenteados são os mesmos. Mais uma vez: falta um produtor num disco que tem instrumentistas como Romero Lubambo e músicos que são também ótimos arranjadores (Oscar Castro-Neves). É frustrante a tentativa de recriar a clássica Take Five com um vocalise na linha de Gary McFarland, trocando as invenções do piano de Brubeck pelo baixo do marido Marc Johnson e o trompete de Randy Brecker. Uma diluição da verve experimental do compositor Paul Desmond. Além disso, que falta faz Teo Macero.

O amigo Alberico Cilento teve aula com Eliane Elias e gosta muito dela e gosta de sua voz, apesar de considerá-la “straight”. Falei um pouco mal dela, como crítica. Para quem não “gosta” dela, até que estou bem, comparado a alguns de seus admiradores: tenho 12 CDs de Elias.

Vamos ouvir um interessante Oye Como Va (é de Tito Puente, mas as gerações novas devem conhecê-la na interpretação de Santana), cantado em português e em inglês, meio mambo, meio samba, com direito ao refrão “Laia ladaia sabatana ave-maria”. Está no CD Around the City (Bluebird, 2011)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Dezembro maldito

Ao contrário do que escreveu T.S. Eliot – “Abril é o mais cruel dos meses” –, dezembro parece mais. Parece que ficamos na expectativa de algo prestes a acontecer: não apenas mortes, mas tragédias naturais, daquelas que parecem vingança dos deuses ou da natureza, como tsunamis, enchentes, cidades devastadas pela água. Em 2001, estava na praia, televisão ligada: Cássia Eller morreu; no 29º dia de dezembro.

E como farsa ou para corroborar nossos maus presentimentos, acontecem coisas. Imagino que deve ocorrer uma espécie de caos coletivo: a impressão é a de que todo mundo fica estressado e meio “desgovernado”. Se o período é de Festas, esse tempo deveria ser o de alegrias, congraçamentos e anseios por paz. Essa “obrigação” pela felicidade pode ter efeito contrário.

Mortes, quanto mais próximas do fim do ano e, se acontecem com pessoas ainda jovens, ficam tingidas de dramatismo maior. Não lembro mais daqueles que morreram no fim de 2010, mas, em 2011, foram registradas muitas; desde a de esportistas como Sócrates (muito jovem ainda), de pessoas ligadas ao teatro como Sérgio Brito (17), Rodolfo Bottino (11); à música, como o saxofonista Sam Rivers (26) e o trombonista e pianista Bob Brookmeyer (16), ambos octogenários; a cantora Cesária Évora (17); o grande desenhista e cartunista Ronald Searle (30), com 92 anos; artistas plásticos como a expressionista abstrata Helen Frankenthaler (27) e o brasileiro Mário Gruber (30); estadistas como Vaclav Hável (também poeta, no dia 18); o ditador da Coreia do Norte Kim Jong-Il; e jornalistas e escritores como o ateísta Christopher Hitchens (15), a alemã Christa Wolf (1), e Daniel Piza, este, dois dias antes que findasse o ano.

Piza e seu Machado, lançado pela Imprensa Oficial
Desses todos, o único que cheguei a conhecer pessoalmente foi o Piza. Fui autor do projeto gráfico de seu livro Machado de Assis – um gênio brasileiro. Imaginava-o arrogante ou qualquer coisa parecida em virtude de, tão jovem, ter coluna fixa em um grande jornal, possuir tanta informação. Pelo contrário; era simples, afável, até demais, e não tinha o mínimo daquela pose de “sabichão”. Uma vez, veio com uma mochila e imaginei que estivesse trazendo livros para escanearmos algumas imagens. Perguntei. Não. Eram apetrechos esportivos para o jogo de futebol, mais tarde.

Uma coisa que me surpreendeu foi a rapidez com que Piza escrevia. Quando fui chamado para elaborar o projeto gráfico, recebi dois capítulos iniciais. Ao mostrá-lo, pela primeira vez, perguntei pelos outros capítulos. Respondeu-me: “Estou escrevendo”. Em um mês, entregara tudo. Pela rapidez com que escrevera, a possibilidade de conterem erros era grande. Foi sugerido que as páginas entregues fossem revistas por dois revisores que conheciam muito bem sobre Machado e sua obra. Piza aceitou tranquilamente, sem crise, sem achaques de superstar. Aceitou também nossas sugestões de imagens, além das que pretendia inserir.

Casualmente, saindo um pouco do foco de Machado, conversamos sobre música e literatura. Disse, com a maior naturalidade, que tinha estudado com George Steiner, sem transparecer alguma superioridade ou sapiência. Lembro que, conversando sobre literatura latinoamericana, recomendou-me Juan José Saer.

Ficou marcado o fato de Piza ter “enforcado” Jesus, quando trabalhou na Folha de S. Paulo. Virou motivo de chacota entre seus pares; alguns passavam perto dele e colocavam a mão no pescoço e outros diziam “não se preocupe, seu pescoço não está na forca”. Por distração, sim, e por proximidade de datas, era factível confundir de Tiradentes com Jesus. E depois, até uma criança de três anos sabe que Cristo morreu na cruz, principalmente, num país tão católico como o nosso.

Quando o livro sobre Machado foi lançado, a revista Veja fez uma matéria sem assinatura descendo a lenha no escritor e não na obra. Golpe baixo. Houve também uma crítica bem negativa de Luis Augusto Fischer em Zero Hora, de Porto Alegre, e outra de Wilson Martins, de O Globo. Todas foram respondidas. A melhor resposta de Piza, bem pessoal, foi dirigida a Martins: alguém que considerava Josué Montello o maior escritor brasileiro e não gostava de João Cabral de Mello Neto não podia ser bom crítico.

O que era uma qualidade, ao mesmo tempo, era um defeito: escrevia muito rápido. E, deveras, Piza deixara passar muita coisa, que também passou pelos revisores editoriais. Tinha ficado surpreso ao ficar sabendo que não havia ninguém ajudando-o, um assistente ou alguém que fosse fazendo um pente-fino à medida que escrevia. Muitos desses erros foram corrigidos na segunda edição e o livro teve boa vendagem.

Os domingos, pelo menos os meus, agora em 2012, serão diferentes. Concordando ou discordando, pulando uma coisa ou outra, sua coluna em O Estado de S. Paulo era uma fonte de informação de qualidade. Não gostava de quando falava mal do governo petista, não por questão partidária. Pulava, assim como me recuso a ler qualquer coisa de Ferreira Gullar falando mal do governo, apesar de admirá-lo quando fala de artes plásticas e literatura. Do mesmo modo, acho um horror petistas falando mal do PSDB.

O que vai ficar marcado em mim, repito, é essa impressão que tive ao conhecê-lo e, acho, que está explicitado em uma entrevista concedida ao português João Pereira Coutinho, em janeiro de 2008. Tomo a liberdade de reproduzir alguns trechos.

1. O conhecimento não é "virtude", no sentido de que não redime ninguém. Mas anima, dá prazer – e principalmente alternativa aos desprazeres. Não vejo valor inerente à ignorância. Vejo valor em não crer que haja sabedoria plena.

2. Acho que é pretensão pura, mesmo. Vontade de ser celebrado em vida e post mortem. Vontade de estar na história. O problema desses escritores não é tentarem ser Mann ou Dostoiévski, é pensarem como Napoleão. Essa vaidade besta é que os impede de ter autocrítica e de ir pouco a pouco escrevendo uma obra gradual e verdadeira, que dá trabalho, muito trabalho... Monteiro Lobato tem uma imagem que adoro: diz que o estilo é como um subproduto das buscas do autor, como o cheiro que surge na fruta madura. Diz mais, diz que isso só acontece perto dos 40 anos na prosa. Pode conferir: todo grande prosador atingiu o auge depois dos 30-35. Por sinal, foi com a minha idade, 38 anos (que completarei em 28 de março), que Proust se enfiou naquele quarto de cortiça para escrever a 'Recherche'. Meu azar é não ser Proust. Minha sorte é saber que não sou.

3. Muita gente pensa que arte é terapia, é confissão, é modo de ocupar os jovens com lazer em vez de deixá-los à mercê do crime. Não: artes e ideias são formas de intensificar a vida, de multiplicar nossas opções, de ir além da vidinha apoiada sobre as muletas emprego & família... Quando olho para meus livros, CDs e DVDs, penso: quanta coisa boa para (re)viver!

Como uma pequena homenagem ao Piza, coloco Almost Blue, de um dos seus preferidos – Elvis Costello –, aqui cantado pelo mestre Chet Baker.