quinta-feira, 2 de abril de 2020
Wallace Roney, vítima do coronavírus
Em poucos dias, não apenas anônimos estão morrendo em consequência da Covid-19. Dentre os músicos de jazz, outro dia, foi Manu Dibango, em 24 de março, em Paris. A pouca consideração do presidente americano Donald Trump quanto às medidas para conter a pandemia está gerando consequências sérias. Os Estados Unidos ultrapassou a China em número de mortos. E a pandemia está sendo implacável em sua maior cidade: Nova York.
Hoje, 31 de março, morreu Wallace Roney. Segundo especialistas, idosos são os mais suscetíveis à gripe. São assim considerados os com mais de 60 anos. Roney tinha 59, portanto, fora do grupo. Em menos de um mês, faria 60. Menos de três anos atrás, sua mulher, a grande pianista Geri Allen, tinha morrido, vítima de câncer.
A carreira do trompetista Wallace Roney está tremendamente ligada ao fato de, no início de sua carreira, ter sido considerado um discípulo de Miles Davis. O que poderia ter sido uma glória, pode ter sido ruim para a sua carreira. Fortemente influenciado pelo estilo de seu ídolo, pode ter sido subestimado por críticos e ouvintes do jazz, quem sabe, um pouco por preconceito. Foi inigualável em temas com andamentos lentos, um mestre nas baladas.
Gravando pelo selo Muse, desde 1987, Roney logo chamou a atenção da crítica. Em 1990, foi considerado o melhor “rising star” pela revista Downbeat. Em 1991, participou da apresentação de Davis com orquestra, regida por Quincy Jones, rememorando os registros de Gil Evans, no Festival de Montreux. O show foi em 8 de julho. Alquebrado pelas dores crônicas e com a saúde frágil, não conseguia mais tocar direito. Roney serviu de suporte, executando as partes mais difíceis. Em 26 de setembro Davis morreu, vítima de uma combinação de pneumonia, insuficiência respiratória e derrame cerebral.
Apesar de ter mais que sete mil CDs, tenho poucos de Roney, quem sabe, por esse “preconceito”, de vê-lo como um sub-Miles, da época de seu grande quinteto formado por Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams.
Bom virtuose, seus solos lembram muito Miles. Pelo menos, é o que penso ao ouvir “No Job Too Big or Small” (Muse, 1999) e até mesmo registros menos mainstream, como “If Only for One Night” (HighNote, 2010), em que Aruán Ortiz toca sintetizadores, clavinetes e piano elétrico, com a bateria funkeada de Kush Abadey. Em seu último álbum — “Blue Dawn - Blue Nights” —, acontece o mesmo.
Outro álbum que remete à Davis é “In an Ambient Way” (2015), por razões óbvias. É uma releitura de “In a Silent Way”.
Quando Herbie Hancock resolveu fazer “A Tribute to Miles” (Quest Records, 1994), com os membros originais do quinteto — ele, Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams —, advinhe quem foi o trompetista convidado?
O estilo muito calcado em Miles foi a cruz de Roney. Na última votação dos melhores do ano, pela Downbeat, seu nome sequer consta na lista dos vinte melhores, quem sabe, pelo grande número de trompetistas muito bons, contemporâneos ou um pouco mais novos que ele, como Dave Douglas, Wynton Marsalis, Roy Hargrove, morto recentemente, com menos de 50 anos, Tom Harrell, Terence Blanchard e Nicholas Payton. Mas a morte faz coisa e os jornais adoram um adjetivo engrandecedor. Nos obituários, consideram-no uma lenda. Menos: foi um grande músico. É suficiente para enaltecer qualquer um.
O meu preferido
Por razões óbvias, por ser brasileiro, o meu álbum de Wallace Roney preferido é “Mistérios”. Lançado em 1994, ouvi muito na época de seu lançamento. A música título é de Joyce Moreno. “Meu Menino”, que abre o disco, é de Milton Nascimento. Ambas estão em “Clube da Esquina 2” (EMI-Odeon, 1978). Óbvio que Roney deve ter ouvido.
Com arranjos orquestrais de Gil Goldstein, “Mistérios” é um daqueles álbuns ideais para se ouvir com o seu parceiro ou parceira ao lado, refestelados em um grande sofá. Romântico? Sim. E o que há de mal um clima romântico? Não há nenhum standard. Na lista, além dos brasileiros citados — o outro é Egberto Gismonti, com “Café” e “Memória e Fado” —, temos dois temas de Pat Metheny, dois de Jaco Pastorius, um de Astor Piazzolla e uma de Dolly Parton.
Ouça “Mistérios”.
Ouça o belíssimo “Meu Menino”.
“Café”, de Egberto Gismonti.
“Little One” é uma das músicas de “E.S.P.”, um dos meus preferidos do quinteto formado por Shorter, Hancock, Carter e Williams. A interpretação desse tema em “A Tribute to Miles Davis” é maravilhosa. Todos se superam, inclusive Wallace Roney.
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