quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A guitarra impressionista de Jakob Bro

Paul Motian (esq.) e Jakob Bro
Paul Motian passou a ser conhecido quando participou do, provavelmente, melhor trio piano/ baixo/ bateria de todos os tempos. São clássicos os discos de Bill Evans, Scott LaFaro e ele. Outra fase importante foi quando tocou com Keith Jarrett, na década de 1970. Passagens por essas bandas moldaram o som da bateria de Motian.

Como líder gravou vários álbuns pela ECM, JMT e Winter & Winter. Fugindo do padrão trio ou quarteto, montou várias bandas com mais de um músico tocando o mesmo instrumento. Em Flight of the Blue Jay (Winter & Winter, 1997), conta com dois guitarristas e dois saxofonistas, cada qual, em um dos canais: Kurt Rosenwinkel (canal esquerdo) e Brad Schoeppach (direito), e Chris Potter (esquerdo) e Chris Cheek (direito). Motian não é pioneiro em fazer isso. Ornette Coleman, em Free Jazz (Atlantic, 1961), gravou com dois quartetos, um no canal esquerdo e outro no direito.

Em Garden of Eden (ECM, 2006) são dois saxofonistas (Chris Cheek e Tony Malaby), três guitarristas (Steve Cardenas, Ben Monder e Jakob Bro), o baixista Jerome Harris e ele na bateria.

Um dos guitarristas de Paul Motian, Jakob Bro, vem gravando regularmente como líder desde 2003 e tem usado a mesma “fórmula” de seu mestre. Enquanto vivo, Motian era o seu baterista. Não participou do primeiro nem do segundo, mas nos seguintes Pearl River (2007), The Stars Are All New Songs vol. 1 (2008) e Balladeering (2009), sim.

Jakob Bro é um guitarrista diferente. Seu estilo lembra o de John Abercrombie. E é diferente porque não é um solista, na velha tradição. Faz uma música de texturas, de camadas sobrepostas formando teias sonoras. Sua guitarra não “briga” com a de Bill Frisell. Complementam-se.

Suas composições são como pequenas peças camerísticas em que os instrumentos “conversam” uns com os outros. Uma presença importante em Balladeering e no último álbum – December Song (Loveland Records, 2013) – é a do lendário Lee Konitz. O americano é uma das principais figuras do nascimento do cool jazz e, antes disso, foi da banda do pianista Lennie Tristano. Passou pelo bop, pelos movimentos avant garde e nem ele deve saber o número de participações em gravações de outros músicos nos seus 86 anos de vida.

Em Balladeering, temos ainda Motian. Como espécie de tributo ao mestre, Bro, em December Song (Loveland Records, 2013), prefere uma formação sem a bateria, como fez no anterior Time (2011). Não abre mão, no entanto, de contar com mais um guitarrista, seu parceiro de anos, Bill Frisell. E o resultado é pra lá de interessante. 


Confira em Vraa, de Balladeering.







Veja um trecho da gravação de Vraa, no Avatar Studios, em Nova York. Grande Lee Konitz!







A seguinte é muito boa também: Starting Point, na versão acústica. Preste atenção nos violões de Bro e Frisell.







Veja Bro com Lee Konitz, Bill Frisell, Craig Taborn, Ben Street e Thomas Morgan nas gravações de Vinterymne, de December Songs, o mais recente; com direito a rápido depoimento do mestre Lee Konitz.





terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Fabiano Araújo e seu Rheomusi: coisa boa

Arild Andersen e Fabiano Araújo, em Portugal
Um nome como Fabiano Araújo é comum e quando se busca nos googles da vida, vemos que ele é cantor sertanejo, fotógrafo e designer, dono de uma empresa de entretenimento e promotor de festas infantis, dentista, lutador de jiu-jitsu, engenheiro formado pela UnB… e músico.

O Fabiano Araújo, de quem falo aqui, fez engenharia, largou o curso no meio e foi estudar música, sua verdadeira vocação, na Unicamp. Do pouco que se sabe, é que depois passou a morar em Vitória e lançou Aleph, em 2008, inspirado em Jorge Luis Borges, com certeza. Elogiado pelo jornal O Globo, o disco foi considerado um dos melhores do ano. Atualmente, está na Universidade Federal do Espírito Santo, no Departamento de Teoria da Arte e da Música. Buscando-se no YouTube, descubro mais uma coisa: foi elogiado por Hermeto Pascoal e estão disponíveis alguns vídeos com apresentações suas.

Em 2011, foi lançado Rheomusi, distribuído aqui pela Tratore. O que me chamou a atenção foram os músicos que tocam com Fabiano: Naná Vasconcelos e Arild Andersen. Este último é considerado um dos melhores contrabaixistas da Europa. Gravou cerca de 70 álbuns como líder e sideman. Naná conhece bem o norueguês. Os dois tocaram juntos em vários álbuns da ECM. Não faço a mínima ideia de como foi feita a costura para a gravação de Rheomusi. Sei apenas que deu certíssimo.

Em Rheomusi, todas as composições são de Fabiano, com exceção de Hyperborean, de Andersen.
Ouça.




Linda música, não? O resto é muito bom. Fabiano toca, além do piano, acordeão. O álbum lembra o que se convencionou chamar-se “ECM sound”. Percebe-se o gosto dele pelo jazz europeu, climático, meio frio, mas de belíssimo gosto.

Uma das mais belas composições de Araújo é Norte. Ouça.



Veja Fabiano Araújo em apresentação em 1996.




Veja Arild Andersen no contrabaixo em apresentação de 2011, com Fabiano Araújo e Naná Vasconcelos, no aniversário da cidade de São Paulo.




Fabiano toca Hermeto Pascoal.