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quinta-feira, 22 de março de 2018

A rosa e e.e. cummings

A rosa. Técnica mista sobre papel.
Na época em que cursava a FAU-USP, conheci a poesia de e.e. cummings, provavelmente, por intermédio de Augusto de Campos, em algum jornal, a Folha de S.Paulo, imagino, em seus cadernos matinais de cultura. Cursava uma matéria optativa em que o tema eram livros. Fiquei amigo do Haron Cohen, um dos professores, em razão do interesse por livros, não apenas pelos seus conteúdos, mas pelos projetos gráficos.

Em algum momento, e.e. cummings entrou na roda. Contou-me sobre uma edição que saíra pelo Ministério da Educação, em 1960, com dez poemas do americano traduzidos por Augusto de Campos. Lembro-me de que a primeira troca que fizemos foi com “Seis Contos da Era do Jazz”, de Scott Fitzgerald, que guardo até hoje. Fiz uma cópia do livro de e.e. cummings e troquei uma “Bio. Autobiografia de Jorge Luis Borges”, de Juan Fresán, um livro de imagens e texto sobre o escritor.

O livro editado pelo Serviço de Documentação do Ministério da Educação, continha os dez poemas e várias correspondências trocadas entre Cummings e Augusto de Campos. explicativas do método de compô-las nas páginas. A máquina de escrever era um instrumento importante da poesia dele. Não havia nela o que existe na tipografia dos computadores e na fotocomposição, que é a compensação de espaços entre as letras. Essa não variação da entreletra, é conhecida como “monospaced”, ou em português, “mono-espaçado”. Quase toda poesia do americano está baseada na construção gráfica que resulta do mono-espacejamento. Raramente usava letras em caixa alta (maiúsculas) – até no nome, grafado sempre em letras minúsculas –, ao quebrar as palavras dava a elas outros sentidos, e, depois da pontuação, com frequência não abria um espaço. Era a sua grande originalidade e que atraiu os nossos poetas concretistas, que se valeram muito do aspecto gráfico para construir as suas poesias.

Veja na ilustração que os espaços são determinados pelos pontos assinalados.



Em uma poesia tão construtiva, o aspecto formalista predomina e é normal que se pense em uma literatura fria, mas, ao mesmo tempo em que é engenhoso em descrever o salto de um gafanhoto, como no poema acima, cummings tinha uma enorme veia lírica, que se extravasava em amor e sensualidade. Um exemplo é o poema abaixo.


somewhere i have never travelled,gladly beyond

somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

terça-feira, 27 de novembro de 2012

As montanhas moventes de Billie Holiday e de Gal Costa

Gal Costa, Billie Holiday e as flores
Mover montanhas, o inamovível. “Inamovível” porque não existe “imovível”. Esta palavra seria um neologismo, como a expressão “imexível”. Por que não serem agregadas à língua portuguesa? Apesar de “inamovível” possuir um sentido levemente diferente, significa sim, “o que não se pode mover”, ou melhor, “que não pode ser removido”, segundo o Aurélio.

Pois, se alguém diz que moverá montanhas, esse alguém dirá que a chamam de louca. Verdade. E montanhas não são “moventes” pois elas, por si, não se movem. Podem ser removidas, mas quando canta “eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei”, promete o impossível, assim como quando diz “eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei”. Sim, diz que é louca, “louca de amor eu serei”. Mas não se diz que o amor não conhece limites?

Crazy He Calls Me é de autoria de Carl Sigman (música) e Bob Russell (letras). Foi composta na metade final da década de 1940. O registro mais antigo que conheço é o de Billie Holiday. Gravada em 21 de novembro de 1949, o arranjo é de Gordon Jenkins. Logo que foi contratada pela Decca, os arranjos de orquestra ficaram a cargo de Toots Camarata, músico da casa. Mas isso foi em 1944. Nos registros de 1949 a coisa melhorou bem. Além de Jenkins, outro bambambã – Sy Oliver – foram os arranjadores.

Poeta e ensaísta, Augusto de Campos, tradutor de Stephane Mallarmé, Paul Valéry, W.B. Yeats, John Keats e e.e. cummings, tem seu nome ligado à música popular brasileira pelo poema de John Donne – Elegie: Going to Bed –, intitulada, simplesmente, Elegia, musicada por Péricles Cavalcanti e cantada por Caetano Veloso, e por duas “versões” (em vez de “tradução”, é o que se usa normalmente, se bem que não cabe bem a Augusto de Campos) que foram lançadas em Caras e Bocas (1977), álbum de Gal. Esse disco é posterior ao primoroso Cantar (1976).

Apenas para completar: Augusto de Campos é autor de Balanço da Bossa e Outras Bossas (Perspectiva), uma publicação capital para se entender o período da MPB dos anos 1960 e 70.

Solitude, clássico de Duke Ellington, não teve o título vertido para o português, dada a força da palavra no original. Na versão original, vários versos são rimados, como em “Dear Lord above/ Send back my love”, ou “I sit in my chair/ And filled with despair/ There’s no one could be so sad”. É quase impossível uma tradução repetindo certas rimas. O brasileiro chega perto nos versos: “Eu sento e espero/ E me desepero”.

Transcrevo a letra de Augusto de Campos: “Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei/ Louca me chamam/ 
Sim, sou louca/ Louca de amor eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como o ar que move a palha/ E abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso lhe ensinar/ Eu te darei pra sempre/ 
Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei.”

Ouça Louca Me Chamam na bela interpretação de Gal.




Interpretações no original

Grande Anita O’Day! Cantava muito.



Uma interpretação que não fica devendo à de ninguém é a de Dinah Washington. É de 1954 e tem um lineup de primeira: Herb Geller no sax alto, Richie Powell no piano; George Morrow no baixo e Max Roach na bateria. A gravação é de 1954.



Billie Holiday.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Louca me chamam Gal Costa e Dinah Washington

Simplesmente, Gal
Em Caras e Bocas, tremendo disco de Gal Costa, o poeta e (grande) tradutor Augusto de Campos foi parceiro de Carl Sigman, Bob Russell, Irving Mills, E. de Lange, Duke Ellington e Bob Dylan. Suas incursões são sempre benvindas. Foi sempre genial traduzindo poetas difíceis como Stephane Malarmé e o americano superlativo e.e. cummings, mas sempre teve olho para manifestações consideradas menos nobres como a poesia provençal ou a música popular brasileira (é autor do fundamental Balanço da Bossa e Outras Bossas, Editora Perspectiva, 1974). A tradução – ou versão – de composições do cancioneiro popular existe desde sempre. Basta lembrar de All of Me, que virou Disse Alguém, na versão do multitalentoso (aventurou-se pelas rádios, foi redator de programas de TV e de uma coluna de turfe em O Globo, e compositor, em preciosas parcerias, de clássicos como De Conversa em Conversa, Pra Que Discutir com Madame e Tintim por Tintim) Haroldo Barbosa. Essa prática se disseminou em versões, às vezes pavorosas, de sucessos populares da música internacional, cantadas por Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis, Ronnie Von e Os Fevers, em que, por exemplo, Girl, de Lennon & McCartney, virava Meu Bem. Não cabe ao Brasil, porém, a exclusividade de criar versões de sucessos em inglês na língua pátria.

Não foram meros acasos suas versões contidas em Caras e Bocas (Philips, 19xx). Foi partícipe ao ver incorporado um poema de John Donne traduzido por ele, em música de Péricles Cavalcanti, ser cantada por Caetano Veloso (Elegia). O namoro de Caetano com o concretismo foi bem sério e inúmeras interações aconteceram, como no poema Pulsar, de Augusto de Campos, ou em composições de Caetano Veloso como Batmacumba (parceria com Gilberto Gil), em que a letra faz o desenho da letra “K”, Relance (1973), De Palavra em Palavra e Júlia Moreno (ambos no álbum conceitual Araçá Azul, 1972), Asa (“Pássaro um/ Pássaro pairando um/ Pássaro momento um/ Pássaro ar/ Pássaro pousa/ Pássaro repousa/ Pássaro som/ […[/ Passa voou/ Passa avoou/ Pássaro par.), do disco Joia (tinha acento agudo no “O” naquele tempo), de 1975.

Soa sempre estranho ouvir uma canção com a qual estamos acostumados com as sonoridades da língua em que foi composta (tento imaginar My Way cantada em japonês). São os casos de Solitude, de Duke Ellington, Crazy He Calls Me, de Carl Sigman e Bob Russell, e It’s All Over Now, Baby Blue, que virou, na versão de Campos, Negro Amor (é ousado esse título para algo que, traduzido, seria “Agora está tudo acabado, baby blue”). A tradução de Crazy He Calls Me foi mais fácil: “Louca me chamam”. Já “solitude” é uma palavra tão específica, que não houve outro jeito: continuou “solitude”. Na versão, sim: “solitude” virou “solidão” (“Nessa solidão/ Eu choro/ As horas que não tocam mais/ Nessa solidão/ Devoro”).

Dinah canta um espetacular Crazy He Calls Me
Lembro que, na época do lançamento de Caras e Bocas – 1977 –, estava em Salvador. Quando somos jovens, os discos “encarnam” na gente; não parávamos de ouvir (nesse tempo se dizia “ouvi o disco até furar”; explicação: o som era produzido pela agulha de diamante sobre a superfície de vinil, e ocorria um desgaste por atrito mesmo) os lançamentos, se os tivéssemos à mão. Na casa em que ficamos tinha esse disco de Gal. Todo mundo lá cantava de cor (bem que podia ter um acento agudo aqui para soar foneticamente correto, mas o “cor” vem de “coração”, segundo um amigo) o disco todo. As que mais adorava eram, justamente, Louca Me Chamam, e a última Um Favor, de Lupicínio Rodrigues. “E refletindo um segundo/ Resolvi pedir ao mundo/ Que me fizesse um favor/ Para que eu não mais chorasse/ Que alguém me ajudasse/ A encontrar meu amor/ […]/ Quem puder gritar que grite/ Quem tiver apito, apite/ Faça esse mundo acordar/ Para que onde ela esteja/ Saiba que alguém rasteja/ Pedindo pra ela voltar.” Maravilhoso. Ouvir Lupicínio, às vezes, faz mal, mas é sempre maravilhoso.


O melhor Crazy He Calls Me. A coisa do “melhor” será sempre uma discussão. Os fãs mais fanáticos de Billie Holiday poderão até dizer que não sei de nada, mas minha preferida é a de Dinah Washington. Não é possível se esquecer a de Anita O’Day. Até onde eu sei, Gal Costa é a única a ter cantado Louca Me Chamam.

Dinah Washington canta Crazy He Calls Me.




Gal Costa canta Louca Me Chamam.




A letra de Louca Me Chamam, por Augusto de Campos.

Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser, moverei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor, eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser, andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor sou eu