Rubisa Patrol, de Art Lande, é um dos meus “desert island discs”. Saiu em 1976 pela mesma gravadora de Keith Jarrett e Pat Metheny, a ECM. Manfred Eicher não montara apenas uma gravadora. Era um conceito. Não era jazz americano, apesar de seu primeiro lançamento ter sido o do pianista americano Mal Waldron (sobre ele leia http://bit.ly/VJ6Etf). A bem da verdade, o ex-acompanhante de Billie Holiday, após uma crise nervosa e um hiato de seis anos (1963-1969) longe da cena musical, já estava morando na Europa, Alemanha primeiro e depois, Bruxelas, se não me engano. Tornara-se europeu por adoção, ou melhor, um cidadão do mundo. Por conta de ser casado com uma japonesa, até que arranhava um pouco nessa língua, o que foi presenciado com o meu amigo Takashi Fukushima quando veio ao Brasil.
Depois de “descobrir” Rubisa Patrol, procurei outros títulos do americano que, até então, não conhecia. Tenho todos os lançados pela ECM – Red Lanta (1973), Desert Marauders (1977), Skylight (1981), We Begin (1987) e Shift Wind (1980) –, mas nenhum deles estava à altura do disco de 1976.
Red Lanta, anagrama de seu nome, foi o primeiro álbum de Art Lande, em duo com Jan Garbarek. We Begin é um duo com Mark Isham, Skylight é com o vibrafonista Dave Samuels e o mutisopreos Paul McCandless, Shift Wind é em trio com Gary Peacock e Eliot Zigmund, e Desert Maurauders, com o Rubisa Patrol, mas com Kurt Wortman na bateria, em lugar de Glenn Cronkhite.
Rubisa Patrol, nome de sua banda também, era composta por Mark Isham (trumpete, flugelhorn, sax soprano), Bill Douglass (contrabaixo, flauta de bambu) e Glenn Cronkhite (bateria e percussão), além de Lande.
É difícil classificar Rubisa Patrol como jazz. É música instrumental, é a sintaxe puramente musical entre melodias quase sempre invernais e introspectivas.
De 1976 até 2015, vai um bom tempo, mas é possível ainda ouvir o disco com prazer. Não envelheceu porque não seguiu alguma tendência da época. As músicas são como paisagens que visitamos ao ouví-las, desde o seu início com Celestial Guests, tema tradicional chinês em solo de ti-zu, flauta feita de bambu, seguida de Many Chinas, de autoria de Isham. Em Jaimi’s Birthday Song, duo de Bill Douglass na flauta transversal e acompanhamento de Art ao piano, estamos em outro momento. É sublime e mágico, assim como Romany, composição de Cronkhite, com destaque para o flugel de Isham e solo de Lande, excepcionais. Logo depois, como um interregno, Bulgarian Folk Tune, dá uma pequena quebrada breve de um minuto, a única mais uptempo. Seguimos outros belos momentos com Corithian Melody, For Nancy, outro take de Jaimi’s Birthday Song, para terminar com a bela A Monk in His Simple Room. Esse título serve como comentário ao disco: Rubisa Patrol tem uma beleza monástica.
Michael G. Nastos da Allmusic conferiu-lhe 4½ estrelas escrevendo que, um dia, Rubisa Patrol será considerado como uma das gravações ECM clássicas de todos os tempos. Ele tem razão.
A ausência de uma bateria faz uma diferença danada. Principalmente, se for com Stacey Kent. Sua voz é um convite para refestelar-se no sofá bebendo um vinho, o que não significa, de modo algum, que seja “easy listening”.
O que a diferencia da maioria das outras cantoras é a sua formação e de como isso influenciou sua trajetória profissional. Formada em Literatura, mudou-se para a Inglaterra com o intuito de fazer Literatura Comparada. Estudou na London's Guildhall School of Music and Drama, onde conheceu Jim Tomlinson, com quem se casou. Foi o que ajudou-a a escolher o que ia fazer.
Lançou o primeiro disco em 1997 pelo selo Candid. No círculo londrino, apresentou-se em clubes tradicionais como o Cafe Boheme e no Ronnie Scott’s. Depois de seis álbuns bem sucedidos por esse selo, ganhou notoriedade maior com Breakfast on the Morning Tram.
Até então, cantando basicamente standards do cancioneiro americano, no primeiro álbum pela Blue Note, as transformações são significativas. O interesse pela literatura e a amizade com o premiado Kazuo Ishiguro, autor de Vestígios do Dia (Remains of the Day), inauguram a parceria de escritor com Jim Tomlinson.
Kent e Ishiguro
Obviamente Kent tinha lido livros de Ishiguro e o admirava. Ishiguro, fã e grande conhecedor de jazz, convidado a participar do programa de rádio ”Desert Islands Discs”, tinha de elencar suas oito canções favoritas. Billie Holiday e Ella Fitzgerald, com certeza, estavam na lista. Incluiu Stacey Kent. Tendo-a visto cantar uma vez e ouvido dois de seus discos, sentiu algo de especial na forma em que interpretava clássicos que tanto admirava desde jovem.
Kent, ao saber disso, resolveu escrever uma carta agradecendo-o, dizendo que gostara muito de Remains of the Day e Never Let Me Go. Esse título é uma clara evidência de seu gosto pelo jazz; é o nome de conhecida composição de Jay Livingston e Ray Evans. Passaram a corresponder-se por e-mail. A cantora pediu-lhe um texto para as “liner notes” do álbum que faria com músicas de autoria de Richard Rodgers, In Love Again (Candid Records, 2002). Nasceu assim, lembrando Casablanca, uma bela amizade e uma grande parceria.
Em Breakfast on the Morning Train (Blue Note, 2007), das doze canções do disco, quatro são com letras de Ishiguro e música de Jim Tomlinson, marido e saxofonista de Stacey. Nesse álbum, evidencia-se seu interesse crescente pela música brasileira e pela francesa. So Many Stars, de Sergio Mendes, e Samba Saravah, composição de Baden que recebeu enorme acolhida na França depois de Pierre Barouh tê-la cantado em Um Homem e Uma Mulher, eram as “brasileiras”, ou melhor, de brasileiros. Além delas, dentre outras, fazem parte Never Let Me Go – referência a Ishiguro, imagino – e duas composições de Serge Gainsbourg.
Dentro dessa linha de desenvolvimento, seu próximo CD, Raconte moi… (Blue Note, 2010) é composta de músicas cantadas em francês, sendo algumas de autoria de Benjamin Biolay, considerado o Gainsbourg da nova geração. Duas, apesar dos títulos em francês são as exceções: Les eau de mars (Águas de Março) e C'est le Printemps (It Might As Well Be Spring).
O propósito de aprender português por Jim e Stacey era sério. Vieram ao Brasil várias vezes e tiveram como “professor particular” o poeta português António Ladeira. Em Changing Lights (Parlophone, 2013), 70% do disco é de música, vertida ou não, de autores brasileiros ou portugueses, no caso, Ladeira que, além de professor, tornou-se parceiro em Mais Uma Vez,Tarde e Chanson Légère, com Tomlinson. Pelo lado brasileiro estão Tom Jobim, João Bosco, Marcos Valle, Roberto Menescal e Dori Caymmi. Contam também com mais três com letra de Ishiguro.
Tenderly
Depois de álbuns com várias referências literárias, músicas cantadas em três línguas diferentes, composições próprias, temas mais contemporâneos, Stacey resolveu dar uma relaxada. Tenderly é composto de clássicos do repertório americano.
Em comemoração aos 50 anos da carreira, Marcos Valle gravou um belíssimo álbum com Stacey, lançado em 2013. Em Changing Lights, há a participação de Roberto Menescal em dois números tocando violão.
Menescal, antes de tornar-se executivo na gravadora Philips, foi um dos fundadores do movimento da bossa nova. Autor de inúmeros clássicos, em sua maioria, em parceria com Ronaldo Bôscoli, nunca deixou de ser músico. Depois de sair da Philips, montou o estúdio Albatroz com o filho. Misto de produtor, músico e compositor, é o maior responsável pela propagação da bossa nova. Admirado por cantoras, que adoram tê-lo ao lado na condição de acompanhante e parceiro, lançou muitos discos no mercado japonês e é, com certeza, com seu jeito relaxado e despretensioso, um dos gênios da música. Seu jeito de tocar o violão e a guitarra elétrica, sem efeitos, abrilhantam qualquer música.
Ao vê-lo casualmente em de suas inúmeras vezes em que veio ao Brasil, no show Cristo Redentor 80 Anos exclamou: “Roberto!”; ao que ele respondeu: Stacey!” Depois, passaram a se comunicar com frequência. Stacey o queria para alguns números de Changing Lights. Ligou para ele. Menescal contou que, quando Tom Jobim ligava, já sabia que queria encontrá-lo. Antes que Tom completasse alguma frase, respondia: “Tô indo”. Sabia que era por isso que Tom ligara. Terminando de contar a Stacey, respondeu: “Estou indo.”
Em Tenderly, a participação de Menescal foi diferente. Tocando guitarra elétrica, com Jim Tomlinson no saxofone tenor e na flauta, e Jeremy Brown, propuseram-se a fazer um disco de standards. A única exceção é Agarradinhos, de Menescal e Rosália de Souza. A escolha do título é em razão do elo de Tenderly com o Brasil. O primeiro intérprete da hoje conhecidíssima composição de Jack Lawrence e Walter Gross, foi Dick Farney, quando morou nos EUA.
Tenderly, cinco estrelas pela publicação The Guardian e quatro estrelas pela Downbeat, como disse acima, é um daqueles discos tranquilos e tremendamente prazerosos de se ouvir. Menescal, com a experiência de meio século acompanhando cantoras e o talento natural, é cúmplice desse clima. Tem um modo tranquilo de tocar, é um carioca da praia, de fala mole, que adora o mar. Gosta tanto que só se chega ao seu estúdio de barco. Ele transpira esse sossego. Jeremy Brown é um acompanhante discreto no contrabaixo acústico, Jim é exato em seus comentários musicais no sax tenor e na flauta. E Stacey, é Stacey. Sua voz pequena é sempre elegante e suas intervenções em canções que o mundo já cantou, sempre trazem algo original. Não é à toa que Kazuo Ishiguro a escolheu, com Billie Holiday e Ella Fitzgerald para o seu “desert island discs”.
Ouça Embraceable You.
If I’m Lucky é um dos destaques.
Tenderly, a música título, é excepcional com Kent e Menescal.