quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Não canso de ouvir o último de Lizz Wright

Depois de um hiato de cinco anos, Lizz Wright retorna com Freedom & Surrender. Nesse período, comprou um terreno de 28 acres à beira das Great Smoky Mountains, um dos parques nacionais americanos mais conhecidos, no estado da Carolina do Norte, e está de gravadora nova. No meio do caminho não faltaram desilusões amorosas. O sofrimento sempre foi um bom caldo para a inspirações artísticas.

Em fevereiro deste ano, cerca de uma semana antes de entrar nos estúdios para gravar o novo álbum, Lizz estava na estrada e seu carro deslizou pela neve em uma curva e só parou em uma árvore. Até aparecer um vizinho que tirou-a do carro, passaram-se uns 20 minutos. Durante dois dias só ficava lembrando do carro deslizando vagarosamente pela neve. E percebeu que a sua vida também se movia lentamente.

O acidente serviu para que entrasse com outra disposição no estúdio. Tinha se reunido algumas vezes com Larry Klein, que seria seu produtor e com David Batteau, um de seus parceiros nas composições que entrariam no disco.

O time escolhido era composto por músicos que trabalham frequentemente com Klein: o guitarrista Dean Parks, o baterista Vinnie Colaiuta, os tecladistas Kenny Banks e Pete Kuzma, e o baixista Dan Lutz. Além deles, contribuiram para o disco Till Brönner (Till Brönner (outro parceiro costumeiro de Klein) e o tecladista Billy Childs.

Um dos talentos do ex-marido de Joni Mitchell, produtor de álbuns de Melody Gardot, Madeleine Peyroux, Till Brönner e Luciana Souza, sua atual mulher, é o de fazer discos consistentes instrumentalmente, criando sons que combinam à perfeição as suas vozes. Não foi diferente com Freedom & Surrender.

Lizz Wright é gospel? Lizz Wright é jazz?


Em entrevista à Downbeat, lançada neste mês (com data de janeiro de 2016), Lizz diz não se considerar uma cantora de jazz. Não se sente confortável com essa classificação. Diz que suas influências abarcam uma série de gêneros como a música afro-americana dos séculos 19 e 20, o blues tradicional, folk e o pop contemporâneo. Se existisse uma classificação mais precisa, o gênero seria a música gospel, bem evidenciada em Fellowship. O problema para nós (ou meu, mais especificamente) é o preconceito em relação a esse gênero. Recuso-me de ouvir a música chamada gospel brasileira. Mas essa questão fica um tanto delicada quando se trata do gospel americano. Sabidamente, grande número de cantores e cantoras da América do Norte cresceu em ambientes religiosos. Lizz, no caso, é filha de pastor.

O álbum

Lizz, inicialmente pensou em um disco com canções de amor. No ano e meio em que foi gestado, as composições foram desenhando um outro rumo, refletindo o que vivenciou depois de Fellowship. O título é a representação dessas passagens. Sintomaticamente, começa com Freedom e termina com Surrender. E o recheio é de grande qualidade. A voz aveludada, sensual, combina perfeitamente com a instrumentação, cheia de nuances, notas elegantes de guitarra, backing vocals localizados, toques de Hammond, pianos elétricos Fender Rhodes e discretas percussões.

Um bom exemplo das delicadezas sonoras de Larry Klein, combinando a voz quente, comparada ao sabor de um bourbon envelhecido por um crítico é Lean In. Estão lá as guitarras de Parks, intervenções esparsas de órgão e backings discretos.




Dentre os covers, com direito até a To Love Somebody, dos Bee Gees, muito boa é River Man, clássico cult de Nick Drake, que conta com a participação de Till Brönner.




Mas, bom mesmo é The New Game. Ouça.




Infelizmente, não foi possível incorporar a apresentação de Lizz Wright, sensualíssima, com uma blusa preta bem decotada,, cantando The New Game no programa de Jools Holland. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=uqJevfXy0oY


Há um belo duo com Gregory Porter, o cantor do momento, em Right Where You Are. A ideia da composição, feita em parceria com J.D. Souther, veio enquanto corria em Venice Beach em uma de sua idas a Los Angeles para encontrar-se com Larry Klein. Assista no link https://www.youtube.com/watch?v=vokPCNFARwE


Outro destaque é Somewhere Down the Mystic. Começa bem climática, com violões e guitarras sobrepostas, backings vocals. O maior prazer de ouvir Freedom & Surrender é ir percebendo novas sutilezas sonoras a cada audição.



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Solveig Slettahjell, uma voz que vem da Noruega

Até hoje, não sei como se pronuncia o seu nome. Fico a pensar se o “S” inicial tem o som do “Z” em português, e fico a imaginar que o “veig” final é “vaig” ou “faig” ou “vig”. Se tento decifrar a pronúncia do primeiro nome – Solveig –, do sobrenome, nem ouso: Slettahjell. Mas, quando canta, torna-se universal, seja cantando em norueguês, sua língua natal, o que faz muito pouco, ou em inglês, que é o “esperanto musical”.

A Escandinávia possui forte tradição no jazz. Um dos clubes mais importantes na história do jazz foi (não sei se existe ainda) o Cafe Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca – e não na França, como escreveu certo crítico em certa feita. Bebo Valdés, Stan Getz, Don Cherry e Ben Webster residiram na Escandinávia. Resultou em uma cultura local influenciada pelo jazz, até na Finlândia, país que foi politicamente mais próximo à União Soviética e, por isso, menos permeável às “artes degeneradas”.

Um bom número de músicos, além dos citados acima, fizeram da Europa sua morada, para fugirem da perseguição da polícia, por conta do consumo de drogas, e pelo racismo. Músicos perdiam suas licenças para tocarem em clubes e assim não tinham como sobreviver.

Invasão viking
Em 1969, foi fundada a gravadora ECM, com o álbum Free at Last, do “expatriado” Mal Waldron. Ao juntar jazzistas americanos e americanos no estúdio, de certo modo, Manfred Eicher ajudou na criação de novas sonoridades. Não agradou os puristas, mas uma nova geração passou a gostar de música instrumental com o que, pejorativamente, ficou conhecido como “som ECM”. Foi assim que muitos conheceram Jan Garbarek, Bobo Stenson e Terje Rypdal, músicos que “vieram do frio”.

Rolou uma boa água e uma das boas gravadoras atuais que ajudam a conhecer nomes novos é a também alemã ACT Music. A invasão escandinava continua com muitos músicos de talento. Foi por meio de seu catálogo que cheguei em Solveig Slettahjell.

Seus primeiro álbum solo se chama Slow Motion Orchestra, que é de 2001. É um disco de standards, basicamente. Manteve uma banda com o nome de Solveig Slettahjell Slow Motion Quintet. Alguns foram distribuídos pela ACT. Lançando por outras posteriormente, no ano passado, participou de um álbum da série Jazz at the Berlin Philharmonic, com com Bugge Wesseltoft, Knut Reiersrud, e o trio In the Country.

Agora, em 2015, com os mesmos Knut Reiersrud e o In the Country, saiu Trail of Souls. As músicas escolhidas são todas em tons menores. É a sua especialidade. Significativamente, sua antiga banda se chamava Slow Motion. Solveig é “slow motion”, e é para se ouvir nessa velocidade. Sua voz lembra um pouco a de Annie Lennox, mais ou menos com a mesma voltagem dramática. As primeiras quatro faixas são excepcionais (Borrowed Time, Grandma’s Hand, Mercy Street e Sometimes I Feel Like a Motherless Child). Se são tão boas, isso não significa que o resto seja pior. O CD é todo bom. Se puder, compre. A guitarra de Knut Reiersrud, sempre discreta, dá um colorido muito original às interpretações da norueguesa.

Assista ao promocional, com Borrowed Time, a faixa de abertura.



A melhor mesmo é Grandma’s Hands, do grande Bill Withers. Ouça.



De seu primeiro solo, ouça Wild Is the Wind.



O grande destaque, no entanto, é sua bela interpretação de Beautiful Love, com Morten Qvenild, o mesmo pianista de trio In the Country.



Boa parte do repertório de Solveig é constituída de canções do pop. Uma das mais conhecidas é Wild Horses, de Mick Jagger e Keith Richards.



Take It With Me, de Tom Waits, é um número que faz parte de Jazz at the Berlin Philharmonic. Essa apresentação é mais antiga. É de 2007.



Dos clássicos moderno que todo mundo gosta, ouça Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen.