Em fevereiro deste ano, cerca de uma semana antes de entrar nos estúdios para gravar o novo álbum, Lizz estava na estrada e seu carro deslizou pela neve em uma curva e só parou em uma árvore. Até aparecer um vizinho que tirou-a do carro, passaram-se uns 20 minutos. Durante dois dias só ficava lembrando do carro deslizando vagarosamente pela neve. E percebeu que a sua vida também se movia lentamente.
O acidente serviu para que entrasse com outra disposição no estúdio. Tinha se reunido algumas vezes com Larry Klein, que seria seu produtor e com David Batteau, um de seus parceiros nas composições que entrariam no disco.
O time escolhido era composto por músicos que trabalham frequentemente com Klein: o guitarrista Dean Parks, o baterista Vinnie Colaiuta, os tecladistas Kenny Banks e Pete Kuzma, e o baixista Dan Lutz. Além deles, contribuiram para o disco Till Brönner (Till Brönner (outro parceiro costumeiro de Klein) e o tecladista Billy Childs.
Um dos talentos do ex-marido de Joni Mitchell, produtor de álbuns de Melody Gardot, Madeleine Peyroux, Till Brönner e Luciana Souza, sua atual mulher, é o de fazer discos consistentes instrumentalmente, criando sons que combinam à perfeição as suas vozes. Não foi diferente com Freedom & Surrender.
Lizz Wright é gospel? Lizz Wright é jazz?
Em entrevista à Downbeat, lançada neste mês (com data de janeiro de 2016), Lizz diz não se considerar uma cantora de jazz. Não se sente confortável com essa classificação. Diz que suas influências abarcam uma série de gêneros como a música afro-americana dos séculos 19 e 20, o blues tradicional, folk e o pop contemporâneo. Se existisse uma classificação mais precisa, o gênero seria a música gospel, bem evidenciada em Fellowship. O problema para nós (ou meu, mais especificamente) é o preconceito em relação a esse gênero. Recuso-me de ouvir a música chamada gospel brasileira. Mas essa questão fica um tanto delicada quando se trata do gospel americano. Sabidamente, grande número de cantores e cantoras da América do Norte cresceu em ambientes religiosos. Lizz, no caso, é filha de pastor.
O álbum
Lizz, inicialmente pensou em um disco com canções de amor. No ano e meio em que foi gestado, as composições foram desenhando um outro rumo, refletindo o que vivenciou depois de Fellowship. O título é a representação dessas passagens. Sintomaticamente, começa com Freedom e termina com Surrender. E o recheio é de grande qualidade. A voz aveludada, sensual, combina perfeitamente com a instrumentação, cheia de nuances, notas elegantes de guitarra, backing vocals localizados, toques de Hammond, pianos elétricos Fender Rhodes e discretas percussões.
Um bom exemplo das delicadezas sonoras de Larry Klein, combinando a voz quente, comparada ao sabor de um bourbon envelhecido por um crítico é Lean In. Estão lá as guitarras de Parks, intervenções esparsas de órgão e backings discretos.
Dentre os covers, com direito até a To Love Somebody, dos Bee Gees, muito boa é River Man, clássico cult de Nick Drake, que conta com a participação de Till Brönner.
Mas, bom mesmo é The New Game. Ouça.
Infelizmente, não foi possível incorporar a apresentação de Lizz Wright, sensualíssima, com uma blusa preta bem decotada,, cantando The New Game no programa de Jools Holland. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=uqJevfXy0oY
Há um belo duo com Gregory Porter, o cantor do momento, em Right Where You Are. A ideia da composição, feita em parceria com J.D. Souther, veio enquanto corria em Venice Beach em uma de sua idas a Los Angeles para encontrar-se com Larry Klein. Assista no link https://www.youtube.com/watch?v=vokPCNFARwE
Outro destaque é Somewhere Down the Mystic. Começa bem climática, com violões e guitarras sobrepostas, backings vocals. O maior prazer de ouvir Freedom & Surrender é ir percebendo novas sutilezas sonoras a cada audição.


