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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Dois encontros com Oscar Castro-Neves

Capa com o autógrafo de Oscar Castro-Neves
Uma vez, voltando de Nova York, vi um senhor calvo de barba branca, cara de boa praça. Reconheci logo. Era o Oscar Castro-Neves. Estava bem perto de mim na primeira classe da American Airlines. Sou apenas mais um membro da nova classe média do ex-presidente Lula e, pela sorte de ter uma irmã trabalhando em uma companhia ligada à empresa, tinha o privilégio de viajar na primeira classe pagando ida e volta 500 dólares. Por uma boiada daquelas, valia a pena economizar um pouco e usufruir dos confortos de enfrentar uma viagem a um país estrangeiro.

Ao vê-lo saindo do avião, do meu lado, nem assim tive coragem de abordá-lo. Não era a Madonna, mas era um dos artistas mais importantes da segunda fase da bossa nova. Já em São Paulo, dei uma olhada nos jornais pela curiosidade de saber onde se apresentaria. Não lembro agora onde foi. Mas, na segunda vez que o vi, não deixei passar a oportunidade. Era uma apresentação no Bourbon Street, de São Paulo. Depois de findo o show, foi fácil chegar nele, sendo o lugar pequeno, com o camarim do lado esquerdo do palco. Contei-lhe do encontro anterior. Não tinha só cara de boa praça; era um boa praça. Ganhei até um autógrafo na capa de seu CD Playful Heart.

Bom, na sexta-feira passada (27/9), Oscar Castro-Neves morreu em decorrência de um câncer, com 73 anos. Brilhante violonista e arranjador, trabalhou com um mundareu de gente do jazz. Quase todo disco em que alguém desejava dar um toque de brasilidade lembrava-se dele para ser o produtor, arranjador ou, simplesmente, tocando violão. A lista é infindável: Dizzy Gillespie, Bud Shank, Toots Thielmans, Lalo Schiffrin, Ray Brown, Carol Welsman, Joe Henderson e o baterista Shelly Manne são alguns.

Castro-Neves participou daquele famoso show no Carnegie Hall que apresentou a bossa nova ao mundo, em 1962. Depois de idas e vindas, fixou residência em Los Angeles e tornou-se um dos músicos mais requisitados, até em projetos incomuns como participações em gravações de Michael Jackson, Barbra Streisand, Stevie Wonder e Yo-Yo Ma. Entre os violonistas brasileiros que mais gravaram fora do Brasil estão ele e Roberto Menescal.

A maestria de Castro-Neves no violão no medley Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá) / Prelude #3 (Villa-Lobos)

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Caruso de Lucio Dalla

O Zé, ou melhor, o Zé Carlos, que foi dono de uma das melhores lojas de venda de discos e CDs de São Paulo – a Nuvem Nove –, uma vez, disse gostar da Laura Pausini. Estranhei um pouco. Entendi. O sangue italiano que lhe corre pelas veias é determinante; assim como no amigo Alberico Cilento. O Alberico se interessa por tudo, mas conhece muito música italiana. Explico melhor: o Zé, antes de ter a loja, desde sempre, até onde sei, é um expert do rock. Seguindo tal raciocínio, estranhei seu gosto por Laura Pausini. Depois de explicado, fica explicitado. Talvez, em razão de o Zé ter comentado sobre Lucio Dalla, acabei comprando um CD do italiano. Muito tempo depois, fico sabendo que Minha História é uma versão de Jesú Bambino, música de Dalla.

Agora, em 1º de março, Dalla falece. A morte é um fator natural. Pela média, faleceu precocemente – pouco antes de completar 69 antes. Um ataque (que palavra melhor pode existir para a morte) do coração, pouco depois do café da manhã, em Montreux, Suíça, o matou.

Fora o necrológio de costume e matérias nos segundos cadernos dos principais jornais, o que virou notícia mesmo foi a “revelação” de que era homossexual. A Itália, apesar de europeia, parece que tem uma das legislações mais conservadoras quanto às uniões de pessoas do mesmo sexo. A jornalista Lucia Annunziata, em seu programa, ½ Ora, na Rai 3, disse: “Os funerais de Lucio Dalla são um exemplo dos mais fortes do que significa ser gay na Itália: vai-se à Igreja, concedem os funerais e sepultam com o rito católico desde que não se diga tratar-se de um falecido gay”.

Segundo os noticiários, na missa de domingo, aglomeraram-se mais de 30 mil pessoas em frente à Basílica de São Petrônio, em Bolonha, em homenagem a um de seus mais ilustres artistas. Marco Alemanno, ator, dramaturgo e diretor de teatro, 32 anos de idade, que mantinha relacionamento amoroso com Dalla há mais de dez, anos fez um discurso emocionado e caiu em choro convulsivo.

Apesar do CD comprado há anos, conheço pouco o repertório de Dalla, mas eu e a humanidade conhecemos Caruso. Essa música, composta em 1986, vendeu mais de 9 milhões de cópias com Luciano Pavarotti; foram vendidos também 20 milhões de CDs de Romanza, de outro tenor – Andrea Bocelli –, contendo esse clássico.


O autógrafo do Oscar para mim

Caruso bossa nova.
Dentre as interpretações que conheço, gosto muito da que está no CD Playful Heart, do brasileiro radicado nos EUA, Oscar Castro Neves. Oscar é um dos pioneiros da bossa nova e é hoje um dos músicos mais requisitados no mercado americano como produtor e arranjador e, claro, como instrumentista. Participou de discos de uma infinidade de músicos do jazz e da música popular. Playful Heart (2003) é uma coleção de standards brasileiros e americanos “in bossa nova ways”. Belo disco.

Ouça o seu Caruso.


DeFrancesco em dois tempos


Caruso jazz.
A lembrança de Lucio Dalla é em razão, não apenas de sua morte, mas por tê-la ouvido no órgão Hammond B3 de Joey DeFrancesco em seu mais recente CD.

Os órgãos elétricos (ou eletrônicos?) surgiram por uma razão muito prática, imagino: são grandes e não são transportáveis. O som é inigualável e impossível de ser replicado. Não dá para se ouvir uma peça de Bach, Messiaen ou a Terceira Sinfonia de Saint-Saens tocado por um órgão que não seja de tubos.

Hoje, instrumentos de teclado portáteis e bons são comuns e produzem sons muito próximos aos do órgão antigo – chamados, muitas vezes de órgão de igreja, pois era onde eram mais encontrados. O Hammond foi criado na década de 1940 e é um instrumento de construção complexa e tem tamanho e pesos consideráveis. Além do instrumento em si, com três fileiras de teclados (incluindo os pedais, que emitem os sons mais graves), possui uma caixa onde é gerado o som, uma engenhoca analógica muito complexa. A própria Hammond produziu modelos mais leves e simples, mas o modelo B3 ficou como o preferido de dez entre dez organistas e, hoje, ainda mantém a mística.

Quando se fala em Hammond, a primeira lembrança é Jimmy Smith, falecido em 2005. Tive a sorte de vê-lo tocar alguns anos antes. Joey DeFrancesco é, no jazz, um dos mais conhecidos. Excelente no B3, toca trumpete também e registrou muitos discos pela Sony Columbia, Concord e HighNote. Gravou, inclusive, com seu ídolo, Jimmy Smith. Nascido em 1970, com menos de vinte gravou o primeiro solo (All of Me, 1989). Era um rapaz magrinho que usava óculos grandes. Hoje, deve ter um pouco menos que 200 quilos e os óculos continuam grandes. O tamanho impressiona, quase tanto quanto a sua energia e talento.

O álbum em que registra Caruso é seu mais recente. Chama-se 40 (precisa explicar por que?). DeFrancesco é acompanhado apenas por um guitarrista e um baterista.. Organistas podem fazer a linha do baixo na pedaleira que fica na base do instrumento e, muitos não sentem necessidade de um contrabaixista. É sempre interessante ver a performance de um organista. Dançam, literalmente, pois tocam com as mãos e os pés ao mesmo tempo..

Bom, basta de conversa. Vamos ouvir o Caruso, com Joey DeFrancesco.