Cantoras surgem aos borbotões. Destacar-se no meio de uma multidão não é fácil. Considerando-se que ouvimos belas vozes, afinadas, aos montes, boas na média, o diferencial é importante, até em atributos extra musicais, como a beleza, ou até a feiura.
No “66th Annual Critics Poll”, que acaba de sair, pela Downbeat com data de agosto (sai com um mês de antecedência, o que nunca entendi), o grande destaque é uma cantora. Cécile McLorin Salvant foi considerada a melhor em seu mister e emplacou o álbum duplo “Dreams and Daggers” (MackAvenue 2017), como o melhor do ano, empatado com “Happy Song” (Anzic 2017), da brilhante clarinetista e saxofonista Anat Cohen.
Se for por diferencial, Salvant é campeã: usa óculos, de cores variadas, às vezes brancos, vermelhos ou azuis, feitos especialmente, mais para gordinha, seus vestidos são coloridos, denotando ótimo gosto. Bem, nem precisava: é a melhor cantora da atualidade. É tão evidente que recebeu 282 votos e a segunda, a ótima Lizz Wright, 79.
Bom, mas o post de hoje é sobre outra cantora: Jazzmeia Horn. Novinha, com 27 anos completos, vencedora do Thelonious Monk Institute International Jazz Competition de 2015, maior revelador de novos talentos vocais, tendo estreado com “A Social Call” (Concord Jazz 2017), é a “Rising Female Vocalist” do ano, pela Downbeat, com quase o dobro de votos sobre a segunda, Dominique Eade, aliás, que não é tão “rising star” mais.
Horn pode ser comparada a Salvant. É de uma beleza africana exuberante e canta muito. Diferenciais, além da beleza? O nome, por exemplo. Não é nome artístico; é de registro. Possivelmente, o pai ou a mãe, ou quem o tenha pensado, estivesse a prever o futuro de Jazzmeia.
A começar pelo nome do álbum, a primeira influência de Horn é Betty Carter. Outras canções, como “Tight”, são as evidências. E ela, menos exageradamente — graças a deus —, é muito boa nos scats, que tão bem caracterizam as cantoras de jazz. Outra referência, naturalmente, é Sarah Vaughan, e, curiosamente, a limpidez de sua voz faz lembrar sua quase contemporânea Cécile McLorin Salvant.
Veja Jazzmeia Horn, em “Tight”.
Dentre os bons números de “A Social Call”, várias estão disponibilizadas no YouTube. Ouça a sublime “The Peacocks”, de Jimmy Rowles.
Fugindo um pouco do jazz, ouça “I’m Going Down”, do mestre do soul Norman Whitfield.
