quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Os duos de Hamilton de Holanda e André Mehmari

André e Hamilton em transe
Depois de O Que Será, lançado pela ECM, as portas para um reconhecimento internacional estão abertas para o bandolinista Hamilton de Holanda. Não apenas por esse disco, mas também por outro a ser lançado: O Mundo de Pixinguinha. O álbum contém colaborações internacionais de peso, como a do trompetista Wynton Marsalis, o acordeonista Richard Galliano, os pianistas Mario Laginha (Portugal), Stefano Bollani (Itália) e os cubanos Chucho Valdés e Omar Sosa. Nada mal para os ouvidos do mundo. Antes, em 2006, Holanda tinha gravado Samba do Avião, com participação de Richard Galliano, lançado em 2008, com “zero” de divulgação. Encontra-se esgotado e é encontrado apenas na iTunes americana. A loja brasileira nem sabe que existe esse álbum.

Tempos atrás – põe tempo aí – em um show de cantoras no Sesc-Pompeia, fiquei impressionado com o pianista e passei anos até descobrir seu nome. Se não me engano, acompanhara Jussara Freire – ou foi a Ná Ozzetti?, não sei. Em outra apresentação, reconheci seu piano e soube que se chamava André Mehmari.

Muitos discos depois e alguns shows, vi um CD do pianista com Hamilton de Holanda na Livraria Cultura. Com a diminuição dos ímpetos de consumo, comprar CDs se tornou coisa rara. Se eram de três a quatro por semana, hoje se restringe a uma média de um por mês. É muito mais fácil comprar em arquivos não físicos pela iTunes Store. Ruim é a falta de encartes e maiores informações sobre as gravações. Imaginei que um disco com os dois valeria o gasto. Contínua Amizade vale cada centavo despendido.

Ensaiaram pela primeira vez em  2004, mas gravaram o disco em dois dias de 2007. A faixa de abertura, Rosa, de Pixinguinha, tem um ritmo de valsa e não poderia ser melhor começo. A música instrumental é improviso, um diálogo entre instrumentos, algo como pergunta e resposta. Essa característica se exacerba em duos e pode virar uma “conversa” para a qual não fomos convidados e ficamos a boiar. É o risco e é o que acontece de vez em quando, não apenas nos “diálogos” de Hamilton com Mehmari, mas com Stefano Bollani também (sobre o álbum do italiano com o brasileiro, leia http://bit.ly/17xkvIv). Foi a sensação que tive em parte de Notícia, de Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Norival Bahia, a segunda. Nem tudo é assim, entretanto.

Choro da Contínua Amizade é uma das composições de Mehmari. A outra é Vivo Entre Valsas. Hamilton comparece com O Sonho e Enchendo o Latão. Uma agitada e outra, não, para contrabalançar. As mais lentas, como Acontece (Cartola), Choro Negro (Paulinho da Viola), e Tema de Amor de Cinema Paradiso, são mais interessantes. Das mais “agitadas”, Baião Malandro, de Egberto Gismonti, é o destaque. Confira.


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Di Menor, de Guinga, é uma das canções de Contínua Amizade.



Grande Choro Negro, de Paulinho da Viola.


Em 2010, a contínua amizade os uniu para gravarem um álbum em que homenageiam Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal: gismontipascoal. Três temas são de autoria de Hamilton e Mehmari, naturalmente, homenageando os nomes mais prestigiados da música instrumental no cenário internacional.

A melhor do álbum é Bebê, de Hermeto Paschoal. Grande música. No conjunto, as de Egberto são as melhores: as mais conhecidas – Palhaço, Frevo e Lôro –, Memória e Fado (belíssima) e Fala da Paixão.

Ouça Bebê.


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Veja André e Hamilton em Chorinho pra Eles, composição do pianista em homenagem a Paschoal e Gismonti.



terça-feira, 3 de setembro de 2013

Olha o Hamilton de Holanda na ECM

O barbudo é Bollani, ao lado de Hamilton
Guarda Che Luna começa com um solo de bandolim que é um deslumbre. No primeiro minuto entra um piano, timidamente, e começa a dialogar com as cordas em ritmo que vai se acelerando aos poucos. No terceiro minuto, o bandolim passa a marcar o ritmo para o solo do piano. Há algo de brasileiro, mas a composição é de dois italianos: Gualtiero Malgoni e Bruno Pallesi. No diálogo incessante, ora é a vez de um, ora do outro. Faltando menos de dois minutos para o seu final, o pianista começa a balbuciar de modo estranho. É um anti-climax. Passado o susto, é possível compreender a intervenção bem humorada do italiano.

Luiza é a próxima. Ah, Luiza, aquela do Tom Jobim? Bandolim rima com Jobim. Tem brasileiro na parada! Ah, é Hamilton de Holanda, um quase brasiliense, pois natural de Niterói, cresceu na Capital Federal. E do pianista Stefano Bollani pode se dizer que é um brasiliano. De tanto vir ao Brasil, deveriam conceder-lhe passaporte brasileiro. É só vê-lo cantando Trem das Onze para confirmar.




Bollani é um rapaz diferente. Nem tem cara de italiano com aquele “cabelo ruim”, como se dizia em tempos menos corretos. É expansivo, como muitos de seus compatriotas, e parece levar a alegria por onde passa e é instrumentista versátil. É jazz interpretando Cheek to Cheek ou It’s Only a Papermoon (I’m in the Mood for Love, 2006), italiano, em Volare e In cerca de ti, italiano operístico na ária E lucevan le stelle, de Puccini (Volare, 2002), e brasileiro em Ao Romper da Aurora, A Voz do Morro (Carioca, 2008), Canção do Amor Demais e Pois É (Falando de Amor, 2003).


A capa do CD O Que Será
O Brasil é um país pródigo em revelar bons instrumentistas nas cordas. Hamilton é considerado o melhor bandolinista atual, de uma linhagem em que se destacam Jacob do Bandolim, Déo Rian e Joel Nascimento. Em pouco mais de dez anos de carreira, gravou cerca de 20 discos, inclusive no mesmo formato bandolim–piano de O Que Será: Contínua Amizade e Gismontipascoal, com o jovem mestre André Mehmari.

O Que Será acaba de ser lançado pela ECM Records. Para Hamilton, é ótimo: é uma boa forma de ficar reconhecido internacionalmente. Dos brasileiros, apenas Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos tiveram a honra de terem seus nomes estampados na capa de algum disco dessa gravadora. Existe um terceiro brasileiro: Ricardo Villalobos, residente em Berlim, mas é um caso atípico, pois é DJ e a praia dele é a da música eletrônica.

Dos temas que ficaram registrados, além de O Que Será, temos Beatriz, Luíza, Apanhei-te Cavaquinho, Rosa, Canto de Ossanha e Caprichos de Espanha, sendo a última, composição do bandolinista. Il Barbone di Seviglia – deve ser uma brincadeira com o nome da ópera O Barbeiro de Sevilha, e será autorreferência, já que agora, além do cabelão, cultiva uma barba? –, é de Bollani. As duas restantes são Guarda Che Luna e Oblivion, de Astor Piazzolla.

Veja Bollani ao piano e Holanda no seu bandolim de dez cordas a tocar Oblivion.




Ouça o álbum dos dois.




Veja os dois em Canto de Ossanha.




Um a Zero, de Pixinguinha. Esta não está no disco.



Outra que não está no disco: Estate.




Chorinho pra Ele, de Hermeto Paschoal.