quinta-feira, 26 de julho de 2012

“L’après-midi d’un faune” e Debussy

Claude Debussy
Não vou saber precisar quando, mas acho que foi mais ou menos em uma data entre 1970 e 1975, a Brenno Rossi – ou foi a Bruno Blois? –, lojas que não existem mais, lançaram discos exclusivos de música erudita que marcaram meu gosto. Eram discos da Columbia com registros de Sinfonia, de Luciano Berio, regido por ele mesmo, e mais três LPs sob regência de Pierre Boulez: O Mandarim Miraculoso (Béla Bartók), A Sagração da Primavera (Igor Stravinsky) e La Mer e Prélude à l’après-midi d’un faune (Claude Debussy). Acho que foi lançado um de Ravel, com o mesmo regente, mas não tenho certeza. Era música do século XX, mesmo considerando que Debussy já havia composto parte representativa de sua obra antes da virada. Além da tríade Bach-Beethoven-Brahms, estava tomando contato com um tipo de música com a qual sentia uma identificação epidérmica. Era moderna, inquietante. Desde então, Debussy, Berio Ravel e Bartók passaram a habitar no reino das minhas preferências, tanto quanto o trio “BBB”.

Foi lançado, se não me engano, um álbum com obras de Boulez, regidas “par lui-même”. A obra deveria ser Le marteau sans maître. Não comprei; via com desconfiança – infundada – essa tal música que chamavam de serialista. Por esse raciocínio, não deveria comprar o disco de Luciano Berio. Mas, em rara oportunidade em que tinha um rádio ligado perto de mim (nem no carro nunca tive o costume de ouvir), portanto, não foi na minha casa, uma música me atraiu. Era Sinfonia. Devo ter corrido até a loja na primeira oportunidade para comprar o LP. O que me deixou encantado era a estrutura da peça. Eram colagens musicais fundindo discursos falados (citações de O Cru e o Cozido, de Lévi-Strauss, Samuel Beckett e Martin Luther King), adição de trechos de composições de Gustav Mahler e outras coisas que não conseguia identificar..

Apesar da força “selvagem” de Le sacre du printemps, quem me impressionou deveras foi Debussy. Por causa de L’après-midi dun faune fiz meu pai comprar uma flauta transversal de prata Yamaha, quando foi ao Japão. Entrei no conservatório. Meu entusiasmo pela flauta foi passageiro. As aulas de solfejo com o Fábio Mechetti – hoje, conhecido maestro – revelaram minha absoluta falta de senso de ritmo. Antigamente, existia uma frase para designar quando o samba estava fora do ritmo: “tem japonês no samba”. Tinha japonês fora do ritmo lá: eu. Ainda bem que essa escrita não se aplica a Mitsuko Uchida ou a Seiji Ozawa. A flauta ficou guardada por alguns anos. Quando precisei de uma graninha, a vendi.

O motivo de lembrar de tantas coisinhas que aconteceram há muito tempo emerge em razão de acabar de ler uma matéria assinada por João Marcos Coelho (http://bit.ly/NKt3T6), em O Estado de S. Paulo (21/7/2012), acerca do livro Debussy Redux: The Impact of His Music on Popular Culture. Pelo que se depreende, esclarece a razão de você, eu e a humanidade gostarmos tanto do grande compositor francês que nasceu no século XIX e viveu apenas 18 anos no seguinte.

João Marcos inicia o artigo citando as primeiras linhas: “Claude Debussy é visto em geral como um dos mais preeminentes artistas de sua geração e um dos maiores compositores de todos os tempos. É frequentemente lembrado como o arquimodernista que injetou vida nova na composição musical. Tanto que Pierre Boulez cansou de repetir que a música moderna foi despertada pelo Prélude à l’après-midi d’un faune.”

Coincidência: o primeiro L’après-midi que ouvi foi com Pierre Boulez.

Coelho transcreve Debussy: “Ela não pretende ser, de modo algum, uma síntese do poema, mas uma ilustração muito livre. É antes a sucessão de cenários através dos quais se movem os desejos e os sonhos do Fauno no calor dessa tarde. Depois, cansado de perseguir as ninfas e náiades em fuga, deixa-se cair no sono inebriante, cheio de sonhos finalmente realizados, de posse total da universal natureza.”

Na mosca. Debussy a compôs a partir de um poema de Stephane Mallarmé. A gravação que você ouve é a que foi lançada pela Columbia, em 1971, com Boulez regendo a New Philharmonia Orchestra. Em 1992 voltou a gravá-la pela Deutsche Grammophon, com a Cleveland Orchestra.



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terça-feira, 24 de julho de 2012

Dias chuvosos e “Here’s That Rainy Day”

“Organização prevê plano contra chuva’. Este é o título de matéria que está no caderno de esportes da Folha de S. Paulo (18/7/2012). Nos dias que antecedem o início das Olimpíadas em Londres, seus organizadores têm inúmeras preocupações, quanto à segurança, por exemplo. Mas como se realiza em um país famoso pelo mal tempo, certas precauções são imprescindíveis. Londres é famosa pelos dias cinzentos, mas parece que os índices pluviométricos não são tão altos assim. Contudo, em todo torneio de tênis em Wimbledon, a chuva interrompe jogos. Agora, colocaram teto retrátil na quadra central. Como a gente está no mundo para quebrar escritas, na única vez em que estive lá, num mês de outubro, os dias foram ensolarados e especialmente belos. Lembro até hoje do céu azul sem nuvens, com um mundaréu de gente a passear em um fim de semana na região do Covent Garden.

Bem longe de Londres, no Hemisfério Sul, experimentamos dias chuvosos, e a paisagem que vejo da janela é muito feia (em qualquer estação, nesse bairro onde trabalho). A chuva que cai desde a madrugada me deixa melancólico. Quem sai na chuva, sai por necessidade. A situação ideal é ficar em casa, assistindo a uma “sessão da tarde”, ou na falta do que fazer, ver a vida “acontecendo” pela janela. A imagem da melancolia está, invariavelmente, ligada à contemplação.

Os dois parágrafos se referem a um estado de espírito e, porquanto ouço uma bela interpretação de Here’s That Rainy Day com George Shearing.

Van Heusen e Burke são autores de grandes standards
Duas coisas sobre Here’s That Rainy Day

A música foi composta por Jimmy van Heusen, com letra de Johnny Burke, em 1953. Foi cantada, pela primeira vez, por Dolores Gray, no musical Carnival in Flanders. O musical não vingou, mas a canção se tornou um clássico. Foi cantada por uma infinidade de intérpretes: Billy Eckstine, Frank Sinatra, Tony Bennett, Rosemary Clooney, June Christy, Perry Como, Ella Fitzgerald, Astrud Gilberto e muitos mais. O tema serviu para maravilhosas incursões instrumentais de Stan Getz, Joe Pass, Chet Baker, Bill Evans, Dave Brubeck, Art Farmer, enfim, pelo primeiro time do jazz. Dessa interpretações, possuo na minha CDteca trinta gravações diferentes, e no meu iTunes que ouço durante o trabalho, dezenove.

A segunda coisa é a lembrança de quando eu, a Daniela Secondo, o Oswaldo de Camargo e a Betha Hermano finalizávamos o livro Ação sobre a Pregação, uma coletânea de depoimentos sobre Mario Covas. O aparelho de som está sempre ligado, mesmo nas horas de trabalho. Nunca me atrapalhou. Lembro, até hoje, quando rodava o CD Nobody Else But Me, de Stan Getz, de Betha ter dito que era uma de suas baladas preferidas. A Betha entendia muito de música. Ficou a saudade dos “happy hour” que fazíamos perto das 20h. Era a hora da pausa. Tomávamos um scotch – menos a Dani, que não era de beber –, e depois, continuávamos o nosso trabalho.

Betha, você não está mais aqui, mas essa é pra você. Nessa interpretação, Getz é acompanhado por Gary Burton no vibrafone, Gene Cherico no contrabaixo, e Joe Hunt na bateria. Foi gravada em 4 de março de 1964.