quinta-feira, 2 de maio de 2013

Joe Pass, o careta doidão

Joe Pass e sua companheira
Quem olha para uma foto de Joseph Anthony Jacobi Passalaqua, ou melhor, Joe Pass, não vai imaginar que possa ter passado bons tempos na cadeia e em clínicas de reabilitação em razão do consumo de drogas.

Em 1963 foi agraciado com o “New Rising Star” pela revista Downbeat. Já estava com 34 anos. Não era tão jovem. Livre da dependência, estava tocando com Gerald Wilson, Bud Shank, Les McCann e George Shearing. Desde criança tinha revelado especial talento com a guitarra e, com 14 anos, estava tocando profissionalmente, participando de turnês pelos EUA. Quem sabe, por ser tão jovem e na estrada, isso o tenha feito envolver-se no mundo fascinante das drogas. Bom, não foi tão fascinante. Passou parte importante da vida em penitenciárias e clínicas. A sorte foi que Pass nunca deixou de praticar nas cordas. Quando se libertou efetivamente das drogas, chegou a gravar um disco chamado The Sounds of Synanon. Synanon era o nome da clínica em que passou dois anos e meio internado.

Retomada a carreira, participou de programas de TV como os de Johnny Carson, Merv Griffin e Steve Allen e acompanhou intérpretes como Sarah Vaughan, Della Reese, Frank Sinatra, Joe Williams e Johnny Mathis. Era comum bons músicos de jazz participarem de programas de TV. Mesmo hoje, celebrados músicos tocam na banda do programa de David Letterman, por exemplo.

Logo no início dos anos 1970, passou a gravar na Concord Jazz, mas o período mais (re)conhecido é o de quando foi para a gravadora Pablo, de Norman Granz, famoso por ter criado a Jazz at The Philharmonic, na Verve Records. À época, muitos torciam seus narizes para uma gravadora tão “mainstream”. Mas deixou seu legado. Contando com uma maioria de músicos experientes num tempo em que grassava o jazz-rock e o avant-garde, foi a casa de gente de primeiríssima como Duke Ellington, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Zoot Sims, Dizzy Gillespie, Oscar Peterson e Count Basie, plantel nem um pouco desprezível. E lá estava Joe Pass. Com sua guitarra discreta acompanhou muitos deles e registrou vários álbuns com seu nome como frontman.

No início dos anos 1980 – ou fins de 70? –, em um dos festivais de jazz que aconteciam em São Paulo, programaram um “guitar summit”. Os convidados eram três ou quatro. Não lembro mais de todos. Recordo só de que Barney Kessel. Lá entrou um senhor com um lenço amarrado no pescoço. Elegantíssimo. Joe Pass era o outro. Problema: o voo atrasara. Chegou Pass, atrasado, sim. Com aquele jeito de careta, de pai de família, calvo e de bigode antiquado, sentou-se no banquinho e começou a tocar. Joe é um dos maiores guitarristas de todos os tempos, e isso, basta. Tinha uma técnica especial fazendo o ritmo e os solos ao mesmo tempo.


Joe toca All The Things You Are.


Joe executa Oleo, de Sonny Rollins, em duo com Niels-Henning Ørsted Pedersen.


Veja uma apresentação de Pass em Hannover. Tem mais de uma hora. É uma boa oportunidade para se ver um mestre em seu instrumento em ação. Ouça Wave, de A. C. Jobim, em belíssimo solo (é o segundo número). A melhor parte, no entanto, está mais adiante: Ella Fitzgerald. Na gravadora Pablo, Joe Pass gravou muito com a cantora.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Pat Metheny, o professor Pardal do jazz

A música de Pat muda, o cabelo continua igual
Hoje, um senhor de 58 anos, Pat Metheny continua músico irrequieto ou, como se dizia antigamente, “não sossega o facho”. Seu último projeto chama-se “Orchestrion”. É uma coisa meio de “professor Pardal” (era um inventor desastrado, personagem da Disney).

No encarte do primeiro álbum, de 2010, conta que quando passava férias na casa dos avós, em Manitowoc, Wisconsin, divertia-se com seus primos brincando com a coleção de cerca de 50 “piano rolls” que o avô Delmar Bjorn Hansen possuia. Para quem não conhece, no início do século XX tornou-se moda um piano preparado para tocar peças musicais sem a necessidade de um instrumentista. As músicas eram gravadas em rolos de papel perfurado. Há registros de gravações de George Gershwin, Maurice Ravel, Claude Debussy, Prokofiev, Jelly Roll Morton e de muitos outros nesse tipo de mídia. As perfurações em rolos ou fitas, no fundo, são precursores das fitas magnéticas e discos rígidos dos nossos atuais computadores. O “cérebro” das antigas máquinas de calcular eram fitas perfuradas. Todas as operações matemáticas eram programadas nelas.

Como é complicado explicar o que são esses pianos, veja um em funcionamento. A música é Swanee, de George Gershwin.




Metheny sempre teve gosto pelas experiências, não só musicais. A fim de explorar novas sonoridades encomendou um violão para a luthier Linda Manzer com 42 cordas. Veja-o tocando no Pikasso (é o nome do modelo).




Nas liner notes do álbum Orchestrion fala sobre o projeto:
“‘Orchestrionics’ é o termo que estou usando para descrever o método de desenvolvimento de uma música orientada à orquestração usando instrumentos musicais acústicos e eletro-acústicos que são mecanicamente controlados por uma variedade de meios usando solenóides e ar comprimido [pneumatics]. Com uma guitarra, caneta ou teclado eu sou capaz de criar um detalhado ambiente composicional ou, espontaneamente, improvisar com as peças sobre esta gravação em particular, mais inclinada para o lado da composição do espectro [leaning toward the compositional side of the spectrum]. Pat afirma que “o projeto é resultado de um sonho longamente acalentado que remonta a minha juventude.”

Obs: nas chaves deixei as partes em inglês que tive dificuldades em traduzir.

São dois os discos do projeto. O primeiro, Orchestrion, foi lançado em 2010, e agora em 2013, Orchestrion Project. Como tem dito, não deixará de atuar e gravar nos formatos tradicionais (solo, duetos, trios, quartetos, quintetos etc.). Na apresentação que fará no Brasil no BMW Jazz Festival, virá com a Unity Band. Não sei se os músicos que virão serão os mesmos do álbum (Chris Potter no sax, Ben Williams no baixo e Antonio Sánchez na bateria). Se for, o espetáculo está garantido. Veja o restante da programação do BMW em http://abr.ai/110mIqu.


Pat fala do projeto Orchestrion.




A engenhoca em funcionamento. Veja.




Veja Pat executando um trecho de Improvisation #2, que está no último Orchestrion Project.