sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um café para Jack, do White Stripes

“Sua respiração é doce, seus olhos são como/ Duas joias no céu/ Sua postura é ereta seus cabelos são suaves/ Sobre o travesseiro no qual pousa/ Mas eu não sinto afeição/ Nem gratidão nem amor/ Sua lealdade não é para mim mas para as estrelas acima.” Após a primeira estrofe, vem o refrão “One more cup of coffee for the road/ One more cup of coffee for I go,/ To the valley below.” Há uma interrupção, ou melhor, uma voz que morre “descendo o vale”.

Que história é essa? Ao sabermos que “Sua irmã vê o futuro/ Como sua mãe e ela./ Você nunca aprendeu a ler ou escrever./ Não há um livro na sua estante/ E seu prazer não conhece limites/ E sua voz soa como o canto da cotovia./ Mas seu coração é qual um oceano/ Misterioso e escuro.” A garota deve ser uma cigana, uma andarilha. O prazer não conhece limites, mas seu coração é misterioso e escuro.

One More Cup of Coffee é a quarta canção do álbum Desire (CBS 1976) e é cantada em dueto com a cantora folk Emmylou Harris. É desse disco a conhecida Hurricane, que trata da prisão do boxeador peso médio Rubin Carter, preso acusado de triplo homicídio, em 1966. Foi solto em 1985.


Em 1999, uma banda formada apenas de duas pessoas, o guitarrista e vocalista Jack White e uma moça ensandecida na bateria chamada Meg White, lançou o primeiro disco, apenas com o nome dela: The White Stripes. Têm preferência pelo branco e o vermelho nas roupas. Os dois branquelos fizeram um disco realmente “enfurecido”. A décima terceira música é One More Cup of Coffee. Enfurecida e bela. Ouça.


quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Sim. Bebo Valdés

Yoda, personagem do filme Guerra nas Estrelas, é um sábio e poderoso mestre jedi, “conhecedor da Força e do uso do sabre da luz.” A explicação é de um amigo admirador da série de George Lucas. Ao ver pela primeira vez a figura de Bebo Valdés, lembrei de Yoda; um pouco, por algum aspecto em sua aparência, o olho, o formato da boca, não sei. O comentário é casual, e afinal de contas, Valdés, com seu corpo levemente curvado sobre o piano, dedos longos que tocam as teclas, e as marcas do tempo que sulcam o rosto, passa um ar de serenidade e sabedoria.

O que surpreende – não único, se lembrarmos de Hank Jones, falecido em maio de 2010, pouco antes de completar 92 anos, na ativa até os últimos dias – é que Bebo nasceu em outubro de 1918, portanto, cinco meses depois do americano, e continua a tocar, quando muitos que chegaram nessa idade preferem ficar em suas casas, de pijama.

O Valdés famoso, até então, era Chucho, seu filho, fundador da banda Irakere, que nos anos 1970, fez enorme sucesso nos EUA, gravando pela major Columbia Records. Nessa altura, Bebo residia na terra natal de sua mulher sueca e pouco se sabia dele.

Carlinhos Brown, Bebo e Trueba
Paquito D’Rivera, outro que escapou das mãos de ferro de Castro, em 1994, convidou Bebo para gravar um disco na Alemanha. Bebo Rides Again representa sua rentrée no mundo da música. Mas o que o trouxe de volta à ribalta mesmo, foi o sucesso de Calle 54, do espanhol Fernando Trueba, um filme sobre o jazz latino. Posteriormente, realizou outro documentário, bem curioso, pelo menos para os brasileiros. O Milagre de Candeal (El Milagro de Candeal, 2004) foca no trabalho de Carlinhos Brown com projetos de inclusão social por meio da música da população mais pobre da cidade de Salvador. Valdés serve como fio condutor percorrendo ruas e lugares da Bahia, comentando sobre um lugar que, em muito, tem semelhanças com sua terra natal. Uma cena ótima é quando visita um centro de candomblé e o pai de santo entra em transe (é assim que se fala?). Os países caribenhos sofreram, como o Brasil, influências religiosas tribais dos negros vindos da África, e manifestações do candomblé e da umbanda não são exclusivas daqui. Portanto Bebo deve ter tido contato com a “santería”, uma variante trazida pelos iorubás. Mesmo assim, fica claro o desconforto do cubano na cena do pai de santo.

Bebo e Diego El Cigala
A parceria com o espanhol não se resumiu aos dois documentários e aos discos gravados pela gravadora Calle 54. Em 2003, gravou o show Blanco y Negro – Bebo & Cigala en Vivo em DVD. Fernando – que é como se refere Bebo ao diretor – promoveu um encontro dele com o cantor de música flamenca Diego El Cigala. Cigala (lagostim em espanhol), seu apelido, pelo fato de ser mutio magro, virou nome artístico.

O show em DVD faz parte de um pacote que inclui um documentário dirigido por Carlos Carcas. Não é um making of. É bem mais. Assistimos aos ensaios, aos encontros nos quais improvisam com Bebo no piano elétrico sobre a mesa de centro, bem como com Cigala e outros músicos percutindo ritmos flamencos com as mãos, um menino com surpreendente noção de ritmo tocando chocalho, Bebo contando das suas influências de músicos eruditos como Albéniz, Joaquín Turina e Granados, das semelhanças da música cigana e a cubana. Brincando, depois da performance do espanhol e amigos, pergunta se aquilo é música cubana ou cigana.

Conhece-se mais a dança flamenca que a música. Na década de 1980, fez sucesso razoável uma banda chamada The Gipsy Kings. São franceses de raízes espanholas que formaram esse conjunto. Com a fama, vieram as críticas, principalmente da parte dos cultuadores do verdadeiro flamenco. “Eu, tu, eles” não sabemos tanto dessa cultura. Não é um estilo tão propagado como o tango ou a rumba. Está mais circunscrito ao gênero folclórico, como a música feita pelos irlandeses The Chieftains ou o “ajuntamento” Les Voix Bulgaires. Como são gêneros muito locais, é necessário um “período de adaptação” para se fazer um juízo. Não são coisas que fazem parte de um gosto comum.

Pois é preciso desligar o botão dos preconceitos e preparar-se para ouvir algo bem diferente. O flamenco tem um tipo de canto que tende aos registros mais agudos, daí a sensação de que seus intérpretes estão se “esguelando”. El Cigala tem a voz levemente rouca e, pelo documentário, vê-se que tem dificuldades em atingir os registros mais agudos. Sem ser um defeito, isso acrescenta certa dose de dramaticidade ao seu canto.

Esse documentário registra vários momentos de emoção. Primeiro, pela própria figura de Bebo, de expressão plácida, mas falante, animado e, quando está ao piano, nos faz silenciosos para ouvi-lo. É o que acontece em certo momento, quando Bebo improvisa sobre o tema de Vivir y Amar, de Consuelo Velásquez. O cantor se emociona, e nos emociona também ao vermos a emoção de ouvir Bebo num crescendo até as lágrimas derramadas. O cubano narra outro momento em que Trueba, sua mulher e os amigos choram ao ouvi-lo tocar Vete de Mí.

Está reservado o momento especial aos brasileiros quando os dois interpretam Eu Sei Que Vou Te Amar, de Vinícius de Moraes e Antonio Carlos Jobim. O canto emocionado – no refrão, então! – de Bebo é intercalado pelos versos declamados de Coração Vagbundo por Caetano Veloso. O DVD foi lançado no Brasil e deve ser ainda encontrado em sites e lojas especializadas.

Mal sabia da existência de Bebo e o primeiro contato foi com esse estupendo DVD com El Cigala. Meses depois, assisti a O Milagre de Candeal. Como nada dele foi lançado em CD, recorri aos importados. O álbum solo, Bebo (2005), é maravilhoso. Somos levados por uma corrente marítima aos mares plácidos do som do cubano. O outro há pouco adquirido é We Could Make Such Beautiful Music Together (2003), duo com o violinista uruguaio Federico Brito. Nessa álbum ambos passeiam pelas canções preferidas, sem limites geográficos, visitando o repertório brasileiro (Luiza), o latino dos boleros e tangos (Adiós Nonino), e pelos standards americanos. Sobre uma das músicas, La Rosita, leia em  http://bit.ly/9tEOyp).

Bebo e El Cigala interpretam Vete de Mí:



Eu Sei Que Vou Te Amar:





terça-feira, 5 de outubro de 2010

Mais mistérios de Cassandra Wilson

A formação musical de Cassandra Wilson passa pelo aprendizado com Gracham Moncur III, excelente trombonista, que gravou como sideman e líder na Blue Note nos anos 1960, e por Steve Coleman’s M-Base, grupo nova-iorquino experimental. Com uma voz de contralto, sofreu influências de Betty Carter, principalmente, e, menos, de Abbey Lincoln. Contratada pela gravadora alemã JMT, em seu primeiro disco – Point of View (1985) – mesclava a formação de vanguarda com standards (Blue in GreenI Wished on the Moon). Em Blue Skies, terceiro disco, há a predominância de clássicos do jazz como Shall We Dance, I’m Old Fashioned, My One and Only Love, Polka Dots and Moonbeams e I’ve Grown Accostumed to His Face, além, é claro, do clássico de Irving Berlin, que o nomeia. Acompanhada por Mulgrew Miller, brilhante pianista de jazz, era um disco, digamos, comercial. Até a capa, na qual é retratada com um vestido branco cheio de babados e com um penteado cuidadosamente ajeitado denotava essa “estratégia” da gravadora para torná-la mais popular, pelo menos, a um público com bom gosto voltado para a linguagem jazzística. Tinha 33 anos nessa época.

O sorriso de Cassandra
Os álbuns lançados posteriormente como contratada da major Blue Note demonstram uma Cassandra mais próxima de suas primeiras influências. Os discos ficaram mais com sua “cara”. Fusão de experimentalismos rítmicos, violão/guitarra produzindo sons pouco comuns, reinterpretou canções do repertório pop, do jazz (Strange Fruit, Skylark) e peças de sua lavra.

Os dotes vocais especialíssimos – de registro grave, tendendo ao “gélido” –, instrumentação priorizando elementos percussivos, violões de corda de aço em afinações diferentes, são elementos que a destacam de outras intérpretes do jazz. Wilson não fica fazendo scats e não tem aquele swing típico desse gênero. O que poderia ser considerado defeito é sua singularidade.

Cassandra tem soltado discos com regularidade. O último, Loverly (em novembro está programado o lançamento de Silver Pony), de 2008, é um bom parâmetro para a compreensão de seu “modo de interpretar”. Desde Blue Skies Wilson não grava tantos standards em um só disco. Para quem está acostumado às interpretações dessa espécie de músicas por cantoras contemporâneas como Diana Krall ou Jane Monheit, apenas para servirem como comparação, as dela são um tanto heterodoxas. É isso que a faz diferente e singular. Apesar de preferir as que mais fazem lembrar de como foram concebidas por seus compositores originais, deve-se reconhecer a qualidade de suas interpretações.

A primeira do CD, Lover Come Back to Me, é suingada, característica que não é o forte da cantora. Comparando-a com uma recente, a de Roberta Gambarini, no álbum Easy to Love, contagia, enquanto a de Wilson é a de um distanciamento crítico no qual se aquilata sua habilidade interpretativa.  O mesmo ocore ouvindo-se Black Orpheus (Manhã de Carnaval, de Luis Bonfá), Caravan ou Gone with the Wind. Por gosto, prefiro a interpretação emocionada de Betty Carter, de 1955, quando ainda não tinha entrado nos exageros dos scats e improvisos vocais.

Outra composição que pode servir de bom parâmetro é a tradicional St. James Infirmary. Uma guitarra “funky” e uma bateria marcando o ritmo com o baixo serve de introdução a uma interpretação vigorosa. Para quem conhece outras versões como a de Louis Armstrong ou a do clã Marsalis no DVD A Music Celebration poderão compará-la. Enfim, nem tudo o que Cassandra Wilson fez até agora é para todos os gostos, no entanto, são incomparáveis alguns sucessos da música pop na sua voz, como Harvest Moon, Love Is Blindness e  The Weight.

Wilson é inigualável cantando baladas do repertório pop e do jazz, naturalmente. Ouça You Don’t Know What Love Is, antiquíssimo clássico de Don Raye.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O outono de Eric Clapton

Acaba de ser lançado mais um disco de Eric Clapton. Chama-se Clapton. A capa é apenas a imagem do guitarrista, que já está autorizado a estacionar seu carro na vaga dos idosos quando vier ao Brasil.

Capa do no CD de Eric Clapton
Clapton está no caminho de ser eterno. Nada mal para quem foi chamado de Deus na década de 1960. Depois de fazer o caminho inverso indo ao inferno, sobreviveu e alguns irão conjeturar que o guitarrista é imortal. Na música, demonstra estar “bom de cascos”. Em qualquer coisa que faça está estampado o “selo de qualidade EC”.

As músicas incluídas no último CD percorrem trilhas dos blues – nas quais está sempre à vontade – do R&B e até de standards como a quase octagenária Rockin’ Chair, de Hoagy Carmichael, eternizada por Louis Armstrong e Jack Teagarden cantando juntos, How Deep Is the Ocean e até um clássico francês, que ganhou letra em inglês de Johnny Mercer.

Les feuilles mortes, música de Joseph Kosma e letra do poeta Jack Prevert, foi composta em 1945. Em inglês ficou Autumn Leaves – folhas de outono – e foi gravada por um sem- número de intérpretes do mundo todo. Não dá para dizer se Clapton está no outono da vida – como se diz dos que atingem o que chamam de “melhor idade” e que, antigamente, era “terceira idade” –, pois a humanidade está ficando centenária e EC é eterno.

Ouça Autumn Leaves.