Em outra ocasião escrevo um pouco mais sobre David Clayton-Thomas. Para quem não sabe quem é ele, foi o cantor principal da melhor fase do Blood, Sweat & Tears. Para quem nunca ouviu o BS&T, paciência, ninguém é obrigado a conhecer tudo. Eu, por exemplo, sequer sabia da existência de um zagueiro chamado Fagner, nem sabia que era jogador do Corinthians. Foi titular na última Copa do Mundo
Tinha até esquecido que David Clayton-Thomas, um dia, havia existido. Mas, ao ouvir ‘Combo” e “Soul Ballads”, lembrei-me do quanto gostava de sua voz. Um é de 2010 – este último –, e o outro, de 2015. Ambos exploram um repertório bem conhecido. É, porém, uma oportunidade para relembrar de sua maestria em seu mister. Em “Combo”, canta standards como “Nature Boy”, “Summertime”, “As Time Goes By”, “Stardust”, “When I Fall in Love” e “God Bless the Child”, esta, um sucesso em seus tempos de BS&T.
“Soul Ballads” apresenta os hoje clássicos “A Change Is Gonna Come”, de Sam Cooke, que teve sua interpretação definitiva com Otis Redding, autor de “(Sittin” on) The Dock of the Bay” e “I’ve Been Loving You”, presentes também nesse álbum. Outras são “People Get Ready”, de Curtis Mayfield,“Midnight Train to Georgia”, de Jim Weatherly, “Ruby”, que teve sua interpretação definitiva por Ray Charles, “When Something Is Wrong with My Baby”, de Isaac Hayes, David Porter, e “Sunny”, de Bobby Hebb, conhecida pela interpretação de Sonny & Cher. É um dos destaques.
Ouça “(Sittin’ on) the Dock of the Bay.
Do álbum “Combo”, ouça “Summertime”.
Ouça também “Nature Boy”, o destaque do disco.
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quinta-feira, 26 de julho de 2018
quinta-feira, 30 de março de 2017
A música dramática e bela de Benjamin Clementine
Lembra a história de alguém a do menino que nasceu no subúrbio, com muitos irmãos, e que seus pais se separaram quando ainda entrava na adolescência? É a história de muitos. Uns viram marginais, jogadores, esportistas enfim, ou músicos.
E não lembra também a de alguns a do menino que cresce solitário, quase sem diálogo com seus irmãos, que não gostava de jogar futebol na rua, como os outros de sua idade, e em vez das aulas, preferia ficar enfurnado na biblioteca?
Benjamin Clementine, filho de pais que emigraram de Gana, e cresceu em um subúrbio londrino é um deles. Em vez de aulas e futebol, preferia explorar a literatura de William Blake e a filosofia de Kant. A salvação, ou uma saída para a adolescência difícil, foi a música. A primeira vez em que se sentiu parte desse mundo foi quando ouviu as “Gymnopédies”, de Erik Satie. E a saída para expressar-se. No piano da casa, tentava reproduzir as notas do compositor francês. Ao mesmo tempo, descobria a música de Antony Heggart, do Antony * The Johnsons.
Se se sentia solitário em Londres, poderia ser um solitário em qualquer lugar do mundo. Talvez Satie o tenha inspirado para ir morar em Paris. Hospedou-se em hotéis de quinta categoria, dormiu na rua, trabalhou em restaurantes e arriscava-se em cantar em estações de metrô. Morando na França, descobriu a música de Jacques Brel, Edith Piaf, Leo Ferré e Barbara. A fusão da música deles e seu gosto pela de Antony Haggart resultou, de certa forma, na que Clementine gestava. Ondas favoráveis do destino possibilitaram a gravação de “Cornerstone”, em um EP. Foi o suficiente.
A força de versos confessionais, seu modo dramático de cantar versos confessionais, autobiográficos, de um lirismo dilacerante, envolto em ostinatos de grande efeito ao piano, a figura negra, cantando de olhos fechados, era de um efeito catártico sobre seus ouvintes.
Ao apresentar-se no programa de Jools Holland, pela BBC2, cantando “Estou só, só numa caixa de pedra/ Dizem que me amam mas estão todos mentindo/ Sou solitário sozinho na minha própria caixa/ E esse é o lugar ao qual pertenço agora.”, e completava: “It”s my home, home, home, home.” Nos bastidores, ouviu palavras encorajadoras de Paul McCartney.
Veja a apresentação.
Lançou “At Least for Now”, em 2015. Tem uma grande carreira pela frente. Ao ouvi-lo , lembramo-nos automaticamente de músicos díspares como Nina Simone, Scott Walker, Nick Drake, Tom Waits, Nick Cave e Jacques Brel. É uma comparação, antes de mais nada, positiva.
Uma última observação: a Inglaterra é pródiga em revelar grandes intérpretes de origem africana. Comecemos pela mais conhecida: a nigeriana Sade Adu. Nos dias de hoje, além de Benjamin Clementine, outro destaque é Michael Kiwanuka, filho de ugandenses. Outra muito boa, negra, mas de pai jamaicano e mãe grega, é Lianne La Havas, nascida em Londres.
E não lembra também a de alguns a do menino que cresce solitário, quase sem diálogo com seus irmãos, que não gostava de jogar futebol na rua, como os outros de sua idade, e em vez das aulas, preferia ficar enfurnado na biblioteca?
Benjamin Clementine, filho de pais que emigraram de Gana, e cresceu em um subúrbio londrino é um deles. Em vez de aulas e futebol, preferia explorar a literatura de William Blake e a filosofia de Kant. A salvação, ou uma saída para a adolescência difícil, foi a música. A primeira vez em que se sentiu parte desse mundo foi quando ouviu as “Gymnopédies”, de Erik Satie. E a saída para expressar-se. No piano da casa, tentava reproduzir as notas do compositor francês. Ao mesmo tempo, descobria a música de Antony Heggart, do Antony * The Johnsons.
Se se sentia solitário em Londres, poderia ser um solitário em qualquer lugar do mundo. Talvez Satie o tenha inspirado para ir morar em Paris. Hospedou-se em hotéis de quinta categoria, dormiu na rua, trabalhou em restaurantes e arriscava-se em cantar em estações de metrô. Morando na França, descobriu a música de Jacques Brel, Edith Piaf, Leo Ferré e Barbara. A fusão da música deles e seu gosto pela de Antony Haggart resultou, de certa forma, na que Clementine gestava. Ondas favoráveis do destino possibilitaram a gravação de “Cornerstone”, em um EP. Foi o suficiente.
A força de versos confessionais, seu modo dramático de cantar versos confessionais, autobiográficos, de um lirismo dilacerante, envolto em ostinatos de grande efeito ao piano, a figura negra, cantando de olhos fechados, era de um efeito catártico sobre seus ouvintes.
Ao apresentar-se no programa de Jools Holland, pela BBC2, cantando “Estou só, só numa caixa de pedra/ Dizem que me amam mas estão todos mentindo/ Sou solitário sozinho na minha própria caixa/ E esse é o lugar ao qual pertenço agora.”, e completava: “It”s my home, home, home, home.” Nos bastidores, ouviu palavras encorajadoras de Paul McCartney.
Veja a apresentação.
Lançou “At Least for Now”, em 2015. Tem uma grande carreira pela frente. Ao ouvi-lo , lembramo-nos automaticamente de músicos díspares como Nina Simone, Scott Walker, Nick Drake, Tom Waits, Nick Cave e Jacques Brel. É uma comparação, antes de mais nada, positiva.
Ainda de “At Least for Now”, veja-o a cantar “Nemesis”.
Além de “Cornerstone”, outro destaque é “Quiver a Little”.
“Winston Chrchill’s Boy”, a música de abertura, abre a curiosidade para se conhecer melhor Benjamin Clementine. Ouça.
Uma última observação: a Inglaterra é pródiga em revelar grandes intérpretes de origem africana. Comecemos pela mais conhecida: a nigeriana Sade Adu. Nos dias de hoje, além de Benjamin Clementine, outro destaque é Michael Kiwanuka, filho de ugandenses. Outra muito boa, negra, mas de pai jamaicano e mãe grega, é Lianne La Havas, nascida em Londres.
terça-feira, 19 de julho de 2016
O soulman Michael Kiwanuka
Meus critérios do que acho que devo conhecer quando se trata de música pop, é peculiar e discutível: nomes estranhos atraem a minha curiosidade; e tenho interesse maior quando são negros, não pela cor, mas pelo registro da voz. Espero não ser visto como preconceituoso ao revelar os meus métodos de escolha. Desse modo, acabei por conhecer Monoswezi, Laura Mvula, Rokia Traoré, Sufjan Stevens, Lianne La Havas e Michael Kiwanuka. Dos citados, um apenas é branco.
Ouvi Michael Kiwanuka pela primeira vez na coletânea The Songs of Leonard Cohen Covered, encartada em um número da revista Mojo, em 2011. Era em Hey, That’s No Way to Say Goodbye. Era uma voz diferente. Tempos depois, ao ler críticas sobre Is Your Love Big Enough (2012), da inglesa Lianne La Havas, li uma referência a um outro talento em ascensão cujo nome era Michael Kiwanuka.
Há poucos dias foi lançado Love & Hate, seu segundo álbum. É mais sofisticado e burilado que o primeiro, com produção do músico e Dangermouse. Tem um início instrumental com um vocalzinho, uma guitarra que lembra David Gilmour (é de Kiwanuka mesmo) e uma orquestra. São cinco minutos até a entrada da voz de Michael. Ainda não tenho uma opinião mais afirmativa se acho o início bom ou chato, mas que impressiona na primeira audição, impressiona.
Depois desse início um tanto grandioso, é a vez de Called Black Man in a White World. O título é de impacto. Começa com Michael na voz e nas palmas – parece uma “work song” dos escravos americanos. Vai em um crescendo, entram uma guitarra, uma percussão e um pouco de cordas e ela vai se transformando, mas o realce vai para o refrão “Im a black man in a white world” repetido por um coro de fundo. Parece que foi a canção de trabalho do disco. Foi o primeiro single. Mas não parece com a maioria de suas canções, confessionais, meio lamurientas, queixosas.
E são nas lamurientas que sua voz funciona bem e atraem pelo registro caracteristicamente negra. Não fosse a instrumentação às vezes servindo mais como recheio, Michael poderia ser um intérprete voz e violão, algo como a atualmente sumida Tracy Chapman, que funcionaria tão bem quanto.
Ouça Falling.
Lamurienta? Um pouco. Alguns acharão um pouco chato, meio “oh, céus, oh, vida!”, mas que bela voz, que lembra vagamente a de Gary Brooker, do Procol Harum, menos metálica.
No show de lamúrias de Michael, estão lampejos de beleza. Confira I’ll Never Love.
Veja também uma apresentação de Kiwanuka cantando I’ll Never Love, One More Night e Cold Little Heart.
Ouça uma das melhores. É uma das minhas preferidas: One More Night.
Ouça a música de abertura Cold Little Heart.
Veja Kiwanuka em apresentação em Amsterdam cantando Cold Little Heart. Aqui, o registro é mais despojado do que a do álbum, talvez até mais interessante por isso.
Veja-o cantando Black Man in a White World, no programa de Jools Holand.
Ouvi Michael Kiwanuka pela primeira vez na coletânea The Songs of Leonard Cohen Covered, encartada em um número da revista Mojo, em 2011. Era em Hey, That’s No Way to Say Goodbye. Era uma voz diferente. Tempos depois, ao ler críticas sobre Is Your Love Big Enough (2012), da inglesa Lianne La Havas, li uma referência a um outro talento em ascensão cujo nome era Michael Kiwanuka.
Há poucos dias foi lançado Love & Hate, seu segundo álbum. É mais sofisticado e burilado que o primeiro, com produção do músico e Dangermouse. Tem um início instrumental com um vocalzinho, uma guitarra que lembra David Gilmour (é de Kiwanuka mesmo) e uma orquestra. São cinco minutos até a entrada da voz de Michael. Ainda não tenho uma opinião mais afirmativa se acho o início bom ou chato, mas que impressiona na primeira audição, impressiona.
Depois desse início um tanto grandioso, é a vez de Called Black Man in a White World. O título é de impacto. Começa com Michael na voz e nas palmas – parece uma “work song” dos escravos americanos. Vai em um crescendo, entram uma guitarra, uma percussão e um pouco de cordas e ela vai se transformando, mas o realce vai para o refrão “Im a black man in a white world” repetido por um coro de fundo. Parece que foi a canção de trabalho do disco. Foi o primeiro single. Mas não parece com a maioria de suas canções, confessionais, meio lamurientas, queixosas.
E são nas lamurientas que sua voz funciona bem e atraem pelo registro caracteristicamente negra. Não fosse a instrumentação às vezes servindo mais como recheio, Michael poderia ser um intérprete voz e violão, algo como a atualmente sumida Tracy Chapman, que funcionaria tão bem quanto.
Ouça Falling.
Lamurienta? Um pouco. Alguns acharão um pouco chato, meio “oh, céus, oh, vida!”, mas que bela voz, que lembra vagamente a de Gary Brooker, do Procol Harum, menos metálica.
No show de lamúrias de Michael, estão lampejos de beleza. Confira I’ll Never Love.
Veja também uma apresentação de Kiwanuka cantando I’ll Never Love, One More Night e Cold Little Heart.
Ouça uma das melhores. É uma das minhas preferidas: One More Night.
Ouça a música de abertura Cold Little Heart.
Veja Kiwanuka em apresentação em Amsterdam cantando Cold Little Heart. Aqui, o registro é mais despojado do que a do álbum, talvez até mais interessante por isso.
Veja-o cantando Black Man in a White World, no programa de Jools Holand.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Al Green, o mestre das releituras
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| Al Green antes da conversão |
No auge do sucesso, Green tinha uma namorada um tanto amalucada, pelo jeito. Mary Woodson propôs-lhe casamento e este recusou. Ela não gostou nem um pouco. Com raiva, jogou mingau quente sobre ele, enquanto tomava banho. Sofreu queimaduras de segundo grau. Ela foi para o outro quarto e se matou com o revólver de Al. Não é coisa de gente normal. Mas dá para deixar a vítima traumatizada. Aconteceu no fim de 1974.
Al Green, como muitos negros americanos, vinha de família religiosa. Talvez a tragédia o tenha chamado de volta às mãos de Deus. Em 1976, comprou uma igreja em Memphis e ordenou-se pastor da Full Gospel Tabernacle, sem interromper a carreira. Lançou The Belle Album (leia e ouça em http://bit.ly/XYYIrY), que teve receptividade pífia pelo público e pela crítica, apesar de ser muito bom. Em 1979, levou um tombo no palco. Era mais um aviso de Deus. Deixou de trabalhar com Willie, seu produtor, montou estúdio próprio e abraçou a religião de vez.
Al Green nem precisava compor. Com a voz, essa sim, abençoada por Deus, poderia ser, simplesmente, cantor e iria arrasar. Um dos mais conhecidos covers de Green é How Can You Mend a Broken Heart, dos irmãos Barry e Robin Gibb, dos Bee Gees. Sem desmerecer os australianos, a versão do americano é infinitamente melhor.
Veja Green em How Can You Mend a Broken Heart.
O texto de hoje é sobre as releituras que andei ouvindo nos últimos dias. Vamos começar com Pretty Woman, do grande Roy Orbison.
People Get Ready, de outro mestre do soul, Curtis Mayfield, foi considerada a 24ª melhor música de todos os tempos em votação da revista Rolling Stone. Encontrei no Facebook.
Outra que encontrei no YouTube é a emocionante A Change Is Gonna Come, de Sam Cooke. Essa canção virou hino do movimento pelos direitos civis dos negros. (sobre Sam Cooke, leia http://bit.ly/YI8qiM)
Outro clássico, do The Doors, é Light My Fire.
O que fez dar uma pesquisada foi quando ouvi Summertime na caixa The Immortal Soul of Al Green, com quatro CDs.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
O balanço irresistível de Booker T.
Não teria existido o som Stax sem Booker T. Jones, ou, simplesmente Brooker T. Aquele sonzinho de órgão com uma batida infernal e riffs irresistíveis de Steve Crooper que tantos conhecem, mesmo os que não sabem quem é seu autor, de Green Onion, lançado em 1962, influenciou muita gente.
A Booker T. & The MG’s surgiu como a banda da casa Stax para dar suporte aos seus cantores, algo como acontece agora com os Dap-Kings, formação que acompanha Sharon Jones e tornou-se conhecida a partir da participação em álbum de Amy Winehouse. Dentre os que tiveram o privilégio serem acompanhados por ele estão Sam & Dave, Otis Redding, Carla Thomas e Wilson Pickett. Pois quem gosta um pouco da soul music feita na década de 1960 conhece muito bem Booker T.
Graças à qualidade da banda, gravaram vários LPs instrumentais. Neles é que se percebe melhor a qualidade do trabalho da banda. Em 1970, Booker T. mudou-se para a California e desligou-se da Stax. Assim como Steve Crooper, ele passou a trabalhar como produtor musical. A banda se reuniu ocasionalmente em anos posteriores, mas o importante de fato é o que registraram na Stax.
Veja Booker T. apresentando Green Onions.
Veja Booker T. e Steve Crooper tocando Green Onions em apresentação de 2010.
Veja apresentação de Sam & Dave tendo Booker T. & The MG’s.
Sound the Alarm marca a volta de Booker T. para a sua gravadora inicial. Não existe mais o som Stax, nem com ele nem com mais ninguém. Lançado no ano passado, é mais uma celebração à carreira de um nome importante na soul music e do rhythm’n’blues. Conta com várias participações especiais de músicos, via de regra, bem mais jovens que ele e o conheciam apenas pelos discos da Stax. Vale destacar a presença do guitarrista e cantor Gary Clark Jr., Luke Jordan e de Ty Taylor e seu Vintage Trouble e a veterana Sheila E.
Um dos destaques é Austin Blues Ideas, com participação de Gary Clark Jr.
Uma das melhores é a balada Your Love Is No Love, com participação da Vintage Trouble.
Outra boa, com participação de Jay James: Broken Heart.
A Booker T. & The MG’s surgiu como a banda da casa Stax para dar suporte aos seus cantores, algo como acontece agora com os Dap-Kings, formação que acompanha Sharon Jones e tornou-se conhecida a partir da participação em álbum de Amy Winehouse. Dentre os que tiveram o privilégio serem acompanhados por ele estão Sam & Dave, Otis Redding, Carla Thomas e Wilson Pickett. Pois quem gosta um pouco da soul music feita na década de 1960 conhece muito bem Booker T.
Graças à qualidade da banda, gravaram vários LPs instrumentais. Neles é que se percebe melhor a qualidade do trabalho da banda. Em 1970, Booker T. mudou-se para a California e desligou-se da Stax. Assim como Steve Crooper, ele passou a trabalhar como produtor musical. A banda se reuniu ocasionalmente em anos posteriores, mas o importante de fato é o que registraram na Stax.
Veja Booker T. apresentando Green Onions.
Veja Booker T. e Steve Crooper tocando Green Onions em apresentação de 2010.
Veja apresentação de Sam & Dave tendo Booker T. & The MG’s.
Sound the Alarm marca a volta de Booker T. para a sua gravadora inicial. Não existe mais o som Stax, nem com ele nem com mais ninguém. Lançado no ano passado, é mais uma celebração à carreira de um nome importante na soul music e do rhythm’n’blues. Conta com várias participações especiais de músicos, via de regra, bem mais jovens que ele e o conheciam apenas pelos discos da Stax. Vale destacar a presença do guitarrista e cantor Gary Clark Jr., Luke Jordan e de Ty Taylor e seu Vintage Trouble e a veterana Sheila E.
Um dos destaques é Austin Blues Ideas, com participação de Gary Clark Jr.
Uma das melhores é a balada Your Love Is No Love, com participação da Vintage Trouble.
Outra boa, com participação de Jay James: Broken Heart.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Arthur Conley, o soul man a ser (re)lembrado
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| Arthur Conley, grande ás da soul music |
Conley montou a banda Arthur & the Corvets em 1963. Não fez muito sucesso. Disseram que tinha a voz muito parecida à de seu ídolo Sam Cooke, um dos astros do rhythm’n’blues da época. Eram parecidas mesmo, assim como a de outro cantor que lhe surgiria no caminho: Otis Redding.
Em 1964, ano em que Cooke morreu assassinado (leia em http://bit.ly/1jgFAKe), Otis era uma estrela em ascensão. Havia lançado These Arms of Mine, que foi incluído em Pain in My Heart, seu primeiro LP. Rufus Mitchell, proprietário de um selo de discos, impressionado com a voz de Arthur, apresentou uma gravação de Arthur. Melhor, impossível. Não só assinou um contrato com uma subsidiária da Atlantic como teve Otis como produtor. Lançado o álbum Sweet Soul Music, Conley tinha as portas abertas para o sucesso. Em 1967, no auge, Redding morreu em um acidente aéreo. Conley era o sucessor de Sam Cooke e Otis Redding.
A morte do mentor e amigo poderia significar o retorno aos tempos difíceis. Mas Conley continuou e a emplacar sucessos nas paradas do R&B. Sua carreira começou a declinar em razão da irregularidade dos lançamentos. Resolveu mudar para a Inglaterra. Era a senha para o esquecimento paulatino desse nome importante da música soul e do R&B.
Veja Conley cantando Sweet Soul Music em um programa de televisão.
Veja-o cantando Whole Lotta Woman.
Ouça I’m a Stranger, uma das minhas preferidas.
A homenagem de Conley a Otis Redding: Otis Sleeps on.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Tudo é novidade com Imani Uzuri
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| Capa de Gipsy Diaries, de Imani Azuri |
Qual é a viagem de Imani?
Imani diz que, em viagens conhecem-se pessoas, lugares e hoteis. Passou por lugares distantes entre si como a Rússia, Etiópia e Hungria. São viagens interiores também, pois são encontros e encruzilhadas consigo mesmo.
The Gypsy Diaries é um título adequado. Ciganos são associados ao nomadismo, à não fixação na terra. Imani, com esse nome é uma americana negra, que não quer ficar circunscrita às formas musicais locais. Ela deseja o novo. Nesse disco, canta acompanhada por cítaras, thunder drums, kajiras, hadjinis, uduboos e flautas japonesas tocadas por Kaoru Watanabe.
Imani tem aquela voz que parece vir da alma, se isso existe, e nos faz pensar na dor ancestral de sofrimentos e privações dos negros. No seu modo de cantar há algo da tradição americana dos spirituals. Se fosse por isso, muitas outras intérpretes possuem essa característica. Por que é diferente? É diferente pela originalidade dos arranjos, muito interessantes.
Sons de cítara abrem o CD com Beautiful. Um longo “iu” se propaga em tom hierático para que se forme a frase “You are so beautiful” para se complementar com “auroras que o abençoam, a lua que o abençoa, o vento que sopra apenas para acariciá-lo.”
Ouça Beautiful.
Veja uma apresentação ao vivo dessa canção.
Aos instrumentos de nomes estranhos, acrescentam-se belos sons de flauta, violões, violinos e violoncelo. Ouça uma bela canção chamada Winter Song.
“Encontre-me na estação. Sou aquela que estará te esperando sob a luz da lua. “estarei esperando por você.” Com esses poucos versos, Imani faz uma bela canção. Ouça Meet me at the Station.
Outra grande interpretação de Uzuri: Dream Child.
Gostou? Tem mais coisas no YouTube. Vai lá.
Veja uma apresentação ao vivo dessa canção.
Aos instrumentos de nomes estranhos, acrescentam-se belos sons de flauta, violões, violinos e violoncelo. Ouça uma bela canção chamada Winter Song.
“Encontre-me na estação. Sou aquela que estará te esperando sob a luz da lua. “estarei esperando por você.” Com esses poucos versos, Imani faz uma bela canção. Ouça Meet me at the Station.
Outra grande interpretação de Uzuri: Dream Child.
Gostou? Tem mais coisas no YouTube. Vai lá.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Mais uma demonstração da força de Sharon Jones
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| Sharon Jones em apresentação recente |
Quando tudo parecia estar bem, com a vida feita, dinheirinho na mão, descobriu que estava com câncer no pâncreas. A mesma força que a fez persistir até ser descoberta, trouxe energia para que vencesse mais essa batalha. Ainda sem cabelos por causa da quimioterapia, gravou Give the People What They Want. O título é perfeito. Sharon não deixa a peteca cair e nos dá o que queríamos dela. É um disco curtíssimo, com dez músicas, menos de 30 minutos no total. Pode não ser tão bom quanto os dois anteriores, mas é muito melhor do que o monte de lixo que é lançado ultimamente.
Veja o vídeo promocional do lançamento, com Retreat, a primeira do disco.
A minha preferida é Now I See.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
A tragédia ronda Bobby Womack
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| Bobby Womack quando jovem |
A família Womack, percebendo que o talento dos filhos pequenos, criou a The Womack Brothers, a exemplo dos Jacksons, que teve o menor, Michael o mais bem sucedido. Foi assim que Bobby Womack começou. Os pequenos Womack’s chamaram a atenção de Sam Cooke, este prometeu ajudar-lhes. Bobby, logo depois, tornou-se membro de sua banda, tocando a segunda guitarra.
Sam Cooke era uma estrela da música soul (sobre ele, leia http://bit.ly/X8NI4y e http://bit.ly/19qjpLt), mas teve carreira curta. Em 1964, estava com uma mulher chamada Bertha Franklin no Motel Hacienda. Foi morto pelo gerente em circunstâncias não muito bem explicadas. Bertha não era mulher dele. Bobby foi consolar a viúva Barbara Campbell. Três meses depois, quando o defunto nem tinha esfriado, os dois se casaram. Foi um escândalo. Na autobiografia, Womack revela outro fato, mais escandaloso ainda: manteve relações com Linda, filha adolescente de Barbara e Sam, quando ainda estava casado com a mãe.
Bobby Womack não é um hitmaker como foram Sam Cooke, Otis Redding e Marvin Gaye, todos mortos em circunstâncias trágicas. Redding se foi em um acidente aéreo em seu próprio avião, quando tinha 26 anos. Gaye foi assassinado pelo pai pastor. Mesmo assim, emplacou alguns hits e não é um artista a ser desprezado.
Sua carreira é permeada de alguns “acidentes de percurso”. O filho Vincent cometeu o suicídio quando tinha 21 anos, em 1986. Truth, do seu segundo casamento, morreu criança, em 1976, decorrência de um acidente doméstico. Outro acontecimento trágico foi a morte do irmão Harry, assassinado pela namorada ciumenta.
Com tanta desgraça, usuário mais ou menos controlado de algumas drogas ilegais, principalmente cocaína, passou da conta e atrapalhou a carreira. Participou como sideman de várias gravações, mas como líder, seus discos deixaram de sair regularmente.
Ficou 18 anos sem lançar nada, no ano passado, saiu The Bravest Man in the Universe, com produção de Damon Albarn, líder do Blur e do Gorillaz, e Richard Russell. Não é um grande disco, apesar da crítica tê-lo elogiado, por uma tendência natural de respeito aos medalhões, algo que ocorreu também em relação a Salomon Burke e Gil-Scott Heron, mortos recentemente. Apenas o último, que também teve a carreira atrapalhada por drogas, ficando preso por isso até, fez uma grande rentrée com I’m New Here (2010).
Ter como produtor Damon Albarn é positivo por um lado – a contemporaneidade – e pode ser um problema ao inserir elementos eletrônicos. Não chega a descaracterizar o estilo de Womack. O bom é que Bobby gostou do resultado, que não gosta de Snoopy Dog, rap, de hip-hop e de outras modernidades.
Ouça aqui duas faixas de The Bravest Man in the Universe.
Daiglo Reflection, com participação de Lana Del Rey.
Ouça Stupid. Os produtores fizeram uma introdução com a voz de Gil-Scott Heron, morto (leia sobre ele em http://bit.ly/19ZUkrG. Ouça, no mesmo post, a íntegra de I’m New Here, seu último disco).
Lembrado e com planos de lançar outro álbum, Womack, há pouco descobriu um câncer no intestino, do qual se tratou. Foi constatado também que está com princípio do mal de Alzheimer. Como desgraça pouca é bobagem, o irmão mais novo, Cecil, morreu agora, em fevereiro. Vida sofrida, não?
Hits antigos de Womack
Bobby, além de composições próprias, gravou outros compositores como James Taylor e George Harrison. Um dos seus covers de maior sucesso é California Dreamin’.
O diretor Quentin Tarrantino, bom explorador de tesouros esquecidos, usou Across 110th Street na abertura de Jack Brown. Veja Womack em apresentação no programa de Jools Holand.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Belle, o álbum “ignorado” de Al Green
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| O reverendo Al Green |
Um primo disse, uma vez, a propósito de um primo ter se convertido a uma dessas seitas evangélicas, que duas coisas fazem você procurar a religião: uma grande desilusão amorosa ou um grande revés financeiro. E pode servir como boa forma de se recuperar de uma falência, por exemplo. É o caso, pelo menos, de uma pessoa, segundo sua irmã, que, depois de ter tido problemas financeiros, entrou para uma igreja, virou pastor, enriqueceu, e hoje, prega nos EUA em um dos muitos programas televisivos. Disse-me ela que o outro irmão segui os seus passos e também virou pastor. Ela preferiu continuar a ser a ovelha negra – ou desgarrada – da família.
Veja Al Green cantando Let’s Stay Together no programa de Jools Holand, com David Gilmour na guitarra.
Veja-o cantando Love and Happiness.
Em 1974, Al Green já tinha alguns sucessos emplacados nas paradas de sucesso. Neste mesmo ano, sua namorada teve sua proposta de casamento recusada e, enquanto Green estava na banheira, matou-se no aposento contíguo com um revólver dele. Tempos depois, sofreu um acidente no palco. Viu aquilo como uma “mensagem de Deus”.
Green, como muitos de seus pares negros, cresceu em ambiente religioso. Em 1976, comprou uma igreja em Memphis e foi ordenado pastor. A cooperação com seu mentor, o produtor Willie Mitchell, que resultara em vários hits, foi interrompida. Em 1978 lançou seu último álbum “secular” – para usar esse termo tão na moda com os distúrbios recentes no mundo árabe – antes de passar a gravar exclusivamente música gospel. O disco se chamou Belle e não contava mais com os Hi Rhythm Section. Não emplacou e é uma injustiça. Conta com uma banda poderosa e o baixista Reuben Fairfax, Jr. faz diferença.
De 1981 a 1989, gravou apenas temas gospel. Voltou às hostes “seculares” e tem mantido produção constante. Gravou com Annie Lennox. Refez a parceria com Willie Mitchell e gravou I Can’t Stop, em 2003. É um bom disco. É Al Green da melhor qualidade. Nem na fase gospel deixou a competência de lado. Não emplacou mais sucessos como How Can We Mend a Broken Heart, cover dos Bee Gees, ou Love and Happiness. Mesmo assim, o álbum Lay It Down, em 2009, ficou entre os dez mais vendidos. Não gravou mais nada desde então.
Bem, voltando ao Belle, ouça duas do álbum.
Georgia Boy.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Ouça Dream. É Al Green de primeira.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Charles Bradley, a outra descoberta da Daptone Records
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| Capa de Victim of Love, de Charles Bradley |
Victim of Love é o segundo álbum do cantor lançado pela Daptone. Essa gravadora ganhou notoriedade por ter lançado Sharon Jones. O sucesso de Sharon e da gravadora, por sua vez, se deve ao fato dos Dap-Kings, banda de apoio dela, terem participado de gravações de Amy Winehouse.
O caso de Bradley é bem parecido com o de Jones: iniciaram suas carreiras tardiamente. Ela foi até carcereira (leia em http://bit.ly/19gxnVR), antes de ser descoberta. Ele está com 65 anos agora e Victim of Love é o segundo lançado pela Daptone. Antes de ser “descoberto”, tocava em uma banda chamada Black Velvet, mas muito antes, foi aquele garoto criado nas ruas, que se drogava, cheirava cola e dormia em qualquer lugar, inclusive na rua. Sorte da Daptone, temporariamente sem Sharon, que se recupera de uma cirurgia por conta de um câncer nas vias biliares, para levantar um dinheirinho. E sorte de Charles.
Quando tinha 18 anos, assistiu a uma apresentação de James Brown e aquilo mudou a sua vida: queria ser igual a ele. Demorou mas chegou lá. Deve estar curtindo a vida adoidado com o sucesso inesperado. Bradley não deve dançar como seu ídolo, mas os “uhs” que entremeia nas inerpretações são bem semelhantes. Outra influência evidente é a de Otis Redding. Em alguns momentos sua voz lembra a visceralidade do autor de Sittin’ on the Dock of the Bay. (sobre Redding, leia xxx).
Alguns críticos estão botando Bradley nas alturas celestes. Menos, né! Tem uma voz muito boa, mas não a ponto de ombrear a de seus ídolos. O povo adora uma descoberta. Foi assim com Sharon também. A Daptone tem se especializado em lançar intérpretes e bandas que remetem aos sons dos anos 1960. Legal, mas soa um pouco déjà vu. Funciona, no entanto. Esse tipo de música faz sucesso até hoje, mesmo entre a juventude atual. Veja-se o caso de Joss Stone, que vendeu quase um milhão de The Soul Sessions nos EUA e mais de um milhão do seguinte Mind, Body & Soul, lançados quando mal passava dos 16 anos de idade.
Uma coisa surpreendente em Bradley e Jones é a consistência interpretativa, mesmo tendo “estreado” tão tarde. É um detalhe que faz com que, às vezes, se supervalorize esses cantores. Entra no script de que o que é bom, um dia é descoberto. Independente de serem superestimados, são bons de verdade. É só não dizer que estão no mesmo patamar de James Brown e Otis Redding.
Ouça Bradley cantando Why Is It So Hard.
No Time for Dreamin’.
Ouça o disco todo aqui. Algumas cançnoes são muito boas, como Let Love Stand a Chance, a instrumental Dusty Love e Through the Storm.
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terça-feira, 16 de abril de 2013
Seu nome é José James
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| O cantor José James |
JJ conviveu pouco com o pai músico (saxofonista), natural do Panamá. É aquele velho enredo: família pobre, pai vai embora, mãe cria filho. Teve, nas palavras dele, uma adolescência “fraturada”.
Segunda parte do enredo: foi mudando de cidade em cidade; nasceu em Duluth, Minnesota, morou em Seattle e em Minneapolis. José cresceu – tem hoje 34 anos – curtindo Nirvana, Digable Planets e Ice Cube, como muitos adolescentes de sua geração. O jazz ficou hibernando e viu despertado o interesse conhecendo músicos como Douglas Ewart, um dos expoentes da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), movimento vanguardista que teve entre seus membros Roscoe Mitchell, Anthony Braxton e Henry Threadgill.
A vida o transportou para Londres. Foi tentar a sorte participando de um concurso de canto. Não ganhou, mas uma fita demo despertou o interesse de DJ Gilles Peterson, da rádio BBC 1. Gravou dois discos: The Dreamer e Blackmagic. Passou a apresentar-se em clubes e salas da Europa e do Japão.
Blackmagic (2010) representa já uma amostra do que se ouve em No Beginning No End, o mais novo e primeiro álbum pela Blue Note. Lembra um pouco a música de Ed Motta. Vai por uma levada meio soul, rhythm’n’blues, sonoridades sofisticadas como as de Steely Dan, algo entre o pop e a sofisticação dos arranjos de jazz.
É uma música que encaixa bem no que os selos de jazz procuram hoje: se não for jazz, um híbrido. Há tempos a Blue Note explora sonoridades além do mainstream. Isso vem desde fins dos anos 1950 com Grant Green, Herbie Hancock, Big John Patton e Jimmy Smith. A gravadora que abrigou Bud Powell, Thelonious Monk e Miles Davis, principalmente, nos anos 1960, adaptou-se à força das manifestações pós-Elvis e depois, a dos “invasores” britânicos.
No mesmo ano em que lançou Blackmagic, assinou um contrato com a Impulse para um disco. Com o pianista belga Jef Neve gravou For All We Know. É uma coleção de consagrados standards. Não repercutiu muito. Em 2010, a tão tradicional gravadora que teve seu apogeu com o produtor Bob Thiele e o engenheiro de som Rudy van Gelder, lançando discos de John Coltrane, Charles Mingus, Archie Shepp, Oliver Nelson e McCoy Tyner deixara de ser o que era. Seu último suspiro como selo lançador foi quando contratou a canadense Diana Krall. Hoje é um selo da Verve (Universal Music Group) e só relança o catálogo antigo.
Apesar das reservas da crítica, For All We Know é um belo disco. Não traz grandes novidades, como centenas de álbuns com standards. Até Rod Stewart entrou nessa e está lá pelo enésimo disco desse tipo. É um belo showcase da bela voz que tem, meio “cool”, sem grandes arroubos. É emoção contida para ser apreciada aos poucos.
James não faz feio nos standards. Ouça Embraceable You.
No Beginning No End foi apresentado pronto à Blue Note. Esta resolveu lançar. Era uma boa oportunidade para James ficar mais conhecido em sua terra natal. É um disco com uma certa sofisticação instrumental. Conta com parcerias importantes como a do pianista Robert Glasper e do baixista e produtor Pino Palladino. Tanto um como o outro transita por um tipo de experimentação que extrapola um gênero específico. Palladino participou de inúmeras gravações em estúdio. Glasper, além do trabalho em trio, montou a Robert Glasper Experiment.
Black Radio (2012), de Glasper é uma boa referência para o que é o som de James em No Beginning No End. Ambos nasceram em 1978. Cresceram ouvindo os sons das ruas como o hiphop, funky, rock, soul music, blues, soul music e, inclusive, jazz. O que fazem é uma síntese dessas informações auditivas. E não é mera coincidência que Glasper tenha gravado Smells Like Teen Spirit em Black Radio. O Nirvana era uma das bandas que James ouvia na adolescência.
Ouça It’s All Over Your Body, a primeira faixa do mais recente CD.
Veja It’s All Over Your Body em AllSaints Basement Sessions.
Uma mais calma: Come to My Door.
O YouTube é uma caixa de surpresas. Encontrei uma apresentação de Do You Feel, que está em No Beginning No End. É uma boa amostra das influências do jazz. A do estúdio é uma e nesta apresentação, por ser ao vivo, há espaço para a improvisação dos músicos.
É possível ouvir-se o disco inteiro nesse “youtube”. O site deixou de ser apenas um veículo de imagens. Com frequência estão disponíveis CDs inteiros de muitos intérpretes.
quinta-feira, 21 de março de 2013
A Change Is Gonna Come. De Sam Cooke à Ida Sand
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| A pianista e cantora Ida Sand |
No dia 8 de outubro de 1963, excursionando pelo sul dos EUA, Cooke e seu grupo foram presos sob a alegação de terem provocado um distúrbio em um hotel em Shereveport, Louisiania. Tinha lá o “famoso” cartaz. Três são as referências para que Cooke se inspirasse para compor A Change Is Gonna Come. Uma foi esse incidente, outro foi o impacto que lhe causou Blowin’ the Wind, de Bob Dylan – ficara impressionado que um “branco pudesse ter escrito uma canção como aquela”; palavras dele –, e a morte do filho de 18 meses por afogamento, em junho do mesmo ano.
Desde 1957, Sam tinha emplacado 18 músicas entre as “30 Top Hits”. Fazia sucesso entre brancos e negros com canções mais “light” que A Change Is Gonna Come. Quem sabe, esta pode ter sido a razão de não ter ido para o topo das paradas de sucesso. Hoje, no entanto, é considerada um clássico. A revista Rolling Stone, em “500 Greatest Songs of All Time” (dezembro de 2004), classifica-a como a 12ª, à frente de Yesterday, de Lennon e McCartney, Blowin’ the Wind, de Bob Dylan, e London Calling, de The Clash.
A Change Is Gonna Come foi gravada depois por dois grandes intérpretes: Otis Redding e Aretha Franklin (leia em http://bit.ly/X8NI4y). Repito as coincidências trágicas com Sam e Otis: o primeiro foi assassinado em 11 de dezembro de 1963 (os detalhes estão no link que eu passei), e o segundo morreu em um acidente aéreo com seu avião particular em 10 de dezembro de 1967. Redding também não pôde presenciar o sucesso de um de seus grandes clássicos; (Sittin’ on the) Dock of the Bay.
Anos depois, ou melhor, décadas, ouço um álbum de uma intérprete sueca cantando clássicos americanos, lançado por uma gravadora alemã, a ACT Music + Vision. Por linhas completamente tortas “cheguei” em Ida Sand. Quando assisti à apresentação do pianista Vijay Iyer (sobre ele, leia http://bit.ly/WnAjas), com Rudresh Mahanthappa, em São Paulo, num festival de jazz, comprei discos de ambos. E eram da ACT Music. Por curiosidade, passei a explorar o catálogo do selo alemão e percebi que havia muita coisa boa. A maioria do cast é de europeus, muitos, escandinavos.
Ida Sand é uma cantora, e pianista também, de origem sueca. Fui de curioso pela seleção em The Gospel Truth. A Change Is Gonna Come, de Sam Cooke, uma das minhas favoritas do gênero soul era uma delas. Outra era God Only Knows, de Brian Wilson, dos Beach Boys. Uma nova geração de músicos mais jovens ligados ao jazz como John Pizzarelli e Jamie Cullum a descobriram. A de Pizzarelli vi numa das vezes em que esteve no Bourbon Street, em São Paulo. Sand incluiu também outra que gosto muito: Ain’t No Sunshine, de Bill Withers (ouça-a cantada pelo próprio e por Melody Gardot em http://bit.ly/XNvf1T), além de Have a Talk with God, de Stevie Wonder, e He Ain’t Heavy, He’s My Brother, de Bobby Scott e Bob Russell, popularizada pela versão de The Hollies.
Ouça Ain’t No Sunshine, com Ida.
A voz de Ida Sand lembra um pouco a de Annie Lennox. The Gospel Song é um disco muito agradável. Está disponível na iTunes Store. Custa US$ 10.99.
Ouça A Change Is Gonna Come.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Veja Ida Sand “em ação” cantando If Not for You.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
O comum entre Aretha Franklin e Otis Redding
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| Otis era energia pura |
Uma canção, pelo menos, foi gravada antes por Aretha: Try a Little Tenderness. Ela é bem antiga: de 1932. Foi composta por Jimmy Campbell, Reg Connelly e Harry M. Woods e a primeira gravação foi pela orquestra de Ray Noble. Apesar de bela nas vozes de Mel Tormé, Frank Sinatra, Nina Simone e Aretha, a de Otis Redding, em 1966, virou o standard dela. A letra triste que falava de uma moça trajando um mesmo vestido velho e desgrenhado e que, se você a encontrasse tão cansada, “trate-a com carinho”, nunca foi tão dramática e dolorida como na voz de Redding.
A Change Is Gonna Come é do genial e precocemente falecido (foi assassinado em circunstâncias obscuras em um motel) Sam Cooke. Está no disco Ain't That Good News, de 1964, ano de sua morte. Dizem que Cooke a compôs em razão de um incidente ocorrido com ele e sua banda que, por tentarem se hospedar em um hotel que não aceitavam negros, foram presos sob a alegação de “perturbar a ordem”. Verdade ou não, essa canção causou um tremendo impacto e foi gravada por um mundareu.
Uma coincidência estranha acontece com as datas de morte de Cooke e Redding. O primeiro morreu em 10 de dezembro, e o segundo, no dia 11. A outra é a de que tiveram mortes estúpidas. O tribunal considerou como homicídio justificável (justified homicide), uma modalidade que consta nas leis americanas, o assassinato do cantor por parte da gerente do Motel Hacienda, uma “tipa” chamada Bertha Franklin. Redding morreu em acidente aéreo. Estava no auge do sucesso e excursionava com seu próprio avião. Disseram que quem o pilotava era Otis, e nessa ocasião, estava “cheiradão” de cocaína, mas isso parece mais a uma invenção mitológica. Outro ponto em comum: os dois nasceram no estado da Georgia.
A gravação de A Change Is Gonna Come (nos seus discos ficou sem o artigo inicial) é de 1965; a de Aretha é de 1967 e antecede um pouco a morte deste. A outra que ambos gravaram é Respect, de autoria de Redding. Foi registrada como single em setembro de 1965. A de Aretha está no mesmo disco em que gravou A Change Is Gonna Come – I Never Loved a Man the Way I Love You.
Na voz de Redding, a estrofe “I was born by the river in a little tent/ Oh, and like that river I've been running ever since/ It's been a long, long time coming/ But I know a change is gonna come/ Oh yes it is”, é tremendamente visceral, e seu “yes it is” é dramaticamente afirmativo. O de Franklin vai por um outro viés, lento também, é menos “denso” e mais “soul”. Embarcamos nas primeiras notas do piano e surfamos pelas firulas de um órgão eletrônico combinadas com a voz de Aretha.
Nunca surgiu voz tão marcante quanto a de Redding. Fundia aspereza, delicadeza e expressividade. Contribuiu em muito na marca de seu som uma seção de sopros irresistível, fundida à energia visceral desse intérprete. Era doce/amargo [Try a Little Tenderness], energie pura [Respect e (I Can Get No) Satisfaction], e evocativo [(Sittin’ on) The Dock of the Bay]. Otis Redding faz muita falta. Aretha continua por aí.
Otis Redding canta “A Change Is Gonna Come”.
A vez de Aretha.
A belíssima versão original com Sam Cooke.
Veja Otis em “Respect”.
Por Aretha.
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